Filha da Eternidade - Parte III
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Irriel
Dois dias depois do encontro com Úrsula eu continuava a sair atrás de pistas. Saraí estava em Sheol e minha principal missão era encontrar uma forma de entrar lá. A estrada estava cheia de carros, a maioria das pessoas pareciam estar curtindo as férias. Ziguezagueei por entres os veículos para pode ir mais rápido. A alta velocidade fazia com que o vento batesse forte em meu rosto, porém minha única meta era chegar rápido a Fortaleza dos Anjos Caídos. Minha mente dizia que Arghaus era inteligente o suficiente para me ajudar a entrar em Sheol.
Parei em frente ao portão dourado da Fortaleza. Os olhos dos Caídos pairavam em mim, fazia um tempo que eu não aparecia ali. Na maior parte do tempo conversava com Arghaus por telefone. Entrei na mansão e encontrei o líder sentado em seu sofá habitual, em suas mãos um jornal repousava e sua atenção estava para as notícias.
— Isso é ruim — ele olhou para mim como se já soubesse de minha presença antes de eu entrar na casa — Mortes, mortes, mortes. Esses humanos não se cansam... É por isso que temos que afastar esses demônios. A única coisa que fazem é levar seu ódio para esses infelizes.
Sentei-me ao seu lado e olhei para o jornal. A manchete dizia que uma bomba explodira em uma grande cidade do país, deixando vários mortos. Pensei em como a guerra dos tronos estava influenciando os humanos, ele não eram tão bondosos quanto deveriam ser. Foram tão mal acostuMagos que se achavam no direito de matar, destruir o planeta e pisar em tudo e em todos. Claro que tudo tem o seu preço...
— O que faz aqui, Irriel? — Arghaus largou o jornal e me fitou.
— Saraí está em Sheol — falei quase aflito — Úrsula me disse. Eles vão tortura-la.
— Ela é imortal — Arghaus disse calmo demais para meu gosto.
— E isso lá é vantagem? — falei um pouco irritado — Se ela fosse mortal talvez já estivesse livre do terror que é ser torturado. Eu a conheço, ela não vai dizer nada. Eles vão tirar tudo dela.
Arghaus parecia não se importar com o que eu dizia. E isso me tirou do sério.
— Você não diz nada? — falei entredentes — Arghaus, preciso da sua ajuda!
— Não posso ajudar — ele disse solene, sem cerimônia.
— Por quê? — eu estava incrédulo.
— Você não tinha desistido da guerra? — ele perguntou — Você me disse para te tirar do Pacto de Sangue.
— Não me responda com uma pergunta —esbravejei — Por que não vai me ajudar?
— Por que não quero e não posso — ele disse calmo e voltou a ler o jornal.
Puxei o jornal de sua mão e voltei a falar:
— E o Pacto que você fez com ela? — lembrei-o — Você devia protegê-la.
— Faça isso você — ele me desafiou.
Levantei em um pulo. Eu não bateria nele, o respeitava demais para isso, mas minha vontade era de quebrar a cara dele.
— Você está traindo ela — falei — Você sabe que sozinho eu não consigo entrar em Sheol.
— Você a traiu quando não quis participar do Pacto —ele me acusou — Não seja hipócrita, Irriel. Você a traiu quando não se comprometeu a lutar a guerra dela.
— Lukiel saberá da sua traição, Arghaus! — o alertei e fui embora da Fortaleza sem olhar para trás.
Sem a ajuda de Arghaus seria quase impossível entrar em Sheol, ele sabia disso. Estava me prejudicando porque tinha um propósito e eu não sabia qual.
ᴥ
Voltei para a casa de Scarlet. Já se contabilizava seis dias do sequestro de Sara. Assim que entrei na sala da mansão de Scarlet, ela veio me abraçar chorando. Era comum ela chorar, principalmente porque se sentia culpada, mas mesmo que ela não tivesse avisado aos demônios, eles saberiam do paradeiro de Sara. Foi uma grande burrice deixa-la voltar a Eretz.
— Marco — ela chorou abraçada em mim — Eles voltaram.
Fiquei alerto.
— Eles? — perguntei na esperança de ser outras pessoas e não demônios.
— Você sabe — ela pousou seus olhos lacrimejantes em mim — Eu estou com tanto medo.
— Calma — eu a levei para o sofá — O que eles fizeram? Te machucaram?
—Não — ela se acalmava — Mas deixaram aquilo pra você.
Ela apontou para uma caixinha do lado da luminária.
— Falaram que só você poderia abrir — ela continuou.
Fui até a pequena caixa amarela no chão. Ela parecia um presente, tinha um grande laço vermelho e um envelope entre as fitas de cetim. Abri o cartão e li.
Uma lembrança.
A letra era bem trabalhada. Senti um arrepio com aquilo, nada de bom estaria ali dentro. Desfiz o laço vermelho e retirei a tampa. Scarlet estava do meu lado quando vi o que estava dentro da pequena caixa de papelão.
— Oh meu Deus —Scarlet soluçou — Isso não é dela, é?
Suspirei quando peguei uma das três unhas que estavam na caixa. Sim, era de Saraí. Os malditos, desgraçados, filhas da mãe arrancaram as unhas dela e me mandaram de presente.
—Sim — falei baixo.
— Temos que avisar a polícia — ela correu ainda chorando para o telefone.
— Scarlet, não! — a impedi, ainda segurando a caixa — Temos muitos problemas, não vamos colocar a polícia.
—Marco, mas eles estão investigando — ela disse tentando me convencer.
—Scar — eu disse — O problema é maior do que você pode imaginar.
— Então me explica — ela levantou corajosa — Você passou os últimos dias fora, sumiu. Esses caras ficam vindo a minha casa e ameaçam minha família. Sinto em te informar, mas acho que já estou mais dentro disso do que você imagina!
— Scar...
—Não, Marco — ela falou alto —Eu estou com medo! Você não vê? Não posso ficar as cegas nessa história. Me diz o que preciso saber...
— Você não precisa saber... — a campanha tocou, interrompendo-nos — Eu abro.
Abri a porta e vi Gael, o anjo da guarda de Scarlet. Eu descobrira isso pouco depois de Sara ter sido levada. Ele sempre cuidou dela, mas com os últimos acontecimentos, até os anjos da guarda estavam ajudando na guerra. Deixei-o entrar.
—O Chefe me alertou sobre os demônios — ele disse apenas para mim — Estou aqui para cuidar dela e um soldado está na região para vigiar.
Concordei com a cabeça e o levei para a sala, onde Scarlet estava sentada no sofá, ereta. Ela só vira Gael na festa, mas era extraordinário como, anjos da guarda e protegidos tinham afinidade. Poderia dizer que já eram amigos de longa data, principalmente pela forma que Scarlet o abraçou e chorou em seu ombro.
Aproveitei que ela estava protegida e saí. Agora eu precisava achar uma forma de salvar Saraí. A imagem das unhas dela na caixa de presente sempre iria me perturbar se eu não a salvasse.
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