Fica Comigo? Ps: A Vida Inteira.
3 Capítulo 3 - Desavenças
Notas iniciais
Início de novembro. Em uma tarde de sol, Alberto caminha pelas ruas de seu bairro ao encontro de seus amigos para uma partida de futebol em um terreno baldio, combinada poucos dias antes. Anda tranquilamente até que ouve alguns gritos de socorro. Sem pensar duas vezes, anda depressa à procura do local de onde viriam tais gritos.
Ao chegar perto, reconhece a voz: é Anacleto Andrade, irmão de Pedro, seu amigo. O garoto de apenas 14 anos desespera-se, pois, apanha de dois marmanjos covardemente. Anacleto é franzino, não tem grande força física, além disso, não gosta de confusão. No entanto, numa tentativa frustrada de exigir seus direitos, acabou mexendo com quem não deveria.
Alberto passa a ouvir toda a briga em uma pequena praça abandonada, local predileto de Fellipe e Lucas, dois garotos de 15 anos, que atacam Anacleto.
A região onde Alberto mora era, em outros tempos, bem tranquila. Porém, com o passar dos anos, o descaso foi aumentando e algumas praças e terrenos foram sendo abandonados. Alguns jovens começaram a aproveitar esses terrenos e praças para praticar esportes, namorar e etc. Contudo, alguns deles preferiram usufruir destes lugares para cometer atos de violência, lutas sem sentido, muitas vezes. A praça mais bem cuidada é aquela principal do bairro com seu comércio, parquinho e a lagoa. Há algumas em bom estado, a maioria delas. Porém, há aquelas, como a que Alberto observa escondido, por um breve instante, toda a confusão.
Anacleto grita desesperado:
- Para! Para! Saiam daqui! Vão embora! ‘Me deixem’ em paz! – Implora, caído no chão e sendo chutado por Fellipe.
- Como é que é, otário? Tá pedindo água? – Ironiza o agressor, levantando-o pela gola de sua camiseta. Fellipe Fedrizzi é alto assim como Alberto, moreno e bonito. Ele e Lucas possuem um belo físico, Entretanto, apesar de Lucas Gonçalves ter quase a mesma altura de Fellipe, o parceiro e único amigo do rapaz é loiro de cabelos curtos e cacheados e tem o rosto muito bonito como de um anjo. Todavia, de “anjo” não tem nada. Nem Fellipe. Desde que se mudaram para aquele bairro, vêm aterrorizando a vida de muitos adolescentes tanto nas ruas quanto na escola onde estudam.
- Da próxima vez, pensa antes de falar, panaca! – Diz Lucas.
- Agora, você sabe com quem tá mexendo! – Fellipe o solta violentamente. Anacleto cai no chão gemendo de dor. — Tá bom! Tá bom! Eu já entendi! Desculpa! Eu nunca mais falo nada! Agora, ‘me deixem’ ir! – Suplica quase chorando.
- Cala a boca! Quem mandou ser imbecil? Tem é que apanhar mesmo! – Lucas também chuta Anacleto.
- Se são tão valentes assim, batam em mim, então! – Aparece Alberto furioso.
O irmão de Pedro, apesar de sentir dores, respira aliviado. Conhece a fama de Alberto, diferente dos dois agressores.
- Não se meta, idiota! – Reclama Fellipe.
O defensor de Anacleto olha o garoto e diz: — Vai embora! Deixa que eu resolva isso! – Torna a olhar enraivecido para Fellipe e para Lucas. O jovem ferido tenta levantar-se, porém, Lucas puxa seus braços para trás e o segura firmemente, deixando Anacleto imobilizado.
Fellipe enfrenta Alberto: — Ah, é? Resolve? Cai dentro, então, imbecil! — Vamos ver QUEM é o imbecil! Dizendo isso, um parte para cima do outro. No entanto, como de costume, Alberto leva vantagem. Louco de raiva, ele acerta o rapaz com um soco no estômago e, vendo que este não consegue defender-se, dá-lhe outro tabefe no rosto fazendo Fellipe cair no chão. Para ajudar seu colega, o segundo agressor solta Anacleto. O irmão de Pedro foge com muita dificuldade, porém, observa a briga, escondido. Lucas tenta lutar com Alberto inutilmente. O jovem valente desvia-se da "direita" que o garoto aplica e, rapidamente, o esmurra, levantando-o pela gola de sua camiseta, em seguida. Apavorado, Lucas suplica: — Me solta, por favor! Eu prometo que vou embora! — Vai deixar o meu amigo e outras pessoas em paz? — Vou... Vou... — Responde, percebendo a força de Alberto e querendo se desvencilhar do mesmo.
