Fiction
17 Infiltração...
Notas iniciais
Desde sempre ouvi dizer que a calmaria antes da tempestade era mau sinal Talvez por isto estivesse tão ansioso para que algo ocorresse, mas desde aquela fatídica noite, duas longas semanas haviam se passado sem nenhuma noticia, ou tentativa de aproximação de Levi.
E isto era perturbador, para não dizer o contrário. Sem cartas judiciais, sem ligações de advogados, visitas surpresas em minha sala ou qualquer outro tipo de aproximação, nada disto haviam ocorrido durante este tempo, que já estava próximo de se abrir para há terceira semana.
Mas não é como se eu houvesse esperado para poder me mover, Jean havia ligado para o seu amigo, que marcará um encontro conosco em um restaurante para hoje. E eu sabia que se quisesse ter Lian para mim, haveria de dizer a verdade.
O fato é que se nem o próprio pai do meu filho acreditará, como alguém de fora, que nem ao menos conhecia poderia fazer o mesmo?
Jean havia me informado que o tal doutor Bodt, era um amigo dele de família e totalmente confiável, e mesmo assim se não me sentisse bem em contar a verdade a ele, poderia apenas tentar mostrar meia verdade.
__Então este seria o plano de mudança para a nossa ala. Parece que o Doutor Erwin está pensando na sua ideia de abrir uma clinica psiquiátrica fora dos compartimentos do hospital _Elena, uma das doutoras que trabalhavam na ala de psicologia e psiquiatria comigo falou relendo os relatórios.
__Oh sim, eu fiquei realmente contente. Acho que os nossos pacientes sentem-se assustados com o hospital, e um lugar próprio para o recolhimento destas pessoas seria bom _falei enquanto tomava mais um gole de minha xícara de café expresso.
__Aconteceu algo? _a bela mulher de cabelos castanhos falou e eu sorri.
__Não, estou apenas cansado. Além do trabalho, estou terminando as pequenas reformas em meu apartamento, e ainda preciso ir a uma reunião na escola do meu filho _falei tamborilando os dedos sobre a mesa.
__Sabe do que você precisa? _ela falou guardando os papeis dentro de uma pasta azul escura.
__Do que?
__Sair com alguém _o som de minha gargalhada encheu a sala, enquanto ela apenas sorria docemente _Você é não fez nem 25 anos Eren, e já está com idade de alguém de 30. Perdoe-me, mas parece que você não tem uma boa noite de sexo há dois séculos.
__Talvez três _falei bebericando o meu café novamente e foi à vez dela dar uma alta gargalhada.
__Você com certeza é um homem diferente _ela amarrou o cabelo em um coque _Novo, tem um filho, trabalha em uma área de gente velha e ainda por cima é recatado.
__Você também não é velha Elena _falei sorrindo.
__Sim, mas eu já fiz certas coisas que a idade manda meu querido, e agora estou noiva e pronta para ter os meus pirralhos.
__Não é tão ruim assim.
__Claro que não _ela sorriu de forma dócil _Provavelmente será a experiência mais desgastante e extraordinária que irei enfrentar.
__Vocês ainda estão aqui? _uma voz mais grave cortou a conversa, e um homem de cabelos mais grisalhos e de óculos falou da porta.
__Estávamos arrumando os relatórios e fazendo balanceamento de alguns casos _falei olhando John se aproximar e sentar-se em uma cadeira.
Estávamos em uma sala de reuniões do nosso departamento, que era usada para pequenas reuniões nos finais de semana. E como eu era um dos mais novos, e agora o chefe do departamento, precisava organizar tudo e falar com cada médico para saber que medidas eles queriam tomar, ou que ações eles poderiam ter em mente.
Erwin era o único médico de fora que acompanhava nossas conversas, já que o mesmo era o chefe de cirurgias do hospital. Talvez por isto, todos comparecessem com mais afinco e cheio de reclamações de como eu estava sendo muito atrevido em querer reações mais diretas.
__Em plena sexta-feira à noite, vocês continuam trabalhando? _o mais velho gargalhou _Essa juventude não sabe aproveitar...
__Blá-blá nós já sabemos que você está velho John _Elena falou rindo, enquanto o outro se girava na cadeira.
Elena e John eram um dos poucos médicos que me apoiavam no departamento, e um dos poucos com quem havia realmente me dado bem. Os dois viviam brigando, mas eram amigos desde que Elena havia vindo estagiar durante a faculdade aqui.
__Por que não saímos para beber? _John falou abrindo uma das três pastas jogadas pela mesa e fazendo careta _A letra daquela velha arrogante da Mary é uma infelicidade.
