Filha da guerra
23 21. A senhora Black • Renesmee Black
A atmosfera no meu quarto parecia pesada, densa demais para o ar entrar nos meus pulmões. Olhar para as caixas espalhadas pelo chão, destinadas a transportar minhas coisas para o quarto do Jacob, trazia uma sensação estranha. Em qualquer outro momento, a ideia de dar esse passo com o Jake me traria borboletas no estômago. Mas hoje? Hoje havia apenas um vazio gelado no meu peito.
Tudo o que eu sabia sobre a minha própria história fora despedaçado algumas horas atrás.
A porta do quarto rangeu suavemente. Nem precisei olhar para saber quem era; a presença majestosa e o aroma suave de violetas e baunilha eram inconfundíveis. Rosalie. A mulher que sempre segurou minha mão, que trançou meus cabelos, que me olhava como se eu fosse todo o seu universo.
Minha mãe. Ou assim eu pensava.
Ela caminhou até mim em silêncio, a passos tão leves que parecia flutuar. Seus olhos estavam opacos, marejados com uma dor velada que eu raramente tinha visto em sua perfeição de porcelana.
— Nessie... — a voz dela quase falhou, um sussurro frágil.
Eu não respondi. Continuei dobrando uma blusa de lã com uma atenção exagerada às dobras, tentando desesperadamente evitar seu olhar.
— Me deixa te ajudar — disse ela, aproximando-se da cama e pegando uma das minhas jaquetas para arrumar na mala. Seus dedos frios e perfeitos trabalhavam com agilidade, mas eu podia sentir a hesitação em cada movimento.
— Você não precisa fazer isso — murmurei, minha voz soando terrivelmente distante, até para mim mesma.
— Eu quero fazer isso. Eu sempre fiz isso, meu amor — ela disse, tentando manter o tom firme, mas a dor escapava por cada palavra. — Eu sei o que você está sentindo. Sei que o mundo parece ter saído do eixo para você hoje.
Parei o que estava fazendo e me virei para ela. Pela primeira vez desde que a verdade veio à tona, encarei Rosalie nos olhos.
— O mundo não saiu do eixo, Rose... Ele só se destruiu — desabafei, sinto a garganta arder. — Toda a minha vida foi construída sobre uma mentira. Como você pôde? Como vocês puderam me esconder que... que eu não sou sua filha?
Rosalie fechou os olhos por um segundo prolongado, como se a palavra mentira a tivesse atingido fisicamente. Quando os abriu, a vulnerabilidade em seu rosto era devastadora.
— Renesmee, escute o que eu vou te dizer e, por favor, grave cada palavra no seu coração — ela deu um passo em minha direção, mas congelou ao notar o meu recuo imperceptível. Ela engoliu em seco e continuou: — Eu nunca menti sobre o que sinto por você. Nunca. Você é a minha filha. Não existe nada neste mundo, nenhuma gota de sangue ou biologia, que mude isso.
— Mas biologia importa! — contestei, lágrimas quentes finalmente escapando e correndo pelo meu rosto. — Você deixou eu me olhar no espelho e procurar traços seus durante toda a minha vida. Você me deixou acreditar em uma fantasia!
— Não foi uma escolha minha esconder isso de você! — a voz de Rosalie se elevou por um segundo, carregada de uma mágoa antiga e profunda, antes de suavizar novamente. Ela respirou fundo, tentando controlar o tremor nas mãos. — Royce... Royce nunca permitiu que eu contasse. Ele colocou regras, impôs silêncios e... eu tive que ceder para proteger você. Para nos proteger.
O nome Royce pairou no ar como uma sombra escura.
— O Royce? — sussurrei, confusa e dividida entre a mágoa e a preocupação.
