Fight for the cure
1 John

“O que devemos fazer agora?”
A pergunta sussurrada, mesmo e apesar de todo o esforço para demonstrar coragem, traiu a agitação e o temor do jovem agachado junto à porta.
Seu cabelo claro estava escondido pela boina, seu rosto estava sujo de terra e sangue, seu corpo magro estava oculto pela jaqueta que era uns bons dois números maior que ele, e em suas mãos, com desenvoltura, ele empunhava uma remington 870 sem qualquer receio de seu tamanho e potência.
A garota a quem ele dirigira a pergunta, que poucos perceberiam ser mais nova que ele se não dessem uma boa olhada, talvez nem assim, ponderava antes de dar a resposta, pois sabia que dali em frente qualquer ação resultaria em uma chance para muitos ou o total fracasso da empreitada.
“Eles estão distantes e não podem sentir nosso cheiro. Acho que ainda temos tempo para manter o plano e verificar o galpão em busca de mantimentos”
Olhando rapidamente para o grupo silencioso atrás dos dois resolveu que realmente não tinham tempo a perder.
“Giles verifique os fundos. Anton a esquerda. Meg a direita.”
A garota não tirava os olhos dos movimentos do lado de fora do prédio.
John a encarou por um momento, erguendo o rosto para a sua figura sombria, em pé junto à porta.
“Não acho que tenha sido uma boa idéia vir aqui.”
“Vir aqui não foi uma opção.” Ela respondeu olhando pela primeira vez ao rapaz.
“Pegue Lucy e recolha o máximo de mantimentos que puder carregar. Estoque na porta de entrada em seis cargas. O de sempre John, nada de frescuras. Dê prioridade aos medicamentos. Você tem cinco minutos a partir de agora.”
John sacudiu a cabeça e se pôs em movimento. Apesar de mais velho a garota que os liderava tinha conquistado seu lugar, não por que fosse a mais forte, ou a que melhor sabia manejar uma arma, mas por que era a única a quem todos realmente escutavam e respeitavam.
Com a habilidade adquirida ao longo daqueles quase quase cinco meses John se esgueirou entre as caixas do galpão, a arma empunha e engatilhada. Lucy o seguia com passos de um gato, algo que a ajudou a manter-se viva durante muito tempo antes de se juntar ao grupo.
Devagar John parou erguendo o braço. Com alguns gestos apontou alguns pacotes de garrafas d’água. Lucy encheu duas mochilas e entregou a John, passando a recolher o máximo de enlatados quanto pudesse.
Deixaram as mochilas, tomando nota do local e se esgueiraram em busca das caixas com o emblema da Cruz Vermelha. Ao encontarem começaram a encher uma mochila com o máximo de seringas, bandagens, antibióticos e o que mais pudessem carregar.
Sabiam que a área do supermercado, naquele imenso galpão que parecia ter sido usado como estoque do exército e outras organizações governamentais logo no início da epidemia, era uma das mais perigosas da cidade. Eles perambulavam por ali aos montes e se escondiam em seu interior como um bando de ratos fazendo ninho. Entretanto, como bem dissera Sam, não havia escolha. Não agora. Não quando enfim um raio de esperança havia simplesmente surgido das trevas para lhes dar, quem sabe, um futuro.
John olhou para o relógio onde o cronômetro corria. Aproximou-se de Lucy e tocou em seu ombro. Quando ela o encarou mostrou-lhe dois dedos, sem deixar de guardar o perímetro.
Uma sombra à esquerda o assustou de morte. Sentindo a adrenalina tomar seu corpo puxou Lucy pelo braço para as sombras no canto, colocando uma das mãos em sua boca para abafar qualquer som que ela pudesse inadvertidamente fazer.
E seus piores temores enfim se concretizaram quando o dono da sombra por fim se aproximou o bastante para que pudessem vê-lo.
Homem, branco, calvo, paletó rasgado. Seus passos eram arrastados e incertos. A carne pendia de seu flanco esquerdo deixando parte das tripas escaparem e se arrastarem pelo chão. Parecia alheio a presença dos dois escondidos nas sombras. Mas John sabia que se ele se aproximasse mais iria lhes sentir o cheiro, teriam que lutar e muitos outros apareceriam.
Estava se preparando para pegar a faca e se arriscar em uma luta corpo a corpo, quando o morto vivo foi atacado por trás em um golpe certeiro na cabeça. Caído ainda tentou se erguer, mas Giles foi mais rápido o acertando novamente, estraçalhando seu crânio.
