Fiction
12 Tua confusão...
Notas iniciais
Acho que eu me perdi em seus olhos...
Tenho quase certeza que você enxergou através de mim;
Não sei ao certo como me comunicar, apenas estou tentando entender...
O que você causou em mim.
E neste fluxo sem rumo, eu sei que nós dois estamos ligados.
~*~
Uma vez mais eu estava trancafiado em um salão, enquanto as valsas eram dançadas, era enganado pouco a pouco pelas mascaras a minha frente. Um peso que eu aprendi a suportar...
Como um tolo brinquedo, eu caminhava em direção de mais um ato programado, recebendo inúmeros aplausos e créditos sem significância alguma, pois eu era apenas um boneco de porcelana quebrado e que um substituto ainda não havia chegado ao meu lugar.
Meu estomago uma vez embrulhava-se na nauseante respectiva de um passado que tanto tentava afundar em minhas memórias, mas sem duvidas seria impossível, afinal a cada paço eu ouvia o som escoante do ego e orgulho sobre meus ombros. Sentia fome e ao mesmo tempo nada.
Apenas o vazio de uma triste vida...
Pessoas não são perfeitas e nem imortais...
Eu havia aprendido isto da pior forma possível em todas às vezes. E poderia culpar um a um de meus incontáveis erros por esses momentos, estes mesmos que me tornaram a pessoa amargurada que sou hoje, mas que sempre colocará uma mascara e dançará em um salão de mentiras.
E aqui estou eu, não? Uma doença, uma ferida que não sara e mesmo assim...
Mesmo assim você está aqui dentro... Dentro de mim como ar, e mesmo que eu não entenda o que nada disso significa, eu apenas... Apenas preciso parar de ver você chorar...
Pois todas as vezes que você me olha, seus olhos transbordam dor, e eu não sei se a raiva que cresce em mim é por sua culpa ou apenas minha. Só sei que sou um condenado, sentenciado a perseguir sem alcançar...
Porque você faz parte de mim...
Nós criamos uma mentira, onde a cada paço um está destinado a marcar o outro, da forma mais trágica o possível, pois nosso amor é dor... E somos desgraçados infames que saboreiam deste prazer infame.
O tempo tão curto transcorre por entre os meus dedos, e quanto mais eu tento ser racional neste meio tão conturbado, mas eu vejo que você é a razão por eu querer largar tudo o que sei...
Você é o remédio que falta em mim...
E como uma doença, eu sou a causa dos seus malhes, enquanto você é o extermínio de minha tão irracional existência...
Tão tolamente patético...
~~
Respirei fundo uma vez mais, enquanto controlava com minhas mãos o possível fio de vida de uma pessoa. Ouvi cada vez mais o som do coração do paciente decaindo por conta da rejeição do antigo clipe inserido para o tratamento de um aneurisma. Olhei para o relógio de teto, enquanto podia ver as pessoas na galeria assistindo o grande show que seria Levi Rivaille operar grandiosamente alguém.
Apenas pelo nome... Apenas pelo titulo de gênio... Apenas por mim e não pela vida em jogo a mesa...
__Pinça! _estendi a mão e logo o utensílio frio foi posto sobre os meus dedos. Respirei fundo e então comecei a remoção nojenta de um trabalho porco de um antigo médico e para a introdução de um novo clipe que não fizesse mal ao paciente.
Inseri cuidadosamente fixando meus olhos ao monitor. Mordi o lábio um pouco apreensivo e então os batimentos voltaram ao normal. Suspirei em alivio, enquanto terminava com todo o cuidado o restante.
__Pode fechar _exclamei deixando a mesa e seguindo para os lavadouros. Retirei minha máscara e então terminei de lavar minhas mãos, enquanto ouvia as besteiras dos residentes falando sobre como tudo havia sido incrível.
Passei a mão nos fios negros e caminhei para fora daquele corredor, vendo as pessoas saindo das galerias com falhas tentativas de virem em minha direção. Entrei o mais rápido que pude no elevador que estava vazio e então as portas metálicas fecharam-se a minha frente.
