Filha da Eternidade - Parte III
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Saraí
Tive tantos pesadelos na noite anterior que não havia possibilidade de eu sair do quarto. Jogar aquelas alma no fogo eterno fez com que eu me sentisse perdida, eu não poderia ter feito aquilo. Tudo era muito novo e assustador, cada vez que eu fechava os olhos me concentrava no meu interior. Eu estava descobrindo novas partes minha, somos feitos de muitas partes, mas elas nunca ocupam o mesmo lugar, cada uma tem um espaço próprio. A cada dia eu descobria uma dessas partes e me surpreendia. Entregar aquela alma despertou meu lado negro. O lado que seria melhor nunca descobrir.
Mag abriu a porta do meu quarto sem nem mesmo bater. Ela não ia muito com minha cara e isso era evidente.
— Essa é a roupa para hoje — ela jogou tudo sobre a poltrona e saiu sem esperar que eu falasse algo.
Vi que era um vestido azul marinho. Ele era longo e com a frente única. Fui ao banheiro e me troquei. Hoje era o penúltima etapa do Himeneu e o último passo para o início da guerra. Lukiel sabia que quando o galpão fosse atacado ele teria dois dias para atacar Sheol. E foi muito propício, pois todos estavam preocupados com a cerimônia. Até Úrsula estava se empenhando com o casamento, como se me ver casada com um demônio fosse sua meta de vida.
Alguém bateu a porta. Era Marshel. Ele não falara comigo e eu ficara agradecida. Fomos até um quarto no mesmo andar em que estávamos e ele mandou que eu entrasse. Depois fechou a porta e me deixou sozinha com Magnus. Eu não me casaria, isso era fato, mas Magnus não era tão ruim quanto ele dizia ser. Sentei-me ao seu lado no único sofá do quarto.
— Obrigada por ontem — falei lembrando como ele me ajudara no dia anterior.
— Não me agradeça — ele falou com o mesmo tom de sempre — Parece que não lembra que eu te torturei.
Fitei-o. Ele era um casca grossa. Não se importava com os sentimentos de ninguém.
— Você se sente culpado? — perguntei e ele continuou olhando para o nada.
— Não, só não gosto que fiquem me agradecendo.
— O que eles vão fazer hoje?
—Nada de bom — agora ele me observava — Vão trazer algo do passado. Assim saberão se estamos dispostos a ser um do outro.
— Você já viu um Himeneu? — perguntei curiosa.
— Nunca — ele respondeu — Esse é o primeiro em cinco séculos.
Fiquei surpresa.
A porta foi aberta e Crod entrou sorrindo de orelha a orelha. Magnus e eu levantamos, mas não estávamos nem um pouco animados. Ele estendeu a mão para mim e seguimos Crod de mãos dadas. Descemos as escadas e paramos perto do altar. A área estava ocupada por muitos demônios. Magnus e eu paramos quando vimos o que estava a poucos metros do fogo eterno, representando nosso passado.
Olhei para Magnus e ele parecia atormentado. Já eu sentia que estava a ponto de ter um ataque de fúria. Preso em um tronco estava Irriel. E do lado dele estava uma alma, que parecia ser de uma moça. Aquele era o passado de Magnus, mas os demônios erraram: Irriel não era só meu passado, ele era meu presente e meu futuro.
— O que eles estão fazendo? — perguntei a Magnus.
Seus olhos vermelhos estavam fortes e seu corpo tremia de raiva. Pelo visto aquela alma era muito importante para ele. Na nossa frente, Crod mandou que continuássemos andando. Eu fui e puxei Magnus. Ficamos parados em frente à Irriel e a alma. Úrsula estava de pé, olhando para nós e para os demônios com um sorriso de falsa felicidade. Essa era a vingança dela.
— Bem vindos, noivos — ela disse para nós — Apresento-nos o passado.
Ela apontou para Irriel e a alma, que agora se contorcia.
—Um anjo da guarda que se apaixonou por sua protegida — Úrsula falou e apontou para Magnus — Aqui temos o passado dele. A alma da garota. Encontramos em sua homenagem, Magnus. Para que você possa dar um fim justo a ela.
Magnus não parecia bem. Ele olhava para Úrsula com tanto ódio que eu poderia jurar que ele a atacaria a qualquer momento.
— E o traidor que se apaixonou pela garota que devia matar — Úrsula continuou a destilar seu veneno — Saraí, você provará a sua lealdade a nós quando o traidor estiver no fogo eterno jogado por suas mãos.
Agora era eu que queria matar Úrsula. Ela olhava para Irriel como se tivesse vencido a guerra. E ele olhava para mim como se não acreditasse que ficaríamos juntos. Eu não iria chorar, mas estava me esforçando muito para não correr até ele. Todos olhavam para Magnus e eu. Ele ainda segurava minha mão.
— Você deve começar, Saraí — Úrsula abriu caminho para que eu fosse até Irriel — Leve-o até o altar.
Soltei a mão de Magnus e fui até o tronco onde Irriel estava preso. Os demônios que estavam de guarda o soltaram e eu pude ficar bem próximo a ele.
— Vou dar um jeito nisso — falei baixo só para que Irriel escutasse.
Fiquei parada olhando para Irriel. Os demônios queriam que o empurrasse logo para o fogo, porém eu nunca faria isso. Queimei o rosto dos guardas com o meu olhar e corri para soltar a alma. Irriel lutava com os demônios, até Magnus estava batendo em seus companheiros. Soltei a alma da garota e a segurei.
Depois corri para longe da confusão com a alma nas mãos. Ela falava em minha mente. Magnus... Me leve até ele. Olhei para trás e vi que ele estava imobilizado por Crod. E Irriel corria em minha direção. Eu não sabia mais o que fazer. Os demônios estavam perto de mim...
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