Fiction

36 Capítulo 36


Sabe quando a sua mãe lhe encarava e na hora desconfiava que você estivesse aprontando algo? Mas não qualquer besteirinha, mas sim algo realmente arriscado que provavelmente você se arrependeria, porém anos mais tarde lembraria e riria da sua babaquice? Eu acho que se a minha mãe estivesse aqui ela sentiria a merda na qual eu estou me metendo.

Sinto o meu estômago dando voltas, mas ainda assim a sensação de adrenalina parecia envolver todo o meu cérebro. E por quê? Talvez porque Levi tivesse passando uma mensagem avisando que iria entrar no hospital hoje para ver Charlotte. Eu já tinha a roupa que o mesmo deveria usar só precisava de coragem para entrar no departamento dermatológico e abrir aquela maldita porta para o mais velho. Eu não fazia ideia de como Levi descobrira que aquele dia a psiquiatria estaria menos supervisionada — e sinceramente estava tentando tirar da minha cabeça que ele era algum tipo de mago, vidente e seja lá toda a merda restante.

Para uma segunda — feira tão caótica eu deveria ter desconfiado do meu domingo tranquilo em família. Jean e eu saímos com Lian para um parque. Armin tinha cozinhado para nós e tínhamos jogado conversa fora como os antigos adolescentes que parecíamos ser. Tinha sido um dia bem bobo, regado a risadas, algumas mensagens de Marco e gritinhos histéricos do meu amigo loiro assim que ele soube que tinha beijado o advogado. Um domingo maravilhoso que foi altamente estragado com a mensagem noturna do médico chefe do departamento de neurologia. Maldito.

Inspirei profundamente encostado no elevador que se abriria na dermatologia evitando encarar os pacientes e algumas enfermeiras dentro do pequeno cubículo comigo; as peças estavam guardadas dentro do meu jaleco fechado e ao redor do meu corpo e de maneira fajuta eu me sentia na supremacia Bond. O elevador se abriu e, rezando como o bom covarde que sou, caminhei em direção à recepção dando o meu melhor sorriso para a atendente bonita e jovem que me fitou com as bochechas coradas.

— Olá. A Dr.ª Soo se encontra? — a loira me fitou por alguns segundos e desviou o olhar.

— E— Ela foi almoçar Senhor...?

— Doutor — eu fiz um biquinho e encarei o seu nome bordado — Eu pareço ser tão velho assim, senhorita Min?

— Eu — Eu. Desculpe-me, doutor.

— Estou brincando, os nossos departamentos são realmente afastados então dificilmente você me conheceria, não é? Sou Eren Jaeger, psicólogo e psiquiatra.

— Oh! Você é chefe do departamento psiquiátrico. — a loirinha abriu a boca surpresa e eu sorri a fazendo corar novamente.

— Então você já ouviu falar de mim.

— O senhor... Quer dizer, você está com algum problema? Posso marcar com a doutora para outro dia e... — dei uma risadinha me inclinando no balcão.

— Um paciente meu está com um probleminha, e achei era uma boa oportunidade de conhecer o departamento. Eu posso esperar ela voltar, sem maiores problemas querida.

— Eu— Eu não posso deixar alguém entrar na sala dela assim — ela murmurou ainda vermelha e eu lambi os lábios atraindo a atenção dela.

— Eu posso ficar na sala de visitas lá perto. Ou até mesmo no corredor, não quero que você se dê mal por minha causa, gracinha. Então?

A loira corou ainda mais e eu rezei internamente para que a minha atuação heterossexual desse certo, pois eu realmente necessitava ir ao corredor — E como Levi me contara, a doutora Soo era quem tinha a sala mais próxima da saída de emergência. Já estava cogitando mandar uma mensagem ao neurologista avisando que eu não era um hétero tão bom assim quando a atendente concordou me dando passagem. Suspirei aliviado sentindo as minhas pernas bambas e rindo, fui até onde seria a sala da doutora, com quem eu nunca tinha trocado nem um par de palavras, e segui reto até avistar as portas duplas com os dizerem em um vermelho gritante “Saída”. Olhei para os lados e atravessei as duas portas correndo pelo corredor encostado na parede como me tinha sido indicado — evitando as câmeras; Avistei a porta de metal e bufei aliviado.

