Fica Comigo? Ps: A Vida Inteira.
4 Capítulo 4 - Frio na barriga
Notas iniciais
Manhã de 29 de novembro, sexta-feira. Alberto se levanta da cama ainda muito sonolento. Acorda sentindo algo estranho, entretanto, muito agradável. Um frio na barriga leve e passageiro lhe invade. Desconfiado, permanece alguns segundos meditativo, no entanto, retorna aos seus afazeres, preferindo esquecer. Após ir ao banheiro, lavar o rosto e colocar o uniforme vai até a cozinha para tomar um rápido café da manhã, pois, está quase na hora de sair para ir à escola Graciano, onde estuda. Sua mãe, Cibele Carvalho, 41 anos, costureira, aparece cantando “parabéns” para ele, porém, em tom moderado para não acordar sua filha mais nova, Carla, 6 anos, a única que dorme aquela hora porque vai para sua escola à tarde. Por esse motivo, poderia dormir um pouco mais. Alberto, por um instante, havia se esquecido que completa dezesseis anos. Assim que se recorda, com a ajuda da mãe, lhe abraça sorrindo. Após todas as felicitações, Cibele faz um pedido ao filho do meio:
- Volte logo, hoje, viu? Não esqueça! Seus amigos vêm e...
Alberto a interrompe:
- Ah, mãe! – Vira sua cabeça para o lado, tornando à posição normal, em seguida. – Não precisa! Esse ano, eu não quero nada, não! Valeu, mas, não precisa!
- Como não? Precisa, sim! Já é bem simples, filho! Só nós e seus amigos! Você ainda não vai querer? Vamos! Anime-se! – Cibele refere-se à própria família quando diz “só nós”. Ela sorri e Alberto retribui.
- Tá bom! Tudo bem! Mas à tarde, eu queria ficar na rua um pouquinho! – Fala com certa piedade na voz. A jovem senhora suspira:
- Aaai, não tem jeito mesmo, né?! Podia ficar um pouco em casa... Tá! Mas agora, vai! Senão, você se atrasa pra escola! Vamos! Cadê a sua irmã? AMANDA! — A mãe do rapaz chama sua filha mais velha, Amanda, 17 anos, para acompanhá-lo. A garota está em seu penúltimo ano letivo. Enquanto isso, Alberto caminha até o banheiro para escovar os dentes.
- Já vou, mãe! – Grita de seu quarto. Abre a porta, arrumando sua mochila nas costas.
- Filha, não grite! Não esqueça que sua irmã está dormindo! – Repreende, sussurrando.
- Ah, é mesmo! Cadê o Alberto?
- No banheiro!
- Não me diga que ele tá arrumando o cabelo? Se ele ‘tiver’, a gente vai chegar só amanhã!
Cibele fica risonha, reprovando-a carinhosamente com o olhar.
- Engraçadinha! – Brinca Alberto, ao sair do banheiro e indo para seu quarto apenas para pegar sua mochila.
- Vamos! Os dois! Sem discussão!
- Quem tá discutindo? – Alberto brinca novamente.
- Pois é! Eu iria discutir justo no dia do aniversário do meu maninho predileto? – Amanda o abraça.
- E único! – Alberto a olha sério, porém, com ar de deboche. – Só por isso que eu sou predileto, né?! – Alberto retribui o abraço, colocando seu braço entre os ombros da irmã mais velha, em seguida. Ela lhe deseja os parabéns, rindo.
- Bom! Vão, senão, vocês se atrasam! – Alberto e Amanda despedem-se de sua mãe com um beijo no rosto. Cibele abre a porta de casa e o portão da garagem para seus filhos saírem. Deseja uma boa aula. No caminho — não muito longo — até a escola, conversam enquanto caminham.
- Ai, agora, agüenta os “parabéns” lá na escola! – Diz Amanda, sorrindo timidamente.
- Por quê?
- Suas fãs! Esqueceu?
_ Ahhh... – Alberto ameaça olhar para o lado, no entanto, torna a olhar para frente. –Já tô acostumado! – Responde indiferente.
- Hmmm... Pois eu não!
- Do que você tá falando?
- É duro ser irmã do ‘cara’ mais desejado da escola! É um tal de me pedir pra te apresentar... Não agüento mais!
- Minha irmãzinha tá com ciúmes? – Debocha em tom de ironia, sorrindo.
- Dãããã! – Ri. — Não! Mas elas só querem ser MINHAS AMIGAS... – Fala com repulsa. — Por sua causa! Eu já não sei quem são minhas amigas DE VERDADE! – Brinca, porém, um pouco indignada.
- Ahn... Nem sei o que dizer! – Responde Alberto, meio sem graça.
- Pois eu sei! Vou é fazer amizade só com os meninos! – Brinca. – Se bem que, só se você não ficar olhando com cara feia pra eles!
- Ué?! Tenho culpa de ser feio? – Zomba.
Amanda ri e diz:
- Eu quis dizer com cara de bravo! Deixa suas fãs ouvirem o que você acabou de dizer!
- Fãs! Lá vem você com essa história de fãs de novo!
- Mas quem fala muito isso é o meu noivo, o Henrique! – Escarnece e gargalha.
Alberto a olha risonho e assombrado:
- Er... Melhor deixar quieto esse assunto! – Alberto ri lembrando-se das truanices do amigo. – Esse moleque é louco! – Os irmãos gargalham e o rapaz completa. — E quer saber? É bom os ‘caras’ terem medo! Assim, eles ficam espertos e você não arruma nenhum ‘mané’! – Brinca e ri.
Já no portão da escola, Amanda para e olha o irmão mais novo, piscando um olho prolongadamente e colocando uma de suas mãos na cintura. Reprova-o, porém, ligeiramente risonha. Alberto a puxa, sorrindo e apoiando seu braço entre os ombros da menina que ergue seus pés e desmancha o cabelo do jovem aniversariante.
