Festim De Sangue
2 Isabelle Hellsing
Os olhos de Alucard estão fixos na mini Integra a sua frente, pois a menina mais parece um clone de sua mestra do que qualquer outra coisa, não tem nada do pai. A pele, os olhos, o cabelo...! Tudo ali, naquela criança é a Integra, sem tirar nem por, a criança não nega ser filha de sua mestra.
Seus olhos vermelhos passam da filha para a mãe, ainda perplexo pelo que acaba de descobrir. Sua mestra não serve para isso, não serve para estar casada com aquele idiota e com este clone como filha.
― Então esta é a resposta, Integra? – questiona o vampiro – Você se casou com aquele idiota para gerar este clone?
A menina o encara com os pequenos olhos azuis arregalados de espanto pela cena que seus olhos veem. Sua mãe, com a mão estendida para esta criatura que parece saborear seu precioso sangue. Seu semblante é de puro terror, demonstrando todo o nojo que ela está tendo desta cena aterradora.
― Mamãe...! – diz a menina – O que é isso...? O que está acontecendo...?
Os olhos de Integra se voltam para sua filha, e ela volta a colocar a luva, deixando o vampiro de lado.
― Isabelle. – diz a Hellsing – O que faz aqui?
― Não vi você lá embaixo e vim ver onde estava, mamãe. E o que é isso? Um vampiro? Não é a senhora que vive me dizendo que vampiros são inimigos?
Alucard não deixa de dar uma gargalhada tétrica ao ouvir as palavras da menina, que tem uma voz doce e angelical, ao contrário da voz de Integra, sempre forte e obstinada, neste aspecto, percebe que mãe e filha são bastante diferentes.
― Vampiros são inimigos. – responde Integra para a filha, com toda a sua autoridade – Porém este aqui é bem domesticado, e serve a nossa família por mais de cem anos, Isabelle.
A menina encara Alucard com a cara fechada, obviamente, sem gostar nem um pouco da presença do vampiro ali, no quarto de sua mãe. Um lugar que ela considera sagrado, que só pertence à mãe e ao pai. Além do mais, esta criatura tem um olhar e um jeito que a assusta, de uma forma que ela não entende...! Desde que se conhece por ser humano, sua mãe lhe ensonou que vampiros são seres horríveis, inimigos mortais dos Hellsing, demônios devoradores de sangue que transformam vítimas não puras em Ghous, zumbis que não possuem inteligência e que obedecem apenas ao vampiro original.
Sua mãe lhe ensinara que durante mais de cem anos, a Ordem Real dos Cavaleiros Protestantes combatem estas aberrações dos infernos, e agora, sua bela mãe está ali, dando seu próprio sangue para um vampiro, um inimigo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Não consegue conceber uma coisa dessas.
― Parece que sua filha não gosta de mim, minha mestra. – sentencia Alucard, sem deixar seu sorriso irônico de lado – Nem preciso me dar ao trabalho de ler a mente dela, está tudo ali, nos olhos do seu clone em miniatura.
― E por que eu deveria gostar de um monstro como você? – questiona a menina de forma arrogante e colocando as mãos na cintura – Vampiros são inimigos! Você é inimigo! E eu não te quero aqui!
― Já chega, Isabelle! – Integra repreende a filha – Eu não admito que você fale deste jeito! Alucard é o meu vampiro! E eu sou sua mãe! Você é uma Hellsing e terá de se acostumar à presença de Alucard nesta casa a partir de agora! E além do mais, ele não é o primeiro vampiro que você conhece e que está do nosso lado.
― Mas este é diferente, mamãe! – a pequena Hellsing tenta questionar.
― Eu disse que já chega, Isabelle! – Integra coloca um fim as argumentações da filha – Um dia você será a líder da nossa família, e então será a mestra de Alucard em meu lugar.
― Isso nunca! – responde Isabelle, com raiva.
E dando meia volta, a menina gira os calcanhares e bate à porta do quarto de Integra com toda a sua força, deixando bem claro sua insatisfação.
O vampiro encara Integra com seus olhos vermelhos sedentos pelo sangue de sua mestra, enquanto não deixa de pensar no tipo de criança que Integra colocou no mundo.
― A menina tem personalidade. – comenta o vampiro – Realmente não tem como negar que ela é sua filha. E ela não tem nada do idiota que você chama de marido, minha mestra. Tem certeza de que ela é filha dele?
― Não lhe devo satisfações de minha vida pessoal, Alucard! – diz Integra – E você sabe perfeitamente bem quem é o pai de Isabelle. Agora saia, estou cansada e preciso descansar. Vá procurar Seras, a esta altura, ela já deve ter notado que você chegou.
Usando sua magia, Alucard desaparece do quarto, deixando a loira sozinha. A líder da Hellsing tira os sapatos de salto alto e se joga na cama, e deixa que os pensamentos invadam sua mente, que parece um redemoinho de tantos conflitos, todos eles girando em torno da volta de Alucard.
Por que este maldito vampiro teve que voltar logo agora? Por que logo agora, que se acostumou a uma vida sem ele?
Durante anos, esperou pela volta de Alucard, com verdadeiras esperanças de que o vampiro realmente fosse voltar. Mas, os anos se passaram e nada, o vazio que a presença de Alucard sempre lhe provocou continuava ali, e nada no mundo era capaz de preencher este vazio que Alucard lhe deixou. Mas, para ela, uma mera mortal, a vida tinha que continuar e com isso veio seu inevitável casamento com Philip, e com isto sua vida tomou um rumo completamente diferente.
Fora literalmente obrigada a deixar de lado seus ternos masculinos, para começar a usar roupas mais femininas, e bancar a mulher casada, coisa que em toda a sua vida nunca imaginou fazer.
Não nascera para isso, para casar e bancar a mulher feliz. Ao contrário, nascera para liderar! Nascera para ser quem fora durante os anos mais felizes de sua vida! Nascera para Ser Sir Integra Fairbrook Wingates Hellsing, líder da Ordem Real dos Cavaleiros Protestantes e Mestra de Alucard! E só assim é feliz!
Durante trinta longos anos vivera de forma contrária a tudo o que sempre foi, ao lado de Philip, praticamente brincando de ser uma dama da sociedade inglesa. E não encontrou sentido algum nesta vida, em uma vida sem a Hellsing e sem Alucard.
Mas, tudo isto mudou quando finalmente engravidou de Isabelle. Sua filha mudara o sentido de sua vida, e, passou a viver por ela, para treiná-la e ensiná-la a ser a próxima líder da Hellsing. Ensiná-la que os vampiros são os inimigos mortais dos seres humanos e que devem ser destruídos e eliminados da face da Terra.
Isabelle é sua continuação, uma pequena parte de si mesma que viverá para ser uma líder melhor do que ela fora no passado. E somente por ela é que vive e que encontra sentido para acordar todos os dias.
Com o fim da Millenium, todos os vampiros sumiram e aparecem apenas casos esporádicos. Casos estes que Seras consegue liquidar facilmente, e assim em trinta anos sua vida assumiu um padrão que pode ser chamado de normal perante a sociedade.
Mas agora, Alucard está de volta, e com ele, parece que todo o seu passado veio à tona. E em apenas algumas horas esta vida que leva agora perdeu todo o sentido. Tudo nela parece ter perdido o valor, com exceção de Isabelle, que continua sendo o centro de sua vida.
E não pode negar que Alucard trouxe de volta conturbadas emoções que sempre sentira no passado. O Lixeiro da Hellsing não trouxe apenas o desejo de voltar no tempo, acabou trazendo muito mais...!
A porta de seu quarto se abre bruscamente e trás Integra de volta a realidade. A Hellsing não se surpreende nem um pouco ao ver Philip com o rosto vermelho de tanta raiva, e ela sabe perfeitamente o que irrita tanto seu marido.
― Pode me dizer o que aquela criatura estava fazendo em seu quarto? – pergunta Philip, trancando a porta do quarto para que ninguém possa incomodá-los.
― Não é da sua conta. – responde Integra, se levantando da cama para encarar seu marido nos olhos – Como eu já disse, Alucard é o meu vampiro, e ele tem acesso livre por toda a mansão.
― Incluindo seus aposentos íntimos, querida? – o tom de voz de Philip denota asco pelo vampiro.
― Se for do meu agrado, sim. – responde a loira sem se deixar intimidar pelo homem.
― Uma coisa me deixa curioso, amor! Se gosta tanto deste monstro, por que não deixou ele te transformar em uma aberração igual a ele? Aposto que os dois seriam bem felizes juntos lá no inferno!
A última frase faz com que Integra perca totalmente a paciência, e a Hellsing estende a mão para seu marido, porém Philip é mais rápido e segura à mão da loira no ar, pressionando com força o pulso dela.
― Nã, nã, ni, na, não! – diz Philip, com um sorriso irônico e fazendo um gesto de negativa com o dedo indicador da outra mão – Não é educado uma dama da alta sociedade, uma condessa, erguer a mão contra o próprio marido, meu bem.
Integra está em fúria, querendo se ver livre da presença de Philip o quanto antes, sem conseguir ao menos suportá-lo, sua raiva é tanta que seria capaz de mata-lo sem pensar duas vezes.
― Solte-me! – ordena a Hellsing, cada palavra repleta de fúria.
― E se eu me recusar vai fazer o que, meu amor? – a voz de Philip é pura ironia – Mandar seu vampirinho de estimação vir atrás de mim e morder o meu pescoço? Estou morrendo de medo, Integra.
E após dizer estas palavras, o humano solta o braço de Integra com tamanha força que faz com que ela caia sentada na cama, ainda encarando com um misto de raiva e perplexidade o homem com quem se uniu em matrimônio tantos anos atrás.
― Lembre-se, Integra! – ameaça Philip – O homem desta casa sou eu! E não deixarei que você me desautorize na frente de um vampirinho qualquer, mesmo que este vampiro seja o seu precioso Alucard!
― Você é tão covarde que apenas faz ameaças vazias, Philip. – devolve a Hellsing – Não pense que pode dar ordens em minha própria casa, muito menos em meus soldados.
― Até onde me lembro sou seu marido, portanto, o homem desta casa. Por mais que você queira se mostrar superior, o homem aqui sou eu! Pouco me importa a ordem Real dos Cavaleiros Protestantes, até porque os vampiros sumiram! E sem vampiros, você não é ninguém!
― Nunca mais ouse falar comigo desta forma, Philip!
― Não tenho medo do seu cachorrinho de estimação! E se eu fosse ele, temeria a mim, que sou um homem de verdade, não um morto vivo que resolve voltar depois de trinta anos! Aqui ele não é bem-vindo!
― Esta casa é minha, e você não tem o direito de me dizer quem é bem-vindo e quem não é! Alucard voltou e se não gosta dele, arrume suas malas e vá embora!
― Você vai se arrepender destas palavras, Integra! Vou ter o prazer de te ensinar a me respeitar, nem que seja na marra!
― Veremos!
Com raiva, Philip destranca a porta do quarto e deixa o aposento, trancando a porta pelo lado de fora. Mostrará a Integra e ