Fiction
11 Suas lágrimas
Notas iniciais
Fogo e gelo...
Dia e noite...
Luz e sombra...
Dois opostos, duas histórias. Dois complementos e dois momentos. Somos como cargas que não deveriam se ligar, mas não se separam...
Um destinado a quebrar o outro...
Em uma história tão clichê, procuramos respostas para perguntas tolas.
Eu não sou o mocinho, mas também não posso ser o seu vilão.
~*~
O ar faltou em meus pulmões. E como se eu estivesse bebendo álcool puro, senti meu interior arder em brasas. Minhas mãos tremiam como há tempos isso não acontecia, enquanto eu estava parado em meio a um lugar desconhecido e uma vez mais visualizava as costas de alguém que sempre me traziam sentimentos estranhos, afastarem-se uma vez mais.
Minhas mãos molhadas e estranhamente tremulas ergueram-se em uma tentativa falha de alcançar aquela pessoa, e antes mesmo que eu percebesse meu corpo se impulsionava por entre as malditas pessoas que trafegavam a minha frente.
Não era racional... Não era raiva, simplesmente sabia que deveria alcança-lo... Algo gritava em mim, dizendo que se eu não fosse poderia perder de novo algo que sem intenção alguma criei, e que nem mesmo eu entendia.
Ele correu por entre avenidas e eu praguejei alto a todas as vezes que esbarraram em mim, e quando pensei que finalmente o alcançaria, o som de uma buzina soou cortando a minha falta de raciocínio.
Parei em meio à avenida e antes que sofresse um acidente, voltei para a calçada, procurando aquelas costas trêmulas e desesperadas que sumiram de minha vista, enquanto era xingado por algum estúpido de nomes que se não fosse a outro momento eu lhe faria engolir os dentes de roedor que ele levava.
Trinquei o maxilar, percebendo que uma vez mais havia ficado para trás. Passei a mão em meus cabelos enquanto voltava o caminho inteiro até o meu carro, vendo uma maldita multa sobre o capô. Adentrei ao carro, não sem antes percorrer com os olhos as avenidas e senti aquele maldito aperto no peito tão estranho e então soquei o volante com força.
__Que merda que eu fiz?!
Se eu tivesse esperado um pouco...
Se ao menos eu tivesse ouvido Hanji e não ter corrido atrás dele de cabeça quente, talvez... Talvez essa dor aqui dentro não estivesse me corroendo.
Aquelas palavras tão dolorosas e aquelas lágrimas pareciam rasgar algo dentro de mim, que jamais imaginei existir. Já havia visto tantas lágrimas, tantas pessoas sofrerem, então porque era a primeira vez que me sentia tão... Inútil?
Por que... Você mexe tanto comigo Jaeger?
O que é que você tanto esconde de mim?
“Vim pra lhe encontrar, dizer que sinto muito
Você não sabe o quão amável você é
Tenho que lhe achar, dizer que preciso de você
E te dizer que eu escolhi você”
~*~
Senti cada vez mais o meu corpo ser apertado, enquanto eu desabava mais a cada minuto entre aquelas pessoas. O medo que crescia tão desigual consumia todos aqueles bons momentos, e eu apenas conseguia pensar em como havia errado.
Aqui estava eu encarando a mancha na camisa do meu amigo, vendo minhas lágrimas escorrem pouco a pouco, enquanto uma vez mais eu não tinha força para lutar e me escondia sobre as sombras dos outros. Talvez nesses momentos o personagem principal de uma história diria que não ficaria assim, que não se entregaria, mas...
Mas no fundo eu sei... Eu sei que não vou conseguir dar um único passo sem o mínimo de forças, e nem saberia dizer de onde eu as tiraria...
Respirei fundo, sentindo meu peito tremer como sempre após o choro. Os soluços contidos escapuliam em sôfregos cortantes, e eu estava a encarar a camisa de Jean, que mesmo que houvesse uma coloração um tanto vívida, apenas a enxergava sem vida.
Realmente deplorável...
__Eren... _ouvi a voz de Armin, em um sussurro sofrido e então respirei fundo, tentando engolir toda aquela dor e humilhação que eu sempre me sujeitava a passar quando o assunto se dizia a respeito de Levi Rivaille*.
__E-Eu... _engoli em seco, enquanto me afastava dos dois e limpava as lágrimas do meu rosto. Minha voz saia tão rouca e minha garganta ardia pelos gritos que eu havia dado, enquanto eu tentava ao máximo recolher forças para continuar de pé.
