Fiction
27 Reescrevendo.
Notas iniciais
Existiam dias que ele poderia consagrar como os seus melhores eram os dias enfadonhos em que a sua estranha rotina conseguia se repetir sem muitos aspectos diferentes e mesmo que para muitos fossem considerados chatos e sem graças a ele eram bons dias. Dias em que o seu filho acordava saudável e sorridente. Dias em que seu animo loiro sorria novamente. Dias em que ele começava a trilhar sua nova jornada.
Sua mudança para Trost foi tão cheia de renovação e reviravoltas que não pôde realmente aproveitar a nostalgia alegre que aquele lugar tivesse sobre si. Era sim a cidade onde crescera com sua família e queria mostrar aquilo ao seu filho. Contar histórias do avô sempre tão preocupado com a raça humana e da avó louca que possuía. Também queria correr no parque e cumprimentar o vizinho todos os dias.
Comprar pão e ouvir a história chata das senhoras do prédio. E ele deleitava-se com os dias podia levar o pequenino e agitado Jaeger ao colégio e vê-lo correr em direção dos amigos que tinha dias em que ele chegava ao hospital e era recebido com um sorriso das atendentes o saldando pelo novo dia. Só que rotina dentro das paredes daquele hospital não era algo que realmente existia e ele agradecia isso também, mas alguns encontros do destino parecem marcar a ferro e estancar o dia.
Quando ele viu a bela mulher ruiva adentrando no mesmo elevador que ele sentiu uma estranha sensação no estômago e nas costas. Reconhecera aquele sorriso e andar de anos atrás, confiante, amável e charmoso. Petra Ral ex-namorada e mulher de Levi. O que ela estava fazendo ali?
Ah se ele não soubesse controlar a sua língua curiosa tinha perguntado, mas ele não tinha nada haver com aquela mulher e muito menos com o motivo dela ali, a não ser que envolvesse o moreno. Quer dizer Levi era o pai do seu filho e ele não queria um escanda-lo os envolvendo ou nada do tipo ainda mais agora que ele tinha colocado bem em pauta seus demônios com Armin.
Ter que assumir o fato da culpa que sentia e até um pouco de ciúmes da provável relação que os dois poderiam estar fadados a possuírem, não era algo fácil com toda a carga imposta do passado por mim mesmo, mas precisava para o bem do menor. Então qual o motivo da ruiva estar ali? Sabia pelas revistas que ela estava casada com outra pessoa, não queria acreditar que talvez...
O elevador abriu e a ruiva saiu caminhando elegantemente como uma lady inglesa e estranhamente eu desejei que o salto dela quebrasse, mas talvez fosse influencia do lado ruim da homossexualidade do Armin se impregnando em mim. Só talvez.
Estava tão concentrado em debater contra o meu lado negro da força que quando avistei aquela loira barriguda enfrente a minha porta faltavam dez passos. Nanaba estava linda com sua barriga de gravida e logo mais ela teria que deixar o trabalho para aguardar o grande nascimento do primeiro filho do casal loiro do hospital. Tinha se apegado bastante a ela e amava passar seu tempo livre ajudando na ala pediátrica com as crianças doentes.
—_Dia _a loira pronunciou e eu respirei fundo.
—_O que foi?
—_Nada. Por quê? _ela fez um biquinho e eu sorri adentrando a minha sala e colocando a bolsa sobre a mesa _Mas você tem conversado com a Hanji ultimamente?
—_Nada... _bufei e a encarei _Não. O que aconteceu?
—_Ela anda estranha e eu pensei que você saberia se algo.
—_Eu?
—_Você é o psicólogo. Observador das pessoas e coisa e tal.
—_Eu sou psicólogo e não Sherlock Holmes.
—_Você é muito irritante isso sim _gargalhei enquanto ela cruzava os braços e se jogava no meu sofá _Posso dormir aqui?
—_Claro. Você teve plantão hoje?
—_Sim. Sabe os bebês dos Michigan? Um deles teve uma piora e eu tive que correr para cá. Está sendo difícil para ele respirar sozinho. Tenho tanto medo de o meu bebê...
—_Calma loira, eu tenho certeza que nada disso vai acontecer. Esse pequeno nasceu de 5 meses é complicado.
—_Se o mestre falou tá falado. Mike me disse a mesma coisa esses dias _ela deitou no sofá e colocou os pés inchados para cima _Queria que eu deixasse o trabalho logo e descansasse, mas eu ia fazer o que em casa? Não sei tricotar e cozinhar não é bem minha área.
—_Minha ‘esposa’ enquanto gravida do Lian por não poder fazer esforço acabou lendo livros de psicologia. E como o médico que cuidou dela era um amigo do meu pai acabou ajudando nos estudos dela incluindo um psicólogo no processo. Foi assim que ela conseguiu estudar a distância numa faculdade.
—_Você nunca me falou da mãe do seu filho. Como ela era?
—_Espirituosa. Acabamos engravidando no primeiro ano do médio e como a gravidez era de risco não podia andar ou fazer nada, mas fez questão que antes da barriga aparecesse fazer uma prova de conclusão do ensino médio e assim iniciou um estudo a distância na faculdade.
—_Ele se parece com ela?
—_Um pouco _respirei fundo. Era bem difícil lembrar-se de falar de mim mesmo como uma mulher que deu a luz ao Lian. Sabia o que era ficar parado por 9 meses e por não aguentar tinha começado o meu primeiro curso de psicologia ainda com 17 semanas de gravidez. Uma ajudinha ali e muito esforço tinha terminado antes de cinco anos e iniciado minha pós em psiquiatria¹.
—_Já entendi. Não vamos falar dela já que te incomoda tanto.
—_Não é incomodo. Prefiro pensar que eu sou mãe e pai do Lian.
—_Se eu não fosse casada e estivesse gravida casava contigo. Claro sem contar o fato de você ser um gay _ela riu e eu a encarei surpreso _Sim eu sei. Digamos que tem certas coisas que... Bem para resumir mulheres normalmente sempre sentem um gay por perto _ela tentou se sentar com certa dificuldade e eu a ajudei recebendo uma tapinha na mão _É que o nosso radar a procura de amigos gays é forte.
—_Qual a de vocês com gays? _falei rindo e ela deitou a cabeça no meu colo e colocando a minha mão sobre os fios curtos e macios.
—_Estou gravida, necessito de carinho _revirei os olhos começando um cafuné e ela se arrumou no meu colo _É que vocês são incríveis. Vocês têm pênis e uma visão da nossa área ou sei lá. Não sei, mas amo ter um amigo gay.
—_Agora voltando a Hanji.
—_E amam fofoca _Dei um puxão na cabeça dela fazendo a loira rir _Não se preocupe Eren você quase não dá pinta. Só descobri pela forma como você seca a bunda dos caras _rir alto com a loira que me encarou fazendo agora uma careta séria _Você quase não tem realmente contato com eles, mas Levi e Hanji estão com uma aura mais pesada desde o fim de semana. Aquela maluca anda até séria por ai. Os residentes não chegam nem perto da cardiologia e neurologia.
Engoli em seco surpreso. Tinha estranhado sim o desaparecimento de Levi desde o encontro com Lian, mas não tinha qualquer ideia ou motivo sombrio que me passasse pela cabeça, mas será que estava tudo bem com ele?
Queria contar ao mais velho o quanto Lian tinha ficado empolgado por tê-lo conhecido e até pensava num próximo encontro, mas após as palavras da chefa de pediatria sentia como se precisasse falar com o moreno. Algumas batidas na porta e uma enfermeira com uma lista do meu dia trouxeram a realidade e eu fui trabalhar preocupado com Levi Rivaille.
Dias rotineiros eram sim os melhores aos seus olhos. Só não esperava que Charlote Willians fosse quebrar a sua rotina com um único bip.
Pois no fim nenhum dia é assim tão enfadonho.
❤
Bufei exausto. Estava completamente cansado pelo dia tão corrido que havia tido que nem tive tempo para uma refeição descente, apenas alguns rápidos lanches roubados do estoque secreto da Sasha durante os cinco minutos de descanso, mas sinceramente não estava com fome apenas com sono e com dores nos ombros.
Era um dia bem mais quente e estupidamente agradável e com uma noite bem fresca depois de uma rápida chuva. Por isso amava a primavera. Vesti o meu casaco e peguei a minha bolsa colocando sobre os ombros e saindo da minha sala compartilhada em direção ao estacionamento, infelizmente o namorado de Sasha tinha vindo pegá-la e eu não teria companhia dela aquela noite.
Esperava que Eren e Lian estivessem me esperando com o jantar. Estava com saudade de desperdiçar tempo com conversas fúteis com Eren e de ouvir histórias cheias de mentiras, mas engraçadas de Jean. E como eu sentia falta dele, do meu amigo que falava besteiras e cuidava de nós como um pai idiota de primeira viagem. Das brigas dele com Lian.