E como se o automático fosse desligado, sentia novamente minha mente vaguear pelas inúmeras imagens da noite passada, e por mais estranho que fosse elas apertavam o meu peito com força. Eu apenas gostaria de entender o porquê de ter corrido atrás daquele...
Merda...
A verdade é que eu não havia conseguido dormir a noite inteira, pois todas as vezes que os meus olhos fechavam-se o tamanho da minha estupidez parecia fluir e aqueles olhos tão belos e transparentes de vida transbordavam em minha cabeça.
No que eu estava pensando?
Em porcaria nenhuma... Como eu poderia ameaçar alguém de retirar uma criança do seu lado? Como eu poderia me tornar um monstro como...?
E quanto mais eu pensava, mas tinha certeza que as palavras deles sobre eu não ser o pai da criança eram alegações mentirosas. Os fatos não mentem, não é? Aquela marca ela...
Mas como? E por quê?
Se ao menos eu houvesse tido esses pensamentos antes, não estaria sentindo este aperto desgraçado ao lembrar-me daquele desespero, algo que parecia que eu estava simplesmente destinado a causa naquele garoto.
Aquela criança... Como eu poderia ao menos dizer que sou pai dela se não faço nem ideia de quantos anos ela poderia ter, mas a verdade é que com os poucos encontros que eu tinha com ela, uma nostalgia parecia beirar meu consciente.
Ela tinha a inocência que uma vez eu fui ensinado a ter, além de que ela tinha um lindo sorriso... Mas não poderia, não é mesmo? Como eu posso afirmar algo por conta de poucos encontros? Só que... Eu apenas não sabia como explicar, pois se ela fosse eu tinha direitos sobre ela, não?
__O que eu estou pensando?! _uma vez mais puxei um pouco os fios castanhos escuros e então a porta do elevador se abriu e eu desci, seguindo direto para a minha sala.
O dia havia amanhecido chuvoso, e mesmo que este tempo fosse de meu agrado pelo simples fato que eu não ficara suado no trajeto de casa para cá, ele parecia piorar os meus pensamentos embaralhados, e a vontade louca que existia em mim de invadir o departamento de psiquiatria.
Estava cansado, meu corpo inteiro pesava minha mente deveria estar trabalhando com toda força para que eu me manteasse focado em algo além das paredes brancas e o cheiro nauseante dos medicamentos.
__Doutor Levi! _ouvi a voz fina e olhei para uma jovem loira que vinha sorrindo em minha direção. Respirei fundo, enquanto esperava a mesma chegar próximo a mim.
__Diga...
__Desculpe incomodar doutor, mas é que chegou uma paciente aqui no departamento e bem, eu posso estar errada mais eu acho que os dos pacientes do doutor Mike estejam apresentando apraxia, e bem eu...
__Você já comentou com ele?
__Não eu... Bem é que eu pensei que o senhor poderia diagnosticar se é uma falha minha ou não... _ela olhou para o outro lado e eu suspirei pegando a prancheta com os dados dos pacientes.
Era uma criança que havia chegado a menos de duas semanas e praticamente demonstrava movimentos retardos comparados aos outros. Reli algumas vezes, era um tanto estranho Mike não haver notado algo deste modo.
__Faça uma tomografia e leve os resultados para mim... _Devolvi a prancheta e logo a ruiva saiu correndo e eu voltei a caminhar em direção a minha sala.
Desde que havia pisado os pés aqui, já havia feito várias consultas e examinando alguns exames. Minha cirurgia de mais cedo era a primeira do dia, e pelo visto não seria a última. Adentrei finalmente ao meu espaço e então visualizei um loiro grande e folgado jogado em meu sofá de couro negro no canto da sala, a ler algum livro.
__A sua educação assusta-me... _comentei e o mesmo direcionou o seu olhar até mim e sorriu.
__Posso dizer o mesmo meu amigo... _Erwin deu uma risada, enquanto sentava-se e acariciava sua nuca.
__Espero que não tenha babado no meu sofá Smith... _caminhei até a minha cadeira jogando-me a mesma, e então senti o cheiro de café e percebi o copo fumegante sobre a mesa _Você comprou café? Quer que eu fale com quem?
