Fiction
32 Inexistência de caras como eu e você.
Notas iniciais
—O senhor coruja?
—Confere!
—Um par de meias extras?
—Confere!
—Casaco caso fique frio?
—Mas papa tá fazendo calor...
—Lian _o encarei do retrovisor e o mesmo cruzou os bracinhos e revirou os olhos.
O que? Lian revirou os olhos? Eu com toda certeza vou matar o Jean ou não me chamo Eren, aquele maldito cavalo que fica ensinando o meu menininho a ser rebelde e extremamente fofo com esse biquinho emburrado. Foco.
—Mas pode chover Lian.
—Tio Min colocou na minha mochila _o moreninho me encarou pelo retrovisor.
—O seu remédio para febre?
—Eu não tô mais doente papai _Lian franziu o cenho _Eu tô?
—Nunca se sabe _inspirei profundamente encarando a fachada do carro de Armin ainda estacionado. Sim eu tinha plena certeza de está exagerando, mas não podia evitar que em todas as vezes que fechava a mochila de Lian ter a sensação que esquecia algo.
Era engraçado como o tempo parecia correr quando algo que te deixava nervosos se aproximava. Depois de brincar com Jean, Armin e Lian por um bom tempo, jantarmos a minha comida deliciosa _exaltando aqui os meus dons miraculosos na cozinha_, assistirmos alguns filmes e comemos metade do bolo. Fomos dormir entre risadas e conversas bobas.
Tínhamos “acampado” em minha sala com várias almofadas, lanches e filmes. Lian tinha apagado rapidamente, pois segundo o meu amigo loiro ele e Nina tinham brincado demais e quando terminamos de conversar como havia sido o dia deles notamos que Jean também dormia encolhido por sobre algumas cobertas e Armin rindo denunciou que o cavalinho também fizera a festa com os pequeninos. Coloquei Lian que dormia em meu colo deitado ao lado de Jean e logo o pequenino se jogava sobre o peito do mais velho que substituirá a almofada pelo moreninho.
Estava bem casando pelo dia corrido no trabalho e sem contar a presença forte de Levi ao meu lado. Armin e eu como duas garotinhas fomos para o meu quarto segredar os acontecimentos recentes e eu fiquei realmente surpreso em saber que aquela bicha estava tão contente assim pelo sexo _quase_ maravilhoso que tinha tido com o seu chefe. Brincamos sobre os acontecimentos até que adentrássemos na madrugada e voltássemos para a sala para acompanhar os outros dois no sono profundo. O café tinha sido tão divertido quanto o jantar, mas desta vez o loiro tinha cozinhado.
Jean e Lian assistiam desenhos juntos enquanto eu arrumava a mesa. E logo depois estávamos ali devorando os quitutes feitos por Armin e parecia ser mais um daqueles dias de rotina maravilhosa em que eu e minha pequena e adorava família curtíamos e nos divertíamos até Lian lembrar que hoje passaria à tarde na casa do Zangado-san fazendo com que eu mergulhasse em um balde de água fria. Okay talvez eu estivesse apenas sendo dramático como Jean frisara ao notar o meu nervosismo, mas Lian ficaria sozinho com Levi.
Eles dois sozinhos. Sem a minha presença.
Eu não queria manipular os encontros desta forma, mas não conseguia parar de imaginar inúmeros cenários em que o meu pequenino ia e não voltava. Sabia que tinha que confiar em Levi e mesmo que isso estivesse me matando por dentro _essa desconfiança que o mais velho já fizera questão de minar_, eu estava bastante ansioso. Meus dois amigos haviam me distraído o bastante por durante a manhã, mas quando recebi uma mensagem do neurologista confirmando o encontro e o horário, passei de calmo a neurótico.
Meu pequenino já estava emburrado com a minha demora, afinal estávamos há dez minutos no carro enfrente ao prédio. Respirando fundo dei partida seguindo pelo endereço do médico ao qual digitara no GPS e me ajudava na navegação, coloquei um CD infantil no rápido e Lian cantarolava as cantigas enquanto olhava a paisagem, admirado e contente pelo passeio. Levi morava em um condomínio de algum bairro de classe média bem longe do meu apartamento, tinha orado não sem quantas vezes para o pequenino de olhos verde desistir do passeio e ficar o dia inteiro comigo, mas além de decidido Lian era completamente teimoso.
