Fiction

41 Capítulo 40


Grunhi irritado pelo que deveria ser a milésima vez naquele dia. Meu cabelo estava um desastre só, completamente desarrumado pelas inúmeras vezes que o baguncei tentando não explodir com a raiva acumulada. Sentia vontade de chorar de frustração, contudo, jamais daria tal gostinho para aqueles malditos que vetavam todo seu trabalho. Desde o início da semana o trabalho estava se transformando em um verdadeiro inferno, e eu não fazia a mínima ideia do motivo, ou ao menos, tentava não levantar suspeitas ainda sem fundamentos. Ainda mais cedo tinha sido chamado até a sala de um dos assessores que lhe informaram que o seu projeto — aquele que fora aceito e contratado por Berth — havia sido rejeito.

“— O Problema é que o seu projeto já não se encaixa com a nova face da empresa”

Era a desculpa me dada. Era sufocante não receber mais do que essa simples explicação, onde nem mesmo apontaram os defeitos que faziam com que o projeto, ao qual tanto tinha se dedicado, fosse descartado.

“— Isso é tudo, encoste a porta ao sair”

Bertholdt havia viajado de última hora, ainda no mesmo dia do nosso catastrófico encontro. Não que eu pretendesse falar com o mesmo depois daquela ceninha ridícula, infelizmente querendo ou não ele era meu chefe e poderia me dar uma explicação do que estava acontecendo.

Sasha havia saído a pouco, já que o fim do expediente estava perto, mas eu ficaria ali encarando todas as merdas que tinha desenhando, procurando saber onde eu havia errado. Meu celular estava vibrando há poucos minutos, mas não queria falar com ninguém, só queria ficar esperando que aquele monte de linhas gritasse comigo e falassem: FOI AQUI SEU INÚTIL.

O celular voltou a tocar e eu dei um grito abafado de raiva o atendendo.

“— Eu ‘tô em horário de trabalho, para de incomodar! Inferno!”

“— Hey! Calma Min, sou eu” Ouvi a voz de Jean do outro lado e suspirei arrependido “O que aconteceu, hã? respira e me fala”.

“— Desculpa Jean... Eu só-” Senti um bolo se formar em minha garganta e meus olhos arderem, contei mentalmente até dez, enquanto olhava para cima evitando derramar as malditas lágrimas de frustração “— O meu projeto Jean, ele foi recusado sem nem ao menos explicarem o motivo. Eu cheguei lá e disseram que ele não condizia mais com a nova imagem da empresa, que ele era falho, mas não me explicaram mais nada. Nem se eu podia refazer, ou se deveria apresentar outro e muito menos no que eu errei”.

“—... Armin. Eu não sei o que te dizer”.

“Eu sou tão estúpido, não sirvo nem pra merda de um projeto!” Resmunguei dando uma risada forçada.

“Nunca mais diga isso. Você é a pessoa mais esforçada que eu conheço. Você é ótimo no que faz Armin Arlet!”

“Acho que se eu fosse tão bom não teriam me enxotado da-”

“Você é INCRÍVEL! Eles que não conseguem ver o seu potencial! O seu projeto não tem a nova cara da empresa? Me poupe, pois eu tenho certeza que essa imagem deve estar beirando a falência e decadência. Eu conheço um par de outras grandes empresas que aceitariam o seu projeto em um piscar de olhos” Jean interrompeu meu monólogo triste, arrancando-me um sorriso.

“Não exagera Jean...”

“Não é exagero. Se você me permitir eu vou bater na porta de outras empresas e levar o seu projeto. Eu vi você trabalhando nele, não se esqueça de que nossas áreas são relacionadas loiro, sinceramente o seu trabalho é incrível. Estou falando de forma profissional, não como seu amigo”.

“Jean... Você tá falando sério?” Surpreso. Não que o outro fosse lhe deixar na mão, mas tinha plena certeza que as palavras do outro eram extremamente sérias e que ele faria o que estava dizendo.