__Você é sempre tão desconfiado Levi, uma vez na vida deveria seguir seus instintos... _o loiro suspirou _E bem, está chegando uma reunião com a diretoria para o aumento de verbas de alguns departamentos e eu gostaria que você instruísse o jovem Jaeger neste assunto...
__Jaeger? _engoli em seco e percebi o sorriso sarcástico de Erwin.
__O garoto ainda é novo e bem, em menos de duas semanas aquele departamento que estava às moscas está tendo um crescimento fabuloso. Ouvi até alguns elogios de certos médicos da área falando que um cérebro novo em um corpo velho era genial, e como nós já passamos por isso antes...
Encarei o loiro por alguns minutos, antes de voltar o meu olhar para a mesa com vários papeis. Não precisa ser nenhum gênio para perceber que o loiro descobriu tudo pela esposa e que agora estava tentando força-me a falar com o moreno. Também não é como se eu não quisesse, mas é que ao imaginar ver aqueles olhos tão enormes transbordando dor, machucava algo em mim.
__Você é o chefe, não eu...
__Do que você está fugindo? _ele falou um tanto sério e eu o encarei.
__Isso não é...
__Deixe-me ver... Por você ter ameaçado um garoto que você mesmo partiu o coração anos atrás? Por você ter afirmado que ele tinha sequestrado um filho seu por vingança? Por você ter humilhado ele sem mais nem menos? Por não ter provas e ainda assim...
__Por que a Hanji lhe conta tudo isto!
__Porque ela sabe que no final eu sou o único que parece fazer você entender dois dedos da vida Levi! Você pode até ser um gênio e não sei mais o que, mas eu sou o seu amigo, o único que sabe da sua maldita verdade e sei que você...
__Merda Erwin! Você acha que eu não me arrependo? Eu... Droga se você tivesse visto o estado do garoto falando da criança, uma criança que... Por deus, eu sou um monstro e sei muito bem disso, jamais seria um bom pai e... Só que, merda! Aquela criança mesmo que eu nem a conheça ela me faz bem... E ele...
Erwin deu uma risada e eu o encarei raivoso. Como ele poderia rir da minha situação, eu quase me levantei para dar uns socos, só que ele se pôs de pé e deixou um envelope azul bebê sobre a minha mesa e eu engoli em seco.
__Você não tem certeza... Hoje em dia o mundo está uma simples loucura, a cada dia algo novo acontece...
__O que?
__Não sei se você se lembra do que me falou quando soube que a Hanji havia engravidado: Você se fodeu, agora nada mais será como antes. Sua moleza acabou...
__E o que isso tem haver?
__Levi você está passando pelo mesmo, nada é mais moleza e mesmo que a criança não seja seu filho, nada impede de você correr atrás e fazer uma família com a pessoa que você gosta.
__Erwin é diferente, você acompanhou a gravidez da Hanji desde o começo e se ele for meu filho... Eu... Como eu vou chegar? Oi pirralho, eu sou o seu pai? Eu não sei nem quem é a mãe dele!
__E isso o impede de ser seu filho? Levi... _engoli em seco, percebendo que aquele maldito havia uma vez mais ganhado _ Que tal você ir ensinar o Jaeger a como convencer o conselho? _Erwin sorriu e saiu da sala.
Eu me joguei na cadeira e fiquei olhando fixamente aquele envelope. Peguei o mesmo em minhas mãos e o encarei.
O que é que nos aguarda aqui?
~*~
Terminei uma vez mais o relatório sobre os pacientes que deveriam vim fazer o novo programa de apoio. Meu corpo inteiro estava dolorido e sentia meus olhos pesarem a cada vez que os fixava ao papel, e quando não era o sono, havia os pensamentos tão conturbados.