— Ele tinha o controle de tudo, Nessie. E a condição dele para mantermos a nossa família em paz era que a verdade nunca saísse daquela sala — Rosalie se aproximou, e desta vez eu não recuei. Ela estendeu a mão hesitante e, com a ponta dos dedos macios, enxugou uma lágrima da minha bochecha. — Eu odiei cada segundo desse segredo. Odiei cada dia em que precisei morder a língua. Mas eu faria tudo de novo, mil vezes, se isso garantisse que eu pudesse ter você nos meus braços.
Olhei para a mala aberta na cama, depois para a mulher à minha frente. A dor do engano ainda queimava como fogo no meu peito, mas a sinceridade nos olhos de Rose era inegável.
Rosalie pegou minhas duas mãos entre as suas, pressionando-as contra o próprio peito.
— Você está crescendo, meu amor. Ir para o quarto do Jacob é o seu futuro, mas o seu passado... o nosso passado, não é uma ilusão. O sangue não criou o amor que eu sinto por você. Eu te amei desde o primeiro instante em que te segurei. Eu te vi dar os primeiros passos, eu ouvi suas primeiras palavras. Você é minha filha, Renesmee. Em cada detalhe que importa, você é minha.
Ficamos ali, em silêncio, cercadas por caixas de papelão e roupas meio dobradas. A mágoa não desapareceu num piscar de olhos — a ferida era funda demais para fechar tão rápido —, mas, ao olhar para Rosalie, percebi que o amor que nos unia não era feito de genoma. Era feito de dor, de proteção e de anos de dedicação.
Sem dizer mais nada, dei um passo à frente e afundei minha cabeça em seu ombro. Rosalie me envolveu em um abraço protetor e apertado, o mesmo abraço que sempre me salvou de todos os pesadelos da minha infância. E enquanto ela afagava meus cabelos, entendi que, mesmo que o meu mundo tivesse mudado para sempre, ela ainda era o meu porto seguro.
•••
— Eu sei o quanto você está ferida com tudo o que descobriu hoje, e sei que o que aconteceu depois do tiroteio na mansão acelerou tudo de um jeito brutal — disse Rose, mantendo a voz suave, mas firme. — Mas esta noite... esta noite ainda é a sua noite de núpcias, Renesmee. E você precisa estar preparada.
Soltei uma gargalhada curta e amarga, cruzando os braços e encarando-a com o olhar faiscando.
— Noite de núpcias? Você só pode estar brincando , mãe . O Jacob me forçou a este casamento assim, em cima da hora, aproveitando o caos do tiroteio para me encurralar e trancar o controle sobre mim! Eu não pretendo me deitar com ele. Não vai ter noite de núpcias nenhuma.
Rosalie fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Quando os abriu, não havia desespero em seu rosto, mas a frieza calculista de quem conhecia bem como o poder funcionava.
— Baixe o tom e me escute com atenção, Renesmee — disse ela, a voz caindo para um tom perigosamente sério. — Afrontar o Jacob agora é a maior estupidez que você pode cometer. Ele é impulsivo, é possessivo e, depois do ataque à mansão, está faminto por controle. Se você cruzar os braços e declarar guerra aberta no quarto dele, você só vai se colocar em uma posição de fraqueza.
— Eu não vou me submeter a ele! — rebati, o peito subindo e descendo rápido.
— Ninguém está pedindo para você se submeter! — Rosalie disse segurando meus ombros com firmeza. Seus olhos cravaram-se nos meus. — Você não confronta um homem no terreno dele; você aprende a conduzi-lo. O Jacob é louco por você, o desejo que ele sente por você é a maior arma que você tem nas mãos. Se você souber usar isso, é você quem vai ter o controle da situação, não ele.
Pisquei, apanhada de surpresa pela frieza do raciocínio dela. Minha respiração continuava desregulada, mas continuei me esquivando do toque.
— Do que você está falando?
Rosalie puxou a fita da caixa e abriu a tampa, revelando um conjunto de lingerie em seda preta e renda trabalhada à mão. Era provocante, elegante e perigosamente audacioso.