“Estou! Traga seu projeto para casa e não mude nada, eu vou te provar que esses idiotas não possuem visão de futuro” E com isso Jean encerrou a ligação.

Engoli em seco olhando meus desenhos sobre a mesa e respirando fundo, guardei tudo como o outro dissera, não podia deixar que tirassem tudo pelo qual tanto batalhei daquela forma, e se fosse preciso bater perna atrás de outro emprego…

Bem, Sabia que tinha bons amigos que lhe ajudariam na caminhada.

Cerrei os olhos enquanto analisava o pequeno filhote de Jaeger/Rivaille em minha frente.

Naquele específico dia, Lian fora liberado de suas aulas e como eu não teria aula por conta de uma greve, tornei-me o responsável por pegar e cuidar do mais novo. Nada anormal

O fato era que desde a ligação com Armin, tinha decidido ir buscá-lo e alegrá-lo um pouco. Lian, logicamente, seria seu parceiro em tal aventura, já que desde o nascimento daquele pingo de gente eram praticamente inseparáveis. Contudo, desde que tinha informado nossos planos ao moreninho, ele tinha lhe enchido a paciência para se vestir sozinho. Okay. Ele queria independência, tudo bem, foi o que disse a mim mesmo com o coração apertado, (Meu bebê tá crescendo, socorro!), porém foi aí que as coisas desandaram.

Não era um grande problema, mas…

Lian estava parado em minha frente, vestindo nada mais e nada menos do que: calça azul-celeste, camisa colorida do seu desenho favorito, casaco laranja berrante, bota verde e para fechar o look, uma touquinha de urso na cor marrom… Okay! Ele estava fofo, não podia negar, mas todas aquelas cores me deixavam temeroso do futuro guarda-roupa do meu afilhado.

“Jean o que você queria? Lian tendo Eren de exemplo isso ainda é pouco.”

—Você realmente que sair assim?

— Eu quero. Purque? — os enormes olhos verdes lhe fitavam curiosos e bem, Lian era mestre nos olhares fofos que pareciam atirar flechas certeiras no coração das pessoas. Como o Eren fez um filho tão bonito era o mistério, se bem que tinha Levi na equação. Hmmm

—Por nada, mas quando você crescer eu que vou comprar roupas com você. Vamos?

—Sim!

E assim partimos com Lian segurando uma de minhas mãos e após uma rápida luta com a cadeirinha, no estacionamento, e a escolha de uma boa música de viagem _infantil, logicamente, seguimos viagem rumo à empresa do loiro. Como a viagem longa, brincávamos de “vejo com o meu olhinho...”, o mais novo era muito bom em descobrir as coisas que eu dizia só que já fazia um bom par de minutos que tinha lhe deixado uma pista e o mesmo se calara.

“Eu venci? Será?!”

—... Tio? — estranhei o jeito que o menor chamou-me, pois era evidente que o velho apelido estúpido de cara de cavalo era o favorito do mais novo. Encarei Lian pelo retrovisor, notando seu semblante tristonho, que me deixou preocupado.

—Sim?

—... —o mais novo abriu a boca e pensou antes de continuar. Acompanhava tudo aquilo com meus olhos de tio babão preocupado — Um dia desses... Eu ‘tava na escolinha com a Nina e ela me falou que os papais dela não estão se falando.

—E?

—... E a Nina me falou que quando os papais estão separados, quer dizer eles estão tristes um com o outro — Os enormes olhos turquesas me encaravam cheios de dúvidas — Ela ‘tá com medo dos papais dela ficarem separados pra sempre.

— Okay, isso é bem triste.

— Mas titio! — Lian voltou a me chamar e ele se inclinava na cadeirinha — Se quando os pais estão separados um do outro quer dizer que estão tristes, isso quer dizer que os meus papais estão tristes um com o outro também? Eles estão separados pra sempre titio?!

