Fiction
29 Boneca de Porcelana
Notas iniciais
Normalmente quando livros e filmes apresentam reencontros estes são carregados de emoções conflitantes e desafiadoras. Tudo dependendo do modo de como se deu a partida. A recepção é sempre uma surpresa clichê: beijos, socos, abraços, lágrimas, raiva, ódio. Mas eu fico me perguntando se todos os personagens em suas histórias _não os atores, mas sim os personagens ao qual passamos a amar e considera-los vivos em nossas mentes_ sentiram como se o chão houvesse sido engolido.
Talvez fosse a minha paixão teatral que naquele momento fizesse com que eu discutisse emoções não minhas, mas ao mesmo tempo aplicadas em mim. Jean estava ali parado e me encarando e com um maldito sorriso em seus lábios.
E eu queria soca-lo.
Queria abraça-lo.
Queria chorar.
Queria gargalhar, mas naquele momento intimo meu digno de um conto eu simplesmente fiquei paralisado encarando uma das pessoas mais importantes em minha vida. Ele ainda usava o mesmo corte de cabelo, tinha o mesmo olhar, sorria do mesmo jeito, usava um colar idiota e pior ainda conseguia me surpreender com menos de uma oração.
—Você é um maldito cavalo idiota _sentenciei sorrindo e recebendo outro em troca.
E naquele momento eu sabia que as coisas finalmente estavam entrando em acordo.
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Cansado. Naquele momento eu só podia afirmar que estava extremamente cansado ao ponto de mal conseguir sustentar meus olhos abertos, mas todas as vezes que o fazia aqueles olhos cinzentos e odiosos voltavam e traziam consigo toda a raiva e culpa que estava sentindo. Infelizmente eu e Levi temos a sina de sermos réplicas de nossos pais, e enquanto os meus olhos enchem-me de orgulho pergunto-me se ele ao menos suporta encarar o próprio olhar enfrente o espelho.
Aquele homem era assim?
Parecia que como mágica toda a insegurança e preocupação de Hanji se encaixavam. Queria falar com Levi e pedir desculpas, mesmo que eu soubesse que nenhum de nós a possuía, mas ainda assim meu peito... Ah o meu peito parecia carregar uma rocha. Culpa e ao mesmo tempo satisfação e isso me fazia questionar quão suja a minha humanidade estava? Fé. Às vezes eu ainda conseguia lembrar os tempos em que eu ainda recitava como um mantra que todos os seres eram inocentes até que se provasse o contrário, mas então vieram os casos e os assassinatos, vieram às conversas com psicopatas que estrangulavam, esquartejavam, incendiavam, estupravam, deturpavam e destruíam qualquer mínima esperança nos seres humanos. Mas o que levava um homem a possuir aquele olhar? Levi algum dia obteria o mesmo? E porque isso estava me consumindo?
O ar quente do saguão do prédio me abrigou tirando de mim um suspiro de alívio. Queria subir e ver como o meu pequeno se encontrava e rezar para que uma guerra não tivesse sido travada entre os dois homens mais importantes da minha vida no meio da minha sala. Naquele momento eu só queria tomar uma bebida forte com Jean enquanto ele jogava suas piadas estúpidas e sem graça para o vento e ver Armin reclamar de como éramos adolescentes em corpos de homens. Como antigamente, mas o passado era doce e amargo demais para voltar.
Subi até o meu apartamento e encarei a porta seriamente. O que me encontrava do outro lado daquele pedaço de madeira? Com certeza não era um jantar e um banho quente, mas ninguém podia desejar a perfeição antes de quebrar a cara, não é mesmo? Retirei o chaveiro gelado de minha bolsa e destranquei a mesma adentrando rapidamente e logo após atravessar o corredor e abri a porta para a sala encontrando a televisão falando sozinha no escuro.
—Jean? Armin? ...Lian? _chamei, mas não houve nenhuma resposta o que me deixou apreensivo. Caminhei com passos incertos até o interruptor e antes que pudesse ligar a luz uma mão forte puxou o meu pulso _ O qu-?!
—Armin 1, 2, 3! _Jean gritou e ligou a luz me encarando confuso _O que?!