Ouvi um suspiro e abri os meus olhos, mirando-os em direção aos dourados melados em castanho. Jean estava com aquele maldito sorriso de canto, que sempre dava para dar forças tanto a mim, quanto Armin, já o loiro estava com o rosto vermelho e os olhos de um anil brilhantes.
__Armin a sua cara está horrível... _eu falei dando um pequeno sorriso, enquanto engolia o nó formado dentro de mim.
__Se você visse a sua cara Jaeger... Está mais deformada que o normal _Jean falou e eu lhe dei um leve empurrão com o meu pé.
__Pelo menos a do Eren é só quando ele chora Jean, já a sua... _Armin falou e eu dei uma leve gargalhada.
__De que lado você está loiro?! _Jean falou rindo e eu neguei com a cabeça, enquanto me deitava no chão e encarava o teto do apartamento.
Ouvi a respiração pesada de Jean que logo se deitou também, encostando sua cabeça a minha e em seguida Armin, ficando assim os três em uma espécie de circulo estúpido. Sentia-me nostálgico por esses momentos tão bobos, mas tão suaves que me faziam querer esquecer tudo e apenas me concentrar que eu era feliz.
__Crescer é tão complicado... _Jean sibilou e eu dei uma risada.
__Você algum dia cresceu? _Armin perguntou e eu senti a mão de Jean voar em direção a Armin, mas ser parada pelo meu braço próximo ao loiro que gargalhou.
__Você tem razão cavalo... _eu fechei os meus olhos _E você também Armin... Algum dia nós vamos parar de crescer?
Olhei novamente em direção ao teto, enquanto o silêncio se espalhava pelo local, e eu ouvia os pequenos ruídos da casa, que eram comuns, ou um tanto estranhos dependendo das situações. Foi então que ouvi um barulho grosseiro e virei o meu rosto e vi Jean segurando a risada.
__Desculpa, mas isso foi tão... Meu deus Jaeger você com certeza tem uma mulher escondida dentro de você... _Fiquei encarando o idiota que agora dava gargalhadas altas, enchendo o ambiente antes tão desesperador e agora sem nexo.
Voltei para o meu lugar e então acabei dando uma risada baixa, o que influenciou a Jean continuar com o seu show de histeria e então acabarmos todos rindo feitos loucos pela risada tão desengonçada do Kirstein.
__Você consegue quebrar os melhores momentos Jean! _Armin falou rindo.
__Ele é um babaca mesmo... _passei a mão em meus olhos.
__Cala... A boca seu estúpido, mulherzinha _Jean continuou a rir.
__Droga... _dei uma risada.
Logo o silêncio voltou a reinar no local e apenas aqueles sorrisos estranhamente sem jeitos e agora meio forçados permaneciam. Levei minha mão que havia sido segurada ao peito, poderia sentir novamente o aperto tão forte sobre a minha pele, ouvir aquelas palavras e ver aqueles olhos tão afiados rasgando parte de mim, com apenas uma meia verdade.
Fechei os olhos, enquanto lágrimas voltavam a escorrer do meu rosto. Podia voltar a sentir o desespero tão perto, como se o mesmo estivesse sugando-me para um lugar que eu sabia que não existiria volta. Senti minhas duas mãos serem apertadas e então abri os olhos.
__Estamos aqui Eren... _Armin falou.
__Então não precisa esconder a suas lágrimas seu viado... _Jean falou colocando sua outra mão sobre os seus olhos.
Dei um sorriso e então deixei aquele mar transbordar silenciosamente e molhar o chão, enquanto pequenos soluços escapavam da minha garganta e conseguia sentir-me mais leve. Escorreguei meu pé por sobre o assoalho, sentindo as minhas meias deslizarem sobre o chão do corredor. E entre tantos motivos, algo dentro de mim gritava que eu não deveria me desesperar, mesmo que o momento gritasse o contrário.
“Ninguém disse que seria fácil
É uma pena nós nos separarmos
Ninguém disse que seria fácil
Ninguém jamais disse que seria tão difícil assim
Oh, me leve de volta ao começo”
~///~
Meus olhos ardiam um pouco mais do que o costume, sentia meu corpo tremendo e uma terrível dor de cabeça crescendo e se espalhando. Olhei para o chão tão limpo e com certos brinquedos jogados ao chão, fazendo-me sorri um pouco. Virei o rosto, encarando a pequena pessoinha que dormia atracado ao meu lençol, com os cabelos negros desgrenhados.