Bati três vezes e recebi três batidas em resposta. Abri a porta avistando o moreno mais velho de óculos de grau e um sorriso de lado.

— Pensei que tinha desistido.

— Cala a boca e entra logo. — fechei a porta e o mesmo ainda sorria.

— Onde estão as roupas? — Revirei os olhos e entreguei ao mesmo que avaliou as peças e concordou me encarando. Levi retirou o casaco que usava e começou a subir a sua camisa me dando visão de suas costas musculosas. Engoli em seco sentindo o meu rosto corar.

— Você vai se trocar aqui?!

— Não dá para ir ao banheiro pirralho. — ele me encarou por cima de ombro e sorriu de lado — O que foi? Parece que nunca viu alguém sem roupa.

— Idiota! — Resmunguei, andei em sua frente ficando encostado na parede sem olhar para o mesmo. — Cuida logo que o horário de almoço vai já terminar.

Levi deu uma risadinha e eu me concentrei no som de roupas deslizando, de cinto sendo aberto e todas aquelas coisas. Meu peito estava acelerado e eu, da forma mais infantil, ficava lembrado de Jean para tentar acalmar a pigmentação vermelha que com certeza queria se apossar do meu rosto. O neurologista tossiu e eu o encarei dando uma risada ao ver o quão irreconhecível alguém se tornava de touca e máscara.

— E suas roupas? — perguntei risonho, o moreno apontou para uma bolsa marrom que eu nem notara no canto da porta e suspirei concordando enquanto ele jogava a mesma pela porta.

— Só espero que ninguém pegue. — ele resmungou e eu não pude segurar uma gargalhada. — Infantil.

— Não é você que me chama de pirralho?

— E você se sente um? — ele perguntou sarcástico e eu revirei os olhos enquanto voltávamos pelo trajeto ao qual eu tinha atravessado sozinho.

Voltamos até a recepção e eu grunhi encarando a atendente loira que mexia em seu celular. Levi me olhou interrogativo e eu pedi para que o mesmo esperasse enquanto me encaminhava em direção da mulher que assim que me notou abriu um sorriso gentil e corou. Iniciei uma conversa fiada e com um gesto imperceptível para a moça Levi notou o que deveria fazer e passou por nós até o elevador que se abriu.

— Doutor Eren? — ele me chamou, e encarei o mesmo — Estão chamando o senhor.

— Oh! Eu devo ter esquecido o meu bip — resmunguei colocando a mão nos bolsos e me virei para a moça. — Bem, Min-chan. Eu vou precisar ir, mas você poderia pedir para a Dr.ª Soo me bipar assim que possível? — pisquei para a loira e me despedindo fui com o médico até o elevador aberto.

Sorria de maneira falsa até as portas se fecharem e eu deixar um suspiro cansado sair pelos meus lábios e ouvi uma risada do outro que estava encostado do outro lado das paredes metálicas com os braços cruzados.

— Que triste seria se ela descobrisse a sua preferência. — o outro comentou negando e eu revirei os olhos.

— Cala boca. Nunca passou na sua cabeça que eu possa ser bissexual? — comentei encarando os botões que brilhavam em minha frente e senti o olhar do outro sobre mim.

— Você é?

— Não, mas me passo por um fácil, fácil. — comentei rindo e o mesmo me acompanhou até que as portas se abrissem e algumas pessoas entraram. Levi ficou sério e encarava a parede em sua frente da maneira mais séria possível. Era como se duas pessoas habitassem o mesmo corpo e eu não conseguisse me acostumar com suas trocas constantes.

Estava habituado com seu olhar sério e carrancudo. Respostas secas e rápidas e sua seriedade, afinal desde a primeira vez que vi aquele homem pela primeira vez no colégio ele era daquele jeito, mas seus sorrisos e brincadeiras eram nuances dele que jamais teria imaginado se o mesmo não as fizesse em minha frente. Levi era uma caixinha de surpresa e internamente eu me amaldiçoava por aprender um pouco mais sobre o moreno.