Meus olhos ardiam e minha voz estava rouca, e mesmo assim o peso dentro de mim apenas aumentava. Ainda com aquela minha possível decisão, não podia evitar o medo de me aproximar do departamento neurológico.
E mesmo que o dia apenas esteja na metade, sentia como se houvesse trabalhado por cinco dias diretos sem descanso. A apreensão de deixar Lian no colégio hoje e não vê-lo mais me assustava, mas não era somente isto.
Eu tinha medo de vê-lo...
Havia passado o dia inteiro às escondidas, e a cada vez que saia do conforto de minha mais nova sala, sempre sentia como se ele estivesse me esperando a cada corredor, a cada paço, e quanto mais pensava nele, mas meu coração tão desolado apertava.
Mesmo que houvesse tomado uma decisão, palavras sempre são mais fáceis de vir à tona do que ações, e eu nunca fui o exemplo de coragem para certos assuntos, ainda mais quando sentia meu peito ir a mil e tudo embaralhava com a mínima aproximação daquele ser tão belo e cruel.
Olhei para o meu relógio, uma mania que havia adquirido naquele dia e percebia que o inicio da tarde já havia começado, e com isto precisaria sair e rever alguns planos para um novo projeto que o departamento estava começando a elaborar.
Deveria ser hora do almoço, e mesmo que não houvesse tomado nada além de uma xícara de café pela manhã, que aos poucos consegui digerir, não havia fome e muito menos vontade.
Não sabia como havia tido coragem de adentrar neste local, e mesmo que por instantes eu tenha imaginado que todos me olhavam como se julgassem minhas ações, sabia que tudo não passava de mais uma ilusão minha.
Peguei minhas coisas e então rumei para fora do lugar que no momento parecia minha fortaleza. Percebi alguns novos pacientes que haviam concordado em transferirem-se de seus leitos em outras áreas para cá, a maioria ou era terminal, suicidas ou havia libertando-se de alguma doença.
Deveriam ser menos de trinta pessoas, mas isto já era um pequeno avanço. Depois de tantas reuniões e discursões com os demais médicos, eles haviam aceitado a minha forma de trabalho como experimental e aplicavam a seus pacientes, e sobre o encarrega-mento do lugar, o conselho decidiria isto até lá.
__Bom dia doutor... _ouvi uma fina voz e sorri para uma das enfermeiras que passava pelo local.
Desci o departamento, indo em direção aos pacientes da ala pediátrica, ou melhor, a ala de oncologia infantil, pois eram os últimos que precisava avaliar, para saber quantas crianças deveriam ser incluídas no projeto.
Logo estava na área que sempre me dava um forte aperto no peito e saudades do meu pequeno. Havia crianças rindo e conversando, com suas lindas cabecinhas raspadas ou cobertas por lenços coloridos, sorrindo e brincando com alguns palhaços, que não passavam de médicos fantasiados, com rostos cansados e de peles pálidas.
Avistei ao longe uma loira de cabelos curtos repicados, usando as roupas normais do hospital, mas diferente das outras, havia uma saliência sobre o seu abdome, que mostrava que a mesma estava grávida. A loira veio ao meu alcance com um belo sorriso.
__Eren-kun que bom que chegou, meus meninos estão ansiosos para falar com o grande príncipe.
__Nanaba-san... _dei uma risada e a mesma sorriu.
Havia conhecido a loira em um dos meus almoços, onde ninguém se sentava comigo na hora do lanche e à mesma veio em minha direção e começou uma conversa. Menos de um dia, já me sentia contente com sua aproximação, e logo soube que a mesma era casada com o doutor Mike da área pediátrica e que tinha uma filha mais velha de três anos.
Em um destes dias havia a acompanhado até a área, onde um dos médicos que representaria um príncipe para a animação das belas garotinhas havia faltado e como estava disponível assumi o papel por volta de vinte minutos, o que me gerou uma pequena comoção e o começo de um fã-clube.
__Eu fiz uma pequena lista das minhas crianças, e bem essas aqui _Ela pegou um papel azulado de um bloquinho e me entregou _São os que você deveria dar uma olhadinha.
__Tem muitos adolescentes...
__Sabe como são, começam a mudar para a fase adulta e percebem que príncipes, castelos e foguetes não são mais saídas tão verdadeiras como antes... _a loira falou passando a mão no ventre e respirou fundo.
__Infelizmente apenas podemos aconselhar esses pequenos _Falei olhando para outra sala, onde uma médica vestida de palhaça lia um livro e algumas crianças e adolescentes prestavam atenção _Afinal, as coisas sempre parecem desandar a partir desta idade...
__Bom, agora preciso ir me alimentar, ou então alguém vai vim atrás de mim. Você já comeu Eren-kun? _a loira me olhou sorrindo e eu neguei.
__Estou sem fome, mas obrigado, preciso voltar a minha sala e terminar logo o plano de trabalho do projeto... _me virei enquanto saia daquele lugar tão animado, mas ao mesmo tempo doloroso, e isto se podia notar no olhar triste de algumas crianças afastadas e de seus pais.
Nestes momentos agradecia e muito que por todas as inúmeras circunstancias meu pequenino ser um homenzinho saudável e sorridente. Aquele pequeno pedacinho meu que tanto me causava alegria e orgulho e que preenchia meu peito de amor, mesmo nas horas mais assustadoras.
Toda vez que pensava nisso, o medo de perder a minha razão de viver doía dentro de mim. Respirei fundo, tentando ao máximo não transparecer a ninguém quanto inseguro e acovardado sentia-me.
Você jamais se livra do passado...
Voltei novamente ao meu departamento, que se encontrava mais vazio dado ao horário de almoço. Sorri para uma das pacientes que me acenou e encaminhei em direção ao meu refugio. Abri a porta dando um cansado suspiro e então fechei a porta atrás de mim.
__Finalmente apareceu... _ouvi a voz rouca e aveludada e um terrível arrepio percorreu o meu corpo. Direcionei os meus olhos para o homem deitado em meu sofá de olhos fechados e expressão cansada.
__O que você faz aqui?! _exclamei irritado, pelo simples fato de que a pessoa de que estava fugindo, encontrava-se em meu refugio.
O mesmo sentou-se ainda de forma um tanto desajeitada e pude ver que o mesmo estava usando seu jaleco manchado com algum líquido que o deixava meio amarelado. Os olhos azuis frios que sempre me causavam arrepios em meus sonhos a muito esquecidos, foram direcionados a mim, e por um momento eu desejei... Desejei que essa triste realidade entre nós não existisse.
__Você deveria contratar pessoas melhores para ficar nesta recepção. O lugar está vazio... _o mesmo falou passando a mão nos cabelos negros e eu franzi o cenho.
__Neste horário elas se encontram na cantina, é normal... _falei tentando me afastar da porta e só então percebendo o quanto minhas pernas tremiam.
O silêncio reinou no local e quanto mais os minutos se alastravam, mas o desespero e as lembranças dolorosas da noite passada voltavam como um soco em meu estomago. Apenas de lembrar daquilo tudo, sentia meus olhos umedecerem.
__O que você quer? _perguntei em um tom mais baixo e o mesmo suspirou. Ouvi seus passos firmes seguirem até a minha mesa e então ele sentou-se na ponta da mesma.
Nossos olhos encontraram-se em uma disputa silenciosa sem causas, cada um preso a seus pensamentos, presos a suas dores, presos aos seus medos. Não era bonito, nem gentil, era desconfortável e apenas conseguia pensar no momento em que ele saísse para então poder me lamentar como um maldito miserável que sou.
Eu estava irado, sentia cada uma de suas ofensas subindo a tona. Cada palavra estupida, que eu deixei machucar o meu ego tão frágil por conta de um homem que tenho quase certeza que ao menos deveria recorda-se direito de como destruiu minha inocência.
O passado não passava apenas de uma bebida forte e amarga que ia estragando tudo por onde passava. Olhava para o seu corpo e as lembranças de seus toques frios adentravam minha mente assombrando-a, como em um jogo de prazer, onde eu não passei da brincadeira de uma noite...