—Que merda você está fazendo?! _gritei alto e Jean me soltou.
—Papai falou um nome feio! _ouvi a voz infantil e encarei Lian escondido debaixo da mesa com as mãos na boca negando com a cabeça.
—Eu falei que essa era uma péssima ideia _um loiro de óculos apareceu do corredor e sorriu para mim _Como foi no trabalho Eren?
—Como foi...? _encarei os dois e puxei o meu pulso das mãos de Jean _O que vocês estavam pensando? Eu quase liguei para a polícia.
—Oh... _Jean desviou os olhos de mim e se aproximou de Lian o pegando no colo _Lian... Bem nós resolvemos brincar de pique esconde.
—Aqui? Agora?!
—Eren... _Armin chamou baixinho e o encarei notando enfim o clima pesado na sala. Jean não olhava Armin que sorria de forma fraca.
Oh! Droga como eu não me toquei?
—Olha papa o tio Armin me deu bolo! A gente guardou para o senhor papa, mas o tio Jean comeu um pedaço do seu _Lian pulava no colo de Jean agitado.
E mais essa...
—Você está se sentindo melhor meu amor? _Caminhei em direção do pequeno, ignorando o “eu?” de Jean, notando enfim suas bochechas gorduchas sujas de chantili e chocolate. Sorri abrindo os meus braços e Lian se jogou no meu colo com força e me apertando.
—Melhorei papa —Lian sorriu mostrando os dentinhos brancos e eu beijei a sua testa carinhosamente. Encarei Jean que sorria pequeno e mordi a bochecha de Lian _ECA Papa não faz! Nojento... Eca!
—Desculpe é que você está todo doce que eu pensei que fosse a minha parte? _passei a mão em sua bochecha vermelha e o moreninho fez um biquinho.
—Né não! Tá na geladeira papa! Eu não sou de comer!
—Sério?
—Juro juradinho _o menor pegou o meu rosto e falou sério _Papa não pode morder o Lian. É feio e doí!
—Certo não vou fazer mais _ergui meu dedo mindinho e o pequenino me olhou desconfiado, mas logo entrelaçou seu dedinho com o meu.
—Quero tomar banho! _Lian jogou os braços para trás e Jean deu uma risada tirando ele do meu colo.
—Vamos lá pingo de gente _Jean jogou Lian no ombro como um saco de batatas e foi com o mesmo pelo corredor fazendo as risadas do menor ecoar pelo apartamento.
Respirei fundo e então encarei o loiro que estava sentado no braço do sofá e possuía um sorriso gentil nos lábios. Caminhei até Armin e nos encaramos, podia notar dor e felicidade nos brilhantes olhos azuis em minha frente e abracei o mesmo que retribuiu com força.
—Desculpa eu deveria ter avisado.
—Tudo bem Eren. Eu só fui pego de surpresa.
—Você está bem? _encarei o mesmo que suspirou e encostou sua cabeça no meu peito.
—Eu desejei tanto ele de volta Eren. Eu... A gente precisava saber se ele estava bem, eu precisava saber se as coisas poderiam se acertar e mesmo que demore a esse clima sumir eu nunca estive mais feliz.
—Vocês conversaram?
—Com Lian com excesso de açúcar no sangue? _ele me encarou rindo e eu sequei o canto de seus olhos _Digamos que o nosso maior problema era cansa-lo para você não ver como somos irresponsáveis.
Dei uma risada e suspirei aliviado. Por enquanto, naquele efêmero espaço de tempo tudo era como jamais deveria ter mudado e eu me sentia muito agradecido.
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Mais um pouco.
Expirei profundamente sentindo o suor escorrer frio por minhas costas. Estava correndo a horas tentando expurgar a raiva que ainda escorria por entre suas veias. Estava ferrado. Uma nota bem exagerada tinha sido colocada no jornal de hoje falando em como o herdeiro da família Rivaille era um médico incapaz e que ainda culpava o belo departamento de ajuda social.
Hanji estava desesperada atrás de mim. Assim como Erwin. Os pais de Charlotte _para me agradecer no fim_ e meu maldito pai, mas deste já tinha tido o suficiente por um ano, mas as coisas nunca eram tão fáceis assim. Precisava pensar e acalmar a fera que tinha acordado ou as noticias chegariam ao colo do velhote.
