Filha da Eternidade - Parte III
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Saraí
Meus braços e pés estavam presos à parede, mas desta vez eu estava sentada em uma cadeira miseravelmente dura e desconfortável. Após a conversa com Marshel fui mandada de volta para a sala suja onde fiquei boa parte do dia anterior. Contudo, agora estou em uma sala de tortura, sei disso porque consigo ver as manchas de sangue seco no chão e, vez ou outra, gemidos de dor passeiam pelo corredor, revelando que mais pessoas são torturadas. Meu coração batucava a ponto de meus ouvidos captarem as batidas abafadas. Eu estava sozinha, mas a qualquer momento meus algozes passariam pela porta e, com certeza, isso era amedrontador! Tentava me convencer de que era forte o suficiente para suportar quais fossem as torturas, eu devia seguir meu plano.
Seguir planos nunca foi algo fácil para mim. Era para eu estar comandando os anjos agora, no entanto, escolhi seguir meus sentimentos, o que me levava diretamente para Irriel. Será que ele pensou em mim enquanto estava sendo torturado? Uma pergunta um tanto doentia, eu sei! Eu desisti de me sentar no Trono ao me lembrar dele, ao lembrar-me do que Merl me disse e do que ela fez por mim, contudo, mais uma vez estávamos afastados, éramos como polos iguais, ambos parecidos, mas que sempre se afastavam.
— Ah Saraí — um demônio com um rosto oval e cabelos avermelhados falou ao entrar na sala —O trabalho sujo sempre sobra pra mim.
Ele segurava um chicote de couro na mão, na ponta eu conseguia ver pequenas taxas de metal brilhante. Meu corpo respondeu àquela frase com tremedeira e suor, é evidente que eu não conseguiria sentir dor.
— Vou te explicar uma coisa — ele falou agachado a minha frente, seu polegar se esfregava a minha bochecha que estava cheia de sangue seco — Demônios adoram torturas, é algo sagrado pra nós. Normalmente fazemos isso para um pequeno público, mas hoje teremos uma sessão especial. E adivinha quem será a estrela?
Que não seja eu.
— Você — ele se levantou com presteza — Mas não se assuste! Temos ordens para não te matar até que o superior nos permita. Basicamente teremos diversão por bastante tempo.
Ah merda! Aquilo estava fazendo com que eu sentisse ânsia de vômito. Tudo que eu poderia fazer era canalizar o medo, me manter tranquila era crucial para que tudo desse certo.
— Só para você saber —o demônio disse brincando com o chicote na mão —Eu sou Magnus.
Rapidamente o chicote estava se chocando com meu rosto. As taxas de metais a poucos milímetros de meu olho esquerdo. Não senti dor imediatamente, mas foi só quando o sangue escorreu de minha bochecha que pude sentir a ardência do ferimento.
—Agora você vai dormir — Magnus falou e nem senti quando algum objeto duro acertou minha cabeça com força.
ᴥ
Abri os olhos. Tudo estava escuro, apenas um filete de luz indicava que eu não estava cega. Eu não conseguia ver um palmo a minha frente e isso era agoniante. Continuava presa a cadeira e acorrentada à parede, mas não estava na mesma sala. Mesmo sem enxergar eu sabia que aquela sala era bem maior e o cheiro de queimado era mais marcante.
Um som de palmas me alarmou. No segundo em que o demônio bateu as mãos, a luz apareceu, me causando uma queimação desconfortável nos olhos. Era Magnus. Seus cabelos ruivos estavam alinhados e sua roupa era branca, algo incomum para um demônio. Observei a sala e vi que era realmente grande, caberiam dezenas de demônios ali e eu ainda estava em um patamar, ou seja, me colocaram no palco. No lado esquerdo do palco estava uma mesa média com alguns objetos estranhamente colocados sobre ela.
Magnus ficou atrás de mim e começou a amarrar meu cabelo, sem um pingo de delicadeza, em alguns momentos ele puxava minha cabeça com força para trás. Seus dedos passeavam por meu pescoço.
— É uma pena — ele falou — Essa sua pele bronzeada é tão bonita, não queria deixar tantas marcas.
Não ficaria marca alguma, disso eu sabia. Por sorte o sangue tomava conta do meu rosto ou ele teria percebido que não havia nenhuma cicatriz no meu rosto.
— Hoje teremos um evento — ele disse agora na minha frente.
O evento seria eu.
Minutos depois a grande sala foi preenchida por demônios. De todos os tipo e tamanhos, alguns com sorrisos amarelos, outros com olhos vermelhos, mas todos com suas roupas pretas e seus cheiros incomparáveis.
Magnus estava mexendo na mesa com instrumentos de tortura, meu olho evitava aquele lugar, também não queria olhar para os demônios a minha frente. Outro demônio segurava uma barra como as de marcar gado, e eu imaginei qual o propósito daquilo. Suor frio escorria por minha testa, o murmurinho dos demônios na sala me deixava tensa, era como se eles estivessem esperando algo acontecer. Magnus pegou a barra na mão do outro e ficou parado em minha frente.
—Podemos cancelar tudo isso. Basta que você dê as informações — ele segurava a barra de ferro, que estava vermelha na ponta por causa da alta temperatura.
Fiquei em silêncio. E parecia que a sala também estava em silêncio. Fechei os olhos com medo do que viria a seguir. Magnus não teve piedade, ele queimou minha bochecha. Os demônios riam dos meus gritos de desespero. E eu gritava muito. Parecia que eu estava vendo tudo de cima. Meu rosto sendo queimado sem piedade. Magnus ria de mim, e parecia sentir prazer com minha agonia. Minhas pernas faziam impulso para levantar, só que eu estava presa.