Entrei no elevador e encostei-me à parede do mesmo sentindo aquela leve vertigem de quando ele começava a se mover era algo que eu sempre sentiria e estranhamente gostava. Talvez estivesse na hora de resolver as coisas e ao menos tentar o meu melhor amigo de volta.
—_Se toda vez que tiver um expediente acabar esbarrando em você irei parar de reclamar de fazê-los_ uma voz carregada de um sotaque charmoso falou e eu encarei o homem que acabava de adentrar no elevador com aquele sorriso de pêndulo e olhos brilhantes _Boa noite senhor Arlet.
—_Senhor Hoover _sorri para o moreno e então a porta metálica fechou-se.
Olhei para o visor do elevador que descia sorrindo ainda. Era extremamente vergonhoso, mas não podia evitar sentir algo estranho ali no meu estômago e uma ansiedade boba como de um adolescente.
—_Então mesmo que seja apenas no sábado o nosso encontro, você consideraria um jantar comigo? _ouvi a voz do outro e o encarei revirando os olhos _Você pode ver como uma chance de conhecer melhor o seu chefe.
—_Jantar com o chefe. Hum... _voltei os olhos para o visor sorrindo _O mesmo cara com quem vou sair no sábado.
—_Serei totalmente diferente no sábado _eu o encarei ele ainda sorria _Eu sou um cara novo na cidade e não sei onde jantar seria uma chance para um local e meu empregado ajudar. Não acha?
—_Então hoje você quer que eu te veja apenas como o meu chefe _concordei olhando para o chão meio cínico e o encarei _E se no sábado eu estiver tão acostumado com você como o meu chefe que não consiga te ver de outra forma?
—_Eu faço você mudar _ele piscou para mim e eu neguei.
O elevador abriu e como um cavalheiro ele me deixou passar na frente e caminhamos até os carros. Olhei para trás e ele me encarava com expectativa e eu revirei os olhos concordando ouvindo uma risadinha do mesmo que logo pegou o próprio carro: _Aonde iremos? Ele perguntou saindo o estacionamento.
—_Tem um restaurante que vende comida tailandesa aqui perto e é muito boa _falei subindo os óculos que ainda permaneciam no meu rosto.
—_Parece ótimo para mim.
Digitei o endereço no GPS e o carro caiu em um silêncio confortável, mas ainda assim estranho já que sempre ouvia o moreno perguntando-me algo ou simplesmente dando uma de suas cantadas arrastadas e charmosas: _Por que ficou até mais tarde hoje?
—_Ah tivemos um problema com um das filiações em outra cidade e estava em uma reunião no Skype com os acionistas de lá e o diretor _ele permanecia atento à estrada _E você?
—_Estamos dando alguns ajustes na obra do projeto. Sasha encontrou uma maneira mais verde de prosseguir com o mesmo e então temos que aplicar alguns ajustes.
—_Isso é realmente muito bom _ele me encarou sorrindo.
—_Vamos apresentar tudo ajustado depois para vocês.
—_Espero que seja antes do final do mês _ele falou olhando para a estrada e eu dei uma risada.
—_Claro chefe.
Berth encarou-me surpreso e um tanto confuso e então abriu a boca em um perfeito “o” e negou com a cabeça rindo: _Não foi nesse sentido. É que pelo acontecimento com a filial eu terei que viajar no final deste mês a Shiganshina.
—_Foi tão sério assim? _ele fez uma careta e balançou a mexeu a cabeça de uma forma tensa _Você irá voltar para cá?
Os olhos castanho-esverdeados encaram-me serenos e um sorriso quase doce estava depositado no rosto daquele homem tão gentil e ao mesmo tempo firme: _Não se preocupe, pretendo ter mais encontros com você.
—_Achei que esse não era um encontro _desviei meus olhos para a janela ao meu lado rindo e negando com a cabeça.
—_E não é, mas também pretendo ter mais deles com você.
Sorri divertido, pois no fim aquele homem parecia ter a chave para sanar as preocupações e duvidas que me apareça. E tudo isso com meia dúzia de palavras e um sorriso.
Tentando arduamente não me apaixonar
A caminho de casa
Você estava tentando me conquistar, conquistar.
Beijando-me nas cercas
E nas paredes
A caminho de casa
Eu acho que está tudo dando certo, agora.
