Fica Comigo? Ps: A Vida Inteira.
12 Capítulo 10 - Então... É você?
Notas iniciais
26 de fevereiro, quarta-feira. Em uma das ruas de seu bairro, próxima a um terreno semelhante ao que fora atacada, entretanto, não tão abandonado como o outro, um pouco menor, com menos árvores e mais muros, Elza passeia ainda reflexiva no que lhe ocorrera dias antes sobre o que Alberto lhe dissera na estação de trem. De repente, vê o jovem com os braços apoiados em um dos muros mais baixos do terreno, absorto em seus pensamentos. Após procurar Elza, Alberto descansa um pouco e pensa na menina que nem percebe estar a poucos metros de distância dele. Quando o vê, Elza paralisa, enrubesce um pouco, arregala brevemente os olhos, sente um calor agradável subir pelo estômago e seu coração acelera. Fica confusa com todas essas sensações, no entanto, nem se dá conta de todas no momento pelo prazer que as mesmas lhe proporcionam. Ainda meditativa nas palavras do rapaz, fica irresoluta se vai falar com ele ou não para saber o que ele queria dizer, apesar de parecer estar bem claro: “Falo ou não falo? Falo ou não falo? Falo ou não falo?”, repete em seu pensamento com rapidez. “Melhor não falar, não! Já que ele não me viu... Eu vou embora!”, decide. Contudo, antes de virar-se para sair do local, Alberto se desencosta do muro e volve-se para Elza que o observara enquanto o mesmo permanecera abstraído. O garoto abre um sorriso largo ao ver a menina que se ruboriza mais ainda, esgazeando seus belos olhos verdes e pensando: “Não dá mais! Ok, Elza! Aja naturalmente!”.
– Oi! – Diz Alberto com muita doçura na voz. Aproxima-se de Elza que, estática, após um breve instante, responde:
– O-O-O-Oi! – Balbucia. “GRR! Elza! Isso é ‘agir naturalmente’?”, pensa, repreendendo a si própria.
– Você queria falar comigo? – Alberto a admira com muito carinho, sorrindo timidamente.
– Ahn... Er... E-Eu... I-Ia... F-Falar... Aquele... N-Na estação... O dia que... – Pigarreia e olha para o chão, se atrapalhando completamente em suas palavras. – A-Aquele dia que... Na... – Alberto franze as sobrancelhas, porém, ainda sorri de lábios cerrados, extasiado e sem entender uma palavra do que Elza queria dizer. De viés, percebe Lucas e Fellipe ao longe que, por sorte não os veem ali. Preocupa-se e, rapidamente, diz:
– Vem! É melhor a gente não ficar aqui! – Faz um gesto com a mão para chamá-la e caminha em direção a um dos muros mais altos do terreno.
– Q-Quê? – Elza desconfia e responde com rispidez. -... Eu não vou a lugar nenhum! Tô bem aqui! Não tô vendo nada que... – Apreensivo e notando que Elza não cederia tão facilmente, olha de um lado para outro, principalmente na direção em que os perversos rapazes se encontram. Torna a ficar em frente à garota, dobra os joelhos com certa rapidez e a levanta segurando-a pela cintura como se a abraçasse.
– Desculpa! – Diz ele. Elza assusta-se, erguendo seus braços e começando a gritar com receio do que Alberto lhe faria por estar acostumada com as crueis e insistentes investidas de Fellipe:
– EI! ME SOLTA! ‘ME PÕE’ NO CH...
– Shhh! – Alberto produz um chiado com a voz e coloca uma de suas mãos na boca de Elza com cautela, assim que corre para trás de um muro alto e a coloca no chão. Fala razoavelmente sussurrado. – Por favor, fique calma! Eu preciso que você confie em mim! – A olha fixamente, próximo ao rosto dela e tira sua mão da boca da menina lentamente.
– T-Tá! – Concorda, sussurrando igual ao rapaz que a solta e olha por cima do muro, levantando apenas um pouco seus pés por ser alto e o muro lhe ultrapassar só alguns centímetros. “Ele tem um poder de convencimento incrível!”, pensa Elza, encantada, apesar de resistir a todo o charme e doçura do rapaz. – Quem tá aí? – Pergunta para ele, ainda razoavelmente murmurando.
– Espera! – Adverte o jovem com ternura, fazendo um gesto com a mão aberta para ela aguardar. Vendo que Alberto não lhe responde, Elza tenta fazer a mesma coisa que o garoto, levanta seus pés enquanto o mesmo observa os dois agressores andando pelo terreno. Contudo, como é mais baixa que o rapaz, não consegue ver quem está lá. Abaixa a cabeça e procura algo em que possa colocar os pés para apoiar-se e enxergar do outro lado do muro. Alberto percebe e diz:
– Eu até te levantaria, mas, é melhor você nem ver esses “caras” aí...
– Mas por quê? Quem são?
– São uns “caras” que... – O protetor de Elza olha mais uma vez por cima do muro e interrompe o que ia dizer. – Por via das dúvidas, é melhor a gente se abaixar! – Agacha-se e fica com os joelhos dobrados, enquanto Elza, pertinaz, continua em pé:
– Affe! Ainda por cima tem que se abaixar? Eu não vou me abaixar! Além do mais, fica ruim pra mim... – A menina puxa um pouco para baixo a saia que usa no dia, mais uma vez. Exatamente onde termina a vestimenta da garota, pouco acima dos joelhos, Alberto olha, sem querer, suas pernas, pois, seus olhos estão quase nessa direção, no entanto, um pouco acima. Sorri timidamente, vira sua cabeça para o outro lado por respeitar a menina e, sem Elza ter percebido o que acontecera, levanta-se e explica:
– Por mim, tudo bem! Mas, pra sua segurança, é melhor você se abaixar! – O garoto a segura pela cintura e abaixa-se junto com ela que, encabulada, responde:
– T-Tá! Tá bom! M-Mas... Pra minha segurança... Por quê? – Pergunta enquanto arruma sua saia.
– Er... Digamos que eles não são muito confiáveis!
– Tá... Mas... Quem são? – Torna a interrogar.
– Ahn... – Alberto ouve passos e sussurra. — Vem pra cá!
– De novo? – Elza murmura igual a ele e levanta-se. O rapaz a segura pela cintura novamente para ajudá-la a correr mais depressa ao outro lado do muro, como uma esquina, para onde ele a chamara. – V-Você tem mania de me agarrar? – Resmunga após Alberto lhe soltar, assim que chegam, apesar de não estar irritada. O garoto não se controla e ri um pouco. A menina pensa: “Eu conheço essa risada...”. Estranha, pois, nunca ouvira Alberto rindo. Recompõe- se de seu pensamento e pergunta. – Posso saber do que você tá rindo?
– Aahn... Nada, não! Er... Desses “caras” que estão procurando “treta”... Encrenca... E não estão achando! – Mente para não dizer que rira do comentário de Elza que, o olha desconfiada e insiste em perguntar-lhe:
– Tá! Mas quem... – Alberto, ainda olhando por cima do muro, percebe que Lucas se aproxima de onde eles estão. Chama mais uma vez a garota para o outro lado, onde estiveram antes.
– Vem! Vamos voltar!
– T-Tá! — Dessa vez, Elza corre junto com Alberto. – Agora, não precisa se abaixar?
– Não por enquanto!
– Mas quem tá aí, afinal? Você não vai me contar?
– Ah... É que... Digamos... Que eu não vou muito com a “cara” deles... – Enquanto conversa, permanece atento ao que os dois agressores fazem e por onde andam, sempre olhando por cima do muro.
– Você teve algum problema com eles?
–... Mais ou menos!
– Hmm... Tá, mas... O que eu tenho a ver com isso? Por que tenho que me esconder também?
– É que... Não seria bom uma menina como você ficar andando por aí com eles por perto!
– Hm? Uma menina como eu... O quê?
– Linda! – Alberto sorri timidamente para Elza que se ruboriza. O rapaz torna a olhar por cima da parede espessa do terreno e Elza prepara-se diversas vezes para continuar o interrogatório, muito encabulada.
– M-mas... O que eles p-podem fazer comigo... Ou com você? – O rapaz sorri de modo tímido mais uma vez.
– Não se preocupe! – De repente, sem perceber, Alberto fala da mesma maneira como conversara com ela quando a protegera de Fellipe e Lucas, de modo sussurrado e mudando um pouco a voz. – Não vou deixar te acontecer nada! – Elza, mais encalistrada ainda, começa a se recordar de algumas características de seu protetor: “Se esconde bem... A risada... Fala sussurrado e... É super... Fof...”. Não consegue terminar seu pensamento e diz um pouco mais alto:
– Ei! Você é o...
– Shhhh! — Rapidamente, o jovem coloca sua mão na boca de Elza por receio de que os dois nefandos garotos os percebam ali. Porém, o faz com cautela para não machucá-la. Começa a deslizar suavemente sua mão pelo rosto da menina que se avermelha cada vez mais, permitindo o afago de Alberto. Aproxima-se mais do rosto de Elza que arregala os olhos, sente seu coração disparar e permanece completamente imóvel. Sua imensa vontade de beijá-la é interrompida por Lucas que diz:
– Não tem ninguém aqui! – Apesar de se aproximar do muro onde Alberto e Elza estão, Lucas não conseguira vê-los, pois, o chão dentro do terreno é mais baixo do que o de fora, fazendo com que este não possa enxergá-los mesmo erguendo seus pés. A habilidade em se esconder do inimigo de ambos também dificultara sua procura, assim como a de Fellipe que faz um gesto com a cabeça para procurarem um pouco mais adiante. Um pouco envergonhado, Alberto se afasta lentamente de Elza que, apesar de estar sobremodo encabulada, diz apreensiva:
– Er... P-P-Parece a voz do Lucas! M-Mas eu não tenho certeza... – O garoto expressa não saber de quem se trata, porém, responde:
– Fica aí tranquila! Eu vou lá tentar ‘fazer eles’ irem embora!
– Não me deixe aqui sozinha! – Em um ímpeto, Elza toca no pulso de Alberto que ameaçara andar. Com o toque da menina, o rapaz vira-se e a admira com carinho. A garota retira sua mão, vagarosamente, do braço do rapaz, abaixando sua cabeça e enrubescida em demasia.
– Nunca! – Alberto toca no rosto de Elza. – Não vou te deixar sozinha! – A garota não sorri, contudo, sem falas, sente seu coração bater sem controle e sua respiração aumentar o ritmo. – Vem! – Elza o acompanha até algumas árvores e arbustos próximos ao terreno, porém, situados fora dele. Esconde-se lá assim como seu protetor lhe recomenda. – Qualquer coisa, me chama! Do contrário, fica quietinha aí! – A garota o olha com carinho e responde:
– Tá! – Sorri timidamente, o que faz Alberto ficar embevecido. Todavia, o jovem recupera-se e anda lentamente com muita prudência até onde os dois malvados estão. “Então, é ele? Acho que descobri! Só pode ser ele!”, pensa e sorri ao imaginar que Alberto seria seu defensor.
Enquanto isso, o jovem valente, dentro do terreno, no entanto, um pouco afastado de onde estivera anteriormente, esconde-se atrás de árvores, arbustos ou muros observando Lucas e Fellipe. Vê uma pequena pedra no chão e a joga longe, o que chama a atenção de ambos os agressores. Sem ver que fora uma pedra atirada, os dois crueis garotos acham que há alguém por ali. Cada um anda para um lado para procurar quem estaria no local. Lucas se aproxima de Alberto que, abaixado detrás de um muro pouco menor que o qual estivera com Elza, permanece imóvel e em silêncio.
– Tem alguém aí? – Diz Lucas. – Se tiver, sai agora ou vai ser pior depois! – “Ah, vai mesmo! Mas não pra mim!“, pensa Alberto. O garoto de cabelos claros percebe que tudo parece silencioso e se afasta de seu inimigo, chamando Fellipe para irem embora. Após alguns segundos, Alberto levanta-se com muita cautela e examina todo o terreno com o olhar. Nota que tudo se acalma e, caminhando de volta para onde deixara Elza, vê os dois nefários ao longe e suspira aliviado, sorrindo timidamente. Ao retornar onde está sua protegida, diz, acalmando-a:
– Pronto! Caminho livre! Eles já foram embora!
– Eram o Fellipe e o Lucas? – Pergunta desconfiada, depós sair do meio das plantas com a ajuda de Alberto.
–... Quem? – O garoto finge não saber quem são.
– Você não conhece o Fellipe e o Lucas?
–... Não! Não faço a menor ideia de quem sejam!
– Hm... Então, quem eram, afinal?
– Ah, eu... Não sei os nomes deles! Só sei que enchem todo mundo quando estão por perto... Ah, e... Eram três! — Mente para despistar Elza.
–Hmm... Tá! De qualquer forma... Obrigada por... Me proteger! – A menina sorri timidamente.
– N-Não foi nada! – Alberto se encanta cada vez mais com a expressão e a fala meiga de Elza.
– Agora, eu... Tenho que ir! – Vira as costas e Alberto diz:
– Espera! Não vai ainda! – Elza torna a olhar Alberto. — A gente mal conversou... Tirando tudo isso que aconteceu!
– Quer falar sobre os capítulos da novela? – Brinca.
– O... Quê? – “Ai, caramba, ela tá mesmo desconfiada!”, pensa o rapaz, apreensivo. – Er... Eu não vejo novela!
– Eu sei! E... De qual dia você quer que eu conte? – Dá um sorriso aberto.
– O... Er... Do que você tá falando? – Responde, controlando sua felicidade ao ver o sorriso de Elza.
– Não! N-Nada! Esquece! Eu tô indo!
– Maaas... O que você ia me dizer aquela hora que chegou?
– Ah... N-Nada! N-Não era nada! Tchau! — Risonha, despede-se e vira de costas para Alberto.
–... Tchau... – “Aaah, assim fica difícil resistir! Eu te quero comigo, princesinha! E você nem imagina!”, pensa. Respira fundo e prossegue. “Mas eu não posso te contar! Não agora! Tenho que esperar mais um pouco! Tudo isso tá me enlouquecendo! Mas tudo bem! Perto de você, tudo melhora!”. Sorri abertamente enquanto observa Elza indo embora.
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