Se havia algo que poderia dizer de Giles era que ele sempre preferia seu bastão de beisebol a shotgun que sempre carregava. E, no corpo a corpo, alto, musculoso e com aparência bem mais velha que seus dezesseis anos, ele podia dar conta de uma daquelas coisas no mano a mano sempre que quisesse.
Seu sorriso branco rasgou seu rosto de ébano quando ele os encarou. E John se perguntou por que ele sempre tinha esse sorriso nos lábios mesmo quando tudo desmoronava ao redor.
Afastaram-se do cadáver, encheram mais duas mochilas e se dirigiram ao ponto de encontro, tudo no mais completo silêncio, como Doug os ensinara nos primeiros meses do grupo.
A um canto Meg os esperava com seus cabelos vermelhos escapando da boina, os olhos verdes assustados. De todo o grupo ela sempre fora a que menos inspirava confiança. Não por que não fizesse parte da família, e sim por que em todas as suas atitudes o medo em seus olhos, aquele perceptível tremor em suas mãos, a tornavam a menos qualificada para qualquer tarefa. Contudo, Sam depositava nela uma confiança irrestrita, como em todos do grupo e nada poderiam fazer a não ser estar mais atentos ou passar a garota às tarefas menos arriscadas.
Cinco minutos depois se reuniram próximo ao ponto inicial. Agachados formavam um círculo.
“A porta do galpão está lacrada, porém muitos deles estão se movimentando daquele lado” Anton notificou agarrando sua parte da carga.
“Pela direita dois caminhões bloqueiam a entrada. Não dá para sair por ali.” Meg falou com a nota trêmula que já lhe era peculiar.
“A saída dos fundos está limpa” Giles declarou “Mas há um grupo a esquerda que me pareceu muito perigoso.”
“Frescos?” Sam perguntou.
“Sim. Jovens, homens” Giles alertou “Devem ser rápidos como o inferno”
Sam agarrou sua mochila e calculou quanto cada um carregaria ao longo de menos de um quilômetro até o veículo, além das armas, facas e munições.
“A frente está tomada. Mais são os podres em sua maioria. Teríamos uma boa folga antes que algum nos visse ou sentisse nosso cheiro, além de uma boa dianteira em uma perseguição.”
“Os podres também podem correr muito Sam. E com todo esse peso...” Meg declarou temerosa.
John podia simpatizar com a garota, mas, por Deus, às vezes tinha vontade de enfiar qualquer coisa que pudesse calar aquela voz de mocinha em perigo de filmes antigos do velho oeste.
Sam estava procurando lhes dar a melhor opção. A tensão em seu rosto jovem denunciava toda a preocupação que todos ali colocavam em seus ombros desde que o Ray tinha sido devorado há um mês e o último adulto do grupo por fim morrera os deixando sozinhos naquele caos.
“Temos um plano Meg, precisamos de tudo o que pudermos conseguir para chegar ao nosso destino. Não somos só nós agora. Não é só nossa sobrevivência.”
Sam encarou a todos.
“São uns sete podres do lado esquerdo à frente. A ranger está mais ou menos mil metros ao sul. Vamos ter que ir em frente e depois dar a volta. Vai demorar um pouco mais que o previsto, mas com certeza vai ser mais seguro.”
Sam olhou a todos em busca de apoio ou novas idéias, como sempre. Quando nenhum deles contrapôs e alguns simplesmente concordaram com seu plano. Resolveram partir.
“Então é isso. Giles e John retaguarda, Anton comigo, Meg e Lucy no meio.”
Sam se ergueu emseus quase um metro e setenta, com todos a acompanhando.
A porta do armazém rangeu um pouco ao ser aberta. Nada que os pusesse em perigo. Em fila indiana, guardando suas posições, cada um dos adolescentes se pôs a caminho.
Como Sam descrevera, um grupo de não mais que sete dos mortos vivos se aninhavam em bando de caminhar errático e circular a esquerda. Estavam naquele estágio que costumavam chamar de podres: Inúmeras feridas, pele seca, ou quase nenhuma, braços faltando, pernas quebradas, face lacerada.
Mas os desgraçados podiam ser rápidos quando queriam como bem alertara Meg. Por isso tinham que ser cautelosos e sorrateiros.
Apesar das probabilidades a saída fora mais calma que o esperado. Nenhum podre ou fresco os viu. Nenhum tiro foi disparado. John pode ver a tensão abandonar o grupo a cada metro que se afastavam do prédio e da cidade.
Por fim alcançaram a ranger e puderam se dirigir ao local que chamavam de lar há um mês.
A primeira parte da missão estava concluída. Agora o plano seria posto em prática e uma jornada para o leste começaria. Não em busca, mas para encontrar alguém a quem pudessem entregar o que eles esperançosamente chamavam de a cura.
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