Filha da guerra

8 07. Velhos amigos • Jacob Black



13 de Setembro de 2000 — 21:15


Mansão da Família Black | Zona Sul de Seattle, Washington


A porta do meu quarto se fechou, cortando o som dos passos apressados de Renesmee pelo corredor. Fiquei parado no mesmo lugar por alguns segundos, encarando a madeira escura. O gosto do vinho tinto misturado ao sabor quente da boca dela ainda impregnava os meus lábios.

Apertei os punhos, soltando o ar devagar pela boca. Aquela garota era um incêndio. Tinha o olhar rebelde, a postura altiva de quem se recusa a ser dobrada e um orgulho feroz que quase me fez esquecer que ela fora criada no meio do esterco dos King. O beijo fora uma demonstração de força, uma forma de marcar o território e deixar claro quem mandava no jogo, mas a reação involuntária do corpo dela contra o meu ainda queimava sob a minha pele.

Maldita situação.

Caminhei até a mesa, peguei a taça de vinho e entornei o resto do líquido de uma só vez. Eu não estava nem um pouco satisfeito com esse noivado de conveniência. A última coisa de que eu precisava na minha vida era me prender a uma garota impulsiva, ainda mais sabendo do segredo explosivo que ela carregava no sangue sem ter a menor ideia. Mas os sentimentos não tinham espaço na mesa do Capo. Se casar com a suposta herdeira dos King — e a verdadeira filha perdida de Charlie Swan — era o atalho mais rápido e cirúrgico para consolidar o meu poder, massacrar os Volturi e os Cullen e assumir o controle definitivo de Seattle sem que a cidade virasse um mar de sangue antes da hora.

Caminhei até o closet, tirei a camisa social preta e vesti uma jaqueta de couro escura, garantindo que o coldre da minha pistola estivesse perfeitamente ajustado no peito. Eu precisava sair dali. Precisava de barulho, bebida forte e ar puro para distrair a mente antes que eu voltasse àquele corredor e arrombasse a porta do quarto da minha recém-declarada noiva so para terminar o que acabei de começar.

Ao descer as escadas em direção à saída principal, o som das rodas metálicas no piso de madeira me fez parar no grande salão.

Billy estava parado perto da entrada do seu escritório, com o olhar de águia fixo em mim. A luz fraca do lustre destacava as linhas severas do seu rosto.

— A garota acabou de descer acompanhada pelo guarda — disse Billy, a voz grave e rouca ressoando pela casa silenciosa. — Pelo visto, o jantar demorou menos do que o previsto. Ocorreu tudo bem lá em cima, Jacob?

Parei os passos diante da cadeira de rodas do meu pai, ajustando os punhos da jaqueta.

— Ocorreu como tinha que ocorrer — respondi, o tom frio e profissional. — Ela aceitou os termos. Vai se casar comigo por vontade própria em troca da liberdade da mãe e do retorno às aulas de enfermagem.

Billy assentiu devagar, um brilho de aprovação calculista cruzando suas feições.

— Excelente. A docilidade da garota vai facilitar o processo quando o momento de revelar a origem dela a Charlie Swan chegar. Sem escândalos, sem suspeitas.

— Ela não é dócil, pai. Só é inteligente o suficiente para saber quando negociar — corrigi, mantendo a voz firme. — Mas o contrato está fechado.

— Onde você vai a esta hora? — perguntou ele, avaliando

— Preciso respirar fora deste complexo antes de começar a resolver a papelada do casamento amanhã — declarei. — Estou indo para o Clube Nocturna com o Quil e o Embry.

— Não se distraia, filho — alertou o velho, a voz caindo para um tom solene. — As peças estão se movendo rápido na zona norte. Mantenha os seus homens alertas.

— Sempre estou alerta — respondi.

Passei pelas pesadas portas de ferro da fortaleza, onde o ar gelado da noite de Seattle atingiu o meu rosto como uma chicotada. No pátio, um SUV preto já nos aguardava com os motores ligados. Quil estava encostado na capota conferindo um carregador, enquanto Embry ajustava o espelho retrovisor no banco do motorista.

