Filha da guerra

5 04. Café da manhã • Narrado por Renesmee King



13 de Setembro de 2000 — Manhã


Mansão da Família Black | Zona Sul de Seattle, Washington

Acordei com a sensação incômoda de estar sendo vigiada. O peito subiu e desceu em arfadas curtas enquanto meus olhos se abriam de golpe, encarando o teto alto de madeira escura e as cortinas pesadas de veludo cinza. O sobressalto durou apenas o fração de segundo necessária para a realidade me atingir: eu não estava mais no meu quarto. Estava no coração da fortaleza da máfia Black.

Sentei-me na cama num pulo, puxando o lençol contra o peito por puro instinto de defesa.

— Bom dia, bela adormecida

A voz veio da grande janela blindada do quarto. Sentada no parapeito, com as pernas balançando no ar e um sorriso torto nos lábios, estava uma garota que eu nunca tinha visto na vida. Ela vestia uma jaqueta de couro preta rasgada nos cotovelos, jeans surrados e coturnos pesados. Tinha os mesmos olhos escuros e marcantes daquela família, mas exalava uma energia arisca, selvagem e puramente debochada.

Ela deu uma tragada lenta em um pirulito e apontou o palito plástico na minha direção.

— Fiquei imaginando se você ia acordar por conta própria ou se eu ia ter que jogar um balde de água fria nessa sua cara bonita pra ver se tinha vida aí dentro.

Pisquei, surpresa. Mas a surpresa durou exatamente dois segundos antes que meu orgulho e a raiva acumulada desde o dia anterior assumissem o controle. Soltei o lençol, ajeitei os cabelos desalinhados e encarei a intrusa com todo o desdém que consegui reunir.

— Quem diabo é você e quem te deu permissão pra entrar no meu quarto sem bater? — ergui o queixo, fazendo minha voz ecoar firme. — O seu chefe de terno escuro não te ensinou modos antes de te mandar vigiar o meu sono?

A garota deu uma risada alta, um som seco e divertido. Ela saltou do parapeito da janela e caiu em pé com a leveza irritante de um felino.

— Meu nome é Claire. Claire Black — apresentou-se, dando passos lentos pela minha suíte, passando a ponta dos dedos pelos móveis caros como se avaliasse o cativeiro alheio. — E o “chefe de terno escuro” é o meu irmão mais velho, Jacob. Ele me mandou aqui pra fazer sala pra você. Aparentemente, ele achou que duas garotas de dezoito anos teriam muito assunto em comum.

Soltei um riso anasalado, carregado de puro deboche, enquanto tirava as pernas da cama e me colocava de pé.

— Fazer sala? Que fofo — ironizei, cruzando os braços e encarando a caçula dos Black de cima a baixo. — O Jacob mandou a irmãzinha de babá pra garantir que eu não vá usar os lençóis pra pular a janela? Diga ao seu irmão que eu não preciso de uma sombra de coturno, muito menos da caçula da máfia me encarando enquanto eu durmo.

Claire estancou o passo e se virou devagar. Seus olhos escuros faiscaram com uma mistura de irritação e genuíno interesse. Ela deu dois passos na minha direção, diminuindo a distância até ficarmos praticamente frente a frente.

— Olha só, a prisioneira tem dentes — provocou ela, com um sorriso de lado. — Eu só passei aqui pra ver o que você tem de tão especial. Meu irmão não traz ninguém pra morar nesta ala. Ele costuma resolver dívidas com um tiro na nuca ou jogando o devedor no lago. Aí você chega, acerta o rosto dele com uma caixa de diamantes, xinga todo mundo e ainda ganha a melhor suíte da ala leste com a mãezinha alojada na ala oeste?

— Se você tá com inveja da minha estadia, a gente pode trocar de lugar — rebati sem hesitar um segundo, sustentando o olhar dela com a mesma audácia. — Você pega o meu pai, a dívida de vinte milhões e a bochecha cortada, e eu pego a sua jaqueta de couro e a porta da rua. Que tal?

