Filha da Eternidade - Parte III
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Saraí
Era incrível como eu estava bem em Sheol. Nunca pude imaginar que eles fossem acreditar em mim tão facilmente. Eu apenas falei sobre os Caídos, e Úrsula acreditou em mim, ela acha que eu quero me vingar dos anjos. O meu plano estava dando certo, há essa altura Lukiel e Arghaus já sabiam que os demônios caíram na rede. Não fora fácil convencê-los a me deixar entrar em Sheol, mas agora que estou, só saio quando tudo isso terminar.
Úrsula me dera uma suíte no quarto andar do grande prédio de Sheol, era ali que ela e os demônios mais importantes ficavam. E eu era importante para eles, claro que demônios não eram calorosos e hospitaleiros, contudo não me faziam mal. Nem mesmo Marshel cruzava meu caminho. Os únicos que eu via era Úrsula, Magnus e Neur, que aparecera para me dá boas vindas. Ele nem era tão ruim quanto os outros. Já Magnus era o poço da indiferença, às vezes ele era encarregado de vigiar meu quarto — Úrsula não admitia que eu era vigiada, porém sempre colocava alguém para ficar na porta do quarto —, mas agia como se nunca tivesse me torturado. Para ele aquilo fazia parte do trabalho.
Sempre que eu fechava os olhos me lembrava de Irriel. No que ele estaria fazendo, se Lukiel conseguiu o acalmar. Sei muito bem que ele não iria aceitar o meu plano, foi por isso que eu não o contei nada, para evitar despedida e tristeza. A ideia da festa surpresa veio por isso, ali eu pelo menos veria as pessoas que eu amo e teria uma boa última lembrança.
Alguém bateu a porta.
— Úrsula mandou eu te entregar isso — era Magnus, novamente ele devia me vigiar. Peguei o vestido que estava envolto em um plástico — Teremos um jantar hoje.
—Vocês não comem criancinhas, não é mesmo? — perguntei tentando quebrar o gelo. Eu estava muito sozinha naquele lugar e Magnus era o único que não parecia se importar com tudo que estava acontecendo. Eu tentava ignorar o que ele me fez há alguns dias.
— Só no dia de Ação de Graças — ele falou sério e saiu do quarto — Te busco em vinte minutos.
Pelo visto piada não era o forte dos demônios.
Abri o plástico e olhei para o vestido. Um longo, tomara-que-caia, com uma saia bem rodada e como sempre era preto. Um vestido para uma gótica. Sorri com esse pensamento. Sorri com a ideia de jantar com demônios, esperava mesmo que só houvesse comida normal na mesa. Fui até o banheiro e comecei a me trocar. Depois prendi meu cabelo em um rabo alto, peguei um batom vermelho que estava em uma gaveta e passei. Não iria me arrumar tanto para um jantar.
Não sei quais eram os planos de Úrsula para mim. Só o que eu tinha certeza era que ela iria querer algo de mim e eu teria que aceitar, se eu quisesse a confiança dela. Sai do banheiro e me olhei no espelho, à perfeita gótica. Sentei-me na cama e esperei até que Magnus aparecesse. Dez minutos depois ele estava na porta.
Saímos do meu quarto e andamos para o terceiro andar, onde certamente estaria a sala de jantar. Magnus segurava meu braço sem apertar, era até um ato delicado. Chegamos. Uma mesa com dez lugares estava posta, dois estavam vazios. Magnus puxou a cadeira para mim e depois sentou ao meu lado. Éramos os últimos a chegar. Úrsula estava na ponta. Do lado direito estava Marshel e do esquerdo um demônio baixinho, Crod, ele era o conselheiro. Neur também estava à mesa. E outros que eu nunca vira.
— É uma honra ter a Salvadora em nossa mesa — Úrsula comentou com um sorriso — Espero que goste do jantar, mas antes iremos agradecer a você. Avisou-nos sobre os caídos, expulsamos traidores de Sheol.
Todos pareciam satisfeitos.
— Contudo — ela continuou — Confiança é algo que nossa família preza. E você não é da família, Saraí.
Engoli em seco. O que ela estava insinuando? Será que ela acha que vou entrar para a família? Que engraçado.
— Bom, teremos um casamento — ela disse alegre, uma alegria mórbida.
— O quê? — perguntei rindo, só podia ser uma piada.
Mas a expressão de Úrsula não era de piada.
— Ora, não podemos confiar em você se não for da família — Crod disse.
Casamento. Por essa eu não esperava mesmo. Casar com quem? Quando? E para quê? Eu nunca imaginei algo assim de demônios, eles são tão liberais. Casamento é casto demais para eles.
— Veja bem — Úrsula falou — É muito comum usar o casamento para unir duas famílias.