- Ótimo! Agora, SOME DAQUI! — Sem hesitar, o corajoso herói abaixa o rapaz e o solta no chão. Fellipe tenta levantar-se e Alberto o pega pelo braço e, depois, levanta-o pela gola, assim como fez com Lucas.
- Espera aí! E-era brincadeira! – Não acostumado a apanhar tal como Lucas, pois, os dois sempre foram muito temidos, Fellipe balbucia, em pânico. Alberto o empurra contra uma árvore da praça. Um pequeno galho mais baixo e levemente cortante machuca as costas do agressor que geme, gritando.
- Viu? É bom fazer os outros sentirem dor? – Fellipe não responde, ainda incomodado com a forte dor que sentiu. Alberto prossegue. – Agora, deixa meu amigo em paz e não atormenta mais ninguém, ENTENDEU? – Fellipe consente com a cabeça, louco para livrar-se de Alberto que o solta como fez com Lucas.
O agressor de cabelos claros levanta-se e fita Alberto com muita raiva:
- Isso não vai ficar assim! – Ajuda Fellipe a reerguer-se. – ‘Vambora’!
- Ah, não vai mesmo! Vai ficar é em paz assim que vocês derem o fora daqui! – Responde o jovem corajoso. Assim que Fellipe fica em pé, olha também o, então, inimigo e diz:
- Você... Me... Paga!
- Ah, é? Que pena! Não tenho dinheiro, o cartão tá bloqueado e eu não uso cheque! — Debocha. — VAZA!
Os dois agressores fixam os olhos em Alberto, furiosos. Saem do local enquanto o garoto que salvou Anacleto os observa atentamente. Vendo toda a briga e percebendo que se afastaram, o irmão de Pedro respira aliviado. Alberto aproxima-se da vítima de Fellipe e Lucas. — Você tá bem? — Tô com o corpo dolorido, mas... Logo passa! Muito obrigado, Alberto! Valeu mesmo! — Vem! Vou te ajudar a ir pra sua casa! — Não! Não! Espera um pouco! Melhor eu não ir pra casa, agora, não! Se eu chegar nesse estado, meus pais vão fazer quinhentas perguntas! Vão ficar preocupados!
- Mas olha como você tá...
Anacleto o interrompe:
- Eu tô bem! Já passa! – Geme baixinho. — Vamos falar com o Pedro, Cleto! Pelo menos! — Tá bom! Neste momento, Anacleto apoia-se no amigo para poder andar e chegar até seu irmão. — O que aconteceu, hein?! Por que esses ‘caras’ ‘tavam’ te batendo? — Ah, é que,hoje, aquele... Aquele que você empurrou contra a árvore... O moreno... ‘Tava’ furando a fila da lanchonete da escola e empurrando alguns moleques que estavam na frente, se achando o dono do lugar. Eu fui reclamar com ele, o chamei de idiota e ele só ficava me encarando. Até que ele pegou aqui na camiseta... – Anacleto pega em sua própria roupa. –... E falou bem assim: “Escuta aqui! Você sabe com QUEM tá mexendo? É bom você calar essa boca ou vai se arrepender!”. Eu não dei atenção e respondi: “Ah, tá, que medo! Não enche!”. Só que ele me disse: “Pois eu sou ótimo em guardar fisionomias! E você também não vai se esquecer de mim depois da lição que eu vou te dar!”. Aí, ele me largou e eu não respondi nada! Achei que ele estivesse blefando! Mas, agora, eu ‘tava’ andando e, do nada, veio ele e o amigo me ameaçando e me trazendo pra cá, pra essa praça! Espantado e irritado, Alberto responde: — Que idiotas! Tem ‘caras’ que gostam de arrumar encrenca... Por nada! — Qual é a graça disso? — Pois é... Tem gente que faz de tudo pra entrar numa briga! Ou melhor, pra bater nos outros...
- Cuidado! Eles podem querer se vingar de você!