❤
—_Como você está Petra? _perguntei um tempo depois de ter sido abraçado pela ruiva que agora estava sentada em minha frente com um copo de café.
—_Você já soube puxar papo melhor _ela levou o copo aos lábios e eu sorri.
—_Normalmente eu só converso com mulheres que quero que elas fiquem, mas isso faz um longo tempo _à ruiva negou ainda rindo.
—_Estou melhor. Obrigada pelo ombro Levi.
—_Desde que lave o seu delineador do meu jaleco, tudo bem.
—_Minha maquiagem é a prova d’água meu amor _ela falou mexendo no cabelo _Pode perguntar que eu sei que você está afim.
—_O que você faz aqui?
—_Você lembra-se do Auruo?
—_Lembro. O novo marido.
—_Sim, novo marido _ela escondeu o sorriso por detrás do copo e eu levei o meu aos lábios _Ele sofreu um acidente com o nosso carro e tinha acabado de sair de uma cirurgia quando você me viu.
—_Ele está bem?
—_Sim. Eu estava apenas... Eu não sei Levi. Auruo se machucou e eu tive que me concentrar e fazer as coisas certinhas. Nós temos um filho sabe e eu estava tão feliz na minha bolha que esse acidente me trouxe de volta.
—_Alguma sequela?
—_Graças a deus nada mais grave do que um ombro deslocado e duas costelas trincadas _ela sorriu e eu neguei.
Acho que quando eu pensava na ruiva podia contar duas qualidades que sempre me atraiam nela sem precedentes. A primeira era o fato de mesmo com os céus caindo ela portava um sorriso alegre nas piores tragédias, chorava, mas seu sorriso sempre despertava como o sol todas as manhãs. E a segunda era a destreza por como ela passava por todas aquelas coisas.
Nunca tinha entendido como mesmo depois de todas as coisas ruins que tinha causado aquela mulher tão bela ela jamais me odiara. Por Deus eu poderia dizer que se precisasse Petra correria meio mundo apenas para me abraçar e dizer que estava tudo bem. Diziam que casar com melhores amigos eram a melhor coisa do mundo, mas eu tinha pisado demais na minha e ainda assim ela sorria para mim.
—_E como você está?
—_Cansado.
—_Erwin está te punindo por algo?
—_Como sempre _ela sorriu para mim.
—_Você parece mudado.
—_Deve ser o corte. Mudei um pouco e a loção pós-barba também.
—_Estou falando do fato que você parece mais feliz _ela me encarou com seus enormes olhos castanhos e eu tomei o meu café _Mais solto. Quase como aquele garoto do ensino médio que se achava.
—_Eu ainda me acho o bastante.
—_Qual é Levi sou eu. Sua melhor amiga. Ex-mulher. Ex-namorada. Transei com você e dormi do seu lado aguentando seu TOC por limpeza. Eu acho que te conheço bem o bastante, melhor que você mesmo.
—_Só porque você sabe sobre certos sinais que eu possuo nas nádegas isso não quer dizer que sabe tudo _ela revirou os olhos e eu dei uma risada _Tem uma pessoa.
—_Para valer?
—_Eu acho que sim.
—_Acha?
—_Não estamos juntos.
—_Por quê?
—_Eu a machuquei muito alguns anos atrás. Como todo mundo que me conhece.
—_Muito mais do que eu _engoli em seco e concordei _Entendi é a sua sombra.
—_Minha sombra?
—_Sim. Teve um tempo que toda vez que eu olhava para você enxergava uma sombra por detrás dos seus olhos. Sabia que tinha uma pessoa, mesmo não sabendo que ela era.
Encarei-a um tanto surpreso e concordei mudo mais uma vez utilizando o café como silenciador. Sabia que tinha sido um adolescente bem complicado para todos que me cercavam e amavam de verdade, lembrava bem das lágrimas da ruiva em minha frente e da própria Hanji suplicando por uma chance de ajuda.
—_Acho que posso começar estar me sentindo livre de verdade.
—_Então a sua sombra trouxe as suas asas?
—_Ela trouxe muito mais que isso. Eu só não sei como acertar as coisas. Quero me aproximar Petra e mostrar que não sou o mesmo babaca que antes, que posso cuidar deles e fazê-los feliz.
—_Eles?
—_Longa história.
—_E o que te impede?
—_Um muro de mágoas e dores?
—_Você é um Rivaille.
—_Eu sei disso muito bem.