Descemos no térreo e caminhamos sem maiores problemas até a psiquiatria, ninguém tinha o reconhecido e eu ria internamente notando o quão desatento às pessoas podiam ser. Depois de verificar o corredor do quarto de Lottie, permiti que o mais velho adentrasse no mesmo comigo.

— Boa tarde, Charlotte. — eu comentei para a loira que me encarou séria.

— Boa tarde, Eren. Enfermeiro novo? Logo agora que eu estava me acostumando com a falta de humor da outra enfermeira. — Levi deu uma risadinha e baixou a máscara fazendo a mais nova sentar na cama e cobrir os lábios surpresa.

— Sempre tão bem humorada Charlotte.

— Bom, acho que vou deixar você com o seu tratamento senhorita Williams. — comentei divertido e encarei Levi. — Você tem, no máximo, meia— hora.

Saí do quarto e fiquei no corredor em vigília, torcendo para que o mais velho soubesse o que fazer.

Suguei todo o ar em minha boca juntando as bochechas e fazendo um barulho irritante de um quase beijo aberto com boca de peixe. Estava completamente entediado, mas para piorar a minha situação tinha um maldito projeto para organizar até o fim do expediente e Sasha nem tinha aparecido naquele dia. Doente ela dizia, mas eu sabia que a maldita tinha faltado apenas para ir à estreia do novo restaurante grego no centro da cidade.

Aquela segunda— feira estava sendo um saco em vida e olha que eu nunca atribuí morbidade aos dias de semanas. Berth ainda não tinha voltado de sua viagem e tinha me avisado por mensagens que não tinha exatamente um dia de volta para marcamos o nosso bendito primeiro encontro. Eu realmente não sabia como reagir a toda aquela situação envolvendo o meu chefe, que sabia chupar bem demais, e os meus sentimentos conturbados em relação ao meu melhor amigo. Tinha consciência que os atos de Jean não eram uma falsa demonstração de que um dia ele poderia me corresponder, mas eu não podia evitar me iludir.

Desde que ele voltara para a minha vida os dias tinham gosto de café e sons de risadas. Parecia que a minha vida tinha entrado em um daqueles vídeos clips de música indie em que tudo dava certo e tinha mensagem subliminar de determinação. E se eu gostava? Amava.

E para melhorar tudo ainda havia aquele gostinho de resolução de livro na vida do meu outro melhor amigo que estava saindo com um advogado baita de gostoso, não que eu ficasse fantasiando com um possível relacionamento duradouro surgindo dali, Eren não era mais esse tipo de pessoa e sinceramente eu estava quase no mesmo pé. Revirei os olhos enquanto encarava o monitor com o projeto do arquiteto da nossa equipe que como sempre exagerava e eu como o bom samaritano e arqui-inimigo engenheiro civil tinha que por realidade.

O bom é que faltava pouco, mas o ruim é que ainda faltava e eu não estava nem um pouco a vontade para continuar. O horário de almoço estava quase batendo e eu precisava ainda pensar e um lugar para ir comer.

“Tem planos para o almoço?”

10 horas e 38 minutos.

Jean Dark Horse.

Fitei o meu celular e dei uma risada ao receber uma mensagem de Jean. Toda vez que mudávamos o contato do mesmo Eren dava um jeito e colocava apelidinhos bastante carinhosos bem semelhantes aos anteriores, apenas pare demonstrar todo o seu amor pelo outro.

“Estava pensando nele agora. Por quê?”

10 horas e 39 minutos.

Loirinho.

“Vamos comer juntos? Eu passo para te buscar e te deixo de novo.”

“Eu chamei o Eren, mas esse disse que tinha algo muito importante para fazer L.”

10 horas e 39 minutos.

Jean Dark Horse.

“Por mim tudo bem. Ele te falou o que era?”

10 horas e 39 minutos

Loirinho.

“Não ele só ficava cantarolando a musiquinha de missão impossível.”

“Ia até te perguntar se você sabe de algo, mas pelo visto ele tá aprontando merda sozinho.”

“Aquele veado.”

10 horas e 40 minutos.

Jean Dark Horse.

“Vocês se amam tanto que fica difícil não shippar”

10 horas e 40 minutos.

Loirinho.

“Deus me livre! Prefiro beijar o Marco...”.

