Fiction

42 Capítulo 41


— Certo mocinho, papai vem te buscar mais tarde, okay? — falei com um sorriso no rosto enquanto deixava Lian em frente a escolinha. O moreninho o encarou com um biquinho nos lábios e abraçou suas pernas.

Papa, por favorzinho. Só hoje... — o coração do mais velho se apertou com o pedido do filho, mas não poderia fazer isso. Não queria que Lian se acostumasse a faltar, mas não deixava de entender seu filhote. Erwin havia lhe ligado cedo e avisado que estava liberado por dois dias do hospital pelo favor que havia feito ao chefe do hospital e também pelo transtorno que tinha sofrido. Não mentiria que se sentiu aliviado com a notícia —, pois não possuía coragem para olhar certo neurologista nos olhos, já que tudo dentro si parecia tão bagunçado. Assim que o mais novo soubera que o pai estaria de folga, simplesmente se emburrara falando que não queria ir à creche, queria ficar com o seu pai em casa.

— Meu amor, nós já conversamos. Eu prometo que venho te buscar e que vamos tomar sorvete no parque, mas o papai não pode te deixar faltar.— Lian soltou-se de minhas pernas e segurou as alças de sua mochila com força enquanto encarava o chão. A culpa estava começando a inundar-me, sem contar a preocupação, pois Lian dificilmente pedia para faltar — Lian... Está acontecendo algo? Alguém fez alguma coisa com você meu amor?

— Não papa — os olhos verdes lhe encararam — Eu só queria ficar com o senhor.

—... Ai Lian... — abaixei-me em frente ao menor e sorri passando a mão em uma de suas bochechas gorduchas — Amanhã já é Sábado, papai promete passar o dia todinho com você. Vou fazer até um bolo bem gostoso pra você e vamos ver seus desenhos favoritos.

— Sério? — os olhos do mais novo brilharam, não pude deixar de me apaixonar mais um pouquinho por aquele pequenino serzinho tão lindo.

Às vezes era engraçado olhar para Lian e notar: eu sou o pai dessa coisinha linda, como pode?! Não que ser pai fosse sempre um luxo, pois minha história inteira mostrava o quão complicado era ter que desistir de parte da sua própria vida em função de alguém, mas o amor que se recebe de volta é algo tão maravilhoso. Muitas das vezes só de vê-lo dormindo, lambuzado ou emburrado eu paro e suspiro agradecendo pelo meu pequenino milagre que sempre me manteve são. Acabei sorrindo docemente encarando o menor — Sim.

— Mas nós ainda vamos ao parquinho? — Dei uma risada alta e concordei vendo a animação nos olhinhos do outro. Lian pulou alegre e me abraçou com força, seu cheirinho de bebê invadiu minhas narinas e o apertei contra mim com força, o mais novo reclamou e após um bico fofo sorriu alto e deu-me um beijo entrando na escolinha de forma animada, nem parecendo que há poucos minutos estava emburrado. Assim que me levantei avistei Chris na recepção do local que balançou os braços em minha direção. Caminhei até a mesma que me puxou para um abraço desajeitado por conta do balcão entre nós.

— Eren! Incrível como seu filho estuda aqui e eu mal vejo você

— Eu sempre venho tão rápido aqui e ou você está ocupada ou não está — passei a mão nos cabelos loiros da mulher, arrumando alguns fios fora do lugar. Christa estava bem diferente da ultima vez que tinha lhe visto. Um pouquinho mais gordinha, mas com uma áurea radiante sobre a mesma — E como você está?

— Eu estou bem, e a escolinha precisa mesmo da minha atenção, mas quando você está grávida é que o tempo parece sumir totalmente — A loirinha falou lhe dando um sorriso sapeca e passando a mão na barriga. Arregalei os olhos surpresos e a puxei animado apertando seus ombros.

— Você está grávida?! Meu deus! — afastei-me da outra e subi um pouco no balcão encarando sua barriguinha, não era algo muito aparente se você não soubesse da notícia. — De quantos meses? Como Ymir reagiu?