O transito era consideravelmente tranquilo para o dia, o que me fazia questionar que até mesmo Deus queria que esse encontro dos dois ocorresse. Cheguei à entrada do condomínio e engoli em seco ao notar o quão belo e impotente o mesmo era com uma enorme fachada murada e os seguranças armados, após uma rápida conferida com os meus documentos e uma ligação para o morador do local a minha passagem tinha sido liberada. O mais velho morava no boco B do local grande e depois de um tempo rodando como um idiota encontrei a casa 221 ao qual era morada do neurocirurgião.
Estacionei enfrente a casa e antes que eu descesse o portão prata da garagem abriu como em um convite mudo para que eu adentrasse nas profundezas do covil de Rivaille, engoli em seco e entrei com o carro dos meninos e estacionei enfrente a garagem fechada que deveria esconder o carro do mais velho. Encarei surpreso o local bem confortável e muito belo. A casa de Levi parecia o sonho de um arquiteto.
Era de dois andares, mas como uma escada de dois degraus com grandes blocos retangulares segurando-se um na ponta do outro, enormes janelas de vidro fumê e um belo jardim arborizado ao qual eu tinha certeza de enxergar um pontinho amarelo correndo e brincando. Inspirei profundamente e olhei para Lian que com os olhinhos brilhantes mirava Nina, estava tão absorto que dei um pulo ao ouvir batidas fracas no vidro ao meu lado.
Abri a porta e encarei um Levi que com toda certeza eu nunca tinha visto: com calça de moletom cinza e camisa de alguma malha fina branca, os cabelos molhados jogados para trás e um par de óculos adornando o seu rosto de forma simétrica _ele estava muito belo.
—Foi difícil de encontrar? _ele perguntou e eu suspirei concordando.
—Você está se escondendo por acaso? _Levi abriu um pequenino sorriso e seguiu para a parte traseira do carro enfrente ao vidro dos bancos traseiros, baixei os mesmos dando visualização para o mesmo de um Lian sorridente sentado em sua cadeirinha _Oi baixinho, animado?
—Sim! _Lian ergueu as mãozinhas e Levi deixou um sorriso doce permanecer em seu semblante ao qual eu encarei sem pudor algum, pois ainda parecia incrível que o mais velho pudesse levantar os cantos dos lábios para um gesto tão bonito e tão pouco desdenhoso.
—Nina está toda animada. Passou à manhã me enchendo _Levi comentou virando em minha direção e eu neguei com a cabeça _E pelo visto alguém fez o mesmo.
—Só um pouquinho _eu segui até o porta-malas ao qual eu abri e retirei a mochila de Lian e alguns brinquedos que o mesmo me pedira para trazer _Aqui está o restante dos acessórios com o pacote.
—Ele vai passar à tarde ou dormir aqui? _Lian me olhou um tanto surpreso ao pegar a mochila um tantinho pesada.
—Olha é a minha primeira vez, eu sei que exagerei, mas vai que você necessite de algo _abri a porta traseira e após retirar os ganchos de segurança da cadeirinha peguei o pequenino em meu colo que veio completamente contente _Você está ficando grande demais para essa cadeirinha meu amigo.
—Mas eu gosto dela papa _Lian encarou a cadeirinha e depois me olhou.
—Mas logo você vai ter que trocar ela por outra _Levi comentou e eu concordei _Porque não vai brincar com a Nina? Mas fiquem longe da cerca.
—Okay _Lian saiu correndo em direção ao pontinho amarelo que logo abraçou Lian e saíram correndo.
—Vocês já almoçaram Eren? _Levi perguntou me encarando e eu concordei fechando as portas do carro.
—Sim, mas eu coloquei alguns lanches caso ele fique com fome. Não dê achocolatado para ele ou eu não vou conseguir dormir a noite e se eles ficarem por muito tempo aqui fora retoque o protetor solar.
—Certo _o mais velho começou a caminhar em direção a sua escada e eu o segui.
—Eu coloquei o remédio que ele estava tomando para febre caso ela apareça. Não dê sorvete para ele, pois ele foi dormir com a garganta um pouquinho irritadinha e não quero que ele fiquei doente novamente.
—Ele está bem? _Levi me encarou colocando tudo nos degraus.
—Sim, mas vamos evitar. Portanto não o deixei gritar muito _encarei as duas crianças correndo e dando gargalhadas _Tem três pares de roupas dentro da mochila e...
—Eren _Levi me interrompeu e pegou em minhas mãos me acalmando. Encarei os olhos do mais velho que transbordavam calmaria _Eu vou cuidar bem dele.
—Estamos falando de duas crianças Levi. Lian pode parecer um anjinho, mas ele consegue ser um pestinha quando quer _comentei negando com a cabeça e o mais velho sorriu _Okay eu sei que estou exagerando.
—Tudo bem, já estou acostumado com os ataques de Hanji.
Concordei e voltei a andar em direção ao carro nervoso, minhas mãos soavam e eu queria ri. Olhei novamente para os dois abaixados no meio do jardim cochichando e encarando uma pequenina borboleta pousada na grama entre os dois. Levi logo se postou ao meu lado e ficamos parados em um silencio constrangedor.
—Você tem uma bela casa _comentei encarando a mesma por cima do ombro do mais velho.
—Grande demais para o meu gosto _Levi comentou olhando assim como eu _Foi Hanji que escolheu assim que me divorciei, segundo ela tem a minha cara.
—Você mora sozinho nela? _perguntei ainda encarando as pelas paredes pintadas em tom de branco com marrom.
—Sim, já pensei em me mudar para um apartamento, mas Nina gosta do jardim _ele voltou a olhar as duas crianças e sorriu _E Lian parece gostar também.
—Oh sim, se ele puder fica o dia todo no meio do mato. Quando fomos visitar minha mãe um tempo atrás ele não saia do quintal da mesma _suspirei coçando a nunca _Não o deixe ficar muito tempo aqui fora, Okay?
—Pode deixar. Ele tem alguma alergia?
—Ao Jean, mas como ele não está aqui pode ficar tranquilo _comentei dando uma risadinha ao lembrar como os dois implicavam um com o outro, mas se amavam.
—O Kirschtein não é?
—Sim, Lian ama demais o padrinho _comentei negando com a cabeça e encarei o mais velho _Acho que é melhor eu ir.
—Se você quiser... Bem pode ficar _Levi me encarou com uma careta e eu o olhei surpreso.
Aquilo era... Ótimo, não é mesmo? Eu poderia me certificar que o pequenino estaria bem e ainda por cima ter certeza que o médico não falaria algo que me pusesse em risco. Fantástico, encarei Levi feliz e pronto a dizer sim e notei como ele encarava as crianças de certa forma encantado e com aquele maldito sorriso gentil nos lábios finos. Engoli em seco e notei que não poderia fazer isso, ele merecia não é mesmo? Um pouquinho de tempo ao lado do filho sem a minha presença por perto.
—Não, obrigado _Levi me encarou e eu sorri para o mesmo _Esse é um momento de vocês dois.
—Eu... _Levi ficou surpreso e passou a mão nos cabelos negros _Não sei o que dizer.
—Só não pise na bola. Eu sou pior do que mãe coruja Rivaille.
—Percebi. Onde eu assino para confirmar a entrega do pacote? _Ele abriu um sorriso e eu o acompanhei com uma risadinha nasalada. Chamei Lian e após um beijo em seu rosto e alguns avisos para que o mesmo se comportasse entrei no carro e dei partida tendo os outros três acenando com a mão. Sorri de forma segura até os portões se fecharem e logo senti meus olhos ardendo enquanto dirigia para fora da propriedade.
♛
Meus olhos ainda vagueavam pelo portão por onde o carro do pirralho saíra minutos antes. Estava animado, nervoso e extremamente feliz com aquela pequenina prova de coragem que o Jaeger me entregara no momento, mas ao mesmo tempo não podia deixar de sentir-me completamente culpado por ter notado o sorriso carregado e os olhos vazios aos quais o mais novo pusera sobre suas feições. Portão já estava fechado e os dois pequenos correndo novamente em meu jardim, sem nem ao menos imaginarem as dificuldades ao quais os adultos enfrentavam no momento.
Olhei em direção dos mesmos que sorriam contentes e não pude evitar um sorriso em meus lábios ao notar as bochechas coradas e a animação contagiante de Lian, meu filho brincando e correndo como um garotinho bobo em meu quintal. Parecia bobo, sentir tão feliz apenas por vê-lo ali agachado e com feições traquinas?
—Lian?! _chamei e o moreninho de olhos jades me olhou atento _Você não quer tirar esse casaco? Está quente para brincar aqui fora com ele.
O menino sorriu para mim e veio correndo até chegar aos meus pés, abaixei-me em sua frente e retirei o belo casaco azul marinho que o mesmo usava. Passei a mão nos fios negros macios e cheirosos e o mais novo abriu mais um daqueles sorrisos que parecia derreter neve o polo norte.
—Você quer ficar com os sapatos? _perguntei apontando para os tênis ao qual ele usava.
—Eu posso tirar? _os olhos verdes dobraram de tamanho e brilhavam em inocência.
—Se quiser, Nina não está usando _apontei para a loirinha que correu em nossa direção com uma borboleta nas mãos.
—Olha titio! Uma borboletinha! _a loirinha me mostrou o pequeno inseto _Posso ficar com ela?
—Não pode prender a borboleta! _Lian falou exaltado e eu sorri enquanto observava a interação dos dois _minha vovó disse que a gente não pode prender os bichinhos, ou ele vão sentir falta das famílias deles.
—A borboleta tem família? _a loirinha perguntou encarando o inseto que batia as asas lentamente _Elas têm titio?
—Claro que tem Nina, todo ser vivo tem uma família _falei sorrindo para a mesma que fez um biquinho e jogou o inseto para cima com delicadeza fazendo o mesmo voar para longe.
—Zangado-san eu posso tirar meus papatos? _encarei Lian que puxou a minha camisa e concordei ajudando o menor a tirar seus sapatos e meias de Pokémon _Obrigado!
—Okay eu vou entrar rapidinho e guardar as coisas do Lian, enquanto isso vocês podem brincar aqui, mas tenham cuidado _encarei os dois que concordaram _Eu volto logo.
—Okay! _os dois gritaram com os braços abertos e saíram correndo pelo jardim me fazendo gargalhar dos mesmos.
Fiquei os olhando por mais alguns minutos até virar-me para as coisas do pequenino Jaeger e começar a carrega-las. Adentrei em casa e guardei os brinquedos do menino por sobre o sofá para que assim eles pudessem pegar com maior facilidade. Caminhei até o quarto em que Nina dormia e abri a mochila verificando os objetos ao qual Eren mandara, retirei os lanches e os produtos de Lian os pondo sobre a penteadeira marrom e organizei novamente a mochila a deixando por sobre a cama da loirinha.
Levei os lanches para a cozinha e suspirei coçando a nuca. Eu deveria retocar o protetor? Pô-los para dentro? Dar-lhes algo gelado para beber? Estava nervoso e isso era estranhamente empolgante. Quando tinha contado a Hanji que Lian passaria à tarde comigo e Nina a mesma praticamente houvera estourado os meus tímpanos com um grito _ao qual a filha imitara, mesmo sem entender a razão do mesmo. A mais velha ficara mandando-me a manhã inteira mensagens perguntando quais seriam os meus planos e se eu estava nervoso, claro que eu negara, mas não é como se ela tivesse acreditado em minhas mentiras.
Peguei uma jarra com suco de laranja e servi em dois copos _estes que os pequeninos não teriam risco de quebrar e se machucar_ e servi em uma tigelinha alguns biscoitos integrais ao qual a nutricionista que cuidava de Nina indicara para ajudar no crescimento da loira. Caminhei com uma bandeira para o lado de fora e após me sentar na escada fiquei observando os pirralhos correndo e brincando de algo que eu não fazia ideia.
—Lian, Nina venham tomar algo _eu chamei os mesmos que me olharam e correram com os braços abertos fazendo barulho de carro com os lábios _Está muito quente, então é importante que vocês tomem líquido.