“Se bem que se eu beijar o Marco estaria indiretamente beijando o Eren.”

“Algo para se pensar...”.

10 horas e 40 minutos.

Jean Dark Horse

“Algo para se refletir.”

10 horas e 40 minutos.

Loirinho.

“Você tem algum lugar onde queira ir? Pelo amor do santo G— Dragon não fala italiana.”

10 horas e 41 minutos.

Jean Dark Horse.

“Ando desconfiando dessa sua heterossexualidade ultimamente Jean.”

“Massas é um amor ♥”

10 horas e 41 minutos.

Loirinho.

“Má influência miga. Armin ontem nós comemos massa no almoço e na janta e no sábado o jantar foi massa também, tá querendo parir um pacote de macarrão?”

10 horas e 42 minutos.

Jean nem tão Dark Horse assim

“Vegetariana?”

10 horas e 42 minutos.

Armin cuzão que não troca o meu apelido.

“Cuzão é você seu cavalo babaca. Unicórnio disfarçado de gente. Vou contar pro Eren.”.

Armin cuzão que não troca o meu apelido.

“Pode ser. Beijinhos na bunda e até depois boca suja.”

10 horas e 43 minutos

Jean nem tão Dark Horse assim.

“Vou sujar é a rua com a sua cara seu imundo.”

“Aceito beijo na bunda só se for grego”

“Até depois.”

10 horas e 43 minutos.

Loirinho.

Travei a tela do meu celular rindo e voltei a encarar o projeto já com energias renovadas para terminar. E no final era incrível como um par de mensagens poderia me fazer querer trabalhar mais rápido apenas para sentar meu sapato na cara do homem que amava vulgo melhor amigo.

A porta do quarto de Charlotte se abriu e o moreno saiu de lá sorrindo, suspirei aliviado e com um aceno de cabeça nos metemos no corredor que daria para a minha sala onde teríamos maior privacidade para conversar.

— E então como foi? — perguntei assim que Levi fechou a porta e retirou a touca e a máscara do rosto e percebi que sua testa se encontrava molhada de suor e alguns fios negros grudavam na mesma. — Quer que diminua o termostato?

— Não precisa, logo vou ter que ir. Aqueles quartos são bem mais quentes. — ele sentou em meu sofá e eu sorri concordando. — Eu acho que coloquei um pouco de juízo naquela cabeça. Você tem algum tipo de plano para tratar ela?

— Lottie se apresenta com um caso de inicio de depressão, então lógico, mas nós dois sabemos que não é como se fosse curado.

— Afinal, ela está morrendo. — Levi comentou fechando os olhos e apertando a fronte.— Eu quero conversar com os pais dela.

— Pretende fazer algo? — me sentei sobre a ponta da minha mesa e o moreno mais velho me encarou sério aderindo a sua velha e bem conhecida face séria e carrancuda.

— Sim, mas antes preciso conversar com eles. Eren o hospital está interferindo na saída dela do hospital?

— Tecnicamente sim, afinal como ela já tentou se suicidar e está neste estado depressivo o hospital tomou responsabilidade pela segurança dela, pois os pais não teriam como mantê-la a salvo assim. Por quê? Quer tirá-la daqui?

— Sim, mas não posso envolver mais você nisso. — ele se levantou. — Vocês tem alguma saída de emergência que eu possa usar para ir embora?

— As escadas de saída. Mas Levi... — o moreno ergueu a mão e colocou o dedo sobre os lábios pedindo silêncio.

— Não posso falar sobre isso aqui. Eu só preciso da sua ajuda para mostrar que ela está melhorando do início de depressão dela e que não apresenta mais riscos para ela ou outras pessoas.

— Se ela não se opuser ao tratamento não...

— Ela não vai Eren. Confie em mim. — fitei surpreso os olhos cinzentos que transmitiam calma e serenidade. Senti um estranho reboliço em minha barriga e concordei me levantando com o mesmo.

Levi se arrumou e sem maiores problemas e saiu do hospital. Queria realmente saber o que o médico planejava, mas no final ele tinha razão em não me envolver em tudo, pois se algo desse errado estaria jogando tudo pela janela. Voltei para os meus deveres que não eram poucos naquele dia cheio de esperança.