— Eu estou de quatro meses. Ymir quase soltou fogos no meio da rua. No começo ela não estava muito contente com a minha ideia de inseminação artificial, tudo por medo de não ser uma boa mãe, mas depois ela aceitou e agora são só cuidados e paparicos para o bebê.

— Como se ela já não fosse assim com você. — dei uma gargalhada e a mulher em minha frente deu-me um tapa de leve.

— Idiota.

— Já sabe o sexo?

— Ainda não. Decidimos descobrir somente no dia do parto, ideia da Ymir, okay?

— Chris... Eu realmente fico muito contente por vocês duas — Sorri um pouco mais triste — Deve ser incrível passar por algo do tipo e ter apoio da pessoa que ama.

—... Eren. É por causa da mãe do Lian? — A menor sussurrou e eu pisquei voltando a realidade.

— Sim. Sou pai solteiro e... E sabe como é, mas e aí, Armin já sabe?

Ó... Não, eu quero contar para todo mundo da família em um encontro, então bico calado mocinho.

— Pode deixar. Tenho que ir Chris, mas foi bom ver você.

— Tudo bem, eu tenho uma consulta e tenho que sair também. Vê se não some tá? Quero que conheça meu filho antes dos 18 — Revirei os olhos e beijei a têmpora da baixinha saindo rapidamente do local. Grunhi fora dos portões por ter falado mais do que devia sobre a situação de Lian. Quando os meus amigos não tão íntimos descobriram que eu havia me tornado pai, todos acreditaram que a mãe de Lian havia me abandonado — ainda mais por eu ser assumidamente bissexual. Às vezes havia algumas piadinhas infames e estúpidas, alguns enxeridos querendo saber quem era a “mulher que deu a luz”, mas com muita calma e ignorando os idiotas, dava um jeito para que nada saísse.

Caminhei a passos incertos pela rua em frente ao colégio do mais novo. Talvez eu devesse fazer algumas compras, já que fazia um bom tempo que não comprava roupas para mim, ou mesmo, para Lian e como os meninos não estariam em casa, seria melhor do que ficar encarando o tempo. Peguei um ônibus que iria para o centro e logo visualizava algumas peças e objetos de uso pessoal para levar em algumas lojas. Decidi ir até uma concessionária e dar entrada no queridíssimo carro — para evitar ter que sempre depender de Armin e Jean. Foi tudo bastante calmo e divertido, algo leve para esquecer um pouquinho da confusão na minha cabeça, mas tudo foi por água abaixo quando meu celular começou a apitar e o número de Levi aparecia no écran. Mordi os lábios de maneira nervosa e atendi.

“— Alô?”

“—... Eren?”

“— Quem mais seria no meu celular, Levi?” Perguntei batucando os dedos sobre um balcão em que olhava cuecas para Lian.

“— Desculpa ligar” ouvi um suspiro e meu coração bateu um pouquinho acelerado “— Eu não estou ligando para te pressionar, só queria te pedir algo”.

“— Certo... O quê?”

“— Eu queria ver o Lian. Digo, hoje à tarde estarei liberado do meu plantão e achei... Bem...”.

“— Você está de plantão?! Mas ontem você não...”.

“— Não, depois de sair do seu prédio eu voltei para o hospital. Eu meio que fugi naquela hora”. Arregalei os olhos com as palavras do outro. Como assim fugido? Levi havia escapado do hospital apenas para vim falar comigo ontem?! Eu... Eu amo você Eren Jaeger. Você pode acreditar em mim?” As palavras da noite passada voltaram como flashes e senti minhas bochechas corarem “— Eren?”.

“— Ó! Desculpe, é que eu estou fazendo compras e me distraí” Inventei rapidamente e cocei os cabelos da minha nuca “— Hoje, depois da escolinha, eu prometi para o Lian que o levaria no parque, se você quiser nos encontrar...”.

“— Sério?!” Ouvi a animação do outro e sorri pequeno “— Eu iria adorar. Como nos encontramos?”.

“— Eu acho melhor no parque, se você concordar”.

“— Por mim está ótimo e... {Doutor Levi! A paciente acordou}” Ouvi alguém falar do outro lado e Levi suspirou pesado “— Já estou indo. Eren, eu vou ter que desligar...”.

