Fiction
43 Capítulo 42
Às vezes é engraçado parar e refletir por todas as coisas pelas qual você já passou. Tantas histórias presas em nossas cabeças com inúmeras palavras guardadas, beijos, olhares e sorrisos que se perderam, pessoas que se tornam fantasmas de nossas vidas antes mesmo da temida morte. Acho que quando decidi abandonar Mikasa, jamais cheguei a imaginar por todas as coisas que passaria, quando trabalhei como investigador, não cogitei às milhares de coisas que aprenderia, e quando vim para Trost nunca acreditaria estar em tal situação.
Algum dia eu realmente pensei que Levi aceitaria Lian? Mesmo que eu soubesse que era o certo, que Lian deveria conhecer o mais velho. Era como uma história fantástica da qual eu engavetaria em minhas lembranças. Que um dia, quando Lian estivesse com sua família eu sorriria lembrando por tudo que passei e diria: valeu a pena. Só que a vida é sempre tão diferente de como a planejamos, chega a ser engraçado. Eu estava sentindo aqui, aquele sentimento de que tudo estava valendo a pena, e aquilo me surpreendia. Parecia mágico ficar olhando Lian brincando com Levi.
Como a minha mãe falaria: eles eram farinha do mesmo saco. Mesmo que o menor nem desconfiasse de quem se tratava a pessoa em sua frente, eles possuíam uma ligação rápida e intensa. Lian adorava Levi, mesmo que ele fosse um chato resmungão, e eu nunca tinha visto meu filho se dar bem com alguém tão rapidamente. Já Levi, bem, era encantador notar o brilho em seus olhos enquanto interagia com o moreninho, e mesmo que minha sala se encontrasse um caos de brinquedos espalhados, não conseguia achar a cena dos dois, rindo no meio dos brinquedos, ruim. Não. Havia uma sensação quentinha no peito, como se você acabasse de tomar um chocolate quente e o frio se esvaísse do seu corpo.
Assim que escureceu decidimos sair do parque e Levi havia nos trazido para casa, mas Lian não queria largar o outro, então agora eles estavam ali brincando de montar Lego no meio da sala. E mesmo que houvesse uma áurea bastante madura ao redor do neurocirurgião, ele parecia uma grande criança, que ria e se fascinava com os brinquedinhos do outro. Adorável.
Neguei com a cabeça rindo e voltei para a cozinha. Havia enviado uma mensagem para os meus amigos avisando que cozinharia, mas os dois havia resolvido saírem para jantarem como faziam antigamente. Era uma boa retomada na amizade deles, e eu simplesmente não tentaria observar por fora um possível relacionamento dos dois, eles eram crescidos e deveriam decidir sozinhos o que seria bom para os dois. No momento eu deveria concentrar-me no possível relacionamento que o homem em minha sala queria construir comigo, e em todas as consequências que aquilo poderia acarretar. Elas boas ou ruins.
— Eu tô com fominha! _ Lian abraçou as minhas pernas me assustando. Encarei o mais novo que sorria sapeca, fazendo com que seus olhinhos se tornassem risquinhos fofos.
—Lian! Papai está cozinhando, o que eu já falei sobre isso?
— Desculpa papa, mas eu e o zangado—san tamu com fome.
— Já estou quando terminado folgado. _ apertei a bochecha do mais novo que riu _ Cadê o Levi?
— Ele está montando um barquinho pra mim.
— Okay, vá lavar as mãozinhas e peça ajuda para o zangado—san.
Lian concordou e saiu correndo da cozinha chamando o outro. Eu neguei rindo com a cabeça e apaguei o fogo do guisado que estava preparando, como já havia arrumado a mesa e assim que coloquei o restante das panelas sobre elas os dois morenos voltaram do corredor.
—... Por isso que os dinossauros não estão mais vivos. _ ouvi Levi falar e encarei os dois que se fitavam na entrada do corredor. Lian parecia surpreso e Levi sorria de maneira gentil._ Mas tem muitos animais que possuem um grau de parentesco com eles.
— Quais?
— Bom... Os répteis e as aves, por exemplo.