—Biscoito, biscoito! Eu quero biscoito! _Nina cantarolou sentando-se no degrau debaixo e pegando um biscoito da vasilha. Encarei Lian que brincava com os dedinhos e desviava o olhar do lanche.
—O que foi pequeno?
—Eu não sou pequeno! _o moreno falou emburrado e eu sorri para o mesmo _Eu posso tomar suco também?
—Claro que pode Lian _o mais novo se aproximou de mim pegando o copo com suco e levando aos lábios. Após um longo gole no mesmo ele voltou a desviar o olhar.
—Eu posso pegar um biscoito também? _ele falou baixinho e eu suspirei. O dono dos olhos verdes inocentes me encarou e eu o chamei com a mão e apontando para o espaço vazio na escada ao meu lado. Lian encarou o local e depois se sentou.
—Você quer biscoito Lian? _perguntei o encarando e o moreninho olhou-se nos olhos e desviou o olhar rapidamente, concordando em seguida _Olha para mim _o mais novo voltou a olhar-me e eu sorri da maneira mais gentil que consegui _Você não precisa pedir para tomar suco ou comer biscoito, Okay? Eu trouxe para vocês dois, então não precisa me pedir para fazer algo que você quer e nem ficar com vergonha, certo?
—Certo _ele concordou.
—Então, biscoito? _perguntei para o mais novo que sorriu enquanto eu acariciava sua cabeça. Virei-me para pegar a tigela e fiquei surpreso ao notar a mesma vazia e uma Nina com as bochechas cheias e o rosto cheio de farelo.
—Ops... _a loirinha falou tampando a boca e começou a rir fazendo nós dois a acompanharmos.
—Vou pegar mais um pacote, mas apenas para o Lian _anunciei enquanto me levantava.
—Orque tiotio? _a loirinha falou de boca aberta e eu gargalhei.
—Você já comeu a sua parte. E o que nós já conversamos sobre falar com a boca cheia?
—Feio! _Nina falou pegando o seu suco.
Caminhei para dentro de casa e logo ouvi passinhos apressados e me virei para fitar Lian que caminhava com o seu copo de suco de laranja pela metade e um sorriso grande nos lábios. O mais novo chegou ao meu lado e puxou a minha camisa e logo apontando com as mãozinhas para que eu me abaixasse, e claro que o fiz ficando de frente para o mesmo.
—O que foi?
—Eu posso dividir com a Nina os meus biscoitos Zangado-san? _o menor sussurrou em expectativa e eu o olhei surpreso _Por favorzinho?!
—Claro que pode _falei sorrindo e o mesmo fez o mesmo _Mas não dê tudo para ela, Okay?
Ele concordou com a cabeça e eu me levantei seguindo para a cozinha, peguei outro pacote colocando sobre a tigela vazia metade do mesmo e virei à cabeça para trás vendo Lian olhar com curiosidade o cômodo ao qual me encontrava. O chamei com a mão e o mesmo veio ainda com seu copo de suco sendo segurado pelas duas mãos.
—Você quer que eu encha seu copo de novo? _perguntei e o moreninho esticou os braços pondo o copo acima da cabeça em um pedido mudo. Peguei o copo do mesmo e coloquei sobre o balcão da cozinha. Olhei para Lian que me olhava atento e o mesmo sorriu erguendo as duas mãos em minha direção, engoli em seco e sorri feliz o pegando no colo e o pondo sobre o balcão próximo ao copo _Fique quietinho ai.
—Sim senhor! _Lian bateu palminhas e eu dei uma risada enquanto ia até a geladeira e pegava a jarra com suco e enchia seu copo _O papa sempre briga com o tio Jean quando ele me colocava na mesa da cozinha.
O mais novo comentou e eu o encarei enquanto ele brincava com o pano de pratos.
—Ele está certo, você pode se machucar. Por isso você não pode contar para ele que eu fiz o mesmo, promete? _fiquei enfrente ao mesmo que sorriu e ergueu o dedo mindinho _O que foi?
—Meu papai diz que quando a gente faz uma promessa tem que ser com o dedo mindinho, porque assim a gente não pode quebrar nunca _ele ditou sorrindo e eu ergui o meu dedo mindinho entrelaçando com o seu e sorri.
—Nosso segredo?
—Nosso segredo! _o mesmo concordou e abriu a palminha me fazendo juntar as duas mãos.
Senti um embrulho no estomago e uma sensação calorosa no corpo com o gesto do mais novo. A diferença no tamanho era grande, mas olhar Lian ali em minha frente conversando e brincando comigo com intimidade parecia surreal demais para mim. Queria abraça-lo e beija-lo e dizer que além daquele lhe prometeria nunca mais sumir de sua vida, pois eu tinha a certeza de que viver sem a presença do menor já não seria mais nada.
—O que vocês estão fazendo? Eu quero também! _ouvi a voz de Nina e me virei para ver a loirinha com o seu copo vazio.
—Tio Zangado encheu o meu copo! _Lian pegou o copo ao seu lado e levou aos lábios bebendo com gosto.
—Eu quero também tio Levi! Eu quero biscoito também!
—Certo, certo, mas chega de biscoito por hoje.
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Meus olhos ardiam fracamente, sabia que era patético da minha parte ter ficado no carro por meia-hora chorando apenas porque Lian estava com Levi. Sentia-me um babaca e o maior dos mentirosos já existentes, mas não podia parar de temer o leve vazio que a minha vida se tornava com a ausência do meu pequenino moleque viciado em organização e atormentar o tio. Não que eu ficasse grudado no mesmo 24 horas por dia, afinal tinha que trabalhar, mas havia uma enorme diferença entre de deixa-lo com Levi do que com Armin e Jean.
Cutuquei o botão do elevador para o meu andar de novo e de novo até chegar ao meu destino. Era irritante o tanto de vezes ao qual eu já tinha encarado o meu celular em busca de alguma mensagem, ligação ou código Morse de Levi. O que custava aquele anão de jardim vulgo modelo “PP” da Calvin Klein dar sinal de vida?
Abri a porta de casa e fiquei parado no meio da entrada enquanto fitava o apartamento solitário e vazio. Era deprimente o meu estado, mas o que eu podia fazer se tinha me acostumado a ser pai? Deixei a chave do carro e da casa sobre a mesa e me joguei com força contra o sofá, encarando a televisão desligava e de vez em quando a janela ainda fechada. Senti a vibração do meu celular no bolso do casaco e de forma exagerada peguei o mesmo, apenas para me decepcionar ao ver a notificação do contato de Armin.
Fechei os olhos torcendo para dormir um pouco e quem sabe acordar na hora de ir buscar Lian, mas claro que não consegui e fiquei me revirando desconfortável demais em mim mesmo para relaxar. Quarenta minutos, esse era o tempo em que me chafurdei em decadência enquanto encarava o écran do celular até escutar o som da campainha da minha porta. Provavelmente seria Armin pressentindo o meu estado e resolvera bancar o amigo educado e entrar sem bater.
Bufei jogando maldito aparelho sobre o sofá e caminhei em direção da porta por onde o filho de uma rapariga ainda tocava a maldita campainha e fazia meu ouvido doer. Estava pronto para mandar o loiro, ou o cavalo, para o bordel de onde tinham saído quando avistei certo moreno ali.
—Marco? _encarei o mesmo que estava de costas olhando a porta do vizinho da frente. O moreno me olhou surpreso e abriu um sorriso de lado que deixava alguns de seus dentes brancos a mostra. Um sorriso bonito e acolhedor.
—Desculpe tocar a campainha assim, mas Jean me disse que ela estava quebrada e tinha que tocar várias vezes seguidas _o outro continuava com aquele sorriso enquanto falava e eu quis correr para dentro do meu quarto tão mal arrumado enfrente ao advogado. Sem contar que castraria Jean pela brincadeira estúpida do mesmo que sabia o quanto odiava o barulho da campainha.
—Ah... Não tem problema _cocei a cabeça nervoso e notei o que outro percorria o seu olhar por mim, desviei o olhar do mesmo incomodado e envergonhado _O que você está fazendo aqui exatamente?
—Jean me convidou, mas ele não está em sem apartamento. Mandei uma mensagem e ele disse para eu vim para o seu _o bronzeado pegou o seu celular e me mostrou a mensagem de Jean.
“Vai para a casa do Eren até eu chegar, provavelmente ele não tá fazendo porra nenhuma mesmo”.
—Idiota babaca _resmunguei e inspirei profundamente abrindo a porta _Entra Marco e não reparar a bagunça pelo amor de Deus.
Ouvi uma risadinha nasalada do mesmo que adentrou e fechei a porta seguindo enfrente. Assim que chegamos à sala fui abrir a janela para o ar abafado no apartamento sair e voltei os meus olhos para o advogado que encarava uma foto minha e de Lian pendurada na parede.
—Onde está o baixinho? _Marco se virou para mim e eu suspirei triste.
—Com o anão.
—Como?
—Um amigo _falei me sentando no sofá _Pela tarde toda!
—Entendi _Marco deu uma risadinha e caminhou até se sentar do meu lado. Engoli em seco ao sentir o cheiro amadeirado do mesmo _Por isso está tão abatido?
—É... Percebi que sou pai em tempo integral e não sei mais o que fazer da vida _resmunguei pegando o celular e vendo que ainda não havia nada de Levi _Parece ridículo não é? Mas é que eu sempre tive o Lian por perto tirando o trabalho e agora me sinto solitário.
—Esse é um dos males de ser pai desde cedo? _Marco pronunciou e eu dei uma risadinha sem o encarar _E o que você quer fazer?
—Nada? _encarei o outro notando os olhos castanhos presos em mim e aquele maldito sorriso estampado no belo rosto do moreno em minha frente. Marco ergueu uma sobrancelha e cerrou os olhos.
—Você não quer fazer nada? Você é um homem jovem e não quer fazer nada?
—É! _afirmei balançando a cabeça _Eu não sei se tenho mais pique para fazer o que os caras sem filhos da minha idade normalmente fazem.
—O que exatamente caras da sua idade e sem filhos fazem? _Marco perguntou passando a língua por entre os lábios.
—Sair? Beber? Vai falar que estou errado? _o moreno franziu o cenho e confirmou _Mas exatamente aonde você quer chegar me pergunto isso?
—Eu só quero saber se você vai ficar aqui preso e triste. Você é um desses caras jovens, mas o fato de você ter um filho não te obriga a não ter vida.
—É complicado... _resmunguei rodando o anel em meu polegar esquerdo e ouvi uma risadinha do moreno.
—Por quê?
—Eu vou me sentir deslocado, me sinto muito melhor e festa de criança e com brigadeiro à vontade _Marco deu uma gargalhada e senti seus dedos em meus cabelos organizando a minha franja.
—Então porque não fazemos um trato?
—Trato?
—Nós saímos. Eu e você, até porque você está me devendo um café _o mesmo falou e eu revirei os olhos.
—Tá e o trato?
—Eu faço você se divertir e viver um pouco fora dessa bolha ao qual você construiu ao seu redor. Viver de verdade e se divertir sem ser em festas de crianças e com o seu filho. Sabe ser um pouquinho como os caras da sua idade.
—E exatamente porque eu concordaria com você?
—Porque está me devendo um café.
—Tem cafeteira em casa _murmurei e o mesmo suspirou e me encarou nos olhos.
—E porque eu sei que por dentro você também quer saber como caras da sua idade se divertem. E porque no fim você sabe melhor que ninguém que não existem caras como eu ou você, apenas pessoas que precisam viver nem que seja por uma tarde entediante. Então topa sair comigo por uma tarde?
O moreno estendeu sua mão para mim e eu sorri concordando. Não sabia exatamente onde estava me metendo, mas não podia evitar se sentir-me contente com a escolha.
O tempo está lento pra caralho, eu envelheço vivendo como um morto
Eu tenho um caralho de coisas para fazer, mas eu não quero fazer nada
O mundo é frio para mim
Pareço um adulto, mas sou apenas uma criança alta
O romance dos jovens é uma ilusão que desapareceu
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—Espera então as agulhas não são penas de pavão? _Nina perguntou enfrente a televisão enquanto me deixava pentear seus cabelos loiros molhados pelo banho recente.
—Sim, meu tio Pixis que me disse quando eu fui tomar injeção _Lian confirmou com a cabeça deitado sobre o meu joelho.
—Isso é verdade titio? _Nina me encarou e eu dei uma risada.
—Sim.
—Então a mamãe mentiu para mim? Ela disse que aquilo era a capinha da pena. Eu não quero mais tomar injeção então!
—Não Nina! Tomar injeção faz bem! _Lian comentou ficando sentado e a loira o encarou em dúvida.
—Você ‘tá mentindo.
— ‘tô não. Meu tio Pixis me disse que quando a gente toma injeção à gente está se protegendo contra um monte de bichinhos maus e que querem fazer a gente ficar dodói. E que mesmo que a gente não veja começa uma batalha dentro de nós entre os homenzinhos brancos¹ e os bichinhos feios para proteger o forte da saúde _Dei uma risada e o moreninho me encarou com um bico nos lábios _foi o meu tio vô que disse.
—Ele está certo _eu disse e o moreninho abriu um sorriso _Por isso você tem que tomar suas injeções Nina.
—Okay, mas só porque eu não quero ficar mais dodói e nem quero que os homenzinhos brancos percam a luta _A loira comentou e sorriu quando eu terminei de arrumar sem cabelo em um coque _Bigada tio Levi.
—Minha vez! _Lian gritou assim que Nina saiu do meu colo e se jogou sentado do mesmo. Encarei o menor surpreso e acariciei seus cabelos um pouquinho molhados e o mesmo me encarou com os jades brilhantes _Meus cabelos são meus pretinhos iguais o seu tio Zangado.
—Realmente _falei sorrindo de forma doce para o mesmo que ainda me encarava sorrindo.
—O meu papa diz que meus cabelos são muito bonitos.
—E realmente são _aproximei meus lábios de sua testa e selei a mesma fazendo o pequeno sorrir ainda mais e depois encarar a televisão para que eu pudesse secar seu cabelo.
—Meu tio Min diz que eles são parecidos com o do meu papai.
—Eren? _perguntei distraído enquanto passava de forma carinhosa a tolha em sua cabeça.
—Não! O meu papai que está ajudando o papai Noel _Lian me encarou com a toalha na cabeça _Meu pai Eren disse que sou muito parecido com ele, por isso que sou bonito.
_Ele disse? _engoli em seco e o pequenino sorriu confirmando.
—Mas o meu papai Eren é muito bonito também, o senhor não acha?
—Com certeza _falei rindo e o pequenino se voltou para a televisão. Olhei para o lado e Nina brincava mais afastada com alguns Legos tentando montar um castelinho.
—Meu papa Eren sempre fica triste quando eu pergunto do meu papai _Lian falou baixinho e eu o olhei surpreso, mas o menino notou que eu escutei e sorriu um pouquinho _Meu tio Jean disse que é porque ele sente falta dele, mas eu prometi em uma cartinha pro meu papai que faria o Papa Eren sempre sorrir até que ele voltasse e a gente fosse uma família.
—Você é um bom garoto Lian _comentei passando a minha mão pelos fios já mais secos_ Você é o melhor filho que alguém poderia ter.
O moreninho sorriu contente e se arrumou em meu colo para que eu terminasse de secar seu cabelo, engoli em seco encostando a minha cabeça na sua e inspirando profundamente o cheiro doce de bebê misturado com shampoo de camomila. Eu podia dizer como um bobo que o meu coração batia de forma acelerada e que as incomodas borboletas saltavam em meu estômago naquele momento, pois eu era irresistivelmente apaixonado por Lian Jaeger, ou melhor, eu amava o meu filho a ponto de suas palavras fazerem-me transbordar de felicidade e querer chorar. Não entendia realmente muito bem essa história de Papai Noel, mas ao ver a forma como ele falava de um pai que nem conhecia, mas que amava me fazia querer ter descoberto tudo mais cedo, apenas para tê-lo falando deste pai e pensando em mim de tal forma apaixonada.
Sentia-me um idiota por sentir todas aquelas coisas. Lembro-me de quando Nina nasceu Erwin se tornou um bobo apaixonado e agora eu entendia exatamente a profundidade desse amor que você só pode sentir por um filho, era tão grande que meu peito parecia explodir e mesmo recente ao menos de imaginar essa criança em meu colo que sorria deliciado com os carinhos que recebia doente ou machucada meu peito se apertava.
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