Festim De Sangue

1 Prólogo: O Retorno de Um Vampiro


O sol começa a se pôr em Londres e a loira de cabelos platinados apenas observa da janela de seu quarto os últimos raios de sol sumirem, dando lugar a mais uma noite sombria. Sentada em sua cama de quatro dosséis, apenas observa o vestido vermelho sangue que será obrigada a usar dali a algumas horas.

Seus olhos de voltam para uma gaveta em sua penteadeira, onde ainda guarda sua pistola com balas de mercúrio, que não usa há trinta anos.

Trinta anos...!

Quanta coisa muda em trinta anos...!

Sua mente volta ao passado...!

Outrora, era uma mulher que se vestia exatamente como um homem, pois liderava a Ordem Real dos Cavaleiros Protestantes, e vivia rodeada pelos homens da tábula redonda, e não queria ser menosprezada por ser mulher, então, vestia-se exatamente como eles, com ternos masculinos que mascaravam toda sua beleza e feminilidade.

Mas isto fora antes...! Antes de a Millenium surgir, antes da Millennium ruir, e antes de Alucard desaparecer...!

Depois da derrota da Millenium e do desaparecimento de Alucard, muita coisa aconteceu. A mais importante fora seu casamento. Exatamente dois anos depois do sumiço do vampiro, a rainha lhe mandou um convite, convocando-a para um baile no palácio. E, foi exatamente neste baile que tudo começou a mudar...!

Naquela noite, vinte e oito anos atrás, fora a primeira que deixara seus formais ternos masculinos para de dar ao luxo de usar algo mais feminino. Usara um vestido tomara que caia em seda preta, justo em seu busto, porém com uma saia esvoaçante. Luvas até a altura de seus cotovelos, também em seda preta e com alguns brilhantes. Deixara seus longos cabelos loiros platinados soltos, caindo em cascata por suas costas, e fora para o tal baile promovido pela rainha.

Ao chegar ao palácio, descobrira ser a convidada de honra em um baile que tinha por principal função encontrar-lhe um noivo, pois, com o fim da Millenium, os vampiros sumiram e a Hellsing não estava tão na ativa assim, tanto que Seras Victoria estava dando conta sozinha dos casos esporádicos que envolviam o surgimento de vampiros.

Então, era a hora de casar e dar continuidade a linhagem dos Hellsing, gerando um herdeiro que pudesse ser criado para assumir seu lugar, como futuro líder da Ordem Real dos Cavaleiros Protestantes.

Durante toda aquela noite, fora praticamente obrigada a dançar com todos os homens solteiros, vindos de todas as partes da Inglaterra. Mas, nenhum homem havia realmente lhe chamado à atenção, pois naquela época seus pensamentos ainda eram voltados para “ele”, achando que a qualquer momento iria aparecer em seu quarto, usando sua magia para atravessar as paredes e tentar morder seu pescoço, como sempre fazia.

E assim o primeiro baile promovido pela rainha não teve nenhum sucesso...!

Mas sua Majestade não era de desistir...! E então veio o segundo, o terceiro, o quarto baile...! E ele surgiu em sua vida...!

O nome dele é Philip Cook, e donos de olhos verdes tão intensos que ela nunca havia visto na vida. Seus cabelos eram quase tão claros quanto os dela, e havia ficado completamente petrificada diante da visão do homem, que não parecia pertencer a este mundo.

Seus olhares se cruzaram no meio do salão, dois olhares frios no meio de tantos outros olhares calorosos, como se não houvesse mais ninguém ali. Ele se aproximou dela e a tomou para uma dança e, naquela noite, ela dançara apenas com ele.

Após aquele baile, começaram a se ver todos os dias, e, exatamente dois anos depois, ela, Sir Integra Fairbrook Wingates Hellsing contraiu matrimônio com o Conde Philip Cook, tornando-se verdadeiramente uma Condessa, mas, mesmo assim, nunca se sentiu confortável com tal título, preferindo, mil vezes, ser conhecida por seu sangue Hellsing...!

E com o passar dos anos, a vida se tornara enfadonha, esperando todos os dias pela chegada do vampiro que nunca retornou...!

Sua mente volta ao presente e ao vestido em sua cama, pois esta noite, tem mais um daqueles compromissos sociais em que deve ir e fazer o papel de esposa e Condessa, uma dama impecável da alta sociedade inglesa.

Vai para o banheiro de seu quarto e liga a torneira da banheira e, enquanto a água quente começa a cair e a encher a banheira vai tirando sua roupa, revelando toda a nudez de seu corpo.

Mergulha na água quente e começa a sentir os músculos de seu corpo relaxarem em contato com o líquido, enquanto todas as preocupações de sua mente começam a desaparecer junto com a tensão de seus grupamentos musculares.

Fica cerca de uns quarenta minutos no banho, tentando, o máximo possível, retardar o momento em que terá de encarar o vestido vermelho sangue e servir de anfitriã para mais uma das festas promovidas por seu marido. Mas, após quarenta minutos, sabe que não pode mais prorrogar o momento. E, se enrolando em uma toalha, deixa o banheiro para ir de volta a seu quarto, encarar novamente o tecido de seda do vestido que moldará com perfeição seu belo corpo feminino.

*****

No porão da mansão Hellsing, um vento forte e frio sopra em volta de um caixão há trinta anos vazio. E na tampa do caixão, sangue começa a surgir e a moldar letras, escrevendo a frase que há trinta anos estivera nele:

“The Bird of the Hermes is my name, eating my wings to make me tame”

O vento continua a soprar forte, enquanto pesadas botas pretas pisam o chão e a ponta de um sobre tudo vermelho é vista. Com passos lentos e decisivos, a figura vampírica deixa o porão da mansão.

*****

No salão principal da mansão, Integra sorri para os convidados de seu marido. Um sorriso artificial e puramente teatral, que aprendeu bastante bem após tantos anos de casamento. Trajando seu belo vestido, é certamente a dama mais bela do baile, apesar de já não ser a mesma jovem de trinta anos atrás. Mas, mesmo com o passar dos anos, consegue ainda atrair olhares masculinos por onde quer que passe, como sempre fora capaz de fazer.

Integra olha pela janela e vê a lua com um brilho vermelho, e instintivamente sua mente volta ao passado, quando comandava com punhos de ferro a Hellsing e seu lixeiro. O luar costumava brilhar com esta mesma intensidade quando ele ainda não havia desaparecido.

Volta sua atenção para o baile de seu marido, e, para sua insatisfação, encontra os olhos calculistas de Philip a encarando de forma aborrecida.

― Deveria estar recebendo meus convidados, Integra. – diz Philip de forma arrogante – E não aqui olhando a lua.

― Cale-se! – rebate a líder da Ordem Real dos Cavaleiros Protestantes – Quem você pensa que é para falar comigo desta forma?

― Sou seu marido. E você me deve respeito, mulher!

E, dizendo estas palavras, Philip ergue sua mão para bater em sua esposa, porém, é impedido por um poderoso toque, que lhe segura o pulso com tanta força e brutalidade que sente a circulação sanguínea quase parar em seu pulso.

― Humano idiota! Saiba que ninguém levanta a mão para a minha mestra e permanece com vida!

Philip olha para o rosto do vampiro e por uma fração de segundo sente seu corpo tremer. A presença do monstro lhe causa arrepios, enquanto ele continua praticamente esmagando seu pulso, ao mesmo tempo em que o olhar do vampiro não desgruda de Integra.

― Alucard. – diz a Hellsing com um sorriso peculiar nos lábios, o tipo de sorriso que ela só dirige a ele – Você demorou.

Alucard sorri ironicamente para sua mestra, da mesma forma que costumava fazer trinta anos atrás. Ao lado dela, Philip está visivelmente incomodado com a presença do vampiro.

― Então este é que é o famoso Alucard? – zomba Philip – Seu vampirinho de estimação pelo qual você tem tanto orgulho? Faça-me o favor, Integra, “isto” que você está chamando de vampiro nem parece lá grande coisa.

Integra sorri ao ouvir as palavras de seu marido, pois ele nem imagina o quanto está enganado. Por sua vez, Alucard solta o punho do homem, para olhá-lo através das lentes de seus óculos.

― Vou te dar um aviso “humano”. – diz o vampiro em seu tom de voz ameaçador – A próxima vez que você ameaçar levantar sua mão contra minha mestra será a última, pois você será um homem morto.

E dizendo estas palavras, o vampiro usa sua magia e desaparece no chão, deixando Philip com toda a sua ira.

― Espero que esta coisa não tenha vindo para ficar, Integra. – diz Philip, sem esconder a raiva que sente por ter sido humilhado pelo vampiro.

― Se Alucard veio para ficar ou não isto não é da sua conta. – diz a loira com um tom de voz que deixa claro toda a sua superioridade – Como você disse, ele é meu vampiro, e está aqui para obedecer as minhas ordens. Agora volte para a sua festa e seus convidados, Philip, e jamais ouse tentar e dar ordens novamente, ou você irá se arrepender.

A, após dizer estas palavras, a Hellsing deixa a presença do marido, e começa a andar pela mansão, em direção a seu quarto. Sem nem pensar duas vezes, abre porta do quarto e para ela, não é surpresa nenhuma encontrar o vampiro sentado em sua cama, esperando por ela.

Alucard olha para sua mestra de cima a baixo, quase perplexo com a mudança. A Integra que serviu no passado usava ternos bem masculinos, esta que vê agora, parece uma verdadeira condessa trajando um vestido tão vermelho quanto o sangue. E, não pode negar que os anos que se passaram só serviram para deixa-la ainda bela.

A humana se aproxima do vampiro e tira à luva de sua mão direita, levando o dedo indicador a boca e mordendo-o, para que escorra sangue de seu ferimento. Em seguida, Integra estende o braço, para que as gotas de seu sangue caiam diretamente na língua do vampiro.

Alucard abre sua boca e estende sua língua para saborear o doce sabor do sangue de sua mestra, o sangue mais doce que já provara em sua existência. E, quando a primeira gota de sangue entra em contato com sua língua, percebe que o gosto, apesar de bom, já não é o mesmo sangue puro de outrora. Já sabia disso, já sabia que Integra não era mais pura no momento em que encontrou com aquele lixo que ela chama de marido. Mas sentir o sangue do gosto contaminado pelo pecado da luxúria fez com que a verdade amarga lhe viesse a memória.

― Por que esse idiota? – pergunta o vmpiro.

― Isto não é e nunca será da sua conta. – responde a mestra – Vá procurar Seras, pois ela te colocará a par do que você perdeu nos últimos trinta anos.

― Não me interessa a policial e os anos que se passaram. – argumenta Alucard – O que quero saber é porque escolheu aquele idiota, minha mestra.

Nisto, a porta do quarto se abre e a pergunta de Alucard é respondida pela entrada de uma menina que aparenta seus dez anos de idade. A criança é a réplica de sua mestra, os mesmos olhos azuis, os mesmos cabelos loiro platinados...! Parecia ter voltado no tempo, para o dia em que Integra o despertara de seu sono...!

Ali, com aquela mini Integra Hellsing na sua frente, suas perguntas estavam respondidas.