—Essa aqui é persistente, não vai falar — Magnus gritou para os demônios e eles uivavam de alegria.
Meu rosto ardia tanto que eu chorava sem perceber. O demônio estava segurando um alicate nas mãos. Seus olhos brilhavam e sua língua umedecia os lábios com malícia. Eu não estava gostando daquilo! Magnus me fitou, ele apoiava a mão no encosto da cadeira e me encarava a poucos centímetros.
— Conte o que sabe — ele sussurrou.
—Eu não sei — gritei estridente.
Recebi um soco no rosto. Senti quando meus dentes quase se soltaram da gengiva, por sorte tenho uma alta resistência, porém isso não me impediu de morder minha língua, o sangue encheu minha boca.
—Vou te dar outra chance — Magnus estava de novo a poucos centímetros do meu rosto. Seus olhos analisavam os meus.
Eu tinha que cuspir o sangue para falar. E foi isso que fiz. Na cara de Magnus, que berrou quando o líquido vermelho sujou seu rosto mesquinho. Ele fez cara feia e apenas limpou o rosto com a mão. Os demônios da sala ficaram em silêncio, como se esperassem a melhor parte do show. De repente minha mão estava sendo puxada por Magnus, ele não estava mais com um sorrisinho, agora estava com ódio transbordando.
—Foi você quem pediu — ele disse e posicionou o alicate para arrancar a unha do meu dedo mindinho.
Eu poderia dizer que estava morrendo. Não era nenhuma super heroína, eu era apenas Saraí, tinha acabado de sair da adolescência e estava morrendo de dor e medo. Magnus arrancou outra unha e a dor foi insuportável.
— Por... Favor — choraminguei.
— Por favor, o quê? — ele disse posicionando o alicate em outra unha.
Fiquei muda novamente. Eu não poderia falar o que sabia. Magnus arrancou a unha do polegar e eu dei um grito coberto em lágrimas. A plateia de demônios estava adorando o que estava acontecendo.
— Conte para nós, Saraí — Magnus disse com uma voz envolvente.
Continuei em silêncio. Ele soltou minha mão e foi até a mesa. Eu pude respirar por alguns segundos. Pouquíssimos segundos. Mas Magnus estava de volta com seu chicote. Eu não ia aguentar mais aquelas torturas.
— Tirem a blusa dela — ele ordenou para os demônios que estava atrás da minha cadeira.
—Não — eu murmurei.
—Vai dizer alguma coisa?
Silêncio.
Um dos demônios rasgou minha camiseta e me deixou apenas de sutiã. Nem tinha espaço para que eu sentisse vergonha, só havia dor, muita dor. Depois que fizeram isso me retiraram da cadeira e me levaram para um tronco que estava do lado direito do palco. Parecia algo tirado da escravidão. Fui presa nas correntes e fiquei uns minutos apenas estendida de pé no tronco. O tremor tomava conta de mim. O pior parte era que aquele não era fim. Minhas mãos estavam colocadas para cima, por isso o sangue das pontas dos meus dedos escorria por meu braço.
— Me diga... — Magnus sussurrou em meu ouvido. Suas mão apoiadas em minhas costas — Uma informação que nós não saibamos e você sairá daqui... Apenas uma.
Sua voz parecia infiltrar em meu cérebro como música grudenta. Mantive meu silêncio. E ele pareceu mais irritado quando me deu uma chicotada. O chicote era diferente, nesse havia pequenos pregos nas pontas e estes se infiltravam em minha pele. Conseguia sentir quando minha pele era rasgada. Dor... Dor... Muita dor.
Irriel. Eu pensava nele. Talvez para me distrair, mas eu só poderia pensar em quanto eu gostaria de estar ao seu lado. Ninguém gostaria de estar sendo torturado, é óbvio.
— Joguem o ácido — Magnus gritou.
Um líquido acertou meus machucados. E como sempre, gritei. Eu já não tinha forças, teria caído se não estivesse sendo segurada por correntes. Não estava mais aguentando.
— Para — falei tão baixo que nem imaginei que seria ouvida.
— O que disse? — Magnus chegou mais perto de mim, agora ele estava no meu campo de visão — Vai me dizer?
Mas eu não conseguia falar. Eu não tinha mais voz. Estava tão machucada que a voz desaparecera de mim, só que o demônio não sabia disso, para ele eu ainda me recusava a falar.
— Não tenho opção — ele gritou para todos — Vamos ter que deixa-la morrer.
Os demônios gritavam em aprovação.
— Levem-na para o caixão — Magnus disse aos dois demônios que estavam no palco.
Caixão. Senti pânico. Eles iriam me enterrar viva?
— Caixão da tortura — o demônio falou exclusivamente para mim — Um instrumento da Idade Média, eu particularmente adoro.
Eu estava sendo arrastada até uma gaiola estranha. Os demônios me colocaram dentro dela, só que era tão pequena que eu nem sequer podia mexer a cabeça. Meus braços eram esmagados por meu próprio corpo. Fui empurrada para o caixão da tortura, os demônios tiveram que forçar a porta para que se fechasse. Aquilo era um horror, algo inimaginável. Quase não havia espaço para que meus pulmões se movimentassem. Em um movimento brusco vi que estavam me levantando, como se eu fosse um passarinho em uma gaiola. Minha voz estava de volta, contudo eu só conseguia gritar coisas sem sentido.
Eu estava perdendo a consciência... Só conseguia ver a escuridão tomar conta de mim e, por fim, pude sentir um pouco de alívio.
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