— Vamos rodar, chefe? — perguntou Quil, abrindo um sorriso de canto ao me ver aproximar.

— Vamos — ordenei, abrindo a porta do passageiro e me acomodando no banco. — Quero a melhor mesa da casa, a garrafa mais forte do bar e barulho alto. Hoje a noite é nossa.

O SUV acelerou cortando a névoa fria das colinas, deixando para trás a fortaleza dos Black e a garota que, a partir de hoje, carregaria o meu nome.


22:30


Clube Nocturna | Centro de Seattle, Washington


O graves do sistema de som faziam as paredes de concreto do Clube Nocturna tremerem sob as solas das minhas botas. Luzes vermelhas e estroboscópicas cortavam o ambiente denso de fumaça, lotado de corpos dançando, álcool caro e o zumbido constante das conversas do submundo. Aquele clube agora era nosso, tomado no grito e na coronhada da mão do miserável do Royce King.

No camarote VIP, no andar superior, o clima era de vitória, mas a minha cabeça continuava um inferno.

Eu estava jogado no sofá de couro preto, com o braço esquerdo estendido sobre o encosto e uma taça de uísque puro na mão direita. Ao meu lado, Quil ria alto, com um copo de gin em uma mão e o braço ao redor dos ombros de uma morena de saia curta. Embry, recostado na mesa de centro de vidro, conversava com duas garotas de programa de luxo que disputavam a atenção dele.

O clima era para ser de puro alívio, mas o gosto do vinho tinto e o calor da boca de Renesmee King ainda recusavam-se a sair da minha mente. Aquele beijo no meu quarto não saía da minha cabeça. A garota tinha um fogo perigoso, uma postura altiva que me irritava e uma pele macia que fizera o meu sangue ferver como há muito tempo não acontecia.

Uma loira alta, de vestido justo e decote profundo, percebeu o meu isolamento. Ela se aproximou devagar, contornou a mesa e sentou-se na beirada do meu sofá, deslizando uma mão de unhas vermelhas pelo meu peito, descendo em direção à minha cintura com um sorriso manhoso.

— Você tá muito quieto para quem acabou de virar dono do clube mais lucrativo da cidade, gato... — murmurou ela, a voz carregada de intenção, roçando os lábios perto do meu pescoço. — Quer que eu ajude você a comemorar no reservado?

Segurei o pulso dela no ar com uma firmeza calculada, impedindo que a mão dela avançasse. O toque era quente, mas não me causava absolutamente nada. Soltei o braço dela com frieza e empurrei o corpo dela levemente para trás, encarando-a com um olhar gélido.

— Cai fora — ordenei, a voz baixa, seca e sem qualquer margem para discussão.

A mulher piscou, surpresa com a rejeição bruta, mas ao ver a escuridão no meu olhar, levantou-se no mesmo instante e sumiu no meio da pista VIP.

Quil, que observava a cena de camarote, soltou uma gargalhada escandalosa, quase engasgando com o gin. Ele empurrou a garota ao seu lado e se inclinou na minha direção, apontando o dedo na minha cara com um deboche escancarado

— Não acredito! — zoou Quil, os olhos brilhando de pura gozação. — O grande Jacob Black tá rejeitando a mulher mais cobiçada da casa? O que aconteceu com você, chefe ? Ficou impotente de repente ou a santinha do King te amansou em menos de duas horas?

Embry caiu na gargalhada junto, virando-se para a mesa e balançando a cabeça.

— É o amor, Quil! Não tá vendo? — provocou Embry, colocando as mãos no peito com drama. — O homem agora é um homem comprometido! Ele tem noiva! Não pode mais brincar na rua porque a garotinha dos King tá esperando por ele no quarto!

As duas garotas ao redor começaram a dar risadinhas abafadas, o que só fez o sangue subir direto para a minha cabeça.

