Filha da guerra
6 05. O convite • Renesmee King
Bati a porta da suíte com tanta força que o barulho ecoou por todo o corredor da ala leste. Chutei o pé da cama, sentindo a dor física tentar abafar o ódio cego que queimava no meu peito. Sentada na beirada do colchão, minhas mãos tremiam, e as lágrimas de pura raiva finalmente desceram, quentes e amargas, pelo meu rosto.
Eles tinham tirado tudo. Em menos de vinte e quatro horas, eu tinha virado moeda de troca, objeto de dívida e, agora, uma prisioneira sem direito ao próprio futuro.
Três batidas suaves na madeira interromperam o meu surto.
— Renesmee? Sou eu, meu amor...
Enxuguei as lágrimas rapidamente com as costas da mão e me coloquei de pé. Quando abri a porta, minha mãe passou. Logo atrás dela, na penumbra do corredor, dois homens de terno escuro permaneciam de braços cruzados, como estátuas de pedra, esperando o momento exato de levá-la de volta para a ala oeste.
Rosalie fechou a porta devagar, encarando-me com aquele olhar dolorido de quem conhecia exatamente o peso das correntes que eu acabara de herdar.
— Como eles têm a coragem?! — murmurei, a voz rouca enquanto andava de um lado para o outro. — Achar que podem me trancar aqui pra sempre, como se eu fosse um móvel que o Royce esqueceu pra trás?! Eu passei dois anos me matando na faculdade, mãe! Dois anos planejando como tirar a gente daquela casa, e agora esse... esse Jacob acha que pode me controlar com ameaças?!
— Renesmee, me escute. Por favor — minha mãe aproximou-se e segurou meus ombros. O tom da voz dela era baixo, quase um sopro, consciente de que até as paredes daquela fortaleza podiam ter ouvidos. — Pare de bater de frente com eles.
Olhei para ela, chocada com o conselho.
— O quê? Você quer que eu abaixe a cabeça? Que eu me curve pra eles como você se curvava pro Royce?!
— Não é sobre se curvar, minha filha! É sobre sobreviver — Rosalie me sacudiu levemente, os olhos azuis brilhando com uma intensidade que eu raras vezes tinha visto nele. — Você acha que eu consegui manter nós duas vivas durante dezoito anos enfrentando o Royce de peito aberto? Se eu tivesse reagido com gritos e orgulho a cada surto dele, nós teríamos morrido antes de você completar dez anos.
Eles nos queriam quebradas, mas minha mãe me mostrava a única arma que nos restava.
— Você precisa aprender a jogar, Renesmee — continuou ela, o tom de voz calmo, cirúrgico, lapidado por anos de violência contida. — O Jacob não é como o seu pai. Royce era um covarde movido por desespero e bebida; Jacob e Billy Black são estrategistas frios. Se você continuar atacando, eles vão continuar trancando você. Mas se você aprender onde estão as brechas deles, se aprender a ler o Jacob, você encontra um caminho.
— Eu odeio ele, mãe — sussurrei, a mandíbula travada. — Odeio o jeito como ele me olha, como se eu fosse propriedade dele.
— Então use esse ódio a seu favor — disse minha mãe, limpando uma lágrima remanescente na minha bochecha. — Sorria quando for preciso. Ouça mais do que fala. Finja ceder na superfície para conseguir o que quer no fundo. Descubra o que o Jacob quer de você e use isso como moeda de troca. Não se vence homens como os Black com raiva cega, se vence com inteligência.
O som de duas batidas secas na porta fez com que nós duas estancássemos. A voz de um dos guardas ecoou do corredor:
— Senhora King, o tempo da visita acabou. Precisamos levá-la para seu quarto.
Rosalie olhou para a porta e depois voltou para mim, apertando minhas mãos com firmeza antes de soltá-las.
— Tenha calma, Renesmee. Pense antes de agir. Prometa para mim que não vai tentar nada estúpido.
— Eu prometo — respondi, engolindo o resto do meu orgulho.
Minha mãe deu um passo para trás, ajeitou a postura e caminhou até a saída. Quando a porta se abriu e ela foi conduzida pelos homens de terno escuro, fiquei parada no centro do quarto, observando a madeira se fechar novamente.
A raiva que queimava em mim não tinha desaparecido, mas a névoa do desespero começou a dar lugar a uma clareza fria. Minha mãe estava certa. Bater de frente contra os muros dos Black só me deixaria machucada e trancada.
Se Jacob Black achava que tinha comprado uma refém obediente ou uma garota mimada que aceitaria o cativeiro em silêncio, ele estava prestes a descobrir que eu tinha aprendido com os piores monstros de Seattle. Eu jogaria o jogo dele, até encontrar a brecha certa para virar o tabuleiro.
