Filha da guerra
10 09. O presente • Jacob Black
18 de Setembro de 2000 — 16:00
Mansão da Família Black | Zona Sul de Seattle, Washington
O comboio de três SUVs pretos blindados cruzou o portão principal da propriedade sob uma chuva fina, o som dos pneus estalando no cascalho molhado.
Eu estava parado na varanda coberta, vestindo uma camisa preta ajustada sobre os curativos das minhas costas. A dor ainda repuxava a pele, mas a postura continuava ereta. Ao meu lado, em um vestido simples e elegante, Renesmee observava a movimentação no pátio com os olhos atentos. Depois do nosso momento no quarto, um ar de tensão velada e atração não dita pairava entre nós.
— A cavalaria chegou — comentei, a voz calma, sem tirar os olhos dos veículos que estacionavam em fila.
— Quantos eles são? — perguntou Renesmee, ajustando o casaco nos ombros.
— Minha família quase inteira — respondi. — Minhas irmãs mais velhas estavam fora da cidade há três meses resolvendo alianças. A dinâmica aqui dentro vai mudar a partir de hoje.
A porta do primeiro carro abriu-se, e Sam Uley saltou sob a chuva, abrindo um guarda-chuva preto e estendendo a mão para a esposa.
Emily Black — agora Emily Uley — tinha trinta e sete anos, dez a mais do que eu. Filha do primeiro casamento do meu pai, ela carregava a compostura elegante e acolhedora da falecida mãe dela. Ela sorriu ao ver a casa, ajeitando a gola do sobretudo enquanto Sam a mantinha protegida. Sam era o braço direito da nossa linha de frente, um homem bruto, leal até os ossos e braço forte do clã.
Do segundo SUV, saiu Rebecca, a primogênita do meu pai, também do primeiro matrimônio. Aos quarenta e sete anos, vinte a mais do que eu, Rebecca tinha um olhar afiado e uma presença imponente que impunha respeito imediato em qualquer salão da máfia. Ela desceu acompanhada pelo marido, Solomon, um homem sério, de poucas palavras, estrategista e veterano dos negócios da família.
Logo atrás de Solomon, saltou Jared, o filho do casal. Aos dezoito anos, da mesma idade de Renesmee, Jared tinha aquele ar provocador de quem crescera no meio da máfia, ajustando a jaqueta de couro e varrendo o pátio até travar os olhos na minha noiva.
Por fim, do terceiro carro, desceu a mulher que articulava o futuro político dos Black: Rachel.
Aos vinte e nove anos, dois a mais do que os meus vinte e sete, Rachel era a minha irmã direta, do segundo casamento do meu pai, assim como eu e a Claire. Trajando um terno feminino impecável de alfaiataria azul-marinho, cabelo alinhado e pasta de couro na mão, ela exalava a ambição refinada de quem ia usar o meu casamento para lavar a sujeira do nosso dinheiro nas esferas de poder da cidade.
— Jake! — chamou Claire, a caçula , saindo pela porta do salão e correndo pela varanda. — Finalmente! A casa tava um tédio com você resmungando e sangrando pelos cantos!
As portas se fecharam e o grupo subiu os degraus da varanda, fugindo do frio de Seattle.
— Olá, irmãozinho — disse Rebecca, aproximando-se primeiro. A primogênita me avaliou de cima a baixo com um olhar clínico e protetor, antes de me dar um abraço firme, tomando cuidado com as minhas costas. — Soubemos do espetáculo que o pai deu com você no subsolo. Você continua um teimoso.
— Nada que eu não pudesse aguentar, Rebecca — respondi com um sorriso fraco, cumprimentando Solomon com um aperto de mão firme.
Emily se aproximou em seguida, dando-me um beijo carinhoso na bochecha, enquanto Sam acenava com a cabeça em sinal de respeito ao seu chefe.
— A casa está viva de novo — sorriu Emily, a voz suave, antes de virar o rosto e travar o olhar em Renesmee.
O silêncio caiu por alguns segundos na varanda. Todas as atenções do clã voltaram-se para a garota parada ao meu lado.
Rachel deu dois passos à frente, o salto alto estalando no piso. Ela mediu Renesmee com uma precisão cirúrgica, avaliando a postura, o rosto e a elegância natural daquela garota que era a peça central do seu plano político.
