Filha da guerra

18 17. O ataque • Jacob Black



Deitei a minha garota na minha cama e me acomodei por cima dela.

Para mim, o mundo lá fora sempre foi uma grande pilha de lixo: sangue, dívida, tiro e negociação no escuro. Fui criado no meio da sujeira das ruas de Seattle, aprendendo na porrada a tomar o que é meu por direito. Linguagem bonitinha e frescura nunca serviram para porra nenhuma no meu meio. Mas ter a Renesmee ali, deitada no meu lençol, vestindo nada além daquele tecido branco e cheirando a sabonete doce, era um contraste desgraçado com a minha realidade.

Ela é macia demais. Pura demais. Uma mulher que parecia esculpida para ser mantida num pedestal, mas que o destino — e a minha ganância — acabou jogando na minha cama.

Ajustei meu peso entre as pernas dela, mantendo meu peito largo colado ao dela, sentindo o coração da garota bater feito um passarinho assustado. O papo de "sonho" que ela soltou na porta não colou nem por um segundo. Eu não sou idiota. Trabalho farejando mentira e medo no rosto dos outros desde que me entendo por gente.

Renesmee estava tentando disfarçar, fingindo que estava ali apenas porque me queria, mas o corpo dela me entregava a verdade.

Ela arranhou as unhas nas minhas costas, me puxando para mais perto, tentando beijar a minha boca com uma pressa que ela nunca teve antes. Ela estava por cima de mim, tentando dominar a situação, mas o olhar castanho dela vacilava a cada dois segundos. Estava distante. Assustada. Havia uma tensão estranha na musculatura do quadril dela, um sobressalto involuntário toda vez que o meu peso se acomodava com mais força.

— Olha para mim, morena — ordenei, a voz vindo funda, grossa, rosnada bem contra o rosto dela, interrompendo a boca afobada que ela jogava na minha.

Segurei o queixo dela com os dedos de aço, apertando com a firmeza de quem não aceita desvio de conduta. Renesmee travou, a respiração saindo entrecortada pela boca entreaberta.

— O que foi, caralho? — soltei, a crueza do meu vocabulário saindo no automático, do jeito duro que eu falo no cais ou no galpão. — Você tá em cima do meu pau, dizendo que quer ser minha mulher, mas tá tremendo feito folha seca. A sua cabeça tá em outro lugar, Nessie. Quem te assustou?

— Ninguém, Jacob... eu já disse... — mentiu ela, gaguejando, os olhos marejando no mesmo instante.

— Não mente para a porra do seu homem — cortei de primeira, apertando a cintura dela até os meus dedos cravarem na carne macia do seu quadril. — Eu conheço o cheiro de medo a um quilômetro de distância. Você ta parecendo que encarou o diabo no corredor.

Ela engoliu em seco, tentando esconder o rosto no meu pescoço, mas puxei o cabelo dela pela nuca com uma força calculada, obrigando-a a encarar o meu semblante.

— Presta bem atenção no que vou te mandar, garota — continuei, a voz ríspida, perigosa e carregada do meu sotaque das ruas. — Se algum infeliz colocou as mãos em você, se algum desgraçado nesta casa abriu a boca para te ameaçar ou te dar um susto enquanto eu estava fora... você me fala agora. Eu desço do jeito que estou e estouro os miolos do filho da puta no meio da sala, não me importa quem seja.

Renesmee arregalou os olhos, o terror de ver uma morte estampado no rosto.

— Não foi nada, eu juro! — soluçou ela, colando a boca na minha, desesperada para me calar, apertando meus ombros com toda a força que tinha. — Fica comigo, Jake... por favor. Só me faz sua mulher de novo. Me faz esquecer tudo

Senti o meu membro enrijecer ainda mais contra a calcinha fina dela. A combinação daquele medo implícito com o desespero dela de se entregar a mim para se proteger era uma droga pesada. Eu sabia que ela estava me escondendo algo, algo que colocaria a fortaleza de cabeça para baixo.

Mas ver a minha garota implorar pelo meu corpo daquele jeito, usando a única arma que tinha para me segurar ali na cama, fez o meu sangue ferver

— Você quer esquecer? — rosnei contra os lábios dela, a mão descendo rasgando pela seda do baby doll, rasgando o tecido fino sem a menor delicadeza. — Então tá. Mas amanhecendo o dia, a gente vai ter uma conversa muito séria sobre quem manda nesta porra toda.