—As aves? _ Lian arregalou os olhos. Dei uma risada e os dois me olharam.
—A comida vai esfriar depois o zangado—san explica para você sobre os dinossauros meu amor. _ falei para Lian que fez um biquinho.
— Mesmo? _o mais novo encarou Levi que riu e concordou.
— Mesmo. Vamos jantar? _ Levi falou dando a mão para o outro que riu e pegou.
— Vamos!
Sentamo-nos à mesa e após servir Lian começamos a comer. Levi limpava a boca de Lian toda vez que o mais novo acabava sujo, não havia uma conversa realmente fluindo, somente Lian que falava com Levi sobre dinossauros e meteoros. O pequenino era bastante teimoso e curioso, mas Levi parecia disposto a explicar pacientemente para o outro que ouvia tudo com um sorriso no rosto. Ouvi o meu celular tocar e rindo saí da mesa e fui atender.
“Marco”
Engoli em seco e encarei os dois morenos que conversavam animados, mirei meus olhos em Levi e mordi meus lábios. Não havia tomado nenhuma decisão, mas não poderia enrolar para sempre, pois não seria apenas eu que me magoaria. Respirei fundo e encarando o écran do telefone atendi.
“_ Marco?”
“ _ Eren? Oi! Desculpe te ligar em cima da hora, mas queria saber se já jantou?”
“_ Estou fazendo isso no momento” Dei uma risada.
“_Ó! Parece que me atrasei” Ouvi um suspiro do outro e encarei os dois na mesa e respirei fundo.
“_ Marco... Nós podemos conversar?”
“_Claro. Aconteceu algo?”
“_Sim, mas não é nada grave. Quer dizer... Não é nenhum acidente, apenas uma conversa de adultos”.
“_... Certo. Acho que... Okay. Quando?”
“_ Você pode passar aqui mais tarde?”
“_Claro Eren... Vejo você depois”.
“_ Certo. Tchau, Marco”.
“_ Tchau, Eren”.
Desliguei o telefone e encarei o aparelho em minha mão.
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— Eu só estou dizendo que se um apocalipse zumbi realmente começasse nós teríamos uma chance maior se fossemos para o metrô.
—Jean! Você realmente não tem noção! Nós teríamos mais chances se saíssemos da cidade!
—E para onde nós iríamos? Não é como se tivesse uma Alexandria perdida no meio do matagal de Trost _o mais alto bufou enquanto tomava mais do seu suco.
—Por que mesmo nós estamos falando sobre isso? _ Perguntei rindo enquanto o meu amigo dava risada e dava de ombros. Jean havia ido me buscar após sua faculdade e tínhamos ido conversar com algumas empresas, não que fosse meu plano, mas Jean estava disposto a cumprir sua promessa. E mesmo que eu já me encontrasse um pouquinho mais conformado, tinha me surpreendido ao ser atendido por outras pessoas e ter sido elogiado pelo projeto. Tinha recebido até ofertas de contratação do mesmo.
Sentia-me tão bem. Como se toda aquela nuvem negra houvesse se dissipado, e por tal motivo tínhamos vindo comemorar com um jantar alegre e divertido. Eren havia ligado e após avisar que Levi estaria em sua casa, achei melhor não interferimos, ainda mais por saber que meu amigo tinha uma decisão a tomar sobre como levaria sua vida — ainda que já fosse bem claro que Eren correspondia Levi, só precisava se arriscar um pouquinho para ser feliz.
—... Min? _ Jean me chamou e eu o encarei._ Você acha que se Eren decidir aceitar o Levi... Eles vão se mudar? _o mais alto brincava com sua sobremesa. Olhei surpreso para o mesmo e sorri de forma gentil, mesmo que Jean e Eren vivessem em pé de guerra, sabia que os dois amavam-se como irmãos, sem contar que o homem em minha frente era muito ligado a Lian.
— Acho que não. Digo, eles iniciariam um namoro primeiro. Calma...
— Não ri e nem conta para o idiota do Jaeger! _ Jean apontou sua colherzinha de sobremesa em minha direção e eu ri.
— Okay! Eu prometo.
— Acho bom... _ ele fez um biquinho e voltou a comer seu Petit gâteau com sorvete.
Encarei o outro e suspirei. Jean era tão bonito. Com aquele ar de homem adolescente em fase de rebeldia, os cabelos de um castanho quase loiro, o corte raspado e os brincos em sua orelha. Parecia que tudo se encaixava no visual simples, mas impactante do outro. Era impossível não dizer que meus sentimentos haviam se esvaído, eu ainda o amava e isso era um fato, mas havia aprendido que aquele sentimento mesmo que belo, não poderia ser imposto. Sabia que o outro me amava, mas não como eu, Jean via em mim o seu irmãozinho e isto já não doía em mim. Sentia-me feliz por não tê-lo perdido.
Sem sombras de dúvidas nós dois havíamos amadurecido. Nossa amizade não era como antes, parecia mais forte e havia um elo gostoso entre nós que eu amava. E mesmo que Jean não fosse à cara metade da minha laranja, amá-lo havia sido bom. Um dia eu deixaria de amá-lo como homem, isso era fato, amores acabam quando não cultivados. Pessoas que achavam o contrário ainda não tinham amadurecido o suficiente para notarem. E eu sabia que chegaria o dia que amaria outra pessoa, de forma diferente — já que nenhum amor é igual ao outro, e só esperava que fosse correspondido.
Não me fecharia para amar. Não seria viver se fizesse isso, pessoas eram destinadas a quebrar a cara e eu era igual a todas.
— Loiro _ Jean me chamou e eu o encarei realmente _ Você conhece o prêmio Green finger?
—Claro que sim, Jean. _ bufei e o mesmo riu _O que foi?
Green Finger, ou GF, era um projeto nacional da comunidade de construção civil, montado e gerenciado pelas grandes empresas do ramo dos países de fora. Todos os anos, vários arquitetos e engenheiros enviavam seus projetos e apenas um era sorteado. O prêmio sempre variava, mas nunca era algo inferior. Ganhar um prêmio daqueles era porta de entrada para uma grande chance de destaque para o exterior.
—Então você sabe arquitetos e engenheiros de todo o país podem enviar seus projetos. Não sabe?
—Sei...
—Por que você não envia o seu?
—O quê? Jean esse prêmio não é um concurso. É algo totalmente grandioso! Eu não tenho chance com esse projeto, sem contar que nós até o mostramos para algumas empresas e...
— Você vai vendê-lo para outra pessoa? _ Jean interrompeu-me e eu o encarei.
— Não.
—Então? O seu projeto é muito bom, Armin. As inscrições do GF ainda não começaram e você pode ir fazendo as melhorias que acha que deixariam o seu trabalho ainda melhor. Não desperdice o que você tem, loiro.
—Eu não sei... _ suspirei e encarei o outro que estava sério. Dei uma risada e ergui as mãos _ Mas prometo que vou pensar! Chato.
— Sou mesmo! E você paga a conta.
— O quê? Por quê?
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“É divertido, pensou o principezinho. É bastante poético. Mas não é muito sério.
O principezinho tinha, sobre as coisas sérias, ideias muito diversas das ideias das pessoas grandes.
— Eu, disse ele ainda, possuo uma flor que rego todos os dias. Possuo três vulcões que revolvo toda semana. Porque revolvo também o que está extinto. A gente nunca sabe. É útil para os meus vulcões, e útil para a minha flor que eu os possua. Mas tu não és útil às estrelas...
O homem de negócios abriu a boca, mas não achou nada a responder, e o principezinho se foi...
As pessoas grandes são mesmo extraordinárias, repetia simplesmente no percurso da viagem.”
— Parece que alguém caiu no sono rapidinho... _ ouvi o sussurro baixo de Levi e encarei o homem que acariciava a cabeça de Lian de maneira amorosa. Sorri contido enquanto fechava o livro em minhas mãos e beijei de forma cálida a perninha de Lian.
— Acho melhor sairmos. _ falei para Levi que concordou sem me olhar, ele continuava encarando Lian de forma acolhedora. Levantei-me e após guardar o livro, entre os tantos outros que o meu pequenino possuía para a hora de dormir, caminhei para a porta e esperei Levi se despedir da criança adormecida.