— Então esta é a herdeira dos King... — declarou Rachel, a voz aveludada e articulada, estendendo a mão para Renesmee com um sorriso diplomático, mas calculado. — Ou devo dizer, a futura senhora Black? Sou Rachel. É um prazer finalmente conhecê-la, Renesmee.
Renesmee não vacilou. Segurou a mão de Rachel com um aperto firme e retribuiu o olhar sem piscar.
— O prazer é meu, Rachel — respondeu Renesmee, mantendo a voz calma e controlada.
— Ela é linda, Jake — elogiou Emily, sorrindo genuinamente. — E parece ter a firmeza que esta casa precisa.
— Bonita e com o nome perfeito para a nossa campanha — pontuou Rachel, soltando a mão de Renesmee e ajeitando a pasta. — A imprensa de Seattle vai adorar a narrativa do casamento.
Enquanto as mulheres conversavam, notei Jared dar um passo à frente. O garoto encostou-se no batente da porta, cruzando os braços e direcionando a Renesmee um olhar descarado de admiração e curiosidade.
— Pelo visto, a vida na fortaleza ficou bem mais interessante enquanto a gente tava fora, tio — provocou Jared com um sorriso de canto, encarando Renesmee, da sua mesma faixa etária. — Não sabia que as prisioneiras dos King vinham com esse nível de beleza
Passei a mão esquerda pela cintura de Renesmee, puxando-a suavemente para perto do meu corpo e encarei o meu sobrinho com um olhar gélido que fez o sorriso irônico do garoto murchar no mesmo segundo.
— Cuidado com onde você coloca os olhos, Jared — avisei, a voz descendo para um tom grave, rouco e perigosamente calmo. — Essa “prisioneira” é a sua futura tia e a minha mulher.
Jared ergueu as mãos em um gesto rápido de rendição, dando um passo para trás, enquanto Sam e Solomon soltavam risadas abafadas.
— Chega de conversa no frio — cortou Rebecca, assumindo a liderança como a mais velha da casa. — O pai já está nos esperando no escritório principal. Temos muito papelada para alinhar antes do jantar.
As três irmãs, acompanhadas pelos maridos e por Jared, começaram a entrar na grande fortaleza. Fiquei por último com Renesmee na varanda. Senti o corpo dela tenso sob a minha mão, ainda assimilando a chegada do resto da família mais poderosa da Zona Sul.
— Bem-vinda ao clã completo — murmurei perto do ouvido dela, sentindo o calor da pele do pescoço dela. — Agora que elas chegaram, os preparativos para o nosso casamento vão andar na velocidade da luz.
19:30
O salão principal estava em polvorosa. O cheiro de assados caros, o tilintar de taças de cristal e o falatório incessante preenchiam o ambiente com uma energia que há semanas não se via naquela casa.
Eu estava de pé perto da lareira, recostado na pedra fria, com um copo de uísque na mão. Minhas costas ainda repuxavam sob a camisa preta, mas a dor física não era nada comparada à dor de cabeça que começava a despontar. Rebecca, Emily e Rachel pareciam disputar quem falava mais alto. Debatiam desde os detalhes do buffet do casamento até a lista de convidados da alta sociedade de Seattle, passando pelas estratégias de imprensa que Rachel já contratara para cobrir o evento.
— Jake, você precisa prestar atenção! — disse Rachel, aproximando-se com uma prancheta de couro e gesticulando com a caneta. — O altar vai ser em tom marfim e precisamos alinhar o terno do noivo com a alfaiataria italiana. A imagem da família no jornal de domingo tem que ser impecável!
— Façam o que quiserem com as flores e o terno, Rachel — rosnai baixo, virando metade da dose de uísque e encarando minha irmã com um olhar gélido. — Só não me amolem com detalhes de cor de guardanapo.
Travei a mandíbula, girando os olhos pelo salão em busca de um alívio. E foi aí que meu olhar travou do outro lado da sala.