— Calem a boca seus filhos da puta — avisei, a voz caindo para um tom perigosamente grave.

— Ah, qual é, Jacob! — Quil continuou, sem medir o perigo, levantando o copo no ar. — Admite logo! Você levou um beijo da garota e ficou caidinho! O chefe da máfia tá guardando castidade pra noivinha de dezoito anos! A gente devia fazer um brinde ao novo homem de família!

A paciência que eu mal tinha evaporou de uma vez.

Fechei a mão em um punho e dei um soco violento na mesa de vidro de centro. O estalo alto e o baque da garrafa de uísque balançando fizeram as garotas darem um grito e se encolherem no canto. O riso de Quil e Embry morreu na hora.

Levantei-me do sofá com uma rapidez assustadora, a minha figura imponente projetando uma sombra densa sobre os dois. Dei um passo à frente, agarrando Quil pelo colarinho da jaqueta e puxando-o para cima até que ele ficasse na ponta dos pés, o olhar gélido cravado no dele.

— Quer que eu repita, Quil? — rosnei, a voz trêmula de raiva contida, o peito subindo e descendo. — Não tem porra de amor nenhum! A garota dos King é um negócio, uma peça de xadrez pra gente tomar essa cidade e colocar a Rachel na política! Eu não guardo respeito por mulher nenhuma, eu guardo respeito pelo meu nome e pelo meu império! Se eu não encosto em nenhuma vadia nesta noite, é porque nenhuma delas vale o meu tempo, e não porque eu tô “amansado”!

O camarote ficou em absoluto silêncio. O som pesado dos graves da pista lá embaixo era a única coisa que preenchia o ar. Quil engoliu em seco, sentindo a pressão dos meus dedos no seu pescoço, e assentiu devagar, perdendo toda a pose de deboche.

— Foi mal, Chefe... — murmurou Quil, a voz séria. — A gente só tava zoando.

Soltei o colarinho dele com um empurrão ríspido. Ele deu dois passos para trás, ajeitando a jaqueta, enquanto Embry mantinha as mãos erguidas em sinal de trégua.

Ajeitei os punhos da minha jaqueta de couro, respirando fundo para controlar a tempestade que queimava no meu peito. A verdade é que a zoeira dos dois tinha tocado no ponto exato que me irritava: o fato de que aquela garota realmente tinha conseguido prender a minha atenção de um jeito que mulher nenhuma jamais conseguira. E eu odiava sentir que não estava no controle absoluto das minhas próprias reações.

— Caiam fora, as duas — ordenei para as garotas, apontando para a saída do camarote. Elas não esperaram um segundo aviso e saíram apressadas.

Acomodei-me de volta no sofá, pegando o copo de uísque e virando o resto do líquido de uma só vez, sentindo o álcool queimar a garganta.

— Me sirvam outra dose — mandei, encarando Quil e Embry com a autoridade de quem não aceitaria mais uma única piada naquela noite. — E se algum de vocês voltar a falar da minha noiva nesse tom, eu juro por Deus que mando vocês direto pro inferno.



14 de Setembro de 2000 — 08:15



Mansão da Família Black | Zona Sul de Seattle, Washington


O sol do início da manhã mal conseguia atravessar a névoa espessa que cobria os portões da fortaleza. O piso de madeira do salão principal parecia inclinar-se ligeiramente sob as minhas botas, e a luz dos lustres queimava a minha vista com uma intensidade insuportável.

Eu não era um homem de beber até perder o rumo. Pelo contrário: minha posição exigia sobriedade e controle absoluto vinte e quatro horas por dia. Mas depois da discussão no camarote do Clube Nocturna, a raiva, a tensão e a maldita imagem daquela garota me perseguindo a noite toda me fizeram virar garrafa atrás de garrafa de bourbon até que o mundo perdesse as arestas.

— Calma lá, chefe... o degrau tá mais alto do que parece — murmurou Quil, segurando firme o meu braço esquerdo enquanto me apoiava nele.