—_O que eu estou tentando dizer é que você sempre foi muito bom em escalar as coisas Levi_ ela se levantou e beijou o meu rosto o segurando por entre os dedos macios _E se você não conseguir escalá-lo, destrua-o pedra por pedra, mas não desista.
E aquela ruiva nunca esteve tão correta. Eu iria derrubar tudo o que me separava de Eren Jaeger.
❤
A chuva tinha voltado de forma fraquinha, mas ainda assim era muito bem vinda. Estava sentado em uma das mesas do restaurante esperando Berth terminar de falar ao telefone para podermos finalmente seguir para nossas respectivas casas. Era envolvente conversar com um homem tão estimulante e divertido que mal notei as horas passarem-se.
—_Desculpe Armin _Berth voltou a sentar-se à mesa passando as mãos nos cabelos e sorrindo cansado. Ele tinha tirado paletó assim que chegamos e mostrava o seu bom corpo na bela camisa de botões vinho.
—_Não tem problema. Eu sei que é algo sério.
—_Eu já o resolvi realmente, mas muitas das vezes o chefe tem que estar presente para mostrar “quem é que manda”. Não gosto realmente de fazer isto, mas alguém tem que o fazer _ele falou fechando os olhos cansados _Acabei desabafando.
—_Não se preocupe chefe. Sou um bom ombro amigo.
Os olhos ferinos encaram os meus. Conseguia ler muito bem a resposta para o meu “amigo” e não pude deixar de rir do moreno. Berth não falava comigo de um mundo alheio ao meu não tinha carros de marca e nem grandes viagens e dinheiro. Falava como um cara que vai comprar pão na rua e enfrentava filas no banco. O sentia acessível a mim e isso me deixava contente.
—_Você já quer ir?
—_Sinceramente? _olhei para ele sorrindo e neguei com a cabeça.
—_Também me sinto assim. Você é um homem fascinante Armin.
—_Eu? Você é praticamente o Batman com o coração do Steven Rogers e eu sou interessante? _ri um pouco mais alto e o moreno fez um biquinho.
—_Eu entendi essas referências _ri mais um pouquinho, ele respirou fundo _Estou falando sério senhor Arlet. Mesmo que haja uma tristeza tão grande em você o fato de conseguir sorrir assim... Não é pouco.
—_Meu amigo Jean sabe. O cara _eu olhei para mesa enquanto quebrava os palitinhos de dente destruídos sobre as mesmas _Ele falava que eu fazia parte daqueles 3% da humanidade que magoados sorriam e fazem os outros sorrirem.
—_Eu concordo com ele nisso. Você é especial _encarei o moreno que me olhava como se tentasse decifrar um enigma _Sei que você se assusta com o fato de eu correr atrás de você mesmo sabendo tão pouco, mas eu também estranho o fato de que com tão pouco tempo você não saia da minha cabeça.
Berth esticou sua mão esquerda e pegou na minha acariciando a costa da mesma. Tinha aquele magnetismo e carinho transbordando dos seus olhos que parecia fazer o vazio e toda a dor sumirem de pouquinho em pouquinho. Como um novo começo.
—_Esse jantar não pode terminar em beijo _eu falei sorrindo e ele acompanhou-me deixando as bochechas corarem levemente.
—_Eu não prometo nada de sábado.
—_Então que sábado chegue logo.
Porque ainda há muito tempo para o fim de semana
Muito tempo até eu me afogar em suas mãos
[...]
Você estava tentando me conquistar, conquistar.
A caminho de casa
❤
Respirei fundo sentindo toda a minha raiva acumulada da semana queimando. Queria muito mais do que quebrar a merda de um tablet, mas não poderia descontar tudo em um daqueles malditos assistentes sociais idiotas que não faziam o seu trabalho direito e nem mesmo aqueles enfermeiros enfadonhos. Droga Levi.
Apertei com força a parte da frente dos meus cabelos enquanto caminhava naquele maldito quarto como um tigre enjaulado. Erwin com certeza estaria tentando concertar a merda do meu erro que podia até dar em um processo para o hospital, e se isso acontecesse sabia que as coisas piorariam e muito com o todo poderoso.
A porta se abriu e o pirralho adentrou na mesma e sentou-se na cama do quarto concedido aos médicos que passavam turnos noturnos ou mais longos, poderem descansar um pouco mais só que todos sabiam que eles faziam outras coisas naquelas camas. Eu nem entrava naquele maldito lugar realmente.
—_Você vai acabar fazendo um buraco no chão Levi _o mais novo comentou e eu encarei aqueles olhos verdes enormes e que transmitiam calma.