__Isto é verdade _falei rindo _E acho que você não está mais tão na ativa assim para querer beber John, sua mulher iria pirar.
__Pirar? A mulher iria enlouquecer _ele falou rindo _E talvez me deixasse em paz um pouco.
__Fala isso, mas morre de amores por ela.
__Logicamente, é punica que o aguenta Eren _Elena falou rindo.
__Bem, eu preciso ir para casa. Hoje haverá um jantar importante _falei me levantando e recolhendo uma das pastas _Vejo vocês na segunda.
__Bom proveito garoto _John falou.
Depois de arrumar minhas coisas e sair do hospital, apenas teria que caminhar em direção a um restaurante próximo do hospital, onde o amigo de Jean havia marcado o encontro. Não estava muito animado para falar a verdade, e andar sozinho no território do hospital apenas me dava a impressão de que a qualquer momento seria abordado por Levi e seu advogado.
Se já não bastassem os constantes pesadelos a que vinha tendo, agora ainda havia esta mudança repentina nas ações do mais velho.
Poucas vezes ouvia enfermeiras e estagiários falando algo ou outro sobre Levi, e pelas poucas coisas que havia ouvido, o mesmo parecia mais normal do que nunca. A única coisa estranha nestes dias que havia visto era a irmã mais velha do mesmo, Hanji, vim pedir ajuda minha em alguns casos mais drásticos que ela possuía.
Nanaba estava afastada do hospital por conta de um pequeno acidente, nada muito grave, mas que havia lhe estendido os dias em casa por conta de sua situação. Mike parecia muito mais apressado, com os ocorridos com a esposa.
Respirei fundo, enquanto tentava de forma falha esquentar minhas mãos nos bolsos do casaco que estava usando. Avistei aos longe o pequeno bistrô onde havia sido marcado o encontro, e podia ver o carro de Jean estacionado enfrente ao mesmo.
Atravessei a rua correndo, um pouco de neve começava a cair, o que deixava a noite terrivelmente fria, já que pela manhã uma fina chuva havia caído. Logo já estava sendo acolhido pelo aconchegante calor oferecido do ambiente dentro do pequeno bistrô.
Um lugar simples, mas muito belo que oferecia comidas requintadas tanto da região, como estrangeira. Após comunicar ao jovem atendente a mesa, fui levado para uma região mais ao fundo, próxima às janelas e com maior privacidade.
Jean estava sentado com Armin em uma das mesas, os dois pareciam distraídos em uma conversa quando cheguei.
__Eren, que bom que chegou _Armin falou sorrindo.
__Obrigado Armin, onde está o seu amigo Jean? _perguntei sentando-me ao lado do loiro que bebia um vinho tinto.
__Marco está a caminho, parece que houve um problema com um dos clientes dele, mas já está tudo resolvido _Jean falou bocejando.
__E Lian?
__Jantou e dormiu _Jean falou sorrindo _A senhora Pábula aceitou ficar com ele, não se preocupe.
__Dormiu? _perguntei surpreso e Armin deu risada _Meu filho foi dormir antes das 8 horas?
__Jean fez o favor de desgastar o pequeno, à tarde inteira _o loiro comentou bebericando a taça.
Dei uma risada, enquanto um garçom se aproximava da mesa para servir uma taça para mim. Tamborilava o dedo sobre a mesa, enquanto o líquido rubro deslizava incontáveis vezes na taça. Jean e Armin conversavam animadamente sobre algo, que particularmente não me interessava.
Estava tão exausto de tudo, das músicas no rádio, do cheiro do café da minha sala, da secretaria que usava perfume demais, e de estar sempre à espreita de ouvir alguma coisa sobre Levi. Era incomodo olhar para as outras pessoas, as mesmas da minha idade, que faziam faculdade, brigavam com os pais, noivavam e tinham rotinas tão ridículas, que foram arrancadas de mim antes mesmo dos meus 18 anos.
Não que eu me arrependesse de ter seguido o caminho que escolhi pensar assim parecia até um pecado, pois sem tudo isto eu jamais teria Lian em minha vida, mas não podia sentir-me muitas vezes invejoso pela vida de Jean ou Armin.
__Oh! Finalmente, pensei que ele jamais fosse vim _a voz de Jean despertou-me de meus pensamentos.
Olhei para o pequeno corredor, onde um homem de terno cinza de risca giz com gravata azul marinho caminhava elegantemente em direção a nossa mesa. Ele possuía em mão um casaco negro dobrado com um sorriso de canto leve charmoso.
__Me perdoem pelo atraso, mas o transito não colaborou em nada também _ele falou ficando de pé e Jean se levantou dando um abraço no mesmo que correspondeu.