Claire me encarou em silêncio por longos segundos. A tensão entre nós duas era palpável. Lentamente, o sorriso debochado de Claire se ampliou, desta vez desprovido da hostilidade inicial.

— É... você é definitivamente bem mais interessante do que o lixo do seu pai — admitiu ela, tirando o pirulito da boca e gesticulando com ele para a porta. — Jacob achou que eu viria aqui pra virar sua amiguinha e te amaciar pra ele. Mas eu não sou pombo de correio de ninguém, nem do meu irmão.

— Ótimo, porque eu também não estava planejando fazer tranças no seu cabelo e contar segredos — devolvi, dando-lhe as costas e caminhando em direção ao banheiro para lavar o rosto.

— Gostei de você, King — Claire gritou do quarto. Pelo espelho do banheiro, vi quando ela se jogou de costas na minha cama e cruzou os coturnos sujos sobre a colcha limpa. — Você tem exatamente a quantidade de problemas mentais necessária pra sobreviver nesta casa sem enlouquecer.

Parei na porta do banheiro, encarando a garota folgada deitada na minha cama, e balancei a cabeça. Pela primeira vez desde que pisara naquele inferno, senti um contorno quase imperceptível de sorriso ameaçar surgir no canto do meu lábio machucado. Eu podia estar trancada no coração da máfia Black, mas com certeza não facilitaria a vida de ninguém ali dentro.

Terminei de lavar o rosto e encarei meu reflexo no espelho por alguns segundos. A bochecha ainda estava levemente inchada e o corte no lábio latejava, mas eu me recusei a esconder as marcas. Elas eram o lembrete exato do tipo de verme que Royce King era, e de onde eu pretendia nunca mais voltar.

Procurei algo no closet e vesti uma calça preta confortável e um suéter pesado de lã bege, tentando me proteger do frio cortante que parecia impregnar as paredes daquela fortaleza.

— Você vai ficar se admirando aí no espelho o dia todo ou a gente vai descer pra comer? — a voz de Claire ecoou da cama. Ela já estava de pé, jogando o palito do pirulito dentro do lixo com uma precisão irritante. — O café da manhã aqui não espera por ninguém, e se a gente se atrasar, o meu pai faz um discurso sobre disciplina que dura mais que a tempestade de ontem.

— Estou pronta — respondi, passando por ela e abrindo a porta do quarto.

Caminhamos lado a lado pelos corredores largos da ala leste. O lugar era uma mistura de luxo sóbrio e vigilância constante; a cada curva, um segurança de terno e cara fechada nos acompanhava com o olhar. Claire andava com as mãos nos bolsos da jaqueta de couro, cumprimentando os guardas com acenos debochados e ignorando a postura rígida de cada um deles.

Quando descemos a grande escadaria de madeira nobre que dava para a sala de jantar principal, meu coração deu um salto no peito.

A mesa monumental de jacarandá já estava posta. Na cabeceira, Billy Black acompanhava a leitura de alguns relatórios, enquanto Jacob, ao seu lado, servia-se de café preto com a mesma expressão gélida de sempre. Mas não foram eles que prenderam minha atenção.

Sentada um pouco mais afastada, vestindo um vestido simples de malha e com os cabelos alinhados, estava minha mãe.

— Mãe! — o grito saiu da minha garganta antes que eu pudesse conter.

Esqueci a presença de Claire, de Billy, de Jacob e dos guardas armados na porta. Disparei pelos últimos degraus e cruzei o salão a passos rápidos. Rosalie se levantou no mesmo instante, abrindo os braços com os olhos marejados.

Eu a abracei com toda a força que tinha, afundando meu rosto em seu ombro, sentindo o cheiro familiar de sabonete de rosas que ela sempre usava. Era o único porto seguro em meio àquele pesadelo.

