Fiction

37 Capítulo 37


A semana tinha se passado de maneira agradável demais, não que eu esteja reclamando, mas desde a minha chegada à cidade não tinha vivido tempos de paz tão bons assim. O final de semana estava batendo na porta e consigo meus planos de brincar e fazer passeios com Lian e com Levi —, pois o menor tinha insistido para chamar Nina e o maravilhoso tio Zangado que lhe dava biscoitos gostosos. O mais velho tinha voltado ao hospital e estranhamente não tínhamos nos encontrado uma única vez nos corredores ou espaços abertos.

E se aquilo me chateou? Um pouquinho.

Eu estava intrigado em relação dos planos do neurologista para Lottie, que indo contra todas as forças negativas dos outros se recuperava de maneira brilhante. Os pais da loira pareciam mais saudáveis e felizes e a curiosidade em saber se o outro tinha conversado com os mesmos era grande, mas não tinha maneira de perguntar algo sem parecer um abelhudo. Minhas conversas e encontros com Marco se resumiam a cafés — de verdades — e caronas para casa, às vezes rolando um beijinho aqui e outro ali. Armin tirava sarro do meu quase namoro e eu jogava na cara dele o seu relacionamento com o chefe.

O loiro ainda não tinha contado nada a Jean, não que fosse da conta do mesmo, mas era engraçado o quanto tínhamos que nos esconder e tomar cuidado para conversar como duas colegiais descobrindo para o que os lábios debaixo funcionavam — Eca. Estava tentando de algum modo criar coragem e ir até o departamento de Levi para fazê-lo o convite, mas toda vez que me aproximava dava meia-volta e ia cuidar dos meus assuntos. Estranhamente não vi Hanji no hospital esses dias ao contrário de Erwin que parecia dormir e acordar no local.

—... Eu cheguei ao ponto de querer enfiar um gafo na garganta do Mike. — Nanaba comentou em minha frente enquanto almoçávamos no refeitório. — Minhas costas doem demais e o filho dele não para de me chutar.

— Já tentou colocar música clássica? — comentei levando o meu garfo aos lábios e a loira me encarou. — Lian se acalmava quando colocava. Ou até mesmo enquanto lia para ele.

— Vou ver se dá certo. — ela respondeu e riu. — É tão fofo o quanto você entende sobre gravidez. Sua mulher deve ter sido bem paparicada.

— Não muito. — engoli em seco enquanto remexia o meu prato. — A gravidez era difícil então nós tentávamos todos os jeitos para que o tempo todo não fosse tão doloroso.

— Sinto muito. — encarei a médica que tinha os olhos marejados e sorri.

— Tudo bem, não é algo que me atinja Nanaba. — ela concordou resmungando algo sobre hormônios e voltamos a falar besteiras. A loira não demoraria muito para sair de licença maternidade e ficava irritada só de pensar em ter que largar o trabalho e ficar encarando a parede, como dizia.

— Lá está ele de novo... — encarei a loira de cabelos curtos, confuso e virei à cabeça encarando Erwin comer sozinho próximo à janela de maneira distraída — Ultimamente ele só anda assim. Dizem que eles vão se separar. Se bem que os fofoqueiros de plantão falam demais.

— Hanji-san e Erwin-san? — perguntei ainda mais confuso e ela expirou de maneira tediosa concordando. — Eu... Nossa.

— Sim. É que você os pegou no início de toda essa situação estranha, mas antes Eren eles viviam grudados rindo e conversando. Eu e Mike quando fomos dar uns pegas na sala de espera cansamos de vê-los saindo de lá depois de uma boa foda.

— Obrigado pela informação.

— Disponha.

— Espero que não seja verdade.

— Eu também. Erwin é um dos melhores amigos de Mike, mas nem o meu narigudo sabe o que está acontecendo o único que deve saber é aquele nanico ali, mas é como perguntar para as paredes da minha casa. — ela apontou e eu vi Levi adentrando no refeitório e marchando até Erwin. —... Estranho.

— Eles vão brigar? — Comentei olhando os dois que pareciam estar discutindo e chamando atenção do refeitório todo. Erwin se levantou tentando intimidar Levi que riu com escárnio e mesmo sendo mais baixo continuou o encarar e falar algo que não podíamos ouvir.

— Merda! Eren não deixe eles brigarem!

— Eu?!

— Você não é a porra do psicólogo? — ela se levantou e me puxando nós caminhamos até os dois.

—... Isso não tem nada haver com você! — Erwin falou e Levi riu com deboche.