“— Tudo bem, Levi. Você está ocupado. Até”.

“— Até” continuei com o celular na orelha mordendo o lábio “— Eren?”.

“—... Oi?” sussurrei baixinho.

“— Eu amo você.” Levi desligou o celular. E assim como olhar Lian me enchia de amor e carinho, ouvir aquelas palavras do mais velho aquecia o meu peito e minha alma. Tirar Levi dos meus pensamentos era mais complicado do que parecia.

Mordi a tampa da caneta em minha boca nervosa enquanto olhava os exames do meu atual paciente. Não seria uma grande cirurgia, ou algum tipo de espreitada maluca, nada muito grande, mas que deveria ser feito com todo o cuidado e paciência — na verdade o procedimento nem ocorreria essa semana. Moblit não estava trabalhando naquele dia e Levi com algum paciente, ou seja, sem ninguém para encher. Suspirei girando em minha cadeira entediada, mas parei assim que a porta da minha sala se abriu, Erwin estava parado na mesma e senti meu peito se apertar.

— Algum problema, Doutor Smith? — perguntei tentando deixar a minha voz da maneira mais fria que conseguia. Estava completamente magoada com o loiro, sabia que não deveria esconder tantas coisas dele, mas além de ter escutado coisas egoístas e descobri sobre a briga dele com o meu irmão, não poderia dar o braço a torcer pelo outro.

— Posso entrar? — o loiro sussurrou baixinho, seus olhos pareciam cansados. O maldito me encarava como um cãozinho que caiu da mudança, jogando sujo com o meu emocional. Era nítido de quem Nina havia puxado quando Erwin encarava-me daquela forma.

— Se não for sobre algo relacionado ao trabalho, acho melhor não. — voltei a encarar os exames, tentando não cair na armadilha do outro.

— Zoe... Por favor, eu só quero conversar.

— Smith...

— Só me deixa falar um pouquinho. — Erwin me cortou e eu o encarei irritada.

— Você já falou muito, não acha?! O que quer Erwin?! — elevei minha voz pronta para brigar. Se Erwin quer brigar, então briga ele teria. Falaria tudo o que estava guardado, até jogaria o meu carimbo nele! Eu só não esperava encarar o outro e ver lágrimas nos olhos do loiro.

— Eu vim te pedir perdão...

Sabe aquele maldito momento em que você quer brigar? Tem as melhores respostas elaboradas na cabeça para os mais diversos tipos de diálogos que poderiam surgi em meio à discussão, mas do nada a pessoa se desculpa e tudo se esvai? Quando eu e Erwin tínhamos problemas em nosso casamento, brigávamos, mas horas depois nos beijávamos para que tudo passasse, preferíamos dialogar os problemas a guardar para nós mesmos, só que a única coisa que nunca era tocada em nossa relação era o meu passado com Levi. Não usávamos subterfúgios para fugir de algum problema, nós os encarávamos. Sabia que tinha culpa por esconder aquilo de Erwin, mas...

— Zoe. Eu sinto tanto, mas tanto... — a voz quebradiça do homem chegou aos meus ouvidos e o encarei surpresa. Outra coisa: Erwin dificilmente chorava, ele sabia admitir seus erros, mas só tinha o visto chorar três vezes nesta vida e nenhuma era de tristeza como aquela. No dia do nosso casamento, quando contei sobre a minha gravidez e quando Nina nasceu— Eu sei que você deve me odiar. Eu me odeio! Eu te amo tanto, Hanji! Te amo desde o dia que te vi pela primeira vez! Eu te prometi felicidade e apoio, mas te julguei e joguei contra a parede. Eu... Eu sinto tanto.

—... Erwin.