— 05h15min


O som estalado de disparos automáticos cortou o silêncio do amanhecer como uma rajada de trovões. Em uma fração de segundo, o impacto bruto de projéteis atravessando a madeira pesada da porta e os vidros da varanda se estilhaçando espalhou cacos e poeira por todo o quarto principal.

O caos se instalou instantaneamente.

Renesmee despertou com um grito agudo de puro pavor, o corpo paralisado sob o lençol. O pânico a sufocou ao se ver completamente nua no meio daquela tempestade de chumbo, fumaça e estilhaços.

Antes que ela pudesse sequer se encolher, meu corpo cobriu o dela como um escudo de carne e osso. O meu peso a prensou contra o colchão, com meus braços largos e minhas costas servindo de barreira para qualquer estilhaço ou bala perdida que cruzasse o ar do quarto.

— Fica embaixo de mim! Não se mexe, porra! — urrei contra a orelha dela, a voz rasgada e carregada de fúria, sentindo o corpo macio dela tremer descontroladamente sob o meu.

Eu estava completamente nu, a pele arrepiada pelo frio da manhã e pela descarga brutal de adrenalina que queimou o meu sangue no mesmo segundo. O som das explosões no andar de baixo e o eco de gritos e rajadas de tiro nos corredores indicavam uma invasão coordenada. Uma porra de um ataque direto no coração da minha fortaleza.

Com o braço esquerdo mantendo Renesmee cravada contra o colchão, estiquei o corpo no limite para a lateral da cama. Meus dedos tocaram a madeira da mesa de cabeceira. Puxei a gaveta com violência e empunhei a minha Glock , destravando a arma com um estalo seco e automático.

A porta do quarto foi arrombada com um coice brutal.

Renesmee soltou outro grito, escondendo o rosto no meu peito. Apontei o cano da pistola na direção da entrada em um reflexo de fração de segundo, pronto para estourar a cabeça de quem estivesse do outro lado.

— Capo! Sou eu! Sou o Sam! — gritou a voz alterada do meu novo subchefe, que invadiu o recinto com a submetralhadora em riste, seguido por Paul e Embry, todos vestindo coletes e com os rostos sujos de fuligem.

— Que porra tá acontecendo lá embaixo?! — esbravejei, sem sair de cima de Renesmee, usando meu tronco para cobrir a nudez da minha mulher diante dos meus homens.

— Os Volturi! Aqueles desgraçados derrubaram o portão principal, furaram a nossa primeira linha e invadiram a casa! — berrou Sam, o som de rajadas no corredor quase abafando sua voz. — O velho Billy tá no bunker seguro com a guarda, mas a casa tá virando um inferno! Precisamos tirar o senhor e a Renesmee daqui agora!

— Cadê a Rosalie?! Cadê a minha mãe?! — soltou Renesmee em um pranto desesperado, tentando erguer o rosto do meu peitoral, o terror estampado nos seus olhos

— A sua mãe tá segura no bunker com o meu pai, morena, assim como as minhas irmãs! — garanti contra o rosto dela, segurando sua nuca com firmeza para mantê-la abaixada. Virando o rosto para Sam, ordenei num rosnado brutal: — Pega a porra de um sobretudo ou uma coberta para a minha mulher! Agora!

Embry avançou rapidamente, puxando um cobertor pesado do armário e jogando sobre a cama. Sem sair da frente da linha de tiro, envolvi o corpo nu de Renesmee no tecido, puxando-a para junto de mim enquanto me erguia, ignorando o fato de estar apenas nu, descalço e de peito aberto. A única coisa que vesti foi uma calça de moletom.

— Vocês dois, deem cobertura na porta! — comandei para Paul e Embry, cravando os olhos em Sam. — Nós vamos abrir caminho até o nível inferior. Se algum homem de Aro botar os pés neste corredor, não deixem um único fôlego inteiro.

Puxei Renesmee pela cintura com o armamento engatilhado na outra mão. A mansão dos Black havia virado um campo de batalha contra o maior clã rival, mas enquanto eu estivesse respirando, nenhum daqueles desgraçados tocaria na minha noiva.