Renesmee estava sentada no sofá grande de veludo, cercada por Emily e Rebecca. Para a minha absoluta surpresa, a postura gélida e defensiva que ela mantivera desde que pisara nesta casa havia desaparecido por completo. Ela sorria. Um sorriso verdadeiro, claro, que iluminava todo o seu rosto e fazia seus olhos escuros brilharem à luz dos lustres. Emily contava uma história engraçada sobre a infância de Jared, e até Rosalie, sentada ao lado da filha com uma xícara de chá nas mãos, soltava risadas leves, parecendo finalmente relaxada, protegida e em paz.
Fiquei estático por alguns segundos, observando a cena. Ver Renesmee rindo, tão viva e integrada às minhas irmãs, provocou um aperto estranho no meu peito. Ela era bonita de qualquer jeito, mas sorrindo... era avassaladora.
— Tá olhando o quê com essa cara de bobo, Chefe? — provocou Quil, surgindo ao meu lado e me dando uma cotovelada discreta. — Nunca viu a sua morena rir não?
— Cala a boca, Quil — avisei sem tirar os olhos dela.
Antes que meu subordinado pudesse continuar com a zoação, o som de passos apressados e pesados ecoou vindo do hall de entrada. Paul passou pela porta do salão com o rosto fechado e a mão discretamente apoiada no coldre sob a jaqueta. Ele ignorou o falatório das mulheres e veio direto na minha direção e na de Billy, que acompanhava tudo da sua cadeira de rodas perto da mesa de centro.
— Jake... temos um problema no portão principal — disse Paul em um tom baixo, mas urgente o suficiente para fazer o silêncio começar a se alastrar pelas mesas próximas.
Ajeitei o corpo, afastando-me da lareira.
— O que aconteceu, Paul?
— É o Royce King — revelou o segurança, soltando uma respiração pesada. — Ele chegou em uma caminhonete caindo aos pedaços, visivelmente alterado. Tá dando um show na frente das câmeras de segurança, gritando que não vai embora sem ver a esposa a todo custo. Disse que a Rosalie é propriedade dele e que os Black não têm o direito de manter a mulher dele “sequestrada”.
No mesmo segundo, o riso no sofá morreu.
Rosalie congelou com a xícara de chá na mão, o rosto perdendo a pouca cor que tinha e ficando pálido como um lençol. A xícara tremeu tanto em seus dedos que o líquido derramou sobre o pires. Renesmee levantou-se no mesmo instante, o sorriso desaparecendo para dar lugar à fúria e ao pavor instintivo de ver a mãe ameaçada novamente.
— Aquele miserável... — rosnou Renesmee, a voz trêmula de raiva, dando dois passos na minha direção. — Ele não tem o direito de pisar aqui! Você prometeu, Jacob! Prometeu que ele nunca mais chegaria perto da minha mãe!
O salão VIP inteiro ficou em absoluto silêncio. Billy trancou a mandíbula, os olhos do velho Capo faiscando uma crueldade gélida.
Terminei o resto do meu uísque em um único gole seco, colocando o copo sobre a mesa com um estalo firme que ressoou pelo ambiente. Ajeitei os punhos da minha camisa preta, sentindo o peso familiar da pistola no peito e o sangue ferver nas minhas veias.
— Ele não vai chegar perto de ninguém — declarei, a voz descendo para um tom grave, mortal e pausado que fez até mesmo as minhas irmãs darem um passo para trás.
Olhei diretamente para Renesmee, vendo o pavor nos olhos dela, e em seguida inclinei a cabeça em direção a Sam, Quil e Embry, que já se posicionavam atrás de mim.
— Paul, mande abrir os portões — ordenei, um sorriso sombrio e perigoso surgindo nos meus lábios. — Vamos dar as boas-vindas ao meu futuro sogro.
O ruído pesado das portas duplas de carvalho se abrindo ecoou pelo hall de entrada como um trovão.
Royce King não estava trôpego ou desorientado. Ele entrou a passos largos, e a alteração em seu rosto vinha de uma fúria descontrolada e do orgulho ferido de um homem que sentia o próprio império ruir. Os olhos injetados de sangue varreram o salão até encontrarem Rosalie, que permanecia paralisada no sofá, encolhida sob a proteção de Emily e Rebecca.