— Por favor, me deixa falar — ele fechou a porta e se encostou a ela. Engoli em seco, os olhos azuis se desviaram dos meus — No dia do nosso casamento eu prometi para você, Levi e Deus que seria seu porto até o fim dos meus dias. Enxugaria suas lágrimas, beijaria suas feridas, jamais te abandonaria e te amaria loucamente. Só que eu quebrei algumas delas, não? Eu sei que errei, não deveria ter me metido nos seus assuntos, só que isso te faz tão mal... Eu... Eu ainda quero beijar suas feridas Zoe. Quero segurar sua mão e ver seu sorriso enquanto fala coisas que eu não consigo entender, pois você sempre esteve a anos luz para eu te compreender — ele riu — Quero te abraçar e dormir agarrado com você em nossa cama. Ver seu sorriso pela manhã, ouvir você e Nina cantando enquanto tomam banho juntas...

— Erwin...

— Perdoe-me pelo que eu falei e fiz. Prometo não me meter mais na sua história, eu só te imploro. Por favor, continue me amando, pois eu não sei como viver sem estar do seu lado. — Erwin curvou a cabeça escondendo o rosto entre as mãos. Meus olhos marejaram e corri até o loiro o abraçado.

Erwin era o meu menino gigante.

— Me perdoa. — ele repetia baixinho entre soluços e eu o apertei.

— Eu que preciso pedir perdão, eu também prometi não te esconder nada, mas eu não fiz isso. Erwin, olha para mim! — tirei as mãos grandes do rosto vermelho e inchado do outro — Eu te amo! Eu sei viver se você Erwin, mas eu não quero isso para mim. Eu quero continuar do seu lado, me perdoa por ter te escondido sobre o meu passado. Eu tenho tanta culpa quanto você.

— Zoe... — Erwin segurou meu rosto beijando-me. O beijo era molhado, nossos lábios não estavam encaixados e havia força demais, mas no fim era perfeito para nós dois.

— Lian cuidado!— gritei alto enquanto olhava o moreninho brincando no Playground.

O dia havia transcorrido tranquilo, ao menos externamente, pois desde a ligação do neurologista me sentia ansioso e com aquela sensação gelada no estômago. Havia deixado as compras em casa e as organizado em seus devidos lugares, foi o tempo em que pude cozinhar algo para o jantar e voltar para buscar Lian. Não havia contado ainda da presença do outro homem para o menino, mas esperava que não houvesse grandes problemas — já que Lian parecia gostar de Levi. Normalmente, o mais novo gostava de brincar longe de areia ou crianças sujas, mas naquele dia em específico ele parecia totalmente outra criança. As bochechas rosadas e levemente sujas, os cabelos negros bagunçados, o uniforme manchado e um belo sorriso no rosto.

— Lian! — chamei o outro que me encarou, o mesmo queria brincar com crianças mais velhas de se pendurar nas barras de ferro, contudo além de ser muito pequeno ele também não tinha tanta força. O de olhinhos verdes fez um biquinho e foi em direção aos escorregas.

— Nossa! Parece que temos um encantador de crianças — ouvi uma voz feminina e notei uma mulher de cabelos curtos e castanhos do meu lado sorrindo. Ela era baixinha e com uma boa aparência — Seu filho? — apontou para Lian e eu sorri concordando.

— Sim. Você é mãe?

— Madrinha — ela piscou— Ele parece te obedecer, minha sobrinha parece um diabinho.

— Na maioria das vezes sim. Hoje ele está especificamente agitado. — suspirei.

— Queria que Yuri fosse tão agitada como ele. Prazer, Kim Jisoo. — ela estendeu sua mão e eu a apertei.

— Eren Jaeger.

— Papa! Olha! — encarei o moreninho que subiu nas cordinhas como uma aranha. Sorri para o mesmo começando uma pequena ovação. O outro assim que chegou à parte de cima do Playground bateu palminhas e se voltou para os brinquedos.

— Ele se parece com você. — a mulher falou e a encarei por alguns minutos.

— Obrigado, dificilmente eu escuto isso.

— Por quê? Ele se parece mais com sua esposa?

— Não sou casado. — ela sorriu e eu ergui uma sobrancelha. — E é mais ou menos isso.

