Fight for the cure
2 Sam

“A – você pula pela janela? B – você dá um tiro na própria cabeça? Ou C – você se deixa devorar e se transforma em um desses bastardos?”
“Olha a boca Anton.” Retrucou Sam olhando pelo retrovisor.
“Desculpa mãe.” O garoto de dezesseis anos respondeu sorrindo e mostrando a língua.
“Por que você sempre tem que ser tão deprimente?” Meg perguntou se aconchegando mais ao Giles, agarrando seu braço e descansando a cabeça em seu ombro forte.
“Deprimente é uma garota se atirando para um cara que não está interessado” Anton respondeu em uma direta certeira. “Vamos lá Giles, responde cara. O que você escolheria?”
“Sei lá, maninho. Se não há nenhuma saída desse prédio de dez andares, só uma janela, eu me arriscaria pulando, talvez caísse sobre algo macio e sobrevivesse”
“É isso que adoro em você cara, sempre com um pensamento positivo” Anton retrucou dando um soco no ombro do amigo. “E você Lucy?”
“Não gosto de pensar em besteiras.” Lucy respondeu apertando a arma e olhando pela janela.
“John?” Anton insistiu como se saber a opinião de cada um naquele carro fosse uma questão de vida ou morte.
“B.” John respondeu sem encarar ninguém.
“Sabia que diria isso. Você é tão pessimista que até me dá arrepios” Anton gargalhou agarrando John pelo ombro e lhe dando um beijo na nuca.
“E você?” Giles perguntou a Anton tentando se livrar de Meg que se enroscara ainda mais ao seu corpo. “Não. Não precisa dizer. Você se transformaria em um deles”
“Com toda a certeza.” Anton deu de ombros “Eu seria um morto vivo dos infernos irmão. E devoraria qualquer ruivinha-medrosa-do-cacete que passasse pela minha frente.”
Meg bufou sem largar o braço de Giles. E Sam, mesmo atenta a estrada, não pode deixar de sorrir com as loucuras daquele garoto magricela que falava mais que um apresentador de Talk Show.
Na verdade Anton era tão franzino que parecia ainda mais novo que seus dezesseis anos.
Sam lembrava claramente quando ele aparecera do nada no acampamento quando eles passavam por Graceland e o topete a La Elvis Presley do menino fora algo absurdo, mesmo para a vida absurda pós-apocalipse-zumbi que levavam.
Apesar de estar sempre dando sermões naquele garoto, e quase sempre por motivos de indisciplina, Sam sabia que o seu jeito debochado e alegre, brincalhão e atirado, era algo bom para o grupo.
Bastava que ela e John fossem mais soturnos e calados. Ou que Meg e outras das crianças fossem medrosas, receosas e assustadas. Ou que a Lucy fosse tão ardilosa quanto uma serpente. Quando precisam sorrir lá estava o Anton com suas piadas, muitas obscenas, ou o Giles com seu sorriso fácil e seu otimismo contagiante.
Sam olhou pelo retrovisor novamente em direção ao Anton e o garoto a encarava com aquele sorriso sem vergonha e a pergunta nos lábios.
E Sam pensou: O que faria?
Se não tivesse para onde fugir, seria otimista como Giles, pessimista como John, ou cínico como Anton? E olhando a cada um naquele carro e conhecendo a cada um deles soube que nenhuma daquelas opções seria para ela.
Por Deus, lutaria até o fim. Se não houvesse como escapar, morreria lutando para encontrar uma forma de fazê-lo. Não se arriscaria em algo incerto, ou simplesmente desistiria. Seu pai não esperaria nada mais dela que isso. Nenhum deles ali no carro, ou os outros na casa, esperariam algo dela que não fosse a completa certeza de que não cederia, nem recuaria diante de nada.
O relógio no painel do carro piscou marcando meia noite. E naquele breve momento sentiu que seus olhos umedeciam miseravelmente. Aquele seria um dia especial para ela e para o Doug. Mas aquele dia, que Sam esperou por muito tempo, se tornou uma quarta feira qualquer no calendário. Doug se fora e apenas a lembrança de seus beijos ficou. A promessa guardada para aquela data simplesmente perdera seu propósito nos últimos meses.