— Rosalie! — gritou Royce, a voz rouca ressoando pelas paredes de pedra. Ele deu dois passos em direção ao salão, ignorando os guardas armados nas sombras. — Junte as suas coisas agora! Você é minha esposa, porra! Não vai ficar sob o teto desses índios imundos nem mais um minuto!
Antes que Sam ou Paul pudessem mover um dedo, um rastro escuro cortou o salão.
Renesmee posicionou-se exatamente entre o sofá e o pai, a menos de dois metros de Royce. O queixo erguido, os ombros tensos e o peito subindo e descendo em arfadas rápidas.
— Não dê mais um passo, Royce! — disparou ela, a voz vibrando com um ódio tão puro e concentrado que fez até mesmo as minhas irmãs prenderem a respiração. — Você nunca mais vai colocar as suas mãos imundas na minha mãe! Ela não vai a lugar nenhum com você!
— Cale a boca, sua garota mimada! — esbravejou Royce, a mandíbula travada. — Eu paguei por cada centavo da vida de vocês! Você não é nada sem mim! A sua mãe me pertence por lei e...
— A única coisa que a minha mãe deve a você é o inferno em que nos fez viver! — interrompeu Renesmee, dando um passo à frente, peitando o homem sem demonstrar um milésimo de segundo de hesitação. — Se você der mais um passo na direção dela, eu juro por Deus que arranco os seus olhos com as minhas próprias mãos!
Eu continuava encostado na mesa de centro, com os braços cruzados sobre o peito. Uma risada curta, grave e abafada escapou pela minha garganta.
A cena era um espetáculo. Ver aquela garota de vestido elegante e mãos finas, peitar um homem de quase dois metros de altura com a fúria de uma leoa defendendo a cria era a coisa mais fascinante e divertida que eu tinha visto em meses. A coragem de Renesmee não era encenação; era um fogo perigoso, cru e fascinante.
Royce trincou os dentes, e seus olhos desceram por Renesmee. Pude ver a veia da sua testa pulsar. Ele sabia perfeitamente que não podia tocar na garota, ela era a minha noiva , coberta pelo manto dos Black. Mas o desejo velado de avançar no pescoço dela, de calar a insolência da própria filha com um soco, transparecia no tremor das mãos dele. Ele queria bater nela. Ele queria destruí-la ali mesmo.
A diversão no meu rosto evaporou no mesmo segundo, dando lugar a uma frieza cirúrgica. Desencostei-me da mesa a passos lentos e silenciosos. O salão emudeceu quando parei logo atrás de Renesmee. Levei a mão direita ao peito, puxei a minha Glock 9mm do coldre de couro e estendi a arma por cima do ombro dela, posicionando o cabo preto diretamente na palma da mão da minha noiva.
Renesmee deu um salto de susto com o toque frio do metal contra a sua pele, mas os dedos dela fecharam-se instintivamente ao redor do cabo.
— Considere este o seu presente antecipado de noivado, morena — murmurei perto do ouvido dela, a voz grave, arrastada e mortal, sentindo o calor do corpo dela tremer contra o meu.
O silêncio na sala tornou-se absoluto. Royce estancou no lugar, os olhos arregalados encarando o cano de ferro que agora apontava na direção do seu peito, sustentado pelas mãos trêmulas de Renesmee.
— Você tem duas opções na sua mão agora, Renesmee — continuei, mantendo o meu corpo como uma muralha às costas dela, com a mão esquerda repousando suavemente sobre a cintura dela. — A primeira opção: você destrava essa arma, puxa e abre um buraco no peito do homem que bateu na sua mãe a vida inteira. A segunda opção: você me devolve a arma e me autoriza a fazer isso por você agora mesmo.
Ela olhou para o ferro pesado em suas mão e, em seguida, para os olhos apavorados de Royce. O peso do metal, a frieza do ultimato e a promessa de sangue em um ambiente fechado fizeram o pavor superar a raiva. A respiração dela acelerou em um ritmo desesperado.
Aterrorizada com a realidade do meu mundo e com a facilidade com que eu oferecia a morte, Renesmee soltou a arma como se o metal queimasse sua pele, dando dois passos rápidos para trás e se afastando de mim e de Royce.