__Não se preocupe, não faz muito tempo que chegamos também _Armin falou cordial e com um belo sorriso no rosto.
__Loiro com olhos azuis celestes; educação refinada além de andar acompanhado deste troglodita... Você deve ser o grande Armin Arlet, ouvi falar muito de você _o homem de pele mais bronzeada que a nossa falou simpático e Armin se levantou lhe entendendo a mão que foi bem recebida.
__Posso dizer o mesmo _tomei mais um gole do vinho, enquanto as apresentações e conversas continuavam até os olhos castanhos pousarem em mim.
__Bem Marco, este aqui é o meu amigo que precisa dos seus serviços _Jean falou se sentando e eu acenei educadamente enquanto o moreno se sentava em minha frente.
__Prazer, Eren Jaeger _ele sorriu estendendo a mão para mim, que logo a apertou _Ouvi falar muito bem dos seus serviços Dr.
__Oh, é um prazer senhor Jaeger, mas sou um pouco velho demais para ser chamado de Dr. Ainda, não acha? _ele falou piscando de forma galante e eu sorri de forma nasalada _Me chame de Marco.
__Então me chame de Eren, senhor Jaeger foi o meu pai _ergui a taça e Armin me acompanhou rindo.
__Desculpe a intromissão, mas o senhor disse que se atrasou por um serviço, qual tipo? _Armin perguntou abrindo o cardápio sobre a mesa.
__Nada muito complicado, apenas casos de processos que não posso falar em nome da ética _o moreno falou passando a mão nos cabelos negros alinhados com gel que caiam para trás, combinando harmoniosamente com o rosto mais fino.
__Você parece um robô falando assim seu duas caras _Jean falou rindo e logo o homem com belas sardas gargalhava.
__Costume de trabalho pônei _Marco falou e eu dei uma risada.
__Tsc... Tudo sua culpa Jaeger _Jean falou fazendo biquinho e olhando para janela.
__Minha culpa? Eu nem abri minha boca ainda cavalo _falei coçando levemente a nuca.
__Digamos que quando Jean me contou sobre o carinhoso apelido que você colocou nele, eu tenha aderido rapidamente à moda _o moreno em minha frente falou passando a língua entre os lábios.
Engoli em seco, sem duvidas Marco Bodt era um homem atraente, com seus 1,90 de altura, olhar intenso e corpo levemente definido destacado pelo terno. Sentia-me um tanto incomodado por estar tão próximo de um homem que transpirava sensualidade e elegância em boa medida.
Todos sorriam na mesa, enquanto eu permanecia quieto encarando a minha já seca taça de vinho. Não que eles se parecessem, mas o porte elegante era algo ligado a grandes famílias em Trost, e não era ingênuo de não pensar que Levi já havia sido assim, claro, longe de minhas vistas.
__Acho melhor pedirmos, afinal tem uma pessoinha que vai ficar triste se não estivermos em casa _Armin falou e eu concordei.
__Quem? _Marco perguntou com sua taça já cheia sendo levada aos lábios.
__Meu filho Lian _Falei sorrindo, enquanto enchia minha taça _Outro que aderiu a moda digamos “cavalar” de chamar o Kirschtein.
__Muito engraçado Eren _Jean falou rindo.
__Bem, então já que iremos apressar o nosso jantar, gostaria de saber para o que meus serviços seriam necessários _Marco falou olhando diretamente para mim.
Ele não parecia realmente um homem ruim, mas era tão novo e atrativo, que temia quebrar à cara novamente. Essa era uma lição dolorosa que a vida havia me ensinado, jamais deixar os sentimentos irem mais rápidos que a razão.
__Não estraguemos o jantar Marco, ou o chamei aqui para que Eren pudesse lhe conhecer, pois... _Jean olhou para mim e sorriu _Você é um dos poucos advogados que pode ajudar o meu amigo aqui.
__Entendo... _os olhos negros voltaram para mim _Eren, não? Eu realmente entendo o fato de você querer conhecer o advogado com quem irá trabalhar isto se a forma como levo meus casos o agradar, e não se sinta acanhado para perguntar-me nada.
__Não estou acanhado Doutor _falei cerrando os olhos _Meus assuntos realmente requerem uma pessoa de fora e que tenha a mente bem aberta para o que irei dizer. Possuo provas de tudo o que irei dizer, mas não é um assunto... Como posso dizer.
__Aceito na nossa sociedade ainda _Armin completou tocando no meu braço, talvez percebendo minha exaltação _Eren é um pai dedicado e um homem como qualquer outro Marco, mas a história dele e o que ele é são coisas que poucas pessoas achariam toleráveis.