—_Eu sei que foi errado socar o assistente social. Não preciso de um sermão Jaeger, sei que o Erwin deve está preparando o dele agora _Falei apertando os punhos e fechando os olhos com força _Eu só fiquei com tanta raiva da falta de profissionalismo daquele cara que não segurei.
—_Não vim aqui para te dar um sermão Rivaille eu tenho a consciência que você é bem grandinho para precisar de um.
O encarei e respirei fundo. Ele tinha ficado bem calmo com toda a história bem diferente de mim. Todos sabiam que mesmo com todos os esforços de tantos médicos Charlote era um caso perdido, uma criança com os seus dias contados, mas um novo assistente social enviado do inferno tinha aberto à boca para a garota e falado com todas as letras.
Charlote não passava de um paciente ocupando espaço desnecessário. Um espaço que poderia estar sendo usado por uma pessoa com chances de sobreviver. Que não era necessário ela ficar ali. E aquela desculpa? Estou apenas informando os meus clientes da verdade que vocês escondem.
E por causa daquilo ela tinha tentado se suicidar. Uma garota com menos de 17 anos tinha tentado se suicidar. Uma criança. Sentia a raiva voltar com força naquele momento, ela era apenas uma criança que estava fadada a nunca ter seu primeiro amor, ou seu primeiro porre, ou sua formatura, e todas as primeiras vezes que sempre temos, mas não ela tinha sido premiada com tantas calamidades uma atrás da outra.
—_Ela é apenas uma criança Eren _sentia minha voz falhar a cada palavra e não podia evitar os meus olhos de arderem. Sabia que estava envolvido demais com o caso perdido que aquela garotinha de sorriso doce e esperança inabalável, mas o que eu podia fazer? _Eu fico pensando que tem tanta gente ruim que merecia algo do tipo, mas ela... Droga.
—_Levi... _olhei para o mais novo que me encarava sereno e eu respirei fundo _Eu entendo. Tudo o que você sente: a raiva, a culpa por algo que não foi você, o medo, a frustração. Isso tudo é normal e eu já tinha notado que cedo ou tarde você ficaria em um estado do tipo, principalmente quando a hora se aproximasse.
Neguei com a cabeça e sentei ao lado do mais alto naquela cama respirando fundo.
—_Como estão os pais dela?
—_Sofrendo _Jaeger falou me encarando e eu respirei fundo.
—_Eu fico pensado e se fosse diferente? Sabe poderia ser o... _engoli em seco o nó que se formou e Eren pareceu surpreso por alguns momentos e então olhou para frente e respirou fundo.
—_Eu já vi algumas coisas bem piores acontecerem com crianças. Principalmente quando trabalhava com os perfis criminais. Muitas atrocidades e já cheguei a pensar nisso. E se fosse o Lian? É normal às vezes assimilar essas coisas.
__E como você passava por cima? _ele me encarou sorrindo gentilmente e sacou o celular do bolso onde uma foto do moreno estava como descanso de tela.
—_Lembrava que ele estava bem e sorrindo. Ligava para minha irmã para falar com ele. _fechei os olhos e respirei fundo _Ele provavelmente está na escolinha agora perto da saída correndo e brincando com a prima dele. Está bem. Está feliz Levi.
—_Prima? _abri os meus olhos sorrindo e o mais novo me encarou.
—_E o que mais ela seria do Lian? Nina é filha da sua irmã e ele é... _o mais novo encarou as mãos e respirou fundo _ Ele é seu filho Levi. Isso é algo que nenhum de nós pode mudar. Eu já entendi a situação e sei que não posso afastar vocês dois, pois não seria justo.
O mais novo me encarou sério e sorriu de lado.
—_E o que você vai fazer agora?
Jaeger se levantou e espreguiçou o corpo e caminhou em direção à porta dando uma risadinha baixa. Os olhos verdes pairaram sobre os meus e eu reconheci o brilho daquele garoto de tantos anos atrás, com sorriso cativante e jeito de moleque.
“... Não mudaria nada em sua personalidade, por que assim o torna alguém ainda mais admirável¹”.
—_De forma clichê? Acho que é aqui que começamos a reescrever tudo de novo.
Eren deu-me as costas e saiu do quarto. Sorri para o nada com as palavras do mais novo.
Eu vou reescrever tudo de novo,
Nossa história não vai acabar
[...]
Começar com você e eu sorrindo felizes
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