Okay, aquilo com certeza eram um daqueles momentos que você sabia o que ia acontecer, mas que nunca estaria totalmente pronto para saber como agir na hora. Estacionei rapidamente o carro no meio fio, voltando a olhar a criança de olhar triste. O que eu poderia dizer? Evidentemente que ele não estava tão enganado, mas eu não tinha o direito de contar-lhe aquilo, Eren jamais me perdoaria por tal feito. Suspirei tirando o cinto e me virando totalmente para o mais novo. Lian era tão bonito. Era uma completa cópia de Levi, mas com aqueles olhos tão expressivos e belos de Eren.

Aquela criança era o pequeno raio de sol da vida de todos, então vê-lo com aquela expressão conseguia quebrar o mais duro dos corações.

— Eu sei que o meu papai tá trabalhando com o papai Noel tio, mas ele não veio me ver porque está triste com o papa Eren? Ou o meu outro papai só não quer me ver? — Lian falou lhe chamando atenção, os olhos cheios de lágrimas me fizeram entrar em um pequeno desespero.

—Isso não é verdade Lian. Seu outro pai mesmo estando longe quer muito te conhecer —Bom ao menos de tudo que ouvira de Eren, lhe dera a conclusão de que Levi realmente parecia empenhado em fazer parte da vida do garoto —Você pode não tê-lo visto ainda, mas ele já viu você e te ama muito.

—Ele já me viu? — os olhinhos verdes e brilhantes pelas lágrimas retidas lhe fitaram de maneira surpresa e acabei sorrindo — Sério?!

—Sim e ele achou você a criança mais linda e maravilhosa deste mundo. Eu não posso dizer a você se os seus papais estão tristes um com o outro ainda, apenas seu pai Eren pode, mas jamais duvide do amor que os dois sentem por você. Às vezes as pessoas não ficam separadas somente por tristeza.

—Tipo o senhor e o tio Min?

—... É. Mais ou menos isso. Então, vamos buscar o tio Armin e o fazer comprar rosquinhas para nós?

—Vamos!

Sorri enquanto voltava a dar partida no carro, olhando pelo retrovisor um Lian esperançoso, temendo por ele e por Eren. Afinal querendo ou não, eles eram importantes demais para si.

—Eu... Eu amo você Eren Jaeger. Você pode acreditar em mim?

Acreditar?

O quê estava acontecendo?

Minhas mãos tremiam enlouquecidamente, minhas pernas pareciam tomar o mesmo rumo, já que sentia que despencaria no chão a qualquer momento. E o meu coração... Ó o meu coração batia tão rápido que poderia estar sofrendo um infarto agora. Podia sentir o calor desprendendo-se do corpo de Levi e aquela sensação familiar de estar entalado com uma pedra na garganta apareceu fortemente, fitava os olhos cor de chuva intensamente e se não fossem as mãos rápidas do moreno com certeza teria caído no chão de maneira patética.

Patético era como agia afinal, como simples palavras do outro podiam lhe deixar daquela maneira?

“Você pode acreditar em mim?”

Não conseguia entender.

—... Eren — ouvi a voz rouca de Levi chegar como um sussurro em meus ouvidos e nem mesmo notei quando deixei de encará-lo.

—O-O que você-? Por quê? — meus olhos encheram-se de lágrimas e senti a raiva bater, afastei o corpo do outro com um empurrão forte, e acabei caindo no chão. Levi tentou se aproximar, mas não podia deixar. Meu coração já não fora estraçalhado demais pelo outro? Para quê brincar assim consigo? — NÃO CHEGA PERTO! — Berrei alto.

De repente foi como se o ar houvesse sumido de meus pulmões, minha cabeça pareceu rodopiar e as malditas lágrimas passaram a escorrer em cascatas de meus olhos. Senti as mãos fortes de o outro segurarem meus ombros, tentei afastá-lo para longe de mim, contudo Levi se aproveitou se toda a minha fragilidade, uma vez mais, e puxou-me para um abraço. Um soluço alto saiu de meus lábios e de maneira envergonhada escondi meu rosto contra o ombro do outro. Chorando

— Por quê? Por que me machuca tanto? O que eu preciso fazer para te tirar do meu coração Levi?

Senti os braços do mais velho se estreitaram com mais força ao meu redor.

—Por favor, não faça isso — A voz quebrada de Levi chegou até mim e não consegui deixar de ficar surpreso ao notar que ele também chorava — Não me tire do seu coração Eren. Por favor. Sei que não tenho direito de pedir isso a você, nem de exigir nada. Eu sei que te machuquei tanto, de maneiras que eu nem consigo imaginar, mas não me apague do seu coração. Por favor...

Aquelas palavras causaram-me um formigamento no estômago e meus olhos despejaram ainda mais lágrimas contra o ombro de Levi. Podia sentir as lágrimas do mais velho molhando minha camisa e apenas o apertei o mais forte que consegui contra mim.

Não sei quanto tempo permanecemos daquela maneira, um nos braços dos outros enquanto as lágrimas não cessavam. Era bom, era confortável e tranquilizador. O cheiro de Levi trazia-me uma sensação indescritível de paz, da qual eu queria desfrutar mais e mais. No final se não fosse o meu celular ter começado a tocar, talvez nós tivéssemos passado a noite toda daquela maneira nada confortável, mas tão boa. Afastei-me um pouco e vi que era Armin estava ligando.

“... Armin?” minha voz soou fraca e senti Levi apertar-me um pouquinho.

“Onde você está?! Tem ideia de que horas são?”

Eu já estou no prédio” Engoli em seco e voltei a deitar a cabeça no ombro do outro enquanto falava no celular.

Menos mal! Lian já dormiu, ficou te esperando e acabou não aguentando” Arregalei os olhos, sentindo um aperto em meu coração ao ouvir o nome do meu filho “Depois a gente conversa mocinho. Até”.

Até”.

O telefone foi desligado pelo loiro e foi como se a enxurrada de meus medos voltassem a aparecer. O que faria? Como agiriam? O que aconteceria dali para frente? O que mudaria?

Tinha medo de abrir a boca e todo aquele clima se evaporar, não queria cair em mais uma mentira, mas ao mesmo tempo havia a necessidade fraca do seu coração em se agarrar naquelas palavras do outro.

—... Acho que você tem que subir — ouvir a voz rouca de Levi causou-me um arrepio, e mesmo não querendo precisava me afastar do outro.

Concordei com um murmúrio e me levantei, sentindo minhas costas doerem e os joelhos reclamarem, mas não ligava para aquilo realmente no momento. Bati minhas mãos contra a calça que estava usando tentando evitar encarar o outro, já que não fazia ideia do que dizer ou mesmo agir.

“O maldito balde de água fria”.

Arrumei as coisas que estavam comigo, e até mesmo encarava o quadro de avisos em uma das paredes. Não queria sentir aquela maldita taquicardia causada pelo mais velho, pois a vontade de me afastar parecia inexistente, contudo no momento era tudo o que mais precisava. Espaço.

— Eren…

Fechei os olhos com força, ficando de costas para Levi. Não queria falar, não queria me mover, não queria acabar com todo aquele castelo de cartas que havia entre os nós no momento.

—... Eren, por favor — a voz de Levi soou quebradiça e virei-me para encará-lo, e foi como um soco. Levi trazia consigo uma feição triste e arruinada, os cabelos bagunçados e olhos vermelhos pelo choro, mas o pior eram os sentimentos transparentes em seu olhar: a culpa, a angústia, a dor e o desespero — Eu... —Ele engoliu em seco e desviou o olhar — Eu sei que você provavelmente não deve acreditar em mim.

—Como eu poderia? —falei de maneira vacilante e o outro me encarou.