— Estou falando de você não ser uma vítima defensiva — explicou Rose, pegando a peça delicada e mostrando para mim. — Eu sei que vocês já tiveram intimidade antes, mas hoje é diferente. O desejo cega os homens, Nessie. Quando um homem acha que está te conquistando na cama, ele se entrega por inteiro. Se você souber usar o corpo, a atração e a cabeça, você faz o Jacob comer na sua mão sem que ele sequer perceba.
Mantive a guarda alta, mas encarei o tecido escuro nas mãos dela. A raiva ainda queimava no meu peito, mas a lógica de Rosalie encontrou um eco sombrio na minha mente.
— Você quer que eu use o desejo dele contra ele mesmo? — perguntei, a voz diminuindo, mas mantendo a aspereza.
— Eu quero que você sobreviva e domine o jogo — corrigiu Rosalie, ajeitando a lingerie de volta na caixa e empurrando-a para mim. — Não dê a ele o gostinho da sua pirraça ou da sua recusa histérica. Seja inteligente. Dê a ele a ilusão de que ele venceu, e use a intimidade desta noite para dobrar a vontade dele a sua. Faça-o refém do próprio desejo por você.
Olhei da caixa para os olhos de Rosalie. A dor da traição sobre a minha origem ainda sangrava, mas a urgência de não ser pisoteada por Jacob era maior.
Peguei a caixa de madeira das mãos dela, o rosto duro como pedra.
— Eu não estou fazendo isso por ele — murmurei, apertando a caixa contra o peito.
— Eu sei, meu amor — Rosalie esboçou um sorriso sutil e afiado, dando um passo para trás. — Você está fazendo isso por você. Agora termine de arrumar o resto. O seu marido está te esperando.
— 23:45
A seda fluida do robe preto roçava suavemente contra as minhas pernas a cada passo que eu dava pelo corredor silencioso. Por baixo do tecido escuro, a lingerie presenteada por Rosalie se ajustava como uma armadura invisível — provocante, calculada e perigosa. Minha mente ainda assimilava o impacto de descobrir que eu não era filha biológica de Rose, mas a dor fora empurrada para um canto frio e trancado.
Parei diante da porta de madeira pesada. As vozes do lado de dentro vinham abafadas, o tom sério e corporativo cortando o silêncio da noite. Girei a maçaneta sem bater e empurrei a porta devagar.
O quarto estava à meia-luz, aquecido pelo fogo baixo da lareira. Jacob estava em pé perto da mesa de centro, com a camisa escura levemente desabotoada no colarinho. Ao lado dele, braços cruzados e expressão concentrada, estava sua irmã mais velha, Rebecca. Os dois discutiam os últimos detalhes da reorganização e da nova dinâmica da casa após o ataque.
O clique da porta fez ambos se calarem instantaneamente.
Quando passei pelo umbral, o olhar de Jacob cravou-se em mim. Pude ver o momento exato em que a atenção dele se desligou completamente da conversa com a irmã. Os olhos escuros de Jacob desceram devagar, analisando-me metodicamente dos pés à cabeça — demorando-se nas minhas pernas entreabertas pelo fenda do robe, na marcação da cintura e no modo como o tecido preto contrastava com a minha pele.
Um sorriso lento, carregado de uma malícia quente e vitoriosa, surgiu no canto dos lábios dele.
— Falamos sobre o resto depois, Rebecca — disse ele, sem desviar os olhos de mim por um único segundo. A voz dele caiu uma oitava, grave e impregnada de pretensão.
Rebecca olhou de Jacob para mim, erguendo uma sobrancelha ao notar a minha presença e o modo como o irmão parecia hipnotizado. Ela assentiu em silêncio, recolhendo um pasta de documentos sobre a mesa.
— Certo. Amanhã cedo alinho os horários com a equipe de segurança — disse ela, caminhando em direção à saída.
— Aproveita e avisa a governanta e o restante dos empregados — completou Jacob, a voz firme e imperativa, mas o olhar ainda fixo no meu corpo. — A partir de amanhã, todas as ordens na casa passam a vir diretamente da minha esposa. O que a Renesmee falar é lei aqui dentro.