Lembrando o que aquela significaria, Sam olhou John ao seu lado por um instante, pensando em como seria se simplesmente...
Não. Não seria a mesma coisa.
Ao avistar a entrada do condomínio de luxo, Sam diminuiu a velocidade entrando pela estrada de terra escondida pelo mato alto.
A quinhentos metros do local parou o carro e piscou os faróis duas vezes.
O silêncio era total. A expectativa nos seis garotos era tão forte que todos seguraram a respiração por um momento.
Ao longe, em resposta, uma luz piscou duas vezes. Depois de quinze segundos, piscou mais três vezes.
Todos suspiraram aliviados. Aquele era o sinal de que tudo estava bem. A casa não havia sido atacada nem por zumbis, nem por grupos de selvagens.
Devagar, e com os faróis apagados, Sam deslizou o veículo em direção a casa. O silêncio em seu interior era total. Nem Anton ousava brincar em momentos como aquele. Não quando podiam colocar os outros em perigo.
Quando o carro estacionou todos saíram em sincronia, avaliaram o terreno em busca de algum errante. Depois retiraram os mantimentos do carro e correram para a casa de veraneio de algum ricaço que agora usavam como esconderijo.
A porta se abriu revelando um garoto de doze anos de longos cabelos loiros e olhar adulto.
“Vocês demoraram muito dessa vez” Scott reclamou com olhos marejados e voz firme.
“Onde está Marcos?” Sam perguntou entrando logo após todo o grupo e fechando a porta.
“Com a Lisa no sótão.”
“Ele deveria estar aqui embaixo e não você” Sam reclamou subindo as escadas enquanto o grupo guardava os materiais adquiridos.
“Lisa estava com medo” Scott respondeu acompanhando Sam escada acima. “O braço dela ainda dói”
Sam sabia que doía. O bastardo quebrara o braço da garota em dois lugares antes de conseguir lhe dar uma mordida.
Olhando o garoto que a acompanhava sentiu remorso pela recepção pouco amigável. Das crianças que formavam o grupo, depois de Marcos que ficara para trás, Scott era o mais velho. Era também muito corajoso e adulto demais para a sua idade.
“Você agiu bem Scott. Foi você que deu o sinal não foi?”
Scott simplesmente balançou afirmativamente a cabeça.
“É bom contar com você” Sam completou.
Orgulhoso pelo elogio da líder do grupo, Scott a acompanhou até o sótão onde mais cinco crianças aguardavam.
Quando Sam entrou, todas se levantaram dos seus sacos de dormir e a abraçaram com carinho. Lourdes, Mia, Ronan, Jaques e Godfrey. Crianças com idades entre seis e dez anos. Crianças pelas quais lutavam há muito tempo.
Se aproximando dos fundos do aposento Sam avistou Marcos e Lisa.
A garota estava deitada com o braço em uma tipóia. Sua pele negra tinha um aspecto muito mais viçoso que o de alguns dias atrás. Ela estava sorrindo de alguma besteira que o Marcos lhe dizia e Sam se sentiu mal pelo que teriam de obrigá-la a fazer dali a alguns dias.
Por que Lisa era muito mais que uma das crianças que eles haviam encontrado escondidos em um orfanato. Há pouco mais de um mês, antes de se abrigarem naquela casa, quando o grupo havia se deparado com um bando daqueles desgraçados não mortos, ela havia sido mordida. Mas, diferente do que ocorrera com outros, a febre havia cedido, a ferida cicatrizara e Lisa não se transformara em uma daquelas coisas.
Foi algo tão espetacular que, por um momento, nenhum deles, talvez por serem jovens demais, se deram conta das implicações do que aquela recuperação significava.
Por que Lisa era mais do que uma sobrevivente.
Lisa era mais que uma garotinha de seis anos.
Lisa podia ser a cura.
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