E não poderia deixar isso acontecer. Meu pai daria um jeito de esconder tudo e jogar para debaixo do tapete e destruir a sua vida como tinha feito por hobby desde a morte de sua mãe. “Sua culpa seu moleque maldito”, sentia a raiva e todo o sofrimento voltar apenas de lembrar daquilo e não poderia deixar o seu filho passar por algo nem mesmo parecido com aquilo.
O sol começava a nascer e banhar o mar de Trost. Meu maldito celular não parava um minuto de apitar e por isso o lançara delicadamente contra a parede. Tinha vontade de agarrar uma garrafa qualquer e bebe-la até a última gota, ou até mesmo, de encontrar aquele maldito babaca e soca-lo mais como deveria ter feito, pois assim ao menos seria culpa/acusado com gosto.
Só que naquele momento...
Bufei voltando a correr mais um pouco no calçadão próximo a praia. As luzes já saltavam das janelas e carros pintavam as ruas com seus faróis e poluição cotidiana.
Às vezes eu conseguia sentir a ironia amarga por trás das coisas. Tudo o que eu nunca quis estava ali de bandeja em minha frente, mas se eu corresse e fosse até lá e pegasse coisas ruins aconteceriam. Eren era a minha variável sem encaixe, que adentrou em meus cálculos por um erro que evoluiu a ponto de não ter mais volta. Era o meu maior erro, mas o causador de uma das maiores felicidades que eu jamais havia experimentado em anos.
Lian era o meu resultado final. Eu estava ali afundando gradativamente no limbo, com medo da minha própria sombra e temendo os meus sonhos presos dentro de um diminuto baú, mas com foi apenas uma maldita porta de ferro abrir e aqueles olhos entrarem em foco que o trinco do mesmo rachou. Eren brilhava e ao mesmo tempo estava fosco, mas jamais deixou de brilhar.
Sério Levi?! Que tipos de coisas estúpidas eu conseguia divagar, mas no final era tudo verdade. Até aquele momento tinha vivido sem esperanças de sonhos como o bom soldado que a guerra criara, apenas acatando ordens, mas todas as amarras estavam aos poucos desaparecendo de mim.
Expirei fundo e fechei os olhos ao sentir a brisa fria contra o meu rosto. Um novo dia, mas um começo.
Eu quero acordar, eu não gosto de estar em meus sonhos.
Eu estou preso dentro da minha própria mente, então estou morrendo.
Não quero ser sozinho
Só quero ser seu
Por que é esse lugar sem você é tão escuro?
É perigoso o quão arruinado estou
Salve-me, porque não consigo ter o controle sobre mim mesmo
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Engoli em seco ao adentrar naquele apartamento ao qual há tanto tempo eu não chegava nem perto. Ali possuía aquele cheiro característico de canela e casa ao qual tanto senti falta. Encarei o local que continuava como sempre, bem organizado e limpo indicando o cuidado ao qual Armin possuía com a nossa casa. Nossa...
—Você pintou o corredor _sorri para o agora corredor amarelo.
Lembrava ainda de como o loiro exclamava o quão sem vida era aquela parte da casa e me fez ir comprar por debaixo de neve duas latas de tinta da cor amarela. E mesmo com as tintas ali fiz questão de me opor a todas as chances que tínhamos de pintar o local, até que Eren chegou e coisas mais importantes apareceram do que a cor do corredor.
—Espero que não se importe. Eren achou enquanto se mudava e disse que se eu não usasse ia usar no dele e então pintamos nós três, se bem que o Lian mais atrapalhou do que ajudou _ O loiro falou sorrindo nostálgico.
—Não eu gostei _olhei para o loiro que me encarou e sorriu de lado _Você está diferente.
—Você também.
—Crescemos? _perguntei sorrindo fraco tirando a minha toca da cabeça e os olhos azuis me encaram.
—Eu sempre fui crescido Jean _ele sorriu _Eu só espero que as minhas e as suas mudanças tenham sido para o nosso bem.