Mas se foi apenas uma noite...
Por que você sempre vem atrás de mim?
Meus pensamentos além de serem atormentados por uma mentira, ainda havia a dura realidade que nos deixava tão próximos a ponto de tornamo-nos os melhores inimigos. Uma brincadeira do destino cruel, que apenas sabia bagunçar a vida de todos para então retirar-lhe tudo.
__Veio aqui me ameaçar com seu dinheiro? Com sua influência e poder? Veio aqui dizer que jamais vou ver o meu filho se não for tudo conforme os seus planos? Por que você está aqui? Se for apenas isto eu quero que se retire, não sou nenhum otário senhor Rivaille, não preciso de seus discursos para promover seu ego, então pode se...
__Você pode calar a porra desta boca?! _ele fez um barulho grosseiro com a garganta e então olhou para o chão _Vim esclarecer algumas coisas...
__Ah... Veio aqui então dar suas ordens e chantagear-me? _perguntei sentindo toda aquela magoa ressentida se transformar em raiva, e então o pensamento de conversar com este maldito ser que continha tanto poder sobre o meu coração, apenas fluía em briga e discórdia.
Merda... Tudo dá errado quando o assunto é você! Por quê?
__Não vim aqui para ser acusado de merda nenhuma seu maldito pirralho, então meça suas palavras antes de falar algo! _os cinzentos vieram em minha direção e o meu corpo oscilou por dentro. Uma de suas mãos fora direcionada a um de seus bolsos do jaleco e de lá um envelope azulado se fez presente, senti minha respiração travar _Vim por conta disto aqui!
Então era verdade... Ele veio aqui para esfregar em minha cara que havia ganhado um maldito jogo que machucava várias pessoas, apenas pelo prazer de estar certo. Desprezível...
__Oh! Veio aqui esfregar em minha cara é isso? _perguntei sarcástico, enquanto apetava os punhos. Sentia os meus olhos arderem apenas de lembrar como seria a vida de Lian sem me ter ao seu lado. Temia por ele e por mim...
Mas eu não podia continuar a ser fraco, pelo menos não agora, não na frente dele...
__Não, eu vim conversar... _ele jogou o envelope sobre a mesa _Decidi fazer algo que sinceramente não é do meu feitio.
__Do que está falando?
__Eu não o abri, ainda _ele falou voltando a encarar-me, senti uma lufada de ar adentrar aos meus pulmões e então um alivio rápido percorrer o meu corpo. Nem tudo estava perdido...
__Por que...?
__Por que eu errei com você... _Seus olhos desceram até o chão _Ontem eu estava um tanto transtornado, alguma coisa em você me deixa assim, além de que somando ao assunto da minha família...
__Você...
__Pirralho... _ele olhou-me sério, mas não havia raiva, desgosto, irritação, apenas curiosidade e preocupação. Algo naquele olhar me desarmou e então percebi o encarava fascinado por aquela forma tão pacifica e delicada que seu rosto assumia _Eu quero que você me diga a verdade...
__Ele é meu filho e isto é a verdade _Falei virando o rosto.
__Por que algo me diz que não é apenas isso?
__O que você quer? Uma carta minha explicando tudo sobre o meu passado? Sinceramente eu irei lhe fazer uma pergunta, porque algo mudaria?! Você, mesmo que fosse o pai do meu filho, apenas o traria desgosto e se for para isso eu... Eu não deixarei você encostar nele não importa o preso.
__Eu não vim aqui para...
__Não, você veio como o remédio para uma ferida aberta, achando que se me olhar assim e falar que não vai fazer nada eu irei lhe perdoar? Que eu irei entregar...
Antes de minhas palavras saírem dos lábios, senti o meu corpo ser puxado e então olhei para frente, vendo o mais baixo jogando-me na parede próxima a porta. Seus punhos apertavam os meus braços com uma força desnecessária, enquanto eu tentava desvencilhar-me.