Desci os olhos até as pequenas perninhas amostra por conta do encolhimento do pijama azul bebê com cachorrinhos, e então vi um curativo branco em suas perninhas e engoli em seco. Voltei a minha atenção para o chão e senti meus olhos arderem...
E como se por um momento todo aquele desespero houvesse sumido, agora vinha mais forte...
Sorri amargamente enquanto respirava fundo e engolia a pedra que se alastrava em minha garganta. Arrastei os meus pés por aquele chão frio, tocando nos brinquedos. O que eu faria? Como eu enfrentaria tudo isto?
Todas as vezes que fechava os meus olhos no decorrer da noite, terríveis pesadelos assolavam a minha cabeça, onde eu me via sem o maior motivo da minha vida... Eu não tinha Lian.
Talvez quando ainda dentro da gravidez eu tenha desejado que o meu pequeno não existisse. Que eu jamais tivesse perdido o meu pai em um acidente, e que minha mãe não fosse uma simples enfermeira e o único jeito de cuidar de seus filhos fosse ter que nos mandar para aquele maldito colégio... E assim eu não teria conhecido ele... Não teria me apaixonado... E agora eu não precisaria sufocar esse amor tão doloroso dentro de mim.
Quantas vezes não olhei para mim gravido e quis acabar com aquilo tudo?
Quantas vezes eu não chorei a cada internação imaginando que eu, um adolescente estúpido e idiota estaria indo criar uma criança sem saber como?
Quantas vezes eu não orei pedindo salvação daquele sufoco, e apenas imaginando que Deus havia me abandonado por ser homossexual?
Quantas vezes eu senti dores em meu corpo, e não houve ninguém ao meu lado além da minha família? E quantas destas vezes eu não escondi até mesmo deles?
E foi naquele dia, em uma noite de outono chuvosa, eu recebi a prova de que não havia sido abandonado. Em uma noite, enquanto uma vez mais eu me preocupava com o meu futuro e da criança no meu ventre improvisado, já decidido a amar e jamais desistir do que me aguardava, recebi o aviso de que o meu maior presente estava a caminho.
Tudo era tão assustador, a dor no meu corpo incapaz, inchado e casado parecia tão sobrenatural. As pessoas andavam próximas a mim desesperadas e atordoadas, até eu ouvi: Um deles não terá chance alguma...
E naquele momento eu chorei. Chorei por medo de deixar o meu filho só, sem saber de como eu o amava de forma tão intensa, medo de ele achar que não era desejado e medo por ele não poder conhecer nenhum dos pais...
“... Salve ele... Por favor, se for... Para escolher que seja ele...”.
Embargadas, mas decididas... O único medo que houve naquele momento foi dele não sobreviver e quando eu perdi a visão, a última coisa que consegui falar foram promessas de um futuro incerto. Logo a escuridão deu passagem à luz e nela ele estava em meus braços, chorando com fome... O melhor dia da minha vida.
Quando eu abri os olhos apenas existia medo, mas assim que ele foi posto em meu colo... O mundo se encheu de cor, e cada momento, cada dor e lágrimas não foram em vão. Quando ele apertou meu dedo com sua pequena mãozinha, meu coração parecia tão grande e cheio... E cada pedacinho de mim se concertou.
Já não me importava à dor que eu tanto carreguei, nem como seria o meu futuro, ou o que eu estava abandonando, apenas existia aquele pequeno ser que chorava no meu colo pedindo alimento. E como se meus pulmões voltassem a funcionar depois da tanto tempo, algo quente se acolheu por todo o meu corpo.
__Papa... _ouvi o pequeno resmungo e olhei para o pequenino, vendo aqueles enormes olhos turquesa direcionados em minha direção. Sorri me jogando na cama e ficando próximo dele, o cobri com o cobertor e beijei sua testa coberta por fios negros.
__Ainda está muito cedo meu amor...
__Eu tive um pesadelo... _ouvi a voz chorosa e olhei complacente para a criança de olhos assustados e que apertava a minha camisa.
__Shhhh, Está tudo bem meu amor, papai está aqui com você... _falei esfregando os seus bracinhos e o mesmo escondeu o rostinho no meu peito.
__Promete? _engoli em seco, sentindo toda aquela angustia voltar. Sorri tentando ao máximo engolir o nó que crescia em minha garganta, enquanto meu peito era esfaqueado pelo medo.
