Fiction City

4 Unstable glass


Sentia conforme andava, a arma bater de leve na sua perna, um barulho fraco no silêncio da noite nevada.

Fez um sinal com a cabeça para o seu companheiro do outro lado da rua, que o seguiu. A joalheria se mostrava silenciosa, exceto pelo som no andar de cima. Parecia que a tal dona tinha mesmo saído para um jantar e tudo com que tinham que se preocupar era com um pirralho de catorze anos, que, pela altura da música duvidava que pudesse ouvi-los.

Muito fácil.

Quebraram o vidro sem intenção de serem silenciosos. Tinha certeza que o som alto havia coberto o barulho. Ridículo. Os anéis, os brincos de ouro, os diamantes brilhantes. Agora em suas mãos.

Quando trocaram olhares um com o outro, a dupla não pôde evitar o riso. Era só isso? Estavam ricos?

─Ei, vocês! ─ Mas ai apareceu o moleque, com uma coragem digna de heróis de histórias em quadrinhos. Os olhos do garoto seguiram da sua arma até a faca do seu parceiro, em seguida pousando em seus rostos. Com raiva? Um moleque tão pequeno não devia mostrar um olhar como aquele.

─Devia ter ficado quieto, guri ─ fez um aceno com a cabeça entregando os sacos ao comparsa, que começou a enchê-los ─ Quem manda assistir TV demais?

Fiction City — Unstable glass

─Oh! Mas esse peixe está uma delicia Paul! ─ dizia a mulher à mesa, limpando os lábios com o guardanapo e bebendo um gole de vinho em seguida.

─Que bom ser do seu agrado, Marta. ─ dizia o homem a sua frente ─ Mas tem certeza disso? Estava me dizendo que deixou seu sobrinho em casa hoje. Poderia tê-lo trazido...

─Não mesmo, ele odiaria esse jantar... ─ e colocava mais um pedaço na boca ─ E mesmo que gostasse não iria dizer nem sob tortura. Damon é esse tipo de garoto.

─Você o conhece bem.

─Nem tanto. Faz sete anos que ele veio morar comigo e, pra falar a verdade, não sei. Na primeira semana, acredite, ele parecia uma criança normal ─ e ria ─ Um amor. Gostava de ler livros e se virava muito bem sozinho, mas... ─ dizia brincando com a taça de vinho ─ Bem, provavelmente ele já era assim, um garoto diferente.

─Especial? ─ dizia Paul, sorrindo.

─Sim ─ suspirava ─ Na semana seguinte simplesmente desapareceu. Quando voltou não dizia quase nada e se ficava sozinho em casa, fugia.

─Um garoto problemático? ─ dizia Paul, colocando mais um pouco de vinho na taça da antiga professora.

─Talvez. Nessa época eu quase pensei assim. Mas, um dia, quando voltou de uma dessas fugas, estava normal. Como se nada tivesse acontecido─ e tomava mais um gole de vinho ─ Ele é teimoso e corajoso por natureza, por isso tenho tanto medo que acabe se machucando por uma besteira... Sabe Paul, Damon parece não ter medo de nada...

***

─Não estou com medo de vocês!

─Deveria ─ dizia a voz do primeiro ─ Nada pessoal guri, mas... ─ destravava o gatilho

Damon já entendia, havia feito uma burrice. Havia pensado seriamente que ninguém ligaria para aquela joalheria, nem ele ligava muito. Mas estava ali arriscando sua vida por ela.

De uma coisa tinha certeza, não estava mentindo. Aqueles homens à sua frente não despertavam medo algum, pensava isso enquanto a sensação lentamente voltava, logo abaixo dos seus pés, embora antes só pudesse senti-la quando não havia ninguém por perto... Sim, se havia algo que tinha medo, era daquilo.

Talvez por isso não conseguisse levá-los a sério.

Viu-o apontar a arma para o seu rosto, a poucos centímetros da sua testa.

─Está com tanta vontade de morrer assim?

Quem estava assistindo TV demais era ele. O que estava esperando? Um convite? Aproximou-se, fazendo com que sua testa tocasse a arma. Ao toque, ouviu duas coisas: o bandido rir enquanto pressionava o gatilho e a voz gritar em sua cabeça.

Naquela época não soube dizer exatamente o que sentira. A sensação mais próxima poderia ser o efeito de quando se fica muito tempo no interior de um quarto abafado e escuro, onde mal é possível respirar.

Na verdade você não nota que está tão sufocado até alguém chegar e liberar um pouco de luz e vento.

Quantos sons, cheiros diferentes podia sentir agora. Coisas que nunca havia imaginado...

Por que não vem e dá uma olhada pela janela?

Era aquela voz de novo... Que chamava...

Venha!

Fechou os olhos ouvindo no instante seguinte o zunido da bala passando ao lado da sua orelha, o seu cabelo chicoteando-a. Os abriu novamente no momento exato para ser capaz de ver os cacos de vidro já esquecidos no chão tomarem vida e se fincarem como espinhos nas costas do seu agressor.

O segundo bandido havia sido atingido por alguns, inclusive havia um corte logo abaixo do olho, uma linha horizontal e vermelha. Agora resmungava num canto, jogando os sacos que carregava no chão. Damon ficou surpreso quando seus pés se moveram na direção do homem derrubado, vivo.

─Esse lugar, essa joalheria... ─ dizia indo em direção a porta ─ E... Você, garoto! São todos amaldiçoados!

E sua figura sumiu nas ruas da cidade nevada.

─Quer saber... ─ se sentava no chão da loja, ao lado do derrotado imóvel ─ Acho que ele está certo. Ou eu estou louco... Mas acho que não existe nenhum louco que consegue fincar pedaços de vidro nas costas das pessoas sem tocar nelas, certo?

***

─Parece que ele acordou, Fuji.

─Parece? ─ dizia o rapaz loiro irritado, sentado no alto de uma torre metálica ─ Lucy, francamente... Essa noite foi terrível! Ela gritou tanto hoje que achei que meus tímpanos iam explodir! Damon por acaso é surdo?

─Eu achei que ela iria acordar hoje.

─Eu também... Puxa vida... ─ se levantou, limpando suas roupas aos tabefes ─ Seria tão bom se fosse verdade, não? Me pouparia um belo de um trabalho ─ parou em seguida, olhando para o céu ─ Já estou cansado de tanta neve... Decidi. Amanhã vai ser um dia bem quente.

Com sorte, quem sabe eu estou sonhando?

Notas finais
Obrigada a todos que estão lendo e comentando minha história, é muito mais do que eu imaginava, afinal quando eu criei achei que só eu e o Sr.Inexistente iamos gostar dela Proximo capitulo, outra personagem muito importante Até