15:30
As horas arrastaram-se numa lentidão agonizante. O silêncio do meu quarto na ala leste era quebrado apenas pelo chiado suave do meu CD player portátil e pelo ritmo baixo da música nos fones de ouvido. Deitada na cama de olhos fechados, braços cruzados sobre o peito e o fone ajustado, eu tentava me desligar do mundo e ignorar a sensação sufocante das paredes daquela fortaleza.
O som de três batidas secas na porta mal passou pelo bloqueio da música. Não me mexi. A porta abriu-se e o barulho de passos pesados cruzando o piso de madeira revelou que o visitante não esperara por permissão.
Uma mão puxou um dos lados do fone do meu ouvido sem cerimônia.
Abri os olhos de golpe, pronta para soltar uma patada no guarda, mas dei de cara com a figura imponente de Jacob. Ele vestia apenas uma camisa social preta com as mangas dobradas até os cotovelos e a gola aberta, mas a aura de perigo implacável que o acompanhava continuava intacta.
— A casa dos Black tem horários para as refeições — disse Jacob, a voz grave ressoando no quarto silencioso. Ele soltou o fone, que ficou pendurado no meu pescoço. — Você não desceu para o almoço.
Sentei-me devagar na cama, recostando as costas na cabeceira de madeira. Lembrei-me imediatamente dos conselhos da minha mãe: não bata de frente, aprenda a jogar, finja ceder na superfície. Engoli a farpa que estava pronta na ponta da língua e respirei fundo, mantendo a voz fria, porém contida.
— Não senti fome — respondi, desligando o CD player e colocando-o sobre a mesa de cabeceira. — Prefiro ficar aqui.
Jacob deu dois passos até a janela blindada, cruzando os braços e me observando com seus olhos escuros e analíticos. Ele parecia estudar cada microexpressão do meu rosto, procurando a garota histérica e de língua afiada da hora do café.
— Fazer greve de fome não vai fazer os portões se abrirem, Renesmee — comentou ele, o tom arrastado e desprovido de ironia. — Se essa é a sua nova tática de protesto, aviso que só vai conseguir uma sonda na ala médica.
— Não é um protesto — respondi, sustentando o olhar dele sem baixar a cabeça, mas também sem erguer a voz. — É apenas uma constatação. Estou presa aqui, sem direito a ir para a faculdade, sem poder ver a minha mãe quando quero e sem controle sobre a minha própria vida. Perder o apetite é o mínimo que se espera nessa situação.
Jacob encarou-me por longos segundos em silêncio. A calmaria na minha voz parecia ser mais intrigante para ele do que meus gritos da manhã. Ele se afastou da janela e caminhou a passos lentos até a ponta da minha cama.
— Você fala sobre a faculdade e sobre a sua “vida antiga” como se o mundo lá fora fosse um lugar seguro de onde eu te arranquei — disse ele, a voz caindo para um tom perigosamente baixo, encostando-se na quina do móvel. — Você viveu dezoito anos trancada na mansão de um covarde que batia na sua mãe e te usava como moeda de troca. Você não tinha liberdade lá, garota. Só tinha a ilusão dela.
As palavras dele bateram forte no meu peito, mas segurei a reação. Ele não estava errado sobre Royce, e admitir isso para mim mesma era uma pílula amarga de engolir.
— O Royce é um monstro, e você destruiu a mão dele no chão — admiti devagar, vendo um brilho sutil de surpresa passar pelos olhos dele. — Mas trocar um tirano por outro não torna você meu salvador, Jacob. Você me trouxe para cá para cobrir a dívida dele. Para você, eu sou apenas uma garantia.
— Você é uma garantia viva e intacta — corrigiu ele, inclinando o corpo ligeiramente na minha direção. — Sob este teto, seu pai nunca mais vai colocar as mãos em você ou na sua mãe. Nenhum homem nesta cidade ousará encostar um dedo em você sem pagar com a vida. Mas em troca disso, você obedece às regras.
— E quais são as regras, além de virar uma estátua neste quarto? — perguntei, mantendo o tom calmo, deixando que um traço sutil de negociação surgisse na minha fala. — Se não posso ir ao campus, vou mofar aqui olhando para o teto?
Jacob deu um meio sorriso sombrio, quase imperceptível no canto dos lábios.
— Você não precisa mofar. A biblioteca do andar térreo tem mais de três mil volumes. Os jardins da ala leste estão liberados para você caminhar durante o dia, contanto que esteja acompanhada por um guarda ou pela Claire. E se precisar de livros ou materiais da sua faculdade, traga uma lista. Meus homens compram e entregam no seu quarto antes do anoitecer.
Pisquei, surpresa com a concessão, mas sem deixar transparecer o alívio. Minha mãe estava certa: demonstrar uma postura menos reativa abria brechas de negociação que a fúria cega jamais conseguiria.
— E a minha mãe? — arrisquei, dando o passo seguinte. — Posso almoçar ou jantar com ela?
Jacob encarou-me fixamente, calculando o pedido.