__Me solta!
__Você é um covarde Eren Jaeger! O que tanto me esconde? Acha mesmo que alguém como você pode...
__Eu não posso! _eu tentei lhe empurrar, mas apenas conseguir diminuir bruscamente a aperto em meus pulsos _Você não sabe o que eu passei por sua causa! As coisas que desistir, tudo para... Você não tem o direito de vim aqui e me ameaçar, não sabe como foi difícil... _senti as malditas lágrimas começarem a virem à tona e mesmo que eu lutasse com todas as minhas forças para mantê-las, algumas teimosas escorriam livremente de forma patética.
__Do que...?
__Merda! _eu exclamei alto _Você... Como eu pude me apaixonar por um monstro como você?! Ah claro, é porque uma aberração sempre vai atrás de algo que seja...
Tentei inutilmente tirar suas mãos de mim, mas ele estava cada vez mais preso a mim, tão absurdamente perto e ao mesmo tempo longe e como uma maldição a magoa de um passado que eu simplesmente tanto ficava remoendo voltava para me assombrar.
__Eu... Eu estou tão cansado... _Falei desistindo de lutar _Meu peito está machucado e eu...
Não havia o que falar... Ele era o meu veneno e mesmo assim, apenas eçe causava-me sensações que jamais imaginei e isto confundia tudo o que havia construído. Se eu apenas houvesse notado que naquele momento algo em mim havia morrido, talvez a dor de tudo em minhas costas não fosse tão grande.
Uma história fajuta... Eu poderia aderir a todos os conceitos de um simples clichê e dizer que apenas ele era o causador de todos os meus problemas. Poderia mentir e dizer que estava com medo e que por isso fui fraco, mas eu sou um ser egoísta...
Naquele momento eu consegui enxergar através da tempestade, por entre aqueles olhos afiados e cinzentos, algo tão estupidamente adolescente, mas eu senti algo que jamais vou esquecer... Eu me vi em ali...
Eu poderia dizer que tentei resistir, poderia falar mil e uma desculpas, mas quando ele aproximou o seu rosto do meu... Não havia dor, não havia magoa...
E eu gostei daquele calor...
Seus lábios pressionaram os meus, e não havia delicadeza e nem aquele sentimento de certeza ou amargura, eram lábios se pressionando um contra o outro, enquanto nos olhávamos assustados e mesmo assim sem sair daquele contato, tão comum, mas tão caloroso...
Aquela foi a primeira vez que eu realmente senti os lábios dele...
Eu deveria lutar, eu sabia que deveria tentar me manter acima disso tudo, pois nossos problemas não poderiam ser resolvidos assim, mas ainda assim eu apenas queria estar ali ao seu lado, sentindo o sabor dos lábios ácidos sobre os meus, sentindo que tudo poderia dar certo de alguma maneira estranha...
Eu realmente ainda o amo...
Fechei os meus olhos, entregando-me a talvez um provável momento de loucura, enquanto minhas mãos agora livres ao invés de o afastarem lhe puxavam para perto do meu corpo, meu lábio inferior foi puxado lentamente, enquanto eu lambia os seus, e então entrelaçávamos nossas línguas pelo que parecia ser a primeira vez.
Assim que nossas línguas se tocaram senti uma nostalgia, mas havia algo diferente e eu podia perceber, e quanto mais dançávamos de forma irregular e nossas respirações descompassavam, mas o meu corpo correspondia em igual ao daquele homem.
Suas mãos apertaram a minha cintura com força, enquanto nos movíamos mexidos aos instintos, eu o apertei com força contra o meu corpo sentindo uma necessidade enorme...
E naquele momento não houve mais dor ou passado, apenas nós...
Você me levou para seu lugar favorito na Terra
Para ver a árvores que eles cortaram dez anos após seu nascimento
Nossos dedos traçaram os círculos ao redor de sua história
Nós passamos nossas mãos no tempo ao longo dos séculos
Enquanto você me segurou, disse:
"Vejo-te no futuro quando você estiver mais velho
E estivermos cheios de histórias para contar
Prometo de coração e espero morrer
Eu te verei com suas rugas de riso"
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