— E vocês querem que eu me case com quem?
Imaginei Marshel se casando comigo. Isso eu não aceitaria. Ele já havia me atacado, se estivéssemos casados ele iria fazer o que quisesse comigo. E Irriel? O que ele acharia disso?
— Magnus — Marshel disse a contragosto.
— Eu? — Magnus disse com tom de surpresa, pelo visto ele não sabia dos planos de Úrsula.
—Sim! Você irmão — Neur disse com o seu típico sorriso irritante.
—Mas, eu não posso me casar — falei tentando achar uma solução.
— Por quê? —Úrsula prestou a atenção em mim — Certamente não é por causa de algum namorado.
Ela sabia de Irriel. Eu ouvira a mente dela. Úrsula queria me afastar dele, ela havia encontrado com ele dias atrás! Eles tiveram um caso! Essa era a vingança dela, que ridícula! Saber disso me deixou desconfiada. Úrsula não era mesmo flor que se cheire, ela iria querer acabar comigo assim que eu virasse as costas. Aquilo era algo pessoal para ela. Era de se esperar que Irriel tivesse conhecido outras mulheres, mas logo Úrsula? Olhei para Magnus e ele parecia que iria explodir ali mesmo na mesa.
— E-e-eu aceito — gaguejei. Era bem difícil dizer aquelas palavras.
Dito isso, Úrsula bateu palmas com uma falsa felicidade. No entanto, Magnus saiu da mesa e derrubou sua cadeira. Ele nem olhou para ver a reação dos outros. Apenas saiu da sala.
— Ele é assim — um demônio disse — Mas em breve aceitará. Não é todo mundo que pode se casar com a Salvadora.
Todos riram menos eu. Depois fizeram um brinde com o vinho tinto que estava nas taças.
O jantar tinha sido horrível. Para os demônios estava tudo maravilhoso, mas para mim era o pior dia possível. Eu teria que agir antes desse casamento ser consumado.
ᴥ
Voltei para a suíte com uma sensação desconfortável, era isso que os demônios passavam para as pessoas. Como se não existisse alegria no mundo que pudesse me tirar do fundo do poço. O jantar havia sido um desastre para mim, eu esperava qualquer coisa, menos que teria que casar com Magnus, o cara que me torturou sem piedade. Isso era tão estranho! Demônios seguiam os sete pecados com tanta veemência, casamento era puro demais para eles. Contudo, eu sabia o motivo disso, era porque Úrsula queria afastar Irriel de mim. Essa era a prova de lealdade que ela queria de mim.
Troquei minha roupa e saí do quarto. Eu não estava me sentindo bem e talvez houvesse algum lugar no prédio onde eu pudesse respirar. Andei pelos corredores escuros e cálidos. O ar era tão fraco que meu pulmão se esforçava para conseguir um pouco de oxigênio. Sheol era o pior lugar para se estar, tudo ali exalava maldade. Continuei minha caminhada pelos desconhecidos corredores e parei quando vi uma área aberta. Havia oxigênio. Fiquei na sacada olhando para o lugar horroroso, no horizonte eu conseguia ver fumaça proveniente de vários lugares. Olhei para baixo e vi Magnus sentado no parapeito, ele não me viu.
Esgueirei-me pela proteção e pulei até onde ele estava. Magnus me viu, mas me ignorou. Sentei-me ao seu lado e continuei olhando para o horizonte.
— Oi — falei.
Ele me ignorou.
— Eu não pedi para casar com você — falei olhando para ele, seus olhos vermelhos estavam chamando minha atenção.
— Olha aqui — ele se virou para mim — Eu não sou o príncipe encantado. Não sou bonzinho, não me apaixono, não tenho coração! Não ache que vamos ser um casal feliz, isso não existe aqui!
Voltei a olhar para o horizonte, em silêncio. Claro que ele não era meu príncipe, eu já tinha o meu e ele estava bem longe. Pensar em Irriel me fez chorar. Magnus continuou sentado e me ignorando.
— Se eu tivesse que te torturar novamente, eu faria — ele disse ignorando minhas lágrimas — Não sou a fera que ganha um coração depois que a bela moça cuida dele.
Levantei e comecei a subir para a saída. Demônios sempre despertavam o pior lado de alguém. Eu nem sabia o que responder a ele, minha vontade era de empurra-lo dali, porém só saí e voltei para meu quarto ainda chorando de saudades da minha família.
Caí na cama assim que abri a porta. Fechei os olhos e pensei em Irriel. Onde ele estaria? Será que ele estava me procurando? Ou Lukiel contara a verdade a ele? Ele poderia estar me odiando agora. Suspirei e dormi sem nem mesmo perceber. Mas algo foi diferente...
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