—Eu precisava crescer _sorri inspirando fundo e apertando a minha mochila com mais força _Eu magoei uma pessoa importante e essa jamais foi a minha intenção.
—Jean...
—Armin não vamos mais esconder as coisas debaixo do tapete _expirei com força e coloquei a mochila no chão _Eu prometi para mim que sempre enxugaria suas lagrimas e saber que eu as causei doeu. Nunca mais eu quero fazer isso, nunca mais quero que segredos nos faça sofrer e que isso que nós viemos cultivando se despedace por infantilidade minha.
—A culpa também é minha, Jean _Armin sussurrou e eu me aproximei pegando em sua mão.
—Pelo que? Se apaixonar por um idiota como eu? Armin não era você que sempre disse ao Eren que não escolhemos por quem nos apaixonamos, então porque quer se culpar por algo que você não controla? Armin nunca mais nós esconderemos as coisas um do outro. Nunca mais.
O loiro me olhou surpreso e vi os seus brilhantes olhos azuis marejarem e um sorriso sincero abrir em seus lábios, daquele tipo de sorriso ao qual sempre fazia o meu interior vibrar em felicidade. Armin me abraçou com força escondendo o seu rosto no meu ombro e eu retribuí o abraço ainda mais apertado o levantando do chão ouvindo uma risada alta do mesmo até pousarmos e ficarmos ali abraçados.
—Eu senti tanta a sua falta Jean... _ele me encarou com o rosto manchado, mas eu podia ver a felicidade em seus olhos _Eu te amo.
—Eu também te amo. Coloque tudo para fora Armin... Tudo... _falei sentindo os meus olhos arderem.
—Eu te amo _ele escondeu novamente o seu rosto em meu ombro e eu o apertei escondendo o meu no seu ombro e chorando _Eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo. Eu te amo!
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Fechei os olhos cansados encarando Lian que ressonava baixinho em sua cama depois de ter brincando ao extremo até que o açúcar em sua veia fosse queimado. Havia feito uma nota mental de nunca mais dar algum doce para o pequenino Jaeger por pelo menos uns seis meses _claro que isso não incluía meus dois melhores amigos.
Humpf... E agora ainda tinha esses dois. Como será que as coisas estavam lá? Eu até havia oferecido para que Jean passasse a noite a ali, mas como sempre Armin sabia surpreender as pessoas “Por que ele ficaria aqui se a casa dele é embaixo?”. Sinceramente não sabia o que poderia ocorrer na história dos dois e já havia me prometido não me meter e estar à disposição dois. Sem contar que ainda havia toda aquela história no hospital. Que péssimo amigo você é Eren...
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Acordei e um cheiro de café estava no ar. Andei com passos incertos até a cozinha e enxerguei Jean no fogão rindo de algo que Eren comentava sentado na mesa da cozinha e com Lian comendo de forma concentrada suas panquecas com calda. Os olhos verdes e inocentes do garotinho miraram-me e um sorriso se abriu no rostinho melecado do mesmo.
—Bom dia titio!
—Bom dia meu amor. Pronto para a escolinha? _perguntei beijando o topo da cabeleira negra de fios finos e macios.
—Sim! _o pequenino se voltou para seu prato e encarei os dois mais velhos que sorriram para mim.
—Loiro você não tem que ir trabalhar? _Jean me olhou sério apontando para o relógio e eu ri ao notar enfim o avental de peixinhos que o mesmo usava.
Sorri extremamente feliz ao notar uma pequena parte da nossa antiga rotina voltar ao normal, a verdade é que depois de Jean me confidenciar tudo aquilo e nós dois chorarmos abraçados criamos ali um novo vínculo que eu sabia que não poderia ser quebrado.
Jamais esconderíamos nossas dores e duvidas um do outro.
Sentia como se um enorme peso houvesse sido retirado dos meus ombros ao falar enfim que o amava. Tantas e tantas vezes com inúmeros sentimentos no meio e dores antes segredadas nas palavras que agora estavam libertas. Jean ficara ali me abraçando enquanto eu declarava todo o amor que senti por tantos anos por ele.
Jean estava ali.
