Notas iniciais
Como prometido tá aqui o capitulo.

Have fun people o/

─Hoje bem que podia chover, não é Lucy?

─Claro.

─Ou um dia frio?

─É.

─Não, não. Já decidi. Hoje eu vou fazer nevar.

Fiction City – Voice of Shit

Hoje mais um jovem foi vitima da violência urbana... click. Nos semáforos! Ele apontou uma arma e matou o motorista do carro branco!Eu... click. Não para de nevar a duas semanas em... click. Você é o gênio da lâmpada? ─ Sim e você tem direito a três desejos!

─Tia Marta! Assim você vai se atrasar! ─ dizia o garoto jogado na frente da televisão ─ Não vou reclamar se mudar de idéia e não querer mais sair com aquele narigudo!

─Que absurdo! Ele não é mais narigudo! ─ dizia a mulher baixinha calçando aos pulos os sapatos com salto ─ Não, depois da cirurgia... Que cara é essa? Um garotinho de catorze anos não tem muito que dizer sobre a vida.

─Não posso sair de casa pra descobrir.

─Sabe por que não pode sair. No outro dia... ─ pausava a Tia enquanto colocava os brincos perolados ─ Você quase foi morto, se lembra? Tudo por causa da tentativa de sequestro... Ai!Droga!Devia usar mais brincos. Toda vez que coloco um na orelha é esse tormento...

─O outro dia foi há três semanas.

─Você fugiu na segunda, esqueceu?

─Há!Há! Grande coisa... A cidade inteira sabe que você é dona de uma joalheria... Quem não devia sair de casa era você.

─Vou pensar nisso durante o jantar. Por enquanto faça o favor de manter as janelas fechadas, não fuja de casa e tente sobreviver aos programas de humor, ok? Então, como estou?

Estava ótima, pensou o garoto, se ela se arrumasse assim todos os dias talvez conseguisse se tornar uma verdadeira vendedora de jóias, elegante e precisa. Mas infelizmente havia sido um presente sem aviso do irmão mais novo. Algo estúpido para se dar em uma cidade doente como a aquela e algo ainda mais estúpido pra sair em um jornal.

Uma professora havia abandonado as salas de aula e recebia de presente do irmão uma joalheria?

É claro que as coisas iriam mudar.

─Por favor, fique em casa ─ pediu o garoto fazendo com que a Tia o olhasse por alguns instantes com atenção.

─Não se preocupe afinal eu vou de taxi. Vai dar tudo certo.

─Mas, é...

─Ah!Meu taxi chegou! Boa noite, Damon.

─Boa noite.

Medo.

Não se moveu até ouvir o som do carroem atrito com a neve desaparecer. Seu segundo passo foi ligar o som o mais alto possível. Seus dedos tremiam. Três semanas sozinho, sem ir ao colégio para ficar de frente para a televisão e com acesso a internet seria o sonho de qualquer adolescente no ápice de seus catorze anos.

─Daqui a pouco começa aquela merda de voz...

Pelo som, o vocalista dava um de seus gritos. Agradável em comparação ao que estava para vir. Todos os dias em que estivera sozinho, havia sentido algo estranho. No inicio a sensação desaparecia com o tempo, mas agora não conseguia fazê-la parar.

Na semana passada havia conseguido conviver com ela. Mas ontem... Assim que sua Tia saiu. Quando a casa ficou quieta. Ouviu o som. Quase imperceptível. Mas que aguçou os seus sentidos. O som que vinha do chão e chamava.

Desde então não conseguia tirá-la da cabeça, ou deixar de ouvi-la.

Estou louco!

Não havia conseguido dormir a noite passada. Embora não conseguisse destingir as palavras, eram como um sussurro que não cessava. Porém, hoje de manhã, quando colocou os pés no chão, sentiu. Como se algo se movesse, abaixo de seus pés.

Um solo de guitarra ensurdecedora. Que poderia tê-lo feito pular, do local onde estava sentado. Agora mal o ouvia. A voz tomava conta novamente. Desta vez trazendo uma novidade com ela, todos os barulhos da cidade, desde gritos de dor a risadas de alegria, desde batidas até freadas. Tudo. O choro de um bebê, o som de alguém nadando numa piscina, o sotaque de um italiano.

Tudo. Tudo. Tudo.

O ultimo som que ouviu o salvou. O do vidro em choque com o chão, quebrando-se em milhares de pedaços. Alguém. Havia alguém?

Sim. O som vinha da joalheria, no primeiro andar.

Outra quebra. Agora tinha certeza, alguém colocava suas mãos nas jóias. Não se lembrava de seus sentidos se tornarem tão aguçados, concentrou-se ainda ciente do som ligado, ignorando os xingamentos do vocalista. Esgueirou-se até os fundos, chegou a tocar o telefone, sabia o número da polícia. Poderia ligar e fugir sem que percebessem sua presença. Ninguém ligava para aquela joalheria estúpida.

Ninguém.

Tomou a direção da loja. Se concentrando ouvia até a respiração deles. O som do metal logo acima.

─Ei, vocês! ─ os dois ladrões olharam para o garoto ao mesmo tempo, avaliaram-no com um sorriso no rosto, os patifes sequer usavam máscaras... Um armado com uma pistola e o outro com uma faca.

Mal sabiam eles que eram inúteis.

Notas finais
Quando pensarem na música pensem em algo como Matanza com os gritos do vocalista do Linkin Park, por ai...

até