— Meu Deus, você tá bem? Eles te machucaram? Te trataram mal? — perguntei atropelando as palavras, afastando-me apenas o suficiente para segurar o rosto dela entre minhas mãos, inspecionando cada centímetro da sua pele à procura de novos roxos. —Diga a verdade!

Rosalie segurou minhas mãos firmemente, dando um sorriso fraco e genuíno — um sorriso que eu não via no rosto dela há anos.

— Calma, meu amor... calma — disse ela, a voz suave tentando me desacelerar. — Eu estou bem. Eu juro por Deus que estou bem.

Ela me conduziu para que nos sentássemos nas cadeiras lado a lado, sem soltar meus dedos.

— Uma médica foi ao meu quarto ontem à noite — explicou minha mãe em um sussurro, olhando rapidamente para a mesa antes de voltar para mim. — Ela limpou meus machucados, me deu remédios pra dor e garantiu que eu descansasse. A suíte é enorme, quente... e a porta não estava trancada por fora, Renesmee. Pela primeira vez em dezoito anos, ninguém entrou no meu quarto para me bater ou me gritar.

A respiração que eu mantivera presa no peito desde a tarde anterior finalmente foi solta. Olhei para minha mãe e vi que a palidez aterrorizada que ela ostentava na casa dos King dera lugar a um semblante exausto, porém em paz.

— Viu só? Eu disse que a mãezinha tava bem — a voz de Claire surgiu logo atrás de mim. Ela puxou a cadeira ao meu lado com barulho e se jogou sobre ela, pegando uma maçã da cesta de frutas e dando uma mordida audível. — O meu irmão é um grosso sem alma, mas a gente não deixa hóspedes morrerem de dor sob o nosso teto. Pegaria mal para a reputação.

Jacob ergueu os olhos do seu copo, encarando a irmã caçula com um aviso silencioso no olhar, mas Claire apenas deu de ombros e continuou mastigando.

Senti o olhar pesado de Jacob se mover para mim, parando no canto do meu lábio ainda machucado e, em seguida, nas nossas mãos entrelaçadas sobre a mesa.

— Agora que a comoção familiar terminou — a voz grave e rouca de Billy Black cortou o ambiente, enquanto ele dobrava o jornal e nos encarava do topo da mesa —, podemos tomar o café da manhã em silêncio. Temos um dia longo pela frente, e regras a alinhar nesta casa.

Ajeitei a postura na cadeira e peguei uma xícara de café, tentando fazer com que o tom da minha voz soasse o mais natural e cotidiano possível. Afinal, por mais que estivéssemos rodeados por homens armados e sob o teto da máfia, eu ainda tinha uma vida lá fora que não podia simplesmente parar.

— Mudando de assunto... sobre a minha rotina — comecei, direcionando o olhar alternadamente entre Billy e Jacob. — Eu preciso ir para a faculdade daqui a pouco. As aulas começam às nove. Eu posso chamar um táxi até o portão principal ou vocês vão disponibilizar algum motorista da casa para me levar?

O silêncio que se seguiu na mesa foi imediato e denso.

Claire parou com a maçã na metade do caminho até a boca, me encarando com os olhos arregalados, como se eu estivesse falando em aramaico arcaico. Na cabeceira, Billy abaixou devagar a xícara de porcelana sobre o pires, produzindo um estalo seco. Jacob nem sequer se mexeu; apenas manteve os olhos escuros fixos em mim, a expressão perfeitamente congelada em uma carranca indecifrável.

— Faculdade? — a voz grave de Jacob ressoou, fria e pausada. — Do que você está falando, garota

Senti o sangue subir pelas minhas bochechas com a reação deles, mas me recusei a parecer intimidada. Erguei o queixo, encarando a perplexidade no rosto dos dois.

— Como assim "do que estou falando"? Da minha faculdade! — insisti, batendo as pontas dos dedos sobre a mesa. — Eu estou no terceiro período do curso. Tenho prova na quinta-feira e não gosto de faltar às aulas. O fato de o Royce ter feito uma dívida absurda com vocês não anula o meu futuro. Eu só preciso que me levem até o campus e me tragam de volta no fim do turno.