— Dá pra calar a boca? Eu sei onde fica a escada — rosnei, a voz arrastada, a cabeça latejando com uma dor de cabeça cavalar.

Embry vinha do meu outro lado, segurando a minha jaqueta de couro pesada sobre o ombro e tentando manter o tom profissional para disfarçar o estado deplorável em que estávamos entregando o chefe da casa.

Quando viramos a grande curva da escadaria que dava para a sala de jantar principal, o aroma do café recém-passado e das frutas atingiu as minhas narinas. E, para a minha absoluta desgraça, a mesa monumental já estava completamente ocupada.

A cena congela-se no instante em que tropecei no último degrau, fazendo Quil praguejar baixinho para nos equilibrar.

O silêncio que se instalou no salão foi instantâneo, denso e chocante. Ninguém ali — absolutamente ninguém — jamais tinha visto Jacob Black cambalear ou precisar de apoio para parar em pé.

Claire foi a primeira a reagir. Ela engasgou com um gole de suco de laranja, soltando uma gargalhada escandalosa e sem o menor pudor, batendo a mão na mesa.

— Meu Deus do céu! — debochou minha irmã caçula, os olhos brilhando de diversão pura. — O Jale veio tropeçando nas próprias pernas ! Alguém tira uma foto pra imortalizar esse milagre!

— Claire, cala a boca — rosnou Billy, a voz ressoando como um trovão pela sala.

O velho estava parado na cabeceira da mesa em sua cadeira de rodas. O rosto de Billy estava retorcido em uma fúria cega, as veias do pescoço salientes e as mãos apertando os braços da cadeira com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos. A decepção e a raiva no olhar do meu pai eram lâminas afiadas. Ver o herdeiro do império chegar alcoolizado em pleno horário do café, arrastado pelos próprios subalternos diante de hóspedes e reféns, era a maior afronta à disciplina que ele tanto pregava.

Ao lado de Billy, Rosalie segurava a xícara no ar, com os olhos azuis arregalados de puro choque e medo, sem saber se devia se encolher ou se afastar.

Mas foi o olhar de Renesmee que atravessou a névoa do meu cérebro como um choque elétrico.

Ela estava sentada ao lado da mãe, vestindo um suéter simples, com as mãos postas sobre o colo. O choque inicial no rosto dela durou apenas um segundo antes de se transformar em uma expressão de pura incredulidade e nojo. O olhar de Renesmee transbordava uma raiva gélida e um desdém escancarado.

Aquele olhar de desprezo vindo dela me atingiu com a força de um soco no estômago, queimando o resto da minha paciência.

Puxei meu armamento com ignorância, soltando-me do apoio de Quil e Embry com um empurrão ríspido.

— Me soltem, caralho! — rosnai, dando um passo em falso, mas conseguindo me firmar sozinho no chão.

— Jacob... você perdeu a cabeça? — a voz de Billy veio gélida, cortante, impregnada de uma autoridade perigosa. — Olhe para o seu estado. Que tipo de exemplo você acha que está dando nesta casa? Que tipo de líder se comporta como um viciado em um bar barato?

Caminhei a passos pesados até a beirada da mesa, ignorando a bronca do meu pai e fixando meus olhos avermelhados e turvos diretamente nos de Renesmee. Ela não baixou a cabeça. Sustentou a minha encarada com o queixo erguido, a mandíbula travada e uma fúria tão intensa que parecia prestes a avançar no meu pescoço.

— O que foi, noiva? — provoquei, a voz rouca, arrastada e cheia de ironia, apoiando as duas mãos na borda da mesa e me inclinando na direção dela. — Assustada com o noivo? Achou que tava se casando com um santo?

— Achei que estava me casando com um homem que cumpria com a palavra e tinha o mínimo de dignidade — rebateu Renesmee, a voz baixa, fria e venenosa, cortando o ar da sala como uma lâmina. — Mas vejo que troquei um bêbado agressivo na mansão dos King por outro na mansão dos Black.