— Você é tão babaca de falar isso. Eu estou cuidando da sua mulher e filha, sério que não tem nada haver comigo?! — Levi o empurrou e Nanaba puxou os dois.

— Chega dessa palhaçada. — a loira falou e Erwin tirou o braço da mesma empurrando Levi com a outra mão que apertou os punhos.

— Não se mete Nanaba. — Erwin rugiu e a loira o encarou surpresa. Levi iria dar passos rápidos, mas eu segurei seu pulso o fazendo me encarar de olhos arregalados para então me fitar ainda mais surpreso.

— Levi, por favor... Não. — fiz um gesto com a cabeça e o mesmo olhou ao redor grunhindo, voltando a fitar Erwin.

— Quando você resolver virar homem de novo e pensar direito nós conversamos. — Levi pegou em meu pulso arrastando-me do local cheio, batendo no ombro dos enfermeiros e residentes que bloqueavam a passagem.

O mais velho me puxou por um bom tempo e eu sinceramente achava que ele não tinha um lugar de fato para ir, as mãos firmes do mesmo apertavam o meu pulso, mas sem machucar enquanto eu podia ver seus ombros tensos. Levi andou até as escadas de saída do departamento que nos encontrávamos — eu não tinha nem certeza qual era — e me soltou esmurrando a parede em sua frente.

— Droga!

— Levi, se acalme. — falei engolindo em seco e o mesmo me olhou, pude notar a raiva e frustração em seu olhar. Naquele momento os olhos do mesmo eram como uma tempestade querendo devastar tudo ao seu redor.

— Ele é um idiota! Hanji... Hanji estava chorando por esse maldito imbecil, por algo que ele nem ao menos compreende. — ele comentou andando em círculos na minha frente gesticulando e dando passos pesados. — E é tudo minha culpa! — Levi parou no lugar e levou a mão aos cabelos os puxando com força e mordendo o lábio. — Eu sou um maldito que só sabe estragar a vida deles.

Pela primeira vez na minha vida visualizei Levi frágil. Meu peito se apertou de maneira dolorosa e eu dei dois passos o alcançando, segurei sua mão que puxava com tanta força os fios negros enquanto tocava seu rosto.

— Inspira Levi. — o médico me olhou perdido e fechou os olhos fazendo o que eu tinha pedido — Expira. Você não tem culpa de nada Levi, não se machuque dessa forma.

O mais velho sorriu de maneira fraca com os olhos fechados e encostou seu rosto no meu ombro fazendo-me engolir em seco. Levi de maneira irônica tinha cheiro de chuva, mas não como um vendaval, mas como a fraca chuva da manhã que molhava a grama e fazia as flores balançarem. Era indescritível o seu cheiro, mas eu só conseguia dos lembrar os verões na casa dos meus pais em que finas gotas molhavam as janelas e meu pai assava bolos, que acabavam sempre queimados. Levi tinha cheiro de casa.

— Obrigado Eren. — ouvi sua voz soar rouca e abafada. Parecia quebrada e tristonha e eu queria abraça-lo e mantê-lo perto de mim até que o seu sempre tom sarcástico e debochado surgisse novamente.

— Vamos sair no sábado? — perguntei baixo e o mesmo continuou encostado em mim. — Lian só fala de você e eu pensei em sabe... Ir ao parque ecológico, quem sabe fazer um piquenique.

Clichê. — ouvi uma risada do mesmo e meu estômago se embrulhou nervoso fazendo-me sorrir, senti meus olhos embaçarem com lágrimas que eu não fazia ideia do porque e pisquei encarando a parede em nossa frente.

— Divertido seu ranzinza. Você poderia chamar a Nina e a Hanji.

— Preciso levar algo?

— Toalha xadrez? — perguntei fazendo o mesmo rir.

— Não tenho vermelha.

— Se vira. E... Oh, seus adorados biscoitos que deu para o nosso filho, você o deixou viciado. — comentei emburrado e mais uma risadinha ecoou trazendo a mesa sensação devastadora em mim. — Eu deveria bater em você. Você sabe o quanto Lian perguntou por você?

— Sinto muito, mas aconteceu tanta coisa...

—Tudo bem, mas não suma mais assim Levi. Você tem que ser presente...

— Certo.

— Certo?

— Sim. — ele inspirou profundamente e se desencostou do meu ombro calmo, olhou-me dando um fino sorriso e suspirou — Obrigado pirralho.

— Odeio quando me chama assim. — comentei e o mesmo sorriu divertido.

— Mas você é um pirralho.

— Idiota. — ele negou com a cabeça pegando o Pager que apitava, suspirando pesaroso.

— Preciso ir.

— Certo. — Levi andou até a porta e encarou-me por alguns segundos. — O que foi?

— Nada. — Ele sorriu. — Até sábado.

— Até... — o moreno fechou a porta e eu engoli em seco sentindo um maldito rebuliço dentro de mim. — Senpai.

Estiquei as mãos acima da minha cabeça e grunhi com as malditas dores nas costas que sentia. Estava exausto de tantos trabalhos, maquetes e apresentações que tive no decorrer da semana e sem contar o período de testes que se aproximava lentamente como uma cobra pronta para dar o bote. A universidade tinha nos dado um dia livre e eu estava terminando os meus trabalhos antecipadamente para não correr como um louco de uma hora para outra, mas estava tão cansado e solitário.

Eren e Armin trabalhavam enquanto Lian estava na escolinha. Claro que eu tinha outros amigos, mas era bem ligado a minha “família” e não podia deixar de sentir-me abandonado. Estava preocupado com esses malditos que me escondiam as coisas e achavam que eu não perceberia, sem contar que Lian parecia estar me trocando pelo Zangado-san. Ciumento? Bastante.

Levantei da escrivaninha e me joguei sobre o celular encarando o teto. Estava tão confuso e preocupado com inúmeras questões que não tinham fundamentos que poderia rogar de maneira hipócrita aos céus um pouquinho de misericórdia, mesmo sabendo que minhas dores e sofrimentos ainda eram ínfimos perto do resto do mundo. Talvez por isso evitasse reclamar tanto e quando começava a demonstrar um pouco do meu egoísmo humano preferia respirar fundo e tentar lembrar que eu ainda era abençoado de uma maneira ou de outra.

Era engraçado como conseguia filosofar bastante sozinho e parecer o adulto que era. Meses atrás quando eu sentia a solidão se aproximando dava um jeito de sair e farrear, mas desde que Armin deixara tudo a panos limpos aquela diversão superficial de beber e transar com estranhas tinha se transformado em algo nojento e até mesmo repugnante para mim. Talvez eu devesse concordar com Marco sobre os meus sentimentos.

Ou talvez eu só devesse fechar os olhos e rezar que toda a tempestade dentro de mim se aquietasse.

Franzi o cenho com dificuldade por conta da dor de cabeça excruciante que estava sentindo, mas sabia que tudo se devia no fim nas horas que tinha passado chorando como uma maldita tola. Estava tão cansada, mas era tão difícil deitar e dormir sem pensar em nada. Nina ressonava como a boa dorminhoca que era ao meu lado da cama de casal e eu sorri para a minha bela filha. Senti um maldito aperto ao ver as características tão belas que ela carregava e que tinha herdado do meu belo e possivelmente futuro ex-marido.

Doía demais pensar em Erwin, em algo que não fosse meu companheiro para a vida inteira. Machucava saber que amar doía tanto que nada mais parecia compensar, nem mesmo os bons momentos que há tanto tempo tínhamos. Não conseguia definir exatamente uma data fixa para quando o nosso belo casamento tinha se transformado em uma prisão, mas tinha quase certeza que tinha tanta culpa nisso quanto o meu amado loiro.

Erwin tinha aquele jeito de pensar e falar que eu poderia ouvir por mil anos. Durante as noites em que conseguíamos passar algum tempo junto amava ouvi-lo falar até da massa torrada da cantina do hospital, mas fora assim que me apaixonei por ele, não? Em um daqueles estranhos dias que vi um jovem loiro e energético que queria transformar o mundo um tijolo por vez falando um de seus belos discursos. Parecia hilário lembrar como eu ficava de longe o observando falar, o apoiando, mesmo sabendo que o bonito loiro nem fazia ideia de quem eu era. Fora um dia de outono cinzento em que ao invés de ver o dono dos olhos azuis falar de maneira energética tinha presenciado seu pranto que eu notei que amava aquele garoto politicamente correto.

E tinha sido ainda mais bizarro a minha tentativa de consolá-lo para no fim saber que assim como eu sempre o observava ele também estava prestando atenção em mim. Foi entre chás e artigos de doenças sexualmente transmissíveis que nos beijamos. E foi entre slides e cartazes ridículos pintados com tinta a óleo que nos amamos a primeira vez.