Peguei a Glock no ar antes que caísse no chão, ajustando-a na mão com a habilidade de quem lidara com armas a vida toda, e destravei o ferrolho com um estalo seco que ressoou como um tiro no salão silencioso.
O som metálico do ferrolho da Glock sendo travado na posição de disparo parecia ter congelado o ar.
Ao meu redor, a resposta do clã foi imediata e coordenada. Sam deu um passo largo à frente, fechando o flanco esquerdo de Royce com a sua estatura impressionante. Quil e Embry posicionaram-se logo atrás do infeliz, cortando qualquer possibilidade de fuga em direção ao portão. Até mesmo Jared, ajeitando a jaqueta com um olhar frio, deu um passo em direção ao círculo, pronto para agir. Os homens da família Black agiam como um bando de lobos cercando a presa, apenas aguardando a minha ordem para trucidar o intruso.
Royce engoliu em seco, recuando meio passo. O suor frio brilhava em sua testa enquanto ele encarava o cano escuro da minha arma apontado diretamente para a sua testa.
— Você veio à minha casa, desrespeitou a minha família e ameaçou a minha noiva — declarei, a voz pausada, baixa e sem um pingo de hesitação. — Você teve uma vida inteira para ser um homem, Royce. O seu tempo acabou.
Levantei o braço ligeiramente, alinhando a mira com o espaço entre os olhos dele. Senti o peso do gatilho sob o meu indicador.
— Não! Jacob, por favor, não! — o grito desesperado de Renesmee cortou a tensão do salão.
Antes que eu pudesse puxar o gatilho, Renesmee projetou-se para a frente, colocando-se na linha de tiro entre o cano da minha pistola e o peito de Royce. As mãos dela vieram direto para o meu pulso, segurando o meu braço com uma força desesperada, tentando empurrar a arma para baixo.
Sustentei o braço rígido, mantendo a arma no ar, e encarei-a com os olhos estreitados pela raiva.
— Saia da frente, Renesmee — ordenei, a voz gélida. — Ele abusou de vocês por anos. Eu estou resolvendo o seu problema de vez.
— Não desse jeito! — suplicou ela, os olhos marejados, mas brilhando com uma intensidade desesperada. Ela apertou meu pulso com mais força, a respiração entrecortada pelo pavor. — Por mais que eu o odeie... por mais monstruoso que ele tenha sido... ele ainda é o meu pai, Jacob! Ele me criou! Eu não posso carregar a culpa de ver o sangue do meu próprio pai lavado no chão desta casa!
O salão caiu em um silêncio pesado. Atrás de mim, vi o semblante de Billy mudar sutilmente na cadeira de rodas. Ele sabia — assim como eu e Rachel sabíamos — a terrível e irônica verdade que tornava aquele pedido ainda mais dramático: Royce King não tinha um pingo de sangue de Renesmee nas veias. Mas ela não sabia.
Royce, covarde como sempre, aproveitou o escudo do corpo de Renesmee para se encolher atrás dela, a respiração arfante de pavor.
Encarei o rosto pálido da minha noiva. A proximidade do corpo dela, o tremor das mãos dela no meu pulso e a súplica genuína nos seus olhos quebraram a execução iminente. Matá-lo ali, na frente dela, destruiria qualquer chance de usá-la com docilidade no futuro.
Lentamente, sem tirar os olhos de Renesmee, travei o ferrolho da Glock e abaixei o braço.
— Você está pedindo pela vida dele por um laço de sangue que você acha que te obriga — murmurei, a voz rouca contra o rosto dela, inclinando-me ligeiramente. — Esta é a única e última vida que eu te dou de presente a vida desse verme, Renesmee.
Afastei-me dela e virei o meu olhar gélido para Royce, que ainda tremia atrás da filha.
— Sam, Quil, tirem esse lixo da minha vista — ordenei, o tom de voz descendo para um comando profissional de máfia. — Levem ele para fora dos portões da propriedade. Se ele voltar a pisar no raio de dez quilômetros desta casa ou tentar contato com a Rosalie... vocês têm permissão para sumir com o corpo dele.
Sam e Quil agarraram Royce pelos braços sem o menor cuidado, torcendo os pulsos do homem para trás e arrastando-o esperneando em direção às portas duplas.
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