Notas iniciais
Oi, gente! Mais um capítulo para vocês!

Irriel

Que tudo isso termine bem

Sara fez seu pedido e eu consegui entender suas palavras. Ela queria que tudo terminasse bem. Será que se referia à profecia? Ao seu destino? Eu poderia indagar por muito tempo, porque nas últimas horas Saraí estava diferente. Ela quase não falara, agia como se não tivesse coragem de olhar em meus olhos. Era óbvio que ela não estava bem.

Talvez fosse o luto, Ada me dissera que Sara passara o último mês presa no quarto. Perder Merl deixou todos sensibilizados. É, talvez fosse isso! Ela só estava triste...

Um baque invadiu a lanchonete de Lavínia. Todos olharam para a entrada com olhos arregalados, menos Saraí.

— Fogo — o garoto que agarrava Aline há poucos minutos gritou, apontando para a porta.

Olhei para os dois Caídos que estavam lá. Nós sabíamos o que provocara o fogo que tomava conta de uma das cortinas da lanchonete, demônios. Lavínia pegou o extintor e o acionou na chama que já consumia metade do pano amarelo, apagando-a. Minha atenção estava voltada apenas para a entrada, a qualquer momento os demônios entrariam por aquela porta e eu precisava proteger Saraí.

Todos estavam nervosos. Aline tossia como se seu pulmão estivesse sendo queimado. E os outros pareciam assustados. Passei os olhos naquelas pessoas e parei em Scarlet, seus olhos azuis pareciam desesperados, mas seu corpo queria dizer o contrário. Gael, um anjo da guarda que aparecera para festa, olhava para mim com atenção.

— Onde está Sara? — Ada perguntou em um grito que fez com que todos olhassem para a pequena mesa posicionada no meio da lanchonete.

Saraí não estava mais lá. Olhei rapidamente para cada canto da lanchonete e não a via.

— Ele deve ter ido ao banheiro — Aline falou ainda tossindo.

Aquilo não me convenceu. Sara não sairia para ir ao banheiro depois de um ataque de demônios, ela sabia tão bem quanto eu que deveríamos ficar juntos.

— Há alguma saída pelos fundos? — perguntei para qualquer um que pudesse responder.

— Sim — Lavínia disse enquanto abria as outras janelas, ela nem imaginava o perigo que Sara corria.

Fui para os fundos da lanchonete correndo. No caminho derrubei algumas cadeiras, no entanto, eu precisava acreditar que Sara não saíra pelos fundos. Ela não faria isso por vontade própria.

A porta enferrujada que levava para uma ruela nos fundos da lanchonete estava aberta. Eu sabia o que aquilo significava...

Pus meus pés do lado de fora, a lua cheia dominava o céu noturno, e vi minha namorada ser arrastada por dois demônios muito maiores que ela. Saraí lutava, mas não era fácil se desvencilhar. Fui em direção a eles mais rápido do que minhas pernas permitiam, contudo, eles estavam longe demais para que eu chegasse antes de a machucarem.

— Larguem-na — gritei ao correr, em vão.

Sara continuava a tentar lutar, mas nos dois sabíamos que não adiantaria. Aqueles demônios a levariam, já que eu estava longe e eles se preparavam para o transporte.

— Irriel — Saraí me chamou chorando — Eu te amo.

Ela gritou ainda tentando se soltar, mas os dois demônios não demoraram um segundo para desaparecem, deixando apenas uma pequena faísca no asfalto.

ᴥ

— Sequestrada? —Lavínia e Aline gritaram em coro.

Eu tive que adaptar os fatos para que elas entendessem o que eu estava dizendo. Com certeza os anjos dariam um jeito nas memórias delas, era isso que eles estavam fazendo para encobrir a nova vida de Saraí.

— Pelo Criador — Ada dava voltas pela lanchonete — O que eu fiz?

Gael ficou a consolando. Ada era anjo da guarda de Saraí, seu trabalho era protegê-la em qualquer circunstância, assim como Merl fizera, mas a garota era mais nova que eu, talvez tivesse dois séculos de existência e a Salvadora era sua primeira protegida, responsabilidade demais para uma novata.

Ainda sentada em uma cadeira no canto da lanchonete, Scarlet estava paralisada. Seus lábios estavam vermelhos de tanto que ela os mordia. E seus olhos continuavam com o desespero estampado. Aproximei-me dela e vi quando seus olhos foram de desespero para urgência.