E depois de tudo ele me olhou nos olhos sorrindo e enxugou minhas lágrimas. Eu podia ver claramente amor ali, mas não o mesmo amor que eu sentia por ele, amor de irmão e eu nunca estive tão grato por finalmente por uma pedra naquela história. Jean me amava, mas não como eu o amava, mas eu já estava feliz por saber que ele ainda me amava.
Depois daquilo fomos para o quarto do mesmo arrumar sua mochila onde eu ouvi todas as loucuras e novidades que a estadia do mesmo com Marco havia sido. Gargalhamos e conversamos como dois melhores amigos e eu notei que fazíamos há muito tempo.
—Hoje eu entro mais tarde papai _resmunguei me sentado ao lado de Eren _Ou mães?
Eren engasgou com o café que bebia rindo da cara de Jean que revirou os olhos e voltou para o fogão _Como eu amo você Armin. Segredou entre risadas o psiquiatra.
—Você tem faculdade hoje Jean? _Eren perguntou lambendo os lábios enquanto roubada um pedaço das panquecas cortadas de Lian que resmungou batendo na mão do pai e resmungando algo como: essas são minhas papa—Tô precisando de babá.
—50 reais a hora e na semana faço a diária por 300 _Jean se virou para nós colocando em um prato mais panquecas e então colocando um prato em minha frente e na de Eren _Por falar nisso você está me devendo pela diária de ontem.
—Você é um péssimo melhor amigo _Eren resmungou começando a cortar suas panquecas.
—Amigos, amigos negócios a parte meu caro _o moreno desligou o fogão e sentou na nossa frente se servindo.
—Vocês querem parar? _falei levando um pedaço de panqueca aos lábios e saboreando aquela delicia _Por que você precisa de babá Eren?
—É papa eu já sei tomar conta de mim mesmo _Lian falou e nós três o encaramos com as bochechas sujas e um biquinho no rosto.
—Não é para você meu amor _ele piscou para o pequenino moreninho que contente voltou-se para as suas panquecas _Digamos que vou atrás de uma pessoa.
Encarei Eren surpreso que sorriu fraco voltando a colocar um bocado de panquecas em seus lábios e gemendo em contentamento.
—Espero que seja o Marco, ele parece ter adquirido uma estranha obsessão pelos seus belos olhos _Jean comentou e Eren deu um sorriso de lado.
—Eu acho que é pela bunda dele, mas é você que conhecer ele melhor que nós... _Eu comentei baixinho e os dois riram.
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Adentrei naquele corredor escuro e sem vida grunhindo internamente. Nunca havia tido problemas com os corredores escuros e silenciosos que uma vez ou outra eram quebrados pelos murmúrios dos pacientes, mas ao chegar ao quarto 96 do segundo corredor do departamento eu senti como se ali fosse o lugar mais obscuro de estar.
Abri a porta do quarto e ao notar uma garota que antes possuía tanta vida, mas que agora parecia como uma boneca de porcelana antiga e sem charme. Os enormes sorrisos não estavam mais ali, nem mesmo os olhos cheios de amor e uma sabedoria maior, só havia vazio e estilhaços do que Charlote Williams.
Haviam transferido a garota na noite do dia anterior, trazendo ela para cá em silencio a jogando para o lugar mais afastado como se desejassem que ao joga-la ali toda a confusão fosse abafada. Levi havia sido afastado por uma semana do hospital e até onde eu sabia não teria nenhuma punição maior além de ser proibido de voltar a ver Lottie. O departamento social tinha de silenciado.
Os pais da garota receberam recomendações estritas de manterem todas as coisas “perigosas” longe da menina, mas nem mesmo que toda a decoração alegre de antes fosse posta ali no frio quarto sem janela para o céu, a faria sorrir e brincar como antigamente, isso era algo que doía em Eren.
—Bom dia Charlote _ela não respondeu apenas fechou os olhos e eu me sentei na poltrona enfrente a sua cama a encarando _O que acha de conversamos um pouco?
E naqueles três dias a minha rotina se resumia a chegar ao hospital vim vê-la e receber o silencio como resposta, seguir adianta para o chamado de algum médico necessitando de ajuda e então voltar e apenas receber o silencio. Engoli em seco encostando a minha cabeça na parede fria, branca e silenciosa que a ala psiquiátrica possuía.