—Desculpe-me…

—Levi... Você não faz ideia do quanto é difícil carregar esses sentimentos por você? — neguei com a cabeça e olhei para a luz tentando não chorar — Eu não sei o porquê de você dizer isso agora, mas eu só estou tão cansado de-

—Por favor, não se canse de mim! —o mais velho suplicou alto chamando minha atenção. —Eu sei que não deveria, sei que eu te machuquei Eren, e você provavelmente não acredita no que eu digo, mas eu nunca senti nada do que eu sinto por você com qualquer outra pessoa. Não há desculpas pelo que eu te fiz anos atrás, nem ontem, antes de ontem ou mesmo hoje... Eu sei que eu não sou a melhor escolha... E por Deus, eu sei que deveria te deixar ir, afinal até um namorado você tem — franzi o cenho com o discurso do outro que puxava seus fios negros com força. Que namorado? — Eu não ‘tô te pedindo que me escolha, mas... Por favor, me deixe brigar por você. Não me arranque do seu coração, pelo menos não ainda.

Os olhos cinzentos fitavam-me de maneira intensa. Minha cabeça parecia rodar e no momento só queira muito a sua cama e o meu filho.

—Eu-eu preciso pensar Levi. Eu não…

—Eu entendo Eren — afastei-me o encarando e apertei o botão do elevador. Não demorou para que as portas se abrissem, adentrei no cubículo de aço e fiquei encarando Levi que permanecia do lado de fora das portas, mas assim que elas fizeram menção de se fecharem ele as segurou — Eren, só não entre nesse elevador e me esqueça. Não ache que estou mentindo, pois eu prometo a você que se me deixar lutar por você, eu não irei desistir... Eu só... Eu... Eu vou deixar você em paz — Levi continuou encarando-me por mais alguns minutos enquanto eu estava perplexo, mas logo portas se fecharam enquanto eu podia ver as feições derrotadas do outro.

Era engraçado como um dia tão ruim podia se transformar em um dos melhores, foi uma surpresa quando Jean ligou-me e simplesmente falara que lhe esperava do lado de fora, fomos a um parque simples, brincamos com Lian até que o sol de pôs e partimos em direção do apartamento em meio a músicas infantis. Jean tinha anunciado que cozinharia e em meio a muitas brincadeiras, sujeira e um Lian todo coberto de trigo, havia uma pizza caseira sobre a mesa com um bonito e meio queimado bolo de chocolate — exigência do pequenino. Marco aparecerá como quem não quer nada à procura do pai do menino, havia partido após comer um pouco conosco.

Demos banho em Lian com direito a um Jean todo molhado na banheira e uma bonita barba de espuma, após isso nos jogamos no chão da sala para assistir algum filme. As horas foram transcorrendo e Eren não tinha chegado e muito menos havia ligado. Lian fora irredutível ao dizer que só dormiria quando seu pai chegasse, mas logo em seguida ressonava encolhido contra Jean que parecia concentrado demais no filme infantil. Tínhamos conversado sobre tudo que ocorrera na empresa, sentia-me muito melhor por ter alguém com quem contar no momento, mas assim que notei o quão tarde era preocupei-me com a demora do dono de orbes turquesa a ponto de ligar para o mesmo.

E eu sabia que havia algo errado no momento que ouvi a voz rouca do mesmo, mas deixaria para conversamos quando ele chegasse.

Ouvi a campainha do apartamento e corri para atender, com um bom sermão preparado para Eren que simplesmente morreu ao notar os olhos cheios de lágrimas e a feição dolorosa do outro. Eren se jogou contra mim e o apertou-me com tanta força que minhas costelas doeram, mas no momento nada importava além de dar conforto ao outro.

Meu coração se enchia de pesar, queria saber o que o tinha machucado para que chegasse naquele ponto. Jean logo apareceu, ficando surpreso e preocupado com o rapaz que chorava contra meus braços. Desviei o olhar para Eren, ouvindo Jean adentrar novamente para o apartamento. Alguns minutos se passaram e ele voltou andando até nós.

— Coloquei o Lian na minha cama, vamos para sala.

Eren se afastou concordando e caminhamos para o cômodo, assim que nós três sentamos o castanho voltou a derramar grossas lágrimas, murmurando coisas que para mim não faziam o menor sentido — Tirando o nome de Levi, que era bem pronunciado. Jean acariciava a cabeça de Eren, enquanto eu o apertava em um abraço caloroso.

Odiava o quanto aquele homem fazia Eren sofrer, ainda que tivesse bem consciente que Levi não era tão culpado por todos aqueles anos de dor. Contudo chorava daquele jeito por culpa do médico, tinha vontade de ir socar o neurologista.

— Hey Eren... —Jean falou, cortando meus pensamentos —O que aconteceu?

—Levi... Ele... Eu não sei o que fazer. Como posso estar tão... —Eren tentou, mas os soluços não o deixavam formar palavras coerentes.

Suspirei negando com a cabeça para Jean, ficamos calados acariciando o cabelo do outro até que as lágrimas parassem e só os soluços dolorosos de Eren permanecessem. Deveria ser bem tarde, meus olhos ardiam de sono, mas não arredaria o pé de perto do amigo até vê-lo bem.

—Hoje eu fui mandado para a base do exército com Levi — Eren falou mais calmo, fazendo Jean se assustar.

— Exército? Como assim? —Jean perguntou.

—O hospital tem um acordo com a base do exército, como Levi não terminou de servir ele tinha que fazer alguns serviços para o exército um tempo ou outro, mas poderia ficar no hospital. Eu fui para puxar o saco dos militares e tudo bem, não foi difícil, mas aconteceu uma revolta dentro da base e o paciente do Levi ‘tava no meio — Eren se levantou de meu colo e respirou fundo — Levi estava operando o homem quando os caras começaram e... Bem quando eu dei por mim estava trancafiado em uma sala segura, mas Levi... Ele…

—Eren... Aconteceu algo com o Levi? É isso que você…

—Armin, calma. Deixe-o continuar — engoli em seco e concordando com Jean.

—Ele está bem, pararam a merda que acontecia lá, mas eu... Eu quase entrei em pânico, eu pensei que o perderia. Pensei que Levi morreria e eu não suportaria aquilo, foi quando eu notei que ainda o amava sabe — Eren encostou a cabeça no sofá —Voltamos pro hospital e eu corri para casa, mas o Levi veio atrás e... E... —Eren passou a chorar e escondeu seu rosto com as mãos — Ele disse que me amava.

—Ele o que?! —Jean gritou e eu o empurrei com os pés.

—Jean! Lian pode acordar!

—Foi mal, mas cara…

Eren deu uma risada chamando a nossa atenção.

—O que seria de mim sem vocês, em? — Abracei Eren que retribuiu — Eu não sei o que dizer para o Levi, me sinto tão confuso com tudo. E se for alguma brincadeira? Ele já me magoou tanto. Ele estava comigo lá embaixo... Ele chorou e me pediu para não esquecê-lo. Pra dar uma chance... E eu…

—Calma Eren — sussurrei ao outro que voltou a chorar.

—Eu sou tão estranho não é? Eu o amo, mas não sei como reagir quando ele diz me amar de volta.

—Você não é estranho. É compreensível, você sofreu por alguém por tanto tempo e mesmo que quisesse dizer que não, amor não é tão simples assim de controlar. Não é fácil esquecer cinco dolorosos anos e você é apenas um ser humano assustado — encarei Jean rapidamente, mas pude notar culpa no outro e apenas neguei com a cabeça sorrindo. Não era hora para lembrarmos nossos problemas, mas sim de ajudar Eren — Você tem todo o tempo do mundo para pensar, chorar e pedir colo e nós estaremos aqui com você.

—Tipo: Todos por um e um por todos? —Jean perguntou e demos risada do outro.

—É o contrário seu cavalo! —Eren falou sentando-se e limpando as lágrimas.

—Tem certeza?

—Absoluta

—Você por acaso é o escritor para ter certeza? —Jean indagou e Eren revirou os olhos o empurrando com os pés descalços.

—Não! Eu só tenho o livro.

—Aé? Cadê que eu ainda não vi?

Sorri para os dois, e soube que tinha os dois melhores amigos do mundo