Já nos encontrávamos no meio da semana e eu queria realmente saber o que Levi tinha conversado com Charlotte, pois a garota estava risonha e muito mais parecida com a primeira vez que tinha a encontrado no departamento neurológico. O mais baixo voltaria a clinicar apenas no final desta semana, mas estava impedido de se aproximar da área psiquiatra e para reforçar o aviso tinham posto um guarda monitorando os crachás na entrada.

Claro que como chefe do meu departamento tinha ficado bastante irritado com aquela iniciativa ridícula, mas pouco podia fazer e Erwin tinha me avisado que isso eram ordens maiores e nem ele mesmo tinha estado presente na decisão do ato. Lian estava bem animado na escolinha com Nina e vez ou outra me perguntava do tio Zangado, mas eu não tinha noticias do mesmo já que Levi não passara mensagens ou ligara para informar algo. Armin tinha rido de mim e Jean jogara na minha cara que estava preocupado demais com o homem que tanto queria evitar.

E logicamente eu o mandava tomar no cu, afinal Levi não podia aparecer para o Lian em um dia e desaparecer no outro. Marco e eu estávamos trocando mensagens de forma avida e era divertido trocar ideias até sobre marca de creme de dente com o advogado; hoje nós iriamos jantar juntos, um convite que ele fizera e me enchera o saco até aceitar em plena quarta— feira e por isso esperava o mesmo e seu carro encostado nos muros do hospital.

Jean tinha se oferecido para buscar Lian e Armin havia reforçado o pedido falando que tomaria conta dos dois o que já era um grande alivio no meu coração de pai preocupado. A noite não estava tão fria como nos dias anteriores o que era ótimo para uma noite de primavera, o brilho de um farol me chamara atenção e eu sorri ao identificar o carro de Marco estacionando próximo de mim.

— Boa noite, o senhor poderia me dar uma informação? — o advogado perguntou sorrindo para mim e encostei-me ao vidro do carro.

— O bordel fica na zona leste. — respondi arrancando uma gargalhada do mesmo que destravou a porta do carro e me permitiu entrar no mesmo. — Você está de terno?!

— Eu estava trabalhando também. — Ele comentou dando direção ao carro. — Você está bonito.

— E a novidade?

— Tão humilde.

— Homens bonitos tem a obrigação de ser humilde senhor Bodt. — passei o cinto de segurança e abri o vidro do carro recebendo a brisa amena da noite. — Então, aonde iremos?

— Segredo.

— Você e seus lugares misteriosos. — comentei negando com a cabeça e inspirando fundo.

Marco nos levou até o centro da cidade em uma parte com pequenas ruelas com lojas e restaurantes pequenos uns grudados nos outros. Era de certa forma bem charmoso como as mesas cobriam a rua de pedra rústica e os postes em um branco amarelo iluminavam os locais; estacionar o carro foi bem simples, mesmo que a rua estivesse bem cheia. Acompanhei o moreno que caminhava elegantemente por entre as mesas e pessoas que transitavam até uma fachada de madeira.

As janelas de vidro se encontravam cobertas por grossas cortinas em um tom verde musgo e se não fosse à luz fraca que emanava por debaixo da entrada poderia dizer que o local estava fechado, Marco olhou-me com um sorriso ao qual eu podia denominar de sapeca e pegou em minha mão para entrarmos no local. O cheiro de comida nos saudou na pequenina sala de recepção onde havia uma jovem de cabelos castanhos recebia as pessoas.

— Olá. — Marco se aproximou da mesma que nos encarou sorridente. — Temos uma reserva para as 20 horas. Bodt. — o advogado falou de maneira calma e eloquente e eu sorri atrás do mesmo.

— Oh, sim. Espero que estejam preparados para a experiência e que nosso serviço os agrade. — Ela sorriu e caminhou conosco até um corredor coberto por uma cortina nos tons da janela e apertou um diminuto botão. A moça nos deixou ali voltando ao seu lugar de recepção e eu franzi o cenho encarando o advogado que me olhava risonho.

— Onde exatamente nós estamos Marco? E de que bendita experiência ela estava falando?

— Eren, você já pensou alguma vez como seria a sua vida sem um dos cinco sentidos?