__Eu... Prometo... _senti o meu moreno se aliviar e pouco tempo depois ele já estava ressonando novamente. Levei minha mão aos seus cabelos sedosos e um tanto rebeldes, sentindo o aroma doce e gentil que ele continha.
Beijei novamente sua testa e o puxei mais forte contra o meu peito. Poderia sentir o movimento de seu corpo subindo e descendo, acompanhado do doce som do bater do seu coração. Podia sentir suas mãozinhas apertarem o meu corpo, procurando proteção tão institivamente, mas tão gentil.
Senti minhas pálpebras fecharem pouco a pouco. Estava cansado, e meus olhos ainda ardiam. A incerteza batia em minha porta a cada minuto em que o reencontro se aproximava, e eu apenas podia temer... Temer pelos meus erros e pelo futuro sem conhecimento.
Engoli em seco, enquanto respirava fundo. Nesses momentos, quando o desespero batia, sentia-me tão fraco e inútil. Era nesses momentos que eu olhava para Lian e desejava ter novamente sua idade e me agarrar às pernas de minha mãe, sentindo o doce aroma que ela exalava.
Sorri enquanto me lembrava da mulher de cabelos negros e com aquela cara sarcástica toda vez que eu cometia um erro e brigava comigo. Entendia perfeitamente, pais não são perfeitos, mas fazem de tudo para serem os melhores que conseguem para nós.
Olhei para baixo e inalei o aroma doce que exalava do pescoço de Lian, o mesmo se arrepiou e então sacudiu a cabeça levemente. Beijei a extensão de pele de seu queixo e o mesmo sorriu um pouco, enquanto eu continuava beijando, que o deixavam arrepiado.
__Papa! _o mesmo reclamou e colocou suas mãozinhas em meu rosto, tentando afasta-las.
__Hum? _mordi a sua bochecha e o mesmo deu uma baixa gargalhada enquanto eu apertava sua barriga e fazia o mesmo dar risadinhas.
__S-Sua barba! _ele falou virando o rosto e ainda dando gargalhadas _Papa! Para! Haha...
__Não... _falei sorrindo e mordendo a sua bochecha, os olhos jades viraram-se em minha direção e ele estava dando um doce sorriso, com as maças do rosto rosadas e os cabelos desgrenhados.
__Acordei! _ele fez um biquinho e eu o empurrei com o meu nariz e o mesmo deu mais uma risada ao sentir minha barba por nascer contra a sua pele macia _Acordei papa! E-Eu acordei! Haha...
__Não acredito!
__Mas eu estou falando com o papa!
Dei uma risada e o soltei, o mesmo se virou na cama e ficou de pé no chão. Os olhos redondos e brilhantes direcionaram-se novamente em mim, enquanto o doce sorriso crescia em seus lábios finos e lindos.
__Bom dia querido _ eu sibilei para o garotinho, enquanto o mesmo esfregava as mãozinhas em seus olhinhos.
__Bom dia papa! _ele sorriu em minha direção e eu me levantei, sentindo um pouco de dor de cabeça pela noite mal dormida.
__Hum que tal se nós formos passear hoje? _perguntei enquanto adentrava ao banheiro e ligava a água na banheira. Ouvi os pequenos passos e vi Lian retirando sua camisa azul, e se atrapalhado um pouco nos botões.
Caminhei até ele e o mesmo estendeu suas mãozinhas em minha direção. Retirei cada pequeno botãozinho de sua casa e peguei o menino em meus braços, o colocando no balcão e retirando o seu short.
__Eu sei tirar a minha roupa papa! _Lian fez um biquinho e eu o imitei.
__Papai não quer deixar você fazer isso hoje...
__Mas eu já sou grandinho... _ele franziu as sobrancelhas.
__Não, você sempre será o meu bebê... _eu falei e o mesmo sorriu e fez um biquinho.
Suspirei, sabendo que aquela guerra eu havia acabado depois de colocá-lo no chão, sai do recinto, jogando-me sobre a cama. E novamente sentia minha cabeça dar voltas sem sentido, enquanto meu estomago a acompanhava e deixava-me enjoado.
Quantas vezes nesta noite eu não havia imaginado milhares e milhares de cenas? E porque mesmo que cada palavra que eu ensaiasse, todas pareciam tão erradas? E porque a cada segundo que se passava eu tinha certeza que não conseguiria escapar...?
Talvez seja a hora de crescer...
Estava na hora de finalmente contar tudo...
“__ Eu só queria que esse medo que cresce aqui... Não me assustasse tanto...”.
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