Rebecca parou por um instante, surpresa com o tom categórico de Jacob, mas apenas deu um aceno discreto para mim antes de passar pela porta e fechá-la, deixando-nos completamente a sós.
O silêncio no quarto virou uma tempestade contida. O estalar da madeira na lareira parecia o único som viável enquanto Jacob dava um passo lento na minha direção, o sorriso malicioso ainda brincando em seus lábios, convencido de que havia me dobrado ao seu domínio.
Apertei a faixa do robe com os dedos, mantive a postura impecável e sustentei o olhar dele sem piscar. A guerra pela minha liberdade estava apenas começando, e a primeira batalha seria travada exatamente naquela cama.
O silêncio que se seguiu à saída de Rebecca era espesso, cortado apenas pelo crepitar suave da lareira. Jacob deu mais dois passos lentos, o sorriso malicioso diminuindo gradativamente à medida que ele absorvia a minha postura. Ele esperava ver hesitação, choro ou quem sabe o impulso de dar meia-volta e trancar a porta. Mas eu permaneci imóvel, sustentando o olhar dele com uma frieza inabalável.
Ele parou a um passo de mim. O calor que emanava do seu corpo era um contraste brutal com a gélida armadura que eu havia erguido no meu peito.
— Como você está? — a voz dele perdeu a aspereza imperativa de momentos atrás, surgindo rouca, quase hesitante. — O tiroteio... a confusão toda com a casa. Eu não tive tempo de perguntar como você se sentia de verdade.
— Eu estou aqui, não estou? — respondi, com a voz suave, aveludada, mas totalmente desprovida de calor.
Jacob ergueu a mão lentamente, o polegar roçando com hesitação a linha da minha mandíbula. Eu não recuei. Não dei um passo para trás e nem desviei o rosto. Mantive-me firme, encarando-o de frente, mas o silêncio da minha pele — a ausência de qualquer arrepio ou resposta ao toque dele — falou mais alto do que qualquer esquiva. Ele percebeu no mesmo instante. A minha entrega não era desejo; era uma presença calculada.
O olhar de Jacob escureceu, caindo para os meus lábios e depois voltando para os meus olhos, sentindo o abismo que nos separava apesar da proximidade física.
Devagar, ele levou as mãos à cintura. Com movimentos calmos, tirou o holster de couro que carregava sob a camisa. Retirou a pistola, travou-a e a colocou sobre a mesa lateral, seguida por uma lâmina tática que mantinha oculta. Ele estava se despindo de todas as suas defesas, de todas as suas armas diante de mim.
Então, Jacob fez algo que fez meu coração dar um salto involuntário no peito.
O homem implacável que havia assumido o controle da casa, que havia ditado ordens a todos e forçado um casamento em meio ao caos do sangue ainda fresco na mansão, dobrou os joelhos. Ele se ajoelhou no chão de madeira, aos meus pés, olhando para cima para me encarar.
— Me desculpa — ele disse, e a vulnerabilidade crua na sua voz parecia rasgar o ar do quarto. — Me desculpa pela forma como agi hoje. Pela brutalidade, por ter atropelado tudo e te arrastado para esse casamento no meio do caos. O tiroteio... ver a possibilidade de te perder me enlouqueceu, Nessie. Eu passei o dia inteiro agindo como um animal encurralado, querendo remarcar limites e erguer muros para garantir que nada nem ninguém te tirasse de mim. Mas eu sei que fui um monstro com você.
Ele encostou a testa contra os meus joelhos cobertos pela seda preta do robe, soltando uma respiração pesada.
— Você pode me odiar por hoje, pode me punir o quanto quiser — murmurou ele, a voz abafada contra o tecido. — Mas nunca se esqueça de uma coisa... Não existe mais ninguém neste mundo, em qualquer lugar da terra, que tenha o poder de me fazer ficar ajoelhado assim.
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