- Não se preocupe! – Responde sério. Os dois silenciam. Alberto e Anacleto andam, vagarosamente, ao encontro do irmão mais velho do jovem machucado. Cansados de esperar, Henrique, Mateus e Pedro já haviam começado a partida, contudo, a interrompem quando veem Anacleto com o braço direito apoiado por entre os ombros de Alberto. Seu irmão, assustado, corre para perto dos dois garotos.
- O que aconteceu? — Pergunta, ajudando o irmão a apoiar-se nele também.
- Uns canalhas bateram nele! — Responde Alberto. E antes que dissesse mais alguma coisa, Anacleto tenta aliviar a preocupação de Pedro: — Mas eu tô bem! Fica tranquilo! — Como "fica tranquilo"? — Retruca o irmão mais velho — Você não tá machucado? — Não, tá tudo bem, só tô com o corpo dolorido, mas, isso passa... O Alberto apareceu na hora, senão, aqueles ‘caras’ tinham acabado comigo! — Diz, agradecido. — Tá, mas... Por que eles te bateram? — Pergunta Pedro, ainda atemorizado. Alberto explica tudo o que aconteceu e seus amigos ficam atentos às explicações.
* * *
Algumas ruas acima, no bairro vizinho, Fellipe e Lucas caminham em silêncio, extremamente encolerizados. Após vários minutos, trocam as primeiras palavras.
- Olha! Não para de sangrar! Aquele... Aquele imbecil vai ver só! Se ele pensa que vai ficar assim... – Diz Lucas, quebrando o silêncio e tocando em seus lábios levemente sangrentos, porém, contínuos.
- IDIOTA! ESTÚPIDO! MISERÁVEL! – Esbraveja Fellipe. — Ele me paga! Aquele inútil ME PAGA! – Geme, colocando uma de suas mãos em suas costas.
Razoavelmente distante dos perversos rapazes, Marília e Ariane passeiam e conversam pelos arredores. A menina de cabelos ruivos comunica a amiga assim que os avista. Ambas correm e escondem-se atrás de um muro baixo ali próximo, aguardando até que Lucas e Fellipe vão embora. Assim que os dois se distanciam, as garotas se apressam para procurar Elza. Pouco antes de avistá-la, Marília comenta estarrecida:
- Você viu? Eles estavam...
- Machucados? – Ariane completa, igualmente perplexa.
- Elza! Elza! – Assim que vê a menina, Marília a chama.
- Nossa! O que foi? Que caras são essas?
- O Fellipe e o Lucas estão por aí! – Alerta Ariane.
- Xiii... – Elza demonstra apreensão.
- Mas... Talvez... Você não precise ficar tão preocupada assim...
- Quê? Tá doida, Marília? – Estranha a bela jovem de cabelos loiros.
Ariane e Marília entreolham-se.
- É que... Eles estão feridos! Pelo menos, no rosto! – Explica Ariane.
Elza fica boquiaberta:
- O... QUÊ? Como assim... FERIDOS? Ninguém... NUNCA conseguiu enfrentar esses dois... Malucos! – Vira rapidamente seu rosto para o lado, com ar de reprovação, tornando a olhar as amigas, em seguida. – Não que eu saiba! Já tentaram, mas...
- Pois é! Acho que quem ‘acertou eles’ deve ter uns quatro metros de altura!
Ariane e Elza riem.
- Ai, Marília, não viaja! – Brinca Elza.
- Mas só pode ser! Ou foi um exército! Não... Se fosse um exército, a gente teria notado! Apesar de que um ‘cara’ com quatro metros... Quer dizer, deve ser um ‘cara’, né?! Uma menina não conseguiria... Se bem que nem os garotos... Gente, que mistério! – Zomba.
- Marília, chega! – Repreende Ariane, rindo. A brincalhona gargalha.
- Você é doida! – Elza ri junto com as amigas.
- Sabe o que eu acho? Você deveria se casar com esse ‘carinha’ aí! – Escarnece a jovem de cabelos vermelhos, falando para Elza. – É sério!
- Assim, você fica protegida dos dois, né?! Principalmente do Fellipe! – Completa Ariane, risonha.
Elza ri e responde:
- Ai, vocês têm cada uma! Tá bom! Vou pensar!
As três amigas gargalham, esquecendo-se do suposto perigo. Por sorte, aquele dia passa tranquilo e as garotas continuam a conversar, tentando descobrir quem teria derrotado os dois cruéis rapazes.
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