Erwin completava a minha loucura com sua razão e vice-versa. Até pouco tempo atrás éramos o exemplo clichê de que água e óleo não se misturavam, mas as mentiras se acumularam entre nós e meus receios e medos nos separaram em céu e terra. Meu loiro não entendia o que tanto escondia, ou melhor, o que tanto eu e Levi carregávamos em segredo. Não, ele não entendia a culpa que levava nos ombros e nem mesmo as cicatrizes que eram reabertas em todo o maldito ano. Mas tudo chegava ao limite não? E com Erwin tão bem seria diferente.

Meu amado tinha confrontado-me em meio aos nossos lençóis, exigindo a verdade que eu não gostava de lembrar e nem ao menos de degustar. E, em meio em desculpas esfarrapadas, tudo tinha se quebrado. Tudo tinha findado por minha culpa.

“— Eu só estou cansado Zoe de ser o último a saber das coisas. — O loiro gritara em meio a mais uma discussão e eu apenas revira os olhos.”

“— Isso não tem nada haver com você!”

“— Tem haver comigo quando seus segredos interferem no nosso casamento. Tem haver comigo quando minha esposa não confia mais em mim e esconde suas dores para debaixo do tapete.”

“— Erwin você não entenderia... Por que não consegue compreender?”

“— Eu tenho sido o mais compreensivo possível há tanto tempo Hanji, mas é você que não consegue ver o que estou tentando lhe dizer. Você não deve mais nada ao Levi, então porque insiste em arrastar nosso casamento para as ruínas por algo que é dele?!”

“— Porque ele é a porra do meu irmãozinho! Por que... — engoli as lágrimas — Porque no fim se eu não tivesse sido tão egoísta e sonhadora nada disso estaria acontecendo.”

“— Do que você está falando?!”

“— Estou falando sobre o fato de que Levi não teria passado pelo que passou se eu não tivesse pedido, ou melhor, exigido da nossa mãe. Você jamais vai entender como é crescer vendo seu pai culpar seu irmão pela morte da mãe, sabendo que no fim a culpa foi toda sua!”

— Mama? — ouvi a voz doce de Nina e senti suas pequeninas mãos deslizarem pelo meu rosto. —Não chore mais mamãe. Vai tudo ficar bem eu prometo...

—Me desculpe meu amor. Você tem razão, no fim vai tudo ficar bem.

Depositei meus sapatos no assoalho espirrando em seguida. O tempo tinha esfriado de uma hora para a outra e com toda certeza eu passaria por algum resfriado por conta da brusca mudança de tempo. Caminhei para dentro do apartamento louco para tomar um banho quente e sumir por entre os meus cobertores assistindo alguma série no computador, mas assim que abri e senti a brisa fria quis gritar e estapear Jean que dormia sentado na escrivaninha próximo da janela aberta com apenas uma fina coberta o cobrindo. Idiota. Fechei a janela com todo cuidado para não fazer barulho e ouvi o barulho de passos rápidos vendo um Lian vestido com quatro blusas de frio de Jean, um gorro, óculos de esqui, luvas e meias grandes, mostrando um sorriso sapeca por entre as inúmeras peças de roupas. Lian levou os dedos aos lábios pedindo silêncio e eu dei uma risadinha concordando e fui até o mesmo.

—Eu não consegui fecha a janela tio Min. — o mais novo pronunciou abraçando minhas pernas. — E o tio Jean não acordou quando eu chamei.

— Tudo bem Lian. Você é com certeza um rapazinho crescido por cuidar do seu tio idiota. — o mais novo sorriu e eu suspirei encarando o estudante de arquitetura que parecia exausto em uma posição completamente desconfortável. — Ele está dormindo há muito tempo?

— O tio colocou Rei leão para eu assistir e no 2º filme o titio já tava dormindo tio Min.

— Certo. Agora vá lá para o quarto e fique bem embrulhadinho que eu vou acordar seu tio sem noção.

— Eu posso assistir desenho ainda?

— Pode, mas antes do seu pai chegar tem que parar okay? Sabe que seu papa não gosta que passe tanto tempo em frente ao computador ou televisão.

— Certo! — o mais novo voltou a andar para o corredor praticamente patinando com as meias, grandes demais para seus pés, e eu dei uma risadinha.

Voltei a olhar Jean que dormia ainda e bufei com sua falta de preocupação consigo mesmo. Caminhei até o mesmo e acariciei seu couro cabeludo sentindo o cheiro de menta misturado com alguma coisa que eu não fazia ideia, mas que eu sabia ser do shampoo do mesmo. Jean se remexeu e encostou sua cabeça em meu peito enquanto abria os olhos lentamente para mim.

— Armin...?

— Olá, seu irresponsável. — puxei seu cabelo de leve e o mesmo grunhiu para então esfregar a cabeça no meu peito como um gato e pedir por mais carinho. — Você estava dormindo com a janela aberta e está extremamente frio.

—... O Lian! — ele exclamou e eu dei uma risadinha.

— Lian que cobriu você e com certeza fez uma bagunça daquelas no seu guarda-roupa, mas não se preocupe ele está bem agasalhado.

— Ele me cobriu? —o mesmo perguntou confuso e olhou para a coberta sobre si arregalando os olhos. — Eu realmente nem senti.

— Alguém precisa ser responsável, não? — ele fez um biquinho voltando a encostar sua cabeça em meu peito. — Vá tomar um banho, Jean. Para não pegar um resfriado e nem pense em brigar com Lian e a possível bagunça no seu quarto.

— Tudo bem. — ele falou ainda sonolento e eu ia caminhar para o corredor quando os braços fortes do mais alto rodearam o meu corpo me apertando contra si. Engoli em seco e não pude deixar de estremecer ao sentir o mesmo depositar seu rosto na curvatura do meu ombro. — Você está quentinho.

— E todo suado. Me solta que eu tô fedendo.

— Mentiroso. — senti o nariz de Jean deslizar pelo meu pescoço e não evitei o arrepio que me subiu pela espinha. Eu era completamente sensível no pescoço inteiro. — Você está cheiroso.

— Seu maldito sai de perto do meu pescoço. — exclamei lhe dando uma cotovelada na barriga de leve e o mesmo deu uma risadinha voltando a encostar a cabeça no meu ombro. — Jean está tudo bem?

— Eu que deveria perguntar isso. — a voz do mais alto deixou de soar sonolenta para interrogativa, mas sem perder o tom suave.

— O que quer dizer?

— O que está me escondendo Armin? Eu já percebi que você e o Eren estão de segredinhos e eu queria não me sentir chateado com isso, mas é impossível.

Engoli em seco surpreso e minha respiração travou por alguns segundos, mas eu já deveria saber que Jean notaria algo — afinal eu e Eren fofocávamos como duas colegiais. Sem contar que o mais alto era a pessoa que mais me conhecia no mundo, então no final era complicado esconder as coisas por muito tempo dele, mas era difícil. Por algum motivo que eu não entendia me sentia errado em falar para Jean que estava... Saindo com o meu chefe? Não que eu devesse alguma coisa, mas e se ele achasse que meus sentimentos por ele tinham sido apenas uma mentira só porque comecei a sair com Berth? Eu sinceramente ficaria machucado com isso, pois tudo o que tinha sentido e ainda sentia era extremamente real e apenas estava tentando seguir em frente.

— Você está pensando demais. Se não quiser me contar eu vou entender. — Ele apertou-me com mais força e então me soltou e ficou em minha frente coçando os cabelos. — Vou tomar um banho. A janta é sua.

Jean começou a andar e eu segurei o seu pulso respirando fundo.

— Eu... Eu meio que estou saindo com uma pessoa. — olhei para o mesmo temendo encontrar algum julgamento, mas só enxergava curiosidade e tranquilidade. — Você se lembra daquela festa em que eu fui e não atendi nenhuma de suas ligações? — ele concordou e eu suspirei. — Eu estava realmente magoado e acabei conhecendo um cara. Ele é meu chefe e meio que estamos ficando.

—... Certo. — Jean falou baixo e eu soltei a sua mão. O mais alto se virou de lado encarando a parede a minha frente de maneira pensativa e não pude evitar sentir medo. —... Você gosta dele?

— Ele é uma boa pessoa Jean. Ele me ajudou quando você se foi. — pronunciei a última frase baixinho e ouvi Jean expirar profundamente. — Ele me respeita, mas eu não o amo se é isso que quer saber e ele sabe disso. Até porque eu realmente não posso amá-lo agora... — permaneci com a cabeça baixa comprimindo os meus lábios com força até sentir a mão grande de Jean acariciar minha cabeça.

— Você não precisa da minha aprovação Armin. Se ele te faz bem por mim está... — Jean se aproximou encostando sua cabeça em meus cabelos enquanto eu permanecia encarando meus pés. —... Está tudo bem. Eu vou tomar banho.

Jean beijou minha cabeça e voltou a andar e eu encarei suas costas até que o mesmo entrasse em seu quarto. Estranhamente me sentia aliviado de contar a Jean o que estava acontecendo e realmente não me incomodaria em fazer um belo jantar aquela noite. Não quando tínhamos sido sinceros um com outro.

Mesmo que só um lado.