—Eren? _ouvi a voz baixa e calma e encarei Nanaba que respirava um pouco ofegante e sorria nervosamente para mim _Tem um minuto? Preciso que dê uma olhada em um paciente, acho que tenho um caso de abuso infantil em mãos.
Engoli em seco passando a mão em meus cabelos e arrumando o jaleco em tom azul bebê para então percorrer a escuridão da ala. E mesmo que ainda estivesse nadando em escuridão, precisava percorrer o caminho de volta.
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Levei minhas mãos aos ombros doloridos tentando de forma estúpida massagear a área, sem receber sucesso algum. Era finalmente sábado, mas o meu amado encontro não ocorreria mais por conta de uma urgência e agora Berth viajaria naquela noite adiando o nosso encontro para quando o mesmo voltasse.
Sinceramente eu não sabia se me sentia feliz ou arrasado pela noticia. Um de meus problemas estava finalmente se encaminhando para a finalização enquanto Berth se transformava em um maior, mas eu não tinha certeza se eu queria evitar aquela confusão. Aquele moreno estúpido havia se tornado importante mesmo com tudo contra, mas ainda doía só de pensar tentar entrar em outra paixão descarada, pois as cicatrizes no final eram dolorosas demais.
Estava ali reorganizando um projeto ao quais os assessores pediam reajuste, aquilo era normal, mas Sasha estava fazendo uma tempestade em copo d’agua por ter que perder o seu almoço com o noivo ao qual de forma benevolente assumi os reajustes sozinhos. Queria distrair a mente e trabalhar era expedido para o almejo de tal meta, mas não pude ignorar o vibrar de meu celular sobre a mesa.
{Onde você está?}.
11horas e 13 minutos.
Chefe inconveniente.
{Trabalhando, onde mais eu estaria?}.
11horas e 13 minutos.
Loirinho difícil.
{Você realmente me respondeu rápido? Apocalipse? E como assim trabalhando? Não é hora do almoço?}.
11horas e 14 minutos.
Chefe inconveniente.
{Você deve ser o único chefe que me quer fora da empresa}
11horas e 14 minutos.
Loirinho difícil.
{Você está ocupado no momento?}.
11horas e 14 minutos.
Chefe inconveniente.
{Não, só estou trabalhando. Imagina}.
11horas e 15 minutos.
Loirinho difícil.
{Venha para a minha sala}
11horas e 15 minutos.
Chefe inconveniente.
{O que? Não! Para o que?}.
11horas e 15 minutos.
Loirinho difícil.
{Para o nosso encontro...}.
11horas e 16 minutos
Chefe inconveniente.
{Nosso... o que? Como assim? Agora? Eu estou trabalhando. Você pirou?}.
11horas e 16 minutos.
Loirinho difícil.
{Sinceramente? Eu não sei Arlet}
{Sim agora. Levante a sua bunda belíssima desta cadeira e venha para a minha sala}.
{Não se prenda a besteiras}.
11horas e 17 minutos
Chefe pirado de vez.
{Besteiras? Nós estamos em local de trabalho Berth!}.
11 horas e 17 minutos
Loirinho difícil.
{Sabe eu consigo ouvir você chamando o meu nome, sabia?}.
{Armin e se nesse momento eu te convidasse para fugir? Se eu te pedisse para subir e esquecer tudo. Você viria até mim?}.
11 horas e 17 minutos.
Berth estúpido.
Engoli em seco lendo aquela última mensagem e encarei tudo. Aquele projeto estava praticamente finalizado, então o que me prendia ali? Qual a desculpa que usaria para mim mesmo daquela vez? Engoli em seco e encarei o celular.
{Certo eu estou indo}
11horas e 19minutos.
Loirinho de chances únicas.
E se, e se nós fugíssemos?
E se, e se nós perdêssemos nossa mente?
[...]
E se, e se nós fechássemos nossos olhos?