— Mais bosta que já é? — comentei rindo e o mesmo me acompanhou. — Você não está querendo dizer o que penso que está querendo dizer, não é?

— Se você estiver querendo dizer que eu estou tão lindo quando você está acertou.

— Marco! — exclamei apertando a sua mão e com um pequeno susto a cortina em nossa frente se abriu e um jovem garçom usando estranhos óculos sorriu para nós.

— Boa noite. Podemos prosseguir?

— Claro. — Marco concordou pegando no ombro do rapaz e me segurando no advogado nós adentramos no corredor onde apenas o escuro nos banhou.

Sorri desacreditado com o lugar para onde o moreno tinha me trazido. Assim que passamos por mais uma cortina e eu já não via nem mesmo as costas grandes e musculosas do meu acompanhante o barulho de talheres, conversas e risadas nos alcançaram. Engoli em seco dando passos literalmente cegos enfrente enquanto o garçom nos levava para uma mesa.

— Aqui está sua mesa. — o garoto de voz calma e sorridente falou e Marco me soltou e me senti perdido por algum tempo até sentir mãos frias em meus ombros. — Vou ajudar o senhor a sentar.

O rapaz fez o que disse de maneira educada e após anotar nossos pedidos se despediu ainda com o tom alegre na fala. Aquilo era completamente incrível, eu podia escutar as pessoas ao meu redor, mas não podia dizer de onde os barulhos vinham.

— E então...? — ouvi a voz rouca e eu poderia dizer carregada de um sorriso divertido de Marco soar. — O que achou?

— Escuro? — disse dando um sorriso. — Acho bom você não ter me trazido aqui para abusar do meu corpinho senhor Bodt.

— Se eu fosse o fazer preferia o ambiente bem claro para apreciar. — ele comentou de forma arrastada e sedutora e eu gargalhei.

Não que eu nunca tenha prestado atenção na voz de Marco, mas aquela era uma oportunidade única de perceber as pequenas nuances na voz do mesmo. O timbre era mais grave de um rouco simples, mas não menos charmoso e tudo o que ele dizia era carregado de conhecimento e certa excitação em falar — como, por exemplo, de seu trabalho, ao qual era o assunto que conversávamos de maneira amena na mesa. Marco era mais novo do que eu e tinha falado de histórias com Jean que eu com certeza faria questão de jogar na cara do cavalo.

Contei ao mesmo em como havia saído do ensino médio mais cedo e nunca havia entrado em uma universidade — sem jamais mencionar o porquê da minha saída. Contei sobre Londres e minha irmã, sobre a América e seus preciosos fast-foods no meu período de trabalho no FBI. Era estranhamente agradável contar a ele sobre coisas simples ao qual eu tinha presenciado nestes locais sem ter seus olhos encarando-me com intensidade, apenas o tendo como um bom ouvinte. Os nossos pedidos não demoram a chegar e de maneira divertida e tateando tudo comemos ainda em meio a conversas amenas e bobas.

— Então meu pai simplesmente quebrou o carrinho ao meio. — o outro comentou rindo e eu neguei com a cabeça. — Esse vinho é excelente.

— Realmente. É engraçado como tudo parece tão diferente comendo desta forma.

— Sem preconceitos.

— Isso! Eu posso agora estar provando um macarrão instantâneo e parece extremamente delicioso.

— É a força que damos aos nossos olhos.

Senti as mãos de Marco tatear o tampo de madeira e tocarem as minhas de maneira incerta para acaricia-las de maneira lenta. Sorri convencido e um tanto idiota com o ato do outro homem que levava seus desafios a sério demais.

— Então... Eu ganhei algum ponto?

— Talvez?

— Isso quer dizer que estou mais perto de fazer você se apaixonar por mim?

— Não. Eu diria mais perto de eu aceitar uma possível proposta sexual, mas como já disse amor não rola com a minha pessoinha. — ouvi um estalar de língua e sorri para o nada sendo acompanhado do mesmo.

— Então a proposta sexual...?

— Passou voando. — larguei suas mãos rindo e peguei de maneira cuidadosa a taça com vinho a levando aos meus lábios e ignorando os resmungos alheios.