Após termos um jantar calmo, apenas com Lian enchendo Levi de perguntas ao qual ele não se importou em responder, decidimos assistir algum filme. Mesmo que os dois morenos tenham preferido brincar com legos. Lian no final da noite pediu para que Levi o colocasse para dormir e assim enquanto eu lia o pequeno príncipe, Levi fazia um cafuné na criança que segurava sua mão com força. Andei até a sala com o mais velho em meu encalço, estava recolhendo os brinquedos, pois sabia que amanhã seria uma grande bagunça.
— Como você consegue? _ Levi perguntou e eu o encarei sem entender. O mais velho segurava uma pelúcia de Lian ao quais seus olhos estavam fixos no brinquedo.
— Conseguir o quê?
— Aguentar todo esse sentimento — Levi sorriu e eu franzi o cenho — Eu sinto como se o meu coração estivesse pesado, mas ao mesmo tempo leve. Eu quero estar sorrindo a todos os momentos ao pensar nele, quero apertá-lo, tirar-lhe as dúvidas. Eu... Eu me sinto tão apaixonado por ele. Ou melhor, sinto como se o amasse desde sempre. É tão grande isso — Ele me encarou e eu sorri para o mesmo entendendo o seu sentimento — Como você consegue Eren? Eu me sinto tão assustado, pois fico pensando e se ele se machucar? E se ele deixar de sorrir? E se ele chorar? Sinto-me tão preocupado, mas tão feliz.
— Ó Levi — me aproximei do mesmo segurando suas mãos junto do brinquedo — Eu entendo. É assustador e tão gostoso amar alguém desta forma. Acho que é o sentimento mais puro que já senti por outra pessoa na minha vida. Amor pleno. Só continue o amando, pois ele vai te retribuir de forma que nem imaginas.
Levi encarou-me com um sorriso nos lábios.
— Eren... Obrigado por tê-lo tido — Senti minhas bochechas esquentarem com o comentário repentino. As mãos do mais velho levantaram-se até meu rosto e ali iniciou uma carícia calma. Os olhos cinza estavam fixos nos meus — Eu amo vocês.
— Levi... — segurei sua mão do meu rosto e a afastei delicadamente. — Entendo que ame o Lian, mas como pode dizer algo de mim assim? Amor não surge do dia para noite, não confunda paixão com amor.
— Eu nunca senti por alguém o que sinto por você, talvez seja difícil para você acreditar em mim. Sinceramente, eu nem sei quando tudo isso se tornou tão grande. Só posso dizer que irei te provar que te amo, se me der uma chance. Apenas uma.
Ofeguei com as palavras do outro. Ele dizia tudo aquilo me encarando sem nem mesmo piscar, desviar ou seus olhos tremelicarem. Engoli em seco abrindo a boca para responder algo, mesmo que não me passasse nada concreto pela cabeça, mas acabei saindo do transe ao ouvir a campainha soando. Afastei-me de Levi em um sobressalto e o mesmo sorriu para mim, mordi os lábios e desviei meu olhar do mesmo.
— Acho que já está tarde Levi.
— Certo.
Ouvi a campainha novamente e caminhei com o mais baixo até o corredor. Abri a porta esperando que fosse um dos meus amigos, mas assim que vi Marco parado na porta com uma garrafa de vinho e um sorriso nos lábios. Abri a boca para o homem em minha, mas assim que o mesmo visualizou Levi atrás de mim seu cenho se franziu.
— Não sabia que estava acompanhado. — Marco falou mais sério encarando Levi. Olhei para o mais velho que também olhava o advogado com uma sobrancelha erguida.
— E eu não sabia que estava esperando alguém. — Levi encarou-me sério e eu desviei o olhar do dele.
— Marco... Esse é Levi Rivaille, o pai do meu filho, Levi esse é Marco Bodt meu amigo. — abracei meu corpo encarando o homem do lado de fora.
— Espera! Pai do seu... — Marco começou e eu respirei profundamente.
— Já está tarde Levi, acho melhor ir. — O mais velho também me encarava surpreso, mas foi para o lado de fora. Puxei Marco para dentro e encarei o médico — Boa noite, Levi. Cuidado ao dirigir e, por favor, não pense merda durante o caminho.
Fechei a porta na cara do outro e respirei fundo. Okay, agora era hora de esclarecer outra parte da história. Olhei para Marco que me encarava de forma confusa e sorri. Seria uma longa noite.
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Estava na cozinha fazendo pipoca. Após chegarmos, decidimos fazer uma maratona de filmes como fazíamos antigamente. Jean escolheria os filmes e eu cuidaria dos lanches. Tudo isto para nos distrairmos do fato de que não tínhamos notícias de Eren e nem de como havia sido o encontro dos três. Inspirei profundamente enquanto despejava pipoca dentro de um recipiente quando meu celular tocou sobre a mesa da cozinha.
Aproximei-me e engoli em seco ao visualizar o nome de Beth no écran da tela.
“— Alô?”
“— Armin? Está ocupado?”
“— Só um pouco. Por quê?”
“— Eu... Podemos conversar?”
“— Já não o estamos fazendo isso?”
Ouvi a respiração pesada do outro lado.
“— É sobre o trabalho Armin”.
“— Certo. Diga”
“— Eu... Eu fiquei sabendo do que aconteceu”.
Engoli em seco. Não vou mentir e dizer que certas paranoias não me passaram na cabeça, afinal era estranho brigarmos e logo depois o meu projeto ser rechaçado. Ou se alguém tivesse descoberto o nosso casinho e estivesse querendo acabar com o que estava acontecendo. Claro que poderiam ser só besteiras da minha cabeça, mas eu não podia deixar de acreditar no meu âmago que o tudo aquilo era por culpa do meu possível envolvimento com aquele homem.
“— E?”
“— Como você está?”
“— Estou bem, não é como se eu não soubesse ser profissional. Sem contar que se o meu projeto não se encaixou nos padrões da empresa, sempre a outras que poderão usá-lo”.
“— Como assim? Você está dizendo que...”.
“— O que você entendeu. Não há nenhuma cláusula de contrato que me proíba de vende-lo para outra empresa”.
“— Mas isso é estar se aliado com o rival! Armin!”
“— Você que têm rivais, eu não. Na verdade acho que nem deveríamos estar conversando sobre isso, afinal você é meu chefe”.
“— Armin... Tudo isso só porque nós brigamos?”
“— Não, Berth. Não confunda as coisas. Eu sei ser profissional, e você?”
“— O quê? O que quer dizer?”
“— Não sei, diga-me você se não acha um pouco estranho: nós brigamos e logo depois o meu trabalho é rechaçado”.
“— Você... Você está realmente querendo dizer que eu tenho algo haver com isso?”
“— Você é o chefe. Então algo você já sabia. E mesmo que não tenha feito por conta dessa briga, algo me diz que essa nossa relação pode ser a fonte da minha dor de cabeça. Ou eu estou enganado”.
“— Armin, não...”
“— Me diga a verdade. Você já sabia, não é? Que o projeto estava por um fio”.
“— Eu... sabia”.
Senti os meus olhos arderem e mordi com força os meus lábios.
“— Mas não foi por causa da briga. Os acionistas notaram que ele daria muito prejuízo à empresa e...”.
“— Berth, alguém descobriu?”
“—...”
“— Foi como eu imaginei. Está tarde, Bertholdt. Estou cansado. Passar bem”.
Desliguei o telefone e o apertei contra o meu peito. Sinto-me o ser humano mais idiota da terra, sabia que sair com alguém como Berth não era bom para mim, não sendo seu funcionário. Não queria chorar por causa disso, mas era complicado não me sentir magoado e traído. Senti meu corpo ser envolvido por dois braços fortes e assustei-me ao notar Jean me apertando contra o seu peito.
— Hey, eu estou aqui.
E com essas palavras eu comecei a chorar abundantemente. E mesmo que me sentisse um merda, sentia-me acolhido em casa.
♛
— Você...! Meu deus, isso é uma loucura! — Marco falou com os papéis, sim os papéis que comprovavam a minha não loucura sobre tudo, enquanto andava de um lado para o outro com uma expressão incrédula no rosto.
Assim que fechei a porta na cara de Levi resolvi abrir o jogo com Marco. O outro havia me escutado estupefato, mas assim que mostrei todos os exames e demais papéis, ele simplesmente começou a ler em silêncio tudo. Agora ele andava em minha sala desorientado.
— Isso tudo é verdade.
— Você tem certeza que... Sabe... — franzi o cenho — Não é um homem trans?
— Marco, eu vou fingir que não te mostrei todos os meus documentos que comprovam que não sou trans. Sou hermafrodita! Sou diferente eu sei, mas eu já fiquei sabendo que casos como o meu apareceram mais recentemente. Claro que nenhum chegou ao mesmo estágio.
— Mas... Você não deveria ser estéril? Digo uma das partes.
— E sou. A “parte masculina” que me compõe é estéril. Eu não possuo a capacidade de engravidar uma mulher, mas a outra parte... Ela sim pode ser fecundada.
— Isso é... Uau! Eu realmente estou... Surpreso? — dei uma risada — Foi por isso que precisava de um advogado? Para ganhar daquele idiota a guarda do seu filho.
— Bem, mais ou menos. Eu pensei que assim que ele descobrisse iria tentar tirar o Lian de mim, mas não aconteceu.
— Espera, ele não acreditou? Que babaca!
— Não, Marco! Levi acreditou, por mais incrível que pareça. E mesmo com todo o meu passado, ele não quis tirar o Lian de mim. Ele me disse que jamais afastaria meu filho de mim.
— E você acreditou?
— Não vou mentir que não me senti com o pé atrás, mas eu sei que ele não faria isso. Eu não conheço tão bem como pensei, e nem ele a mim.
Falei enquanto encarava minhas mãos.
— Certo... Mas Eren, por que me contar tudo isso? — encarei o outro e sorri.
— Porque você é meu amigo. Você me ajudou muito Marco, acho que merecia um voto de confiança.
O outro sorriu para mim e sentou-se do meu lado.
— Pensando bem, Lian realmente se parece com aquele anão — dei uma risada e bati de leve na perna do outro — Eren, ele é o motivo por você não poder me corresponder.
Encarei-o profundamente. Aquilo de fato era verdade.
— Sim. Sinto muito.
— Vocês estão... juntos?
— Não... Ainda. Eu acho. Eu não queria Marco, mas eu não posso mentir e dizer que não o amo. E ele também se declarou para mim.
— Entendo. — o outro respirou fundo e encarou a parede a nossa frente.
— Me desculpe, não queria te iludir.
— Você me deixou avisado desde o início Eren. Estou um pouquinho triste, é verdade, mas sinto-me estranhamente mais leve. Pensei que doeria mais.
— Eu não sou a pessoa para você, mas eu gostaria de poder ter sido.
— Eu sei — ele deu uma risada segurando a minha mão — Eu prometo que não contarei nada a ninguém. Mas vou precisar ficar um pouquinho longe, preciso de um tempo.
— Eu te entendo, Marco.
— Eren, só uma coisa — Marco se virou para mim, segurando o meu rosto. Ele era tão bonito, mas meu coração não se acelerava ao tê-lo perto. Meu estômago não se embrulhava como se mil borboletas fizessem morada nele. Nada do que Levi me fazia sentir, eu sentia com Marco.
O outro aproximou seus lábios dos meus em um selinho casto. Era quente e acolhedor, mas não havia nada ali. Era apenas um selinho macio, bom, mas sem impacto. Ele se afastou dando um beijo na minha testa.
— Acho melhor eu ir. Preciso pensar, obrigado pelo voto de confiança Eren, farei por merecer.
— Eu sei.
Marco foi embora e assim que encostei a porta respirei de forma aliviada. Era como se um peso houvesse partido para nunca mais voltar. Era o começo de uma nova fase. Um novo começo para mim, para Lian, Levi e Marco. E sentia-me plenamente feliz naquela madrugada.
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