Billy soltou um riso baixo, um som seco, amargo e desprovido de qualquer humor, balançando a cabeça devagar.

— Terceiro período... prova... — murmurou o velho Capo, como se as palavras soassem absurdas em sua boca. Ele se inclinou ligeiramente para a frente em sua cadeira de rodas, os olhos de águia cravados nos meus. — Você realmente não entendeu onde está, não é, garota? Acha mesmo que isso aqui é um hotel de luxo onde você entra e sai quando bem entende?

— Eu entendi perfeitamente onde estou! — rebati, o tom da minha voz subindo na mesma proporção do meu orgulho. — Mas eu não cometi crime nenhum! Vocês disseram que eu sou a garantia da dívida. Se eu continuar indo às aulas e voltando todos os dias, a garantia de vocês continua exatamente aqui!

— Renesmee, por favor... — Rosalie interveio em um sussurro aflito, segurando meu braço com os dedos trêmulos. Ela olhou para Billy e depois para Jacob com um olhar suplicante, tentando amaciar a situação. — Capo Black... por favor, entenda. A Renesmee sempre foi uma aluna exemplar. A faculdade é muito importante para ela... se um motorista de extrema confiança pudesse acompanhá-la, se ela ficasse sob vigilância constante no campus...

— Chega, Rosalie — Jacob cortou, a voz caindo para um tom perigosamente baixo e definitivo.

Ele colocou as duas mãos espalmadas sobre a mesa e se levantou. A figura imponente dele cobriu a luz que vinha da janela, projetando uma sombra densa sobre mim.

— Ninguém vai a lugar nenhum — declarou Jacob, fixando os olhos escuros nos meus, sem dar margem para qualquer discussão. — Sua vida antiga acabou no momento em que você pisou no pátio desta casa. Você não vai para a faculdade, não vai chamar táxi e não vai cruzar aquele portão de ferro.

— Você não pode me trancar aqui como se eu fosse um bicho! — levantei-me da cadeira num impulso, encarando-o de frente, tremendo de raiva. — Eu tenho direito de estudar!

— Você está na peopriedade dos Black, Renesmee — disse Billy, a voz ríspida e autoritária cortando minha fala como uma lâmina. — Aqui dentro, os seus "direitos" são exatamente aqueles que nós decidirmos lhe dar. E a partir de hoje, a sua única obrigação é permanecer viva e sob a nossa custódia. Seus estudos acabaram.

— Você não tem o direito de destruir o meu futuro! — esbravejei, dando um passo em direção a Jacob.

Antes que eu me aproximasse mais, dois guardas que estavam na porta deram um passo à frente, mas Jacob levantou a mão, detendo-os. Ele se aproximou da minha cadeira até que só restasse o espaço de um respirar entre nós dois.

— De um único passo fora desta casa e a sua mãe vai direto para o porão no mesmo minuto — sussurrou Jacob, a ameaça fluindo de sua boca de forma tão calma e calculada que me fez dar meio passo involuntário para trás. — Entendeu agora, ou quer que eu desenhe a sua nova realidade?

Fechei as mãos em punhos com tanta força que as unhas enterraram-se na palma da minha pele. Engoli o nó de fúria e impotência que queimava na minha garganta, olhando para o semblante irremovível de Jacob e para a autoridade gélida de Billy. Olhei para a minha mãe, que abaixou a cabeça em sinal de submissão, e para Claire, que apenas observava a cena em silêncio, sabendo que a palavra do pai e do irmão era a lei suprema ali dentro.

Sem dizer mais nenhuma palavra, dei as costas para a mesa, sentindo as lágrimas de raiva queimando atrás dos meus olhos, e saí a passos largos em direção às escadas, pisando o mais forte que pude no chão de madeira.




Notas finais
Posto mais?