Filha da Eternidade - Parte III
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Love me and leave me not.
— Shakespeare
Eu nunca soube o que era verdade.
Nasci em uma rede de mentiras que me envolvia de tal forma que me fazia ser parte dela. Passei 18 anos sem saber minha origem, o que me trouxe a vida, a minha motivação... Meu coração batia, mas eu nunca vivi. Até o momento em que anjos bateram em minha porta...
ᴥ
Saraí
—Feliz aniversário — Irriel me deu um beijo doce que fez minhas pernas tremerem como vara verde. Ele poderia me tocar um milhão de vezes, mas eu sempre sentiria a mesma coisa.
Eu sorria como um pouco animada, porque depois de um mês de luto escondida em Shamayim, finalmente estava em casa. Passei os olhos por todos os convidados da minha festa surpresa na lanchonete de minha tia. Lá estava Lavínia servindo refrigerante para todos, com a alegria estampada em seus olhos marcados pela perda de meus pais; Aline agarrando seu namorado que faz direito, no duplo sentido da palavra; Scarlet com seu sorriso complacente e a mesma expressão de quem não sabia o que fazer; Ada, que planejara toda a festa, sorrindo ao conversar com um homem que eu não conhecia, mas que não tirava os olhos de Scarlet; dois Caídos, que eu já vira rapidamente na Fortaleza, eles estavam lá disfarçados para fazerem a segurança; e Irriel, me beijando como se nem ligasse para os que os outros pensavam.
Aquela visão me trazia de volta a vida. Como se eu estivesse dormindo há muitos anos e só agora recobrara a consciência, como se a morte de meus pais e Merl fosse a um passado distante... Só que não era. Era tudo muito recente e eu custava a entender o que havia acontecido, no por que as pessoas que eu amava partiam tão repentinamente. E essa constatação só me assustava, considerando que ali naquela lanchonete estavam as únicas pessoas que eu amava... Talvez até Scarlet fosse importante para mim. Não havia muitas pessoas na minha lista de pessoas importantes e isso era ruim por um único motivo: cada pessoa que eu perdia arrancava uma parte grande do meu coração.
— Você está absorta — Irriel voltou a falar.
Ele estava tão próximo, eu sentia sua respiração em mim. E podia apreciar cada detalhe da sua jaqueta de couro estilo roqueiro. Nossos olhares se cruzavam e eu desviava com vergonha. Vergonha do que eu estava prestes a fazer. Irriel talvez ficasse louco quando descobrisse meus planos, mas eu contava com o seu apoio, pois era a única alternativa que poderia me livrar de vez da profecia.
Sorri e o beijei novamente. Ninguém parecia se importar que eu o beijasse em público.
— Estou nostálgica, só isso — falei ajeitando a jaqueta dele de leve — No ano passado estava comemorando com meus pais, a minha mentalidade era outra. Nunca imaginei passar por tudo que passei...
E pelo que passaria, meu destino ainda não estava resolvido. Nada estava resolvido, na verdade. Cada passo que eu dava, cada decisão que eu tomava, cada ato... Tudo me levava para diferentes fins.
— Relaxe — ele sussurrou — Essa é a sua festa!
O abracei e depois fui levada para o meio da lanchonete, onde um bolo de dois andares coberto de chantilly me esperava. Minha tia corria para acender as velas de 19 anos e os meus amigos se reuniam ao entorno da mesa. O sorriso que estampava meu rosto há alguns minutos estava de volta, já que estava em minha festa eu devia no mínimo aproveitar. Todos batiam palmas e cantavam a velha música de aniversário.
Surpreendi-me, porque mesmo depois de ter estado em situações perigosas e complicadas ainda sentia vergonha quando cantavam para mim. Meu rosto estava corado por ser o centro das atenções e eu não fazia ideia de onde colocar as mãos.
Os convidados pararam de cantar e eu me preparei para soprar a vela.
Faça um pedido, era Irriel em minha mente.
Fechei os olhos.
— Que tudo isso termine bem — sussurrei para que só eu escutasse, mas eu sabia que Irriel fizera leitura labial.
Quando voltei a abrir os olhos tudo havia mudado.
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