Uma explosão sacudiu a estrutura de pedra do corredor principal. O teto de gesso rachou, despejando uma chuva de poeira e poeira sobre nós. O cheiro de pólvora queimada era tão denso que travava no fundo da garganta.

— O caminho para o bunker tá bloqueado, Capo! — berrou Paul, descarregando uma rajada da sua submetralhadora dobrando a esquina do corredor. — Os caras do Aro detonaram as escadas de emergência! Não tem como chegar no nível inferior sem cruzar a linha de fogo do pátio!

Soltei um rosnado brutal. A rota de fuga até o bunker seguro onde meu pai e Rosalie estavam acabara de ir para o inferno. Não havia margem para erros ou hesitação.

Girei de volta para o quarto, empurrando Renesmee para o canto mais protegido entre a parede e a cabeceira de madeira maciça.

— Esquece o bunker! — ordenei para Sam, a voz ríspida ecoando por cima do som ensurdecedor dos tiros. — O plano mudou. A prioridade máxima nesta porra de casa é a vida da Renesmee. Se ela levar um arranhão, eu mesmo arranco a cabeça de cada um de vocês! Entenderam?!

— Entendido, chefe! — responderam Sam e Embry em coro, reposicionando-se em formação de triângulo na porta do quarto.

Voltei os olhos para a minha garota. Renesmee estava pálida como um cadáver, trêmula sob o cobertor, os olhos castanhos arregalados de puro terror enquanto os estilhaços de vidro e madeira voavam ao nosso redor.

Abri o closet com um chute violento. Puxei a primeira camisa preta que vi pela frente e uma jaqueta de couro pesada.

— Vista isso. Agora! — ordenei, jogando a camisa sobre ela.

Renesmee não congelou. Movida pelo desespero e pela descarga pura de sobrevivência, ela soltou o cobertor e vestiu a camisa preta a um ritmo insano. O tecido grande demais cobria até a metade das suas coxas. Abotoou os botões tortos com as mãos trêmulas enquanto eu calçava minhas botas de combate e afivelava o coldre duplo no peito.

Puxei-a pelo braço com firmeza, cobrindo o corpo dela com a jaqueta de couro e colando-a contra o meu flanco esquerdo.

— Não sai do meu lado por nada neste mundo — rosnei, perto da orelha dela, enquanto destravava a segunda arma.

Saímos do quarto em marcha rápida. Paul ia na frente, abrindo caminho com fogo pesado; Sam vinha logo atrás cobrindo as laterais; Embry fechava a retaguarda com a doze em riste. Eu mantinha meu braço esquerdo cravado na cintura de Renesmee, prensando-a contra o meu corpo enquanto usava a mão direita para disparar precisos tiros na cabeça dos homens de terno escuro que tentavam avançar pela escadaria.

O corredor virara um matadouro.

Três invasores dos Volturi dobraram o corredor principal metralhando a parede. O barulho dos projéteis ricocheteando no piso de mármore e rasgando a alvenaria era aterrorizante. Renesmee soltou um grito, escondendo o rosto na minha costela.

— Protejam a noiva! — urrou Sam, jogando o próprio corpo na frente de uma rajada para criar uma barreira humana entre as balas e Renesmee.

Um projétil raspou o ombro de Sam, mas o homem nem piscou; descarregou o pente inteiro no peito do primeiro invasor, fazendo o sujeito voar para trás e colidir contra a balaustrada de madeira, despencando para o salão principal num baque surdo.

Embry deu dois passos à frente, operando a ação. Os estampidos da doze ecoavam como bombas no espaço fechado. O impacto dos cartuchos rasgava a carne dos homens de Aro, sujando as paredes de papel de parede luxuoso com jorros de sangue e miolos.

Um dos atiradores sobreviventes conseguiu alinhar a mira direto na cabeça de Renesmee.

A adrenalina queimou minhas veias. Em uma fração de segundo, girei o corpo, posicionando minhas costas na linha de tiro para servir de escudo humano. Senti o impacto ardente de um projétil rasgar a carne do meu ombro direito, mas nem balancei. Antes que o infeliz pudesse puxar o gatilho novamente, ergui minha Glock e descarreguei três tiros no meio da cara dele. O homem tombou morto no ato, a cabeça estourada contra o mármore.