— Uma vez por dia. No salão da ala oeste ou nos jardins. Sem tentativas de fuga e sem escândalos com os guardas.
— Combinado — respondi de imediato, estendendo a mão para selar o acordo informal, assim como os homens do seu mundo faziam.
Jacob olhou para a minha mão estendida e, em seguida, subiu os olhos para o meu rosto. Ele não apertou minha mão. Em vez disso, deu um passo à frente, segurou meu queixo com a ponta dos dedos frios e firmes, erguendo meu rosto ligeiramente para inspecionar o corte no meu lábio.
— Peça para a Sue trazer uma bandeja de comida para o seu quarto em dez minutos — ordenou ele, soltando meu queixo devagar, o toque durando apenas o suficiente para fazer meu pulso acelerar. — Eu não quero ter que subir aqui de novo para verificar se você está comendo.
Jacob virou-se de costas e caminhou em direção à porta.
— Black — chamei antes que ele saísse.
Ele parou com a mão na maçaneta, sem se virar.
— Obrigado pelos livros e pela minha mãe — disse, mantendo o tom neutro.
Ele não respondeu com palavras; apenas fez um aceno quase imperceptível com a cabeça e passou pela porta, trancando-a do lado de fora.
19:30
O barulho da tranca da porta sendo girada me fez afastar os olhos das páginas de um livro de romance que Sue me trouxera horas antes, junto com uma bandeja de comida.
Claire passou pela porta sem bater, arrastando os coturnos pesados pelo chão. Em suas mãos, ela carregava um cabide coberto por uma capa de proteção preta. Ela jogou o objeto sobre a minha cama com um baque abafado, cruzando os braços e me encarando com uma sobrancelha erguida e aquele sorriso debochado de sempre.
— Hora de se transformar em uma princesa, King — disse Claire, apontando para a cama com o queixo. — Cortesia do meu irmão mais velho.
Deixei o livro sobre o colo e olhei da capa preta para o rosto de Claire, desconfiada.
— O que é isso? E por que você tá me entregando roupas a esta hora da noite?
— Jake mandou avisar para você se arrumar — revelou ela, encostando as costas no batente da porta e tirando um pirulito do bolso da jaqueta. — Ele tá te convidando para jantar. E antes que você pergunte: não, não é na sala de jantar principal com o resto da casa. É a sós, no quarto dele, na ala executiva.
Senti meu peito contrair ligeiramente. Jantar a sós no quarto de Jacob Black? A lembrança do toque firme dos dedos dele no meu queixo mais cedo fez meu pulso acelerar contra a minha vontade.
— Jantar a sós no quarto dele? — repeti, a voz ligeiramente mais fria. — Eu já aceitei as regras dele hoje à tarde, Claire. Não sabia que o pacote de “garantia da dívida” incluía fazer companhia privada para o chefe do clã.
Claire deu uma risada baixa, desdobrando o lacre do pirulito e colocando-o na boca.
— Relaxa, bela adormecida. Se o Jacob quisesse algo mais com você, ele não mandaria um vestido e um convite formal. Ele simplesmente arrombava essa porta e pegava o que quisesse — declarou ela com uma sinceridade crua que me fez estremecer por dentro. — Se ele tá te chamando para o território dele, é porque quer conversar sem os ouvidos do meu pai ou dos guardas por perto. O Jacob é calculista. Tudo o que ele faz tem um motivo.
Caminhei até a cama e puxei o zíper da capa preta. Dentro, havia um vestido de seda na cor vinho, de corte reto, elegante, com mangas longas e uma fenda discreta na perna. Não era vulgar; era refinado, caro e imponente.
— Ele espera que eu me vista como uma convidada de honra depois de me trancar aqui? — ironizei, passando os dedos pelo tecido macio.
— Ele espera que você pareça alguém à altura da mesa dele — corrigiu Claire, encostando-se na parede e me observando. — Olha, King... uma dica de quem conhece aquele homem desde que nasceu: se você quer continuar conseguindo as brechas que conseguiu hoje à tarde, não dê uma de rebelde sem causa agora. Coloque o vestido, suba até lá e ouça o que ele tem a dizer. Bater no peito só faz o meu irmão fechar a cara e trancar as portas de novo.
Soltei um suspiro pesado, fechando a capa do vestido.
— Quanto tempo eu tenho? — perguntei, encarando Claire.
— Uns vinte minutos — respondeu ela, abrindo um sorriso satisfeito ao ver que eu aceitara o conselho. — O guarda da porta vai te acompanhar até o andar dele às oito em ponto. Boa sorte lá em cima, prisioneira. Você vai precisar.
Sem dizer mais nada, Claire virou-se e saiu, deixando a porta apenas encostada.
Fiquei parada ao lado da cama, encarando o vestido vinho. A raiva que eu sentira pela manhã dera lugar a uma tensão gelada e calculada.
Fale com o autor