- Ei! Meu cabelo, não! Vou bagunçar o seu também! – Alberto ameaça mexer no cabelo da irmã, entretanto, esta não deixa.
- Não vai, não!
O irmão da moça passa sua mão pelos próprios cabelos para alinhá-los.
- Isso! Arruma o cabelo aqui que um monte de menina vai ficar suspirando! – Alberto vira-se para a irmã estranhando seu comentário. – Olha! – Amanda aponta com a cabeça para três garotas que admiram o rapaz atentas que, há pouco, pararam o que faziam somente para observá-lo. Alberto olha na direção em que sua irmã indicou. As meninas sorriem e acenam. O garoto sorri timidamente e faz um sinal de positivo, levantando seu polegar, cumprimentando-as. — Bem que você gosta, né?! Para de iludir as meninas! – Brinca.
- Iludindo eu estaria se eu saísse com todas elas! Com uma por dia, por exemplo!
- E nunca pegou telefone? Nunca disse que ia ligar?
Alberto faz um muxoxo.
- Ah... – Fica um instante sem saber o que dizer. – Mas eu já pensei em ligar! E bonitas elas são, mas, é que...
Imaginando o que seu irmão ia dizer, Amanda o interrompe:
- Você tá escolhendo uma cunhada ótima pra mim, não é? – Ri.
-... ‘Aham’! – Concorda risonho e meio sem jeito. – Eu tenho bom gosto! – Brinca.
- Sei! Não teve muito da última vez! Maaas... Deixa isso pra lá! – Percebendo que não devia ter dito aquilo, Amanda retifica-se.
- É melhor! – Responde sério. – Dessa vez, eu ‘mando ele’ escolher uma cunhada melhor pra você! – Sorri apontando para o próprio coração.
A menina gargalha e diz:
- Você sabe que eu não sou de pegar no pé, né?! Mas, enfim... Aquela era... Nojentinha... Ah, esquece, vai! Falei demais! – Refere-se à ex de Alberto.
- É! Vamos cada um pra sua sala antes que a coisa piore...
- E eu estragando seu aniversário!
- Não tá, não! Eu não sei... Tô de bom humor... Com uma sensação desde que acordei...
- Sensação?
- É... Eu não sei explicar! Mas é uma sensação boa! Como se algo de bom fosse acontecer hoje!
- Será? – Admira-se. – Ah, pode ser só por causa do aniversário!
- É... Deve ser mesmo! – Nesse momento, o sinal anuncia que as aulas estão para começar. — Bom... Melhor ir pra aula! Até mais! Não precisa esperar na saída! Eu vou com os ‘moleques’!
- Ok! Até!– Alberto abaixa-se e dá um beijo no rosto da irmã mais velha que retribui. Cada um caminha em uma direção até suas salas.
As primeiras aulas passam e chega o intervalo para o lanche. Além de seus amigos, algumas meninas o felicitam pelo aniversário, dando bombons e coisas do tipo para o rapaz. Henrique, Pedro e Mateus apenas observam risonhos e entreolhando-se. Após o lanche e as congratulações, os três amigos de Alberto percebem que o jovem fica absorto por um instante e tentam chamar a atenção do mesmo.
- E aí? Mais tarde tem bolinho? – Zomba Henrique.
- Ah, não enche, moleque! – Responde brincando e conhecendo as zombarias do amigo. – Eu disse que não queria nada, mas...
- Mas um bolinho é sempre bom! Convida esse monte de ‘mina’ aí que te deu bombom que a festinha vai ficar mais interessante!
- Opa! – Anima-se Pedro.
- Aí é bom! – Concorda Mateus. – Mas eu acho que os tios podem não gostar!
- E vai fazer festa perto dos sogr... Dos pais do Alberto? – Debocha pra provocar Alberto, como se Henrique fosse o namorado – ou noivo- de Amanda. O jovem robusto o repreende com o olhar. Porém, faz só para responder à provocação de Henrique, brincando. Alberto não se agüenta e sorri, tornando a ficar reflexivo, em seguida.
- Tá tudo bem, primo? – Indaga-lhe Mateus.
- Tá! Tá, sim! É que aquela sensação voltou de novo...
Os amigos o olham suspeitosos. Alberto completa:
- Uma sensação aqui! – O adolescente toca em sua própria barriga. – Como um friozin... – Fala olhando para frente, ainda meditativo. Henrique o interrompe.
- Tá com fome? Mas você não acabou de comer?
Alberto o reprova novamente com o olhar.
- Não! Não é nada disso! É...
- Dor de barriga? O lanche já fez efeito? Ou é por causa dos abdominais que... – Zomba o mais brincalhão dos garotos, pois, Alberto gosta e pratica muitos exercícios físicos.
- Ah, esquece, vai! Não tem como falar sério! – O aniversariante ri não se controlando com as piadas do amigo.
Pedro e Mateus também riem e, poucos minutos depois, a sirene ecoa pela escola Graciano avisando que o intervalo acabou para os alunos retornarem às suas salas de aula. Assim, passam-se as horas, até que os quatro amigos saem do colégio, conversando. Chegam a um trecho do caminho e se separam, despedindo-se para irem cada um às suas casas. Já em sua residência, Alberto almoça pouco, sem muito apetite. Pouco mais de uma hora depois, toma banho para aprontar-se para mais tarde. Procura realizar o pedido de sua mãe de ficar em casa, contudo, não consegue controlar sua ansiedade e sai, sem saber direito o que fazer: se ia ficar com os amigos ou só andar. Já é costume de Alberto sair bastante. Porém, aquela sensação aumenta à medida que as horas passam, o deixando intrigado.
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