Eu não era idiota, não era a primeira vez que alguma mulher me via com Lian e tentava dar em cima de mim, contudo não mentiria dizendo que nunca dormi com nenhuma —, pois eram ótimos momentos para os típicos casos casuais. Mães, tias e babás tinham algum tipo de fraco por homem com criança que eu jamais entenderia, só que naquele momento não era algo que me agradasse, afinal tinha acabado de “redescobrir” meus sentimentos por Levi.

— Mas ainda acho que ele se parece com você. Tão lindo quanto o pai. — ela falou dando uma piscadinha e eu sorri.

— Obrigado, meu namorado tenta me convencer disso também — sorri da maneira mais falsa que consegui e a mulher arregalou os olhos. — Ao que parece ele acha meu filho extremamente parecido comigo. Um bobo cego.

— Ó!... Seu namorado?

— Sim — a olhei calmamente a mesma sorriu sem graça. — Algum problema?

— Não é que...

— Eren! — ouvi a voz grave de Levi e virei-me de costas vendo o homem mais baixo caminhando em direção ao parquinho. Ele usava calças jeans azuis escuras, camisa de botão preta e óculos escuros, acenei com a mão esperando até que ele se aproximasse — Desculpe o atraso, a avenida principal está congestionada.

— Tudo bem — sorri para o mesmo e encarei a mulhe.r— Jisoo-san esse é o Levi.

O moreno ergueu uma sobrancelha e encarou a mulher.

— Ó-ó prazer... — ela sorriu sem graça.— Está na hora de eu levar a diabinha para casa. Foi bom conhecê-los.

Dei um tchauzinho rápido enquanto ela se afastava e não consegui segurar a risada alta. Levi me encarava confuso o que só me fazia querer dar mais risadas da situação.

— Desculpe... É só que... Ela estava dando em cima de mim e eu dei a entender que tinha um namorado.

— Ó — o outro se virou por onde a mulher se fora rapidamente — Elas realmente são bem persistentes. Quando saio com Nina acabo passando por algumas situações parecidas.

— Sim. Não tem muito sol para os óculos escuros, Erwin te socou novamente?

— Não, eu só fico ainda mais bonito com eles — Levi deu um sorriso ladino e eu revirei os olhos, o moreno retirou os óculos do rosto e arrumou os cabelos, que não estavam fora do lugar, com a mão direita— Cadê o pirralho?

— Ali — apontei para Lian que falava com outras crianças e brincava.

— Meu deus! Ele está imundo! — Levi falou e eu dei uma risada.

— Acostume-se Levi, Lian pode até ser bem organizado e limpinho, mas às vezes ele ama uma boa sujeira. — o mais velho sorriu de forma gentil. Lian olhou para nós e assim que reconheceu o outro correu rapidamente abraçando as pernas do médico.

— Zangado! — Levi pegou Lian no colo, sem careta ou franzi de nariz pela sujeira. Fiquei surpreso, afinal era bem conhecida a obsessão por limpeza do neurocirurgião. — Vem brincar no parquinho cumigo. Por favorzinho!

— Esses brinquedos não são para a minha idade.

— Mas ‘ cabe! — Lian fez um beicinho— Tem um menino maior que você no balanço! — o mais novo apontou para alguns adolescentes e eu dei uma risada alta.

— Muito engraçado Jaeger — Levi falou me fuzilando e eu ergui os braços.

— Desculpe — passei um lenço que tinha nas mãos no rosto da criança— Acho que já está bom de parquinho Lian. Que tal irmos tomar um sorvete?

— O zangado-san vai com a gente?

— Vou. — Levi falou sorrindo e o mais novo bateu as mãos.

Começamos a andar pelo parque. Lian ia contando sobre o seu dia animado na escolinha para Levi, já que eu já havia escutado suas historinhas, e o outro ouvia tudo atentamente. Havia uma sensação gostosa de ver os dois interagindo, mesmo que uma pontinha de receio às vezes batesse. Chegamos à sorveteria e após os pedidos, nos sentamos em uma pequenina mesa para comer.

— Hey campeão, calma. — Levi falou limpando as bochechas cheias de morango do mais novo.

— Digulpa!

— Lian, o que eu já falei sobre falar de boca cheia? — repreendi o mais novo que engoliu uma colherzinha de sorvete.