— Eu não tive escolha — ela falou assustada de forma que só eu pudesse escutar — Eles foram a minha casa... Marco, eu não sabia...

— Scarlet? — segurei seu braço enquanto ela caía em lágrimas — O que aconteceu?

—Uns caras estranhos foram em minha casa — ela disse com a voz tremida — Depois que vocês foram embora, aquele dia...

O dia que ela me beijara e que Saraí descobrira uma nova habilidade ao queimar minha mão.

— Eles colocaram fogo na minha garagem, quase queimaram tudo, se não fosse pelos seguranças, talvez eu estivesse morta — ela falou e eu estremeci, nunca queria coloca-la em perigo — Me ameaçaram para saber onde a Sara estava, mas eu não sabia! Então um deles pegou um celular e me mostrou um vídeo do João, eles estavam batendo nele... Marco, eu...

Scarlet se apoiava em meu braço. Os outros na lanchonete estavam ligando para a polícia.

— Eu disse que não sabia onde ela estava — ela fungou um pouco mais calma — Eles me jogaram um cartão de visita com um número de telefone. Disseram que se eu não ligasse para dizer o paradeiro dela, matariam toda a minha família e me deixariam viva para que eu passasse o resto da vida me lamentando por isso.

Os demônios deram um golpe baixo em Scarlet. Eu a conhecia tempo o suficiente para saber que sua família era o que ela mais prezava, mesmo que seus pais passassem mais tempo viajando e que João fosse um bandidinho que sempre se metia em confusão. Ela sempre me dissera que nunca poderia viver sem eles e agora estava chorando em minha frente com medo de perdê-los.

— Quando Lavínia me convidou para a festa surpresa, eu não tive escolha — ela confessou — João estava bem, mas eu sempre me recordava do que aqueles monstros me disseram. O resto você deve imaginar... Marco, eu estava com medo. Não queria o mal da Sara, talvez você não acredite...

— Scar — eu falei e a puxei para um abraço — Eu acredito. A culpa não foi sua.

Atrás de nós, a polícia chegava. Os dois policiais avaliavam cada parte da lanchonete para recolher provas. Lavínia chorava ao telefone, ela ligava para seus conhecidos. E os outros estavam com cara de quem sabia mais do que falavam, exceto Aline e o namorado, os dois estavam abraçados... Como Scarlet e eu.

— Senhor Marco Irriel? — um policial me chamou, soltei Scarlet e olhei para o homem negro e com cara de que passara a vida toda esperando um caso emocionante para alavancar a carreira na polícia — Eu sou o policial Morrison — ele me estendeu a mão e eu apertei, em cumprimento — O senhor é o namorado da vítima?

— Sim — eu respondi.

O homem anotava algo em sua caderneta.

— Diga-me o que viu — ele disse olhando diretamente para meus olhos, algo que poucas pessoas faziam, além de Saraí.

— Eu vi dois homens arrastando a Sara para um carro preto, talvez um Volvo... Não prestei atenção. Eu corri para tentar salvá-la, mas eles fugiram... — Tentei inventar algo convincente, contudo algo me dizia que o policial Morrison era mais astuto do que minha capacidade de inventar mentiras.

— Você consegue descrever esses homens? — ele anotava mais alguma coisa.

— Os dois eram mais alto que a média. E fortes também! — falei — Como eu disse, estava longe demais para ver muita coisa.

— Certo — ele continuou anotando — Obrigado.

Morrison desviou o olhar e passou para Scarlet que estava sentada em uma cadeira, atrás de mim.

— Ela está muito abalada — falei tentando intervir que ela a interrogasse. Seria melhor se os humanos não tentassem investigar o que acontecera.

— Scarlet Ferreira Melo? — o policial perguntou e Scarlet direcionou seus olhos azuis para ele — Se importa de responder algumas perguntas?

Ela olhou para mim e eu a incentivei para que continuasse. Depois me virei para sair dali, estava perdendo muito tempo. Eu precisava resgatar Sara... Só o Criador sabia o que aqueles demônios fariam com ela!

Notas finais
Espero que tenham gostado, deixe sua opinião. O que será que aconteceu com a Saraí? E a atitude de Scarlet, ela deveria ter falado?