— Jake! Você tá sangrando! — gritou Renesmee em pranto, sentindo o sangue quente escorrer pelo meu braço e sujar a camisa preta que ela vestia.

— Eu tô vivo, porra! Continua andando! — rosnei, sem diminuir o ritmo dos passos, empurrando a coluna de segurança em direção à saída dos fundos da mansão.

Paul trocou o carregador da arma com velocidade, chutando a porta de serviço que dava acesso ao pátio dos veículos blindados.

— Caminho limpo até o SUV blindado! — gritou Paul, limpando o sangue do próprio rosto. — Mas temos que ir agora! Eles tão cercando a garagem!

Apertei os dedos com mais força na cintura de Renesmee, sentindo a respiração afobada dela contra mim. A mansão dos Black estava em chamas e tomada pelo sangue do maior confronto da década, mas enquanto houvesse munição nos meus pentes e ar no meu peito, nenhum daqueles desgraçados tiraria a minha mulher de mim.

O motor V8 do SUV urrava enquanto Paul espremia o acelerador ao limite, cortando a névoa úmida das estradas secundárias de Seattle. Atrás de nós, as luzes em chamas da mansão dos Black iam sumindo no retrovisor, deixando para trás o som distante das sirenes e o cheiro sufocante de fumaça e sangue.

No banco traseiro, a iluminação fraca do painel cortava a penumbra.

Renesmee estava encolhida contra o meu peitoral, abraçando os próprios joelhos. A minha camisa preta que ela vestia estava manchada do meu próprio sangue, que ainda pingava do rasgão no meu ombro direito. Ela chorava de forma convulsiva, o peito subindo e descendo em soluços dolorosos, as mãos trêmulas tentando segurar a minha jaqueta de couro.

— O que foi isso, Jacob?! — soltou ela em um grito abafado pelo choro, os olhos castanhos transbordando um terror absoluto. — Meu Deus... o que foi aquilo na casa?! Quem eram aqueles homens?! Eles queriam matar você?! A minha mãe... o seu pai...

Apertei a minha Glock contra o banco e olhei para ela. O ar dentro do carro estava impregnado de pólvora e da raiva cega que queimava no meu peito. Os meus olhos negros, injetados de sangue e ódio puro, cravaram-se nos dela.

— Eles não vieram por mim, Nessie — a minha voz saiu funda, rasgada, num tom gélido que fez ela congelar no mesmo instante. — Aqueles desgraçados não deram a mínima para mim ou para o meu pai. Os que sobreviveram vão vir atrás de nós agora.

Renesmee piscou devagar, a respiração travando na garganta, sem entender o peso das minhas palavras.

— Como... como assim? — murmurou ela em um fio de voz, o suor frio escorrendo pela sua testa. — Do que você tá falando?

— Os Volturi vieram por você — ordenei a verdade crua, sem o menor filtro, encarando a garota que eu protegera com a minha própria vida minutos atrás. — Aro mandou a elite do clã dele para invadir a minha fortaleza com uma única ordem: estourar a sua cabeça antes do pôr do sol.

— M-matar a mim?! — gaguejou ela, desorientada, balançando a cabeça em negação desmedida. — Por quê?! Eu não fiz nada!

Apertei a mandíbula com tanta força que os ossos do meu rosto estalaram. Ver a inocência dela desmoronar no meio daquela carnificina só alimentava o veneno que corria nas minhas veias. A farsa da família King e o segredo que sustentava o meu acordo futuro com o clã dela não podiam mais ser escondidos sob o teto da minha casa.

Inclinei-me sobre ela, reduzindo a distância até o meu hálito quente e o cheiro de metal queimado tocarem o rosto dela.

— Porque você não é só a filha da Rosalie, garota — soltei, cada palavra caindo como uma lâmina afiada no silêncio do carro.

— Jacob... você tá me assustando... — chorou ela, encolhendo-se contra a porta do SUV, encarando o homem sombrio e violento que a segurava.

— Tô te levando agora mesmo para o único lugar onde você vai ter que encarar a verdade. Eu vou entregar você para o seu pai, Renesmee. Para o seu verdadeiro pai. Chegou a hora.