Nós avançamos sinais vermelhos rumo ao paraíso
Porque nós não temos tempo para envelhecer
♛
Rosnei praticamente ao sentir a droga do medicamento ser pressionado contra o meu lábio e queixo machucado por conta do maldito soco que havia recebido. Nanaba estava neste momento em sala de cirurgia e Erwin logo mais se aproximaria de mim para saber como eu estava. Era casos como aquele que eu me perguntava para que salvar as pessoas se elas destroem tudo o que há de bom? Era apenas uma garotinha de três anos de idade entrando com dificuldade para respirar, e logo as costelas quebradas foram descobertas assim como o pulso já cicatrizado e o tornozelo também.
Mulher que apanha do marido estúpido e que foge desesperada para salvar filha, mas não entrega o maldito. No que isso resulta? Em um canalha adentrando no hospital socando a esposa com tanta força que ela bateu à cabeça tendo que ser operada as pressas e um Jaeger impulsivo ao qual se jogou contra alguém maior que ele _e mais forte_ e recebendo um soco sem nem ao menor poder devolver. “Você pode perder o seu emprego Eren”.
—Isso é efeito Levi? _ouvi uma voz divertida e encarei confuso Hanji que me estendia um saco com gel gelado para colocar sobre o maldito olho _Sabe socar e ser socado.
Dei uma risadinha amarga pegando o pacote de sua mão e colocando sobre o olho suspirando em alivio. A morena se sentou ao meu lado e eu a encarei sorrindo _Eu espero que não, ou vou ter que ver o seu pai de novo e não quero isso nem em mil anos. Sem ofensas.
—Tudo bem, você não é o único _ela sorriu divertida _Ainda bem que Levi não está aqui ou então...
—É... _engoli em seco e encarei o chão _Oh, Lian queria pedir aos pais da Nina para ela passar um final de semana lá em casa _encarei a morena que sorriu ainda mais.
—Que estranho eu ouvi a mesma coisas.
—Se estiver tudo bem para você...
—Por mim? Ótimo. Quando eles souberem que são primos provavelmente irão pirar... _A morena remexeu o nariz e me encarou divertida _Por falar nisso você quer o número do Levi?
—O que? Por quê?
—Achei que seria bom. Sabe manter contato e tudo mais.
Concordei um tanto confuso e logo ela me repassava um papel com dois números. O dela e o do irmão, antes de eu poder agradecer o meu bip tocou e eu me levantei correndo como um louco em direção à ala psiquiátrica. Evitei o elevador e corri pelas escadarias e quando cheguei sentia como se fosse morrer, mas nada me impedira de chegar ao quarto 96. Adentrei no mesmo onde Charlotte gritava.
—Eu não quero! Por que vocês não entendem que nada disso vai resolver?! Eu só preciso morrer de uma vez! _duas enfermeiras a seguravam e sua mãe chorava encolhida no canto.
—Lottie? Se acalme _me aproximou segurando o seu ombro _Podem solta-la.
—Mas doutor!
—Soltem _encarei as enfermeiras que se olharam e soltaram. A garota parou de se debater e se agarrou em mim soluçando e eu a abracei de volta.
—Eu vou morrer. Não importa o que eu tome no fim eu vou morrer... Uma condenada é isso o que eu sou... Porque comigo? Por quê? Por quê... Levi...?
Engoli a enorme pedra de gelo e após algum tempo com a mesma chorando conseguimos sedá-la e retirar a mãe do quarto, arrasada. E de novo eu estava encostado naquela maldita parede fria tentando encontrar algum tipo de saída ou solução, no entanto sem solução. Coloquei a mão dentro do jaleco sentindo aquele papel e o encarei seriamente pegando o meu celular em seguida.
“Alô?” a voz rouca e rígida soou do outro lado. Inspirei fundo sabendo que estava fazendo uma grande besteira.
“Levi preciso da sua ajuda...”.
Não, eu não vou perder a esperança.
Não, eu não vou perder o ponto de vista.
Mas o céu é um lugar que eu simplesmente não consigo encontrar
Executar a partir das sombras e correr para a luz
Correndo de um passado que deixei para trás
Assombrado por uma memória que eu não posso libertar
Pesquisando para o homem que eu costumava ser
Eu fiz o meu sacrifício nas cinzas de
Mas o céu é um lugar que eu simplesmente não consigo encontrar
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