__Eu... _Jean suspirou bagunçando o cabelo de forma desajeitada _... Posso dizer que é bem difícil de acreditar, levei um bom tempo para acreditar, mas se não tivesse visto com meus próprios olhos, ainda duvidaria,
Todos nós sorrimos lembrando o passado, e eu levei a taça aos lábios. Não era um período fácil para ninguém, eu era apenas uma criança sendo jogada de cara na rua, descobrindo coisas intoleráveis para qualquer adolescente.
Ser pai já é difícil para qualquer jovem que mal completou a maior idade, imagine saber que você seria aquele que daria a luz para a criança. Que não teria o apoio da pessoa que amava; que os pais enganaram a vida inteira, que os amigos chamavam de mentirosos e que a própria irmã virou as costas por um período de tempo.
__Vocês todos parecem bem... Ligados, digamos _Marco falou sorrindo e abrindo o terno _Eu prevejo que o que você tem a me dizer, Eren Jaeger, é uma verdadeira tempestade _engoli em seco olhando para o homem que parecia divertido em tentar desvendar meus maiores segredos _Mas eu não sou do tipo de homem de desistir fácil...
Ele sorriu de lado...
Eu jamais poderia imaginar que Marco Bodt fosse realmente um louco apaixonado por adrenalina, que me divertiria tanto.
~*~
Três semanas...
Esse era o tempo exato em que eu fechei os olhos para mundo. Meus olhos estavam mais pesados do que nunca, era tão difícil dormir sabendo que acordaria suado e ofegante e mesmo sem lembrar-se de nada, teria a sensação de que a culpa era minha e que grandes olhos verdes gritavam isto.
E para piorar haveria uma reunião dos acionistas das empresas da minha família em alguns dias, e sabia que teria que me encontrar com ele para ouvir como o seu querido filho não passava de gastos e despesas mal calculadas.
Desde aquela noite, em que havia saído da casa do Jaeger, bebido, transado com um estranho a noite inteira e enchido a cara novamente, que minha cabeça parecia mais pesada que nunca. E como se as desgraças já não estivessem acumuladas, aquela maldita caixa permanecia sobre a minha mesinha de centro na sala, intocada.
Não que eu pudesse acreditar em qualquer uma daquelas palavras, mas por algum motivo àquela caixa parecia me assombrar muito mais. Estava de folga, já que precisava arrumar certos documentos para a reunião, e sendo assim estava sentado sobre o meu sofá, olhando aquela caixa de pandora de cor cinza e feita de papelão.
O meu café permanecia intocado, assim como a maioria das minhas refeições esta semana. Hanji que já havia percebido o meu estado levemente abatido, parecia desesperada para saber o que se passava, não duvidaria em nada que depois do plantão ela aparecesse em minha porta com comida e pedindo explicações.
Fechei os olhos, sentindo todo o cansaço acumulada das noites passadas a base de sexo e insônia me causou além do estresse das cirurgias e de ensinar os pirralhos a ao menos suturar decentemente.
Às vezes sentia falta do exercito, era um período muito mais simples, em que você só precisava atirar e receberia felicitações. Não importava quem estava do outro lado, não importava o quanto demoraria você só teria que sobreviver para costurar outros homens no campo de batalha.
__Enquanto a maioria das pessoas gostaria de voltar à infância, você Levi Rivaille só pensa no tempo em que matava... Patético _eu sussurrei enquanto pousava minha cabeça sobre o encosto do sofá de olhos fechados.
Como uma criança...
Desesperado em meio a um apartamento grande e sozinho. Sem ninguém, e ainda assim expulsando todos que ao menos tentassem se aproximar, pois era muito mais fácil sentir dor do que querer ver o sol brilhar.
“Levi... As pessoas gostam de gentileza, porque suas vidas são duras demais. Por isso, sempre ponha um sorriso no rosto...”.
“Assim mamãe...?”
“Isso querido, agora me prometa que você sempre exibira essas perolas que a mamãe ama...”.
“Eu prometo mama!”
__Me-me desculpe mama... _engoli em seco, lembrando-me dos poucos períodos da minha infância em que me sentia imensamente feliz _Desculpe decepcionar você também...
Gargalhei enquanto sentia certa umidade chegar ao canto dos meus olhos. Olhei novamente para a caixa, com angustia e com medo, sem duvidas que as palavras de minha mãe eram verdadeiras, não que importassem naquele momento, apenas um único sorriso que parecia decepcionante demais não ver...
__Você não passa de um maldito parasita infiltrado em mim, não é Jaeger? _falei enquanto puxava a tampa da caixa e retirava os primeiros papeis.
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