— Disculpa papa, desculpa Zangado-san.

— Bom pirralho — Levi falou acariciando os cabelos do mais novo que sorriu contente. Respirei fundo encarando o pequeno potinho de sorvete em minha frente e remexendo o restinho do conteúdo no fundo — Acho que Erwin conversou com Hanji.

Encarei o outro e inclinei a cabeça apontando para Lian que nos encarava.

— Os papais da Nina?

— Sim meu amor. — falei limpando os lábios já sujinhos.— Termine o seu sorvete para nós irmos passear.

— Okay!

Levi entendeu que não deveríamos falar de tal assunto na frente do mais novo, crianças ainda não filtravam o que deveria ou não ser comentado com outras pessoas. Já tinha tido meus momentos vergonhosos ao saber que o pequenino falara algo que escutara eu falar — como o enfermeiro da clínica de Pixis gostava de dar em cima de mim. Jean amava quando essas coisas aconteciam e mesmo quando Lian falava sobre algo do Kirschtein, ele apenas dava gargalhadas. Terminamos de comer sem mais problemas e fui limpar Lian no banheiro enquanto Levi pagava pelos sorvetes. Encontrei o outro no lado de fora da sorveteria e Lian logo corria em direção do outro. Estávamos andando pelo parque sem rumo. Lian brincava de pular as pedras da calçada enquanto contava.

— Desculpe por aquilo na lanchonete. — Levi falou e eu sorri ainda olhando o moreninho.

— Tudo bem, acontece.

Aquele silêncio desconfortável de quando você quer falar com a pessoa, mas não sabe o que dizer se instalou. Sentia meu peito dar pequenos disparos com a aproximação do outro — que estava incrivelmente cheiroso. Não era como se o acontecimento passado houvesse evaporado de minha cabeça, pois estava bastante receoso, mas ao mesmo tempo passar àquelas horas ao lado do médico me deixava estranhamente calmo.

— ... Você estava fazendo compras?

Sim... Algumas roupas para Lian. Coisas básicas.

— Eren, eu não quero que me entenda mal, mas caso precise de algum tipo de ajuda... Por favor, me peça. Eu gostaria de ajudar o máximo possível — Levi falou e eu o encarei. Mordi os lábios encarando um poste mais a frente— ... Eu sei que dinheiro não conserta as coisas, mas...

— Tudo bem, eu entendi Levi. Acho que eu faria o mesmo — falei baixinho e o outro me encarou— Eu... Eu posso ver algumas coisas. Se quiser podemos dividir a mensalidade da creche ou sei lá.

— Pode ser, desde que isso não lhe cause nenhum tipo de desconforto.

— Obrigado...

— Tem outra coisa que eu gostaria de falar com você, mas não acho que esse seja o momento.

— Levi se for sobre-

— Não, digo, ainda não. Irei esperar pela sua resposta de maneira calma.

— Então sobre o que é?

— Eu... Eu queria contar ao Lian que sou o pai dele — parei de andar e o outro me olhou. Levi tinha as mãos nos bolsos da calça e os olhos vasculhavam o meu rosto de forma ansiosa. Senti minha garganta apertar um pouco. Eu sabia que uma hora ou outra isso teria que acontecer, mas era tão recente.

— Eu... — abri e fechei a boca tentando falar algo, mas Levi se aproximou e acariciou meu rosto de maneira gentil.

— Por favor, Eren, não se desespere. Não estou tentando cair de paraquedas como pai dele, eu só gostaria que mais futuramente ele soubesse que eu sou mais que um amigo do pai dele — o moreno suspirou e retirou sua mão do meu rosto — Mesmo que isso demore, irei deixar que decida o melhor momento para que possamos contar isto a ele. Só não ache que estou com algum plano louco de roubá-lo de você. Jamais faria isso.

Finalmente serei forçado a enfrentar a verdade

Não importa o que eu diga: não te esqueci

E se eu tivesse uma chance para renovar

Você sabe que é uma coisa que eu não posso fazer

Eu poderia voltar ao caminho certo

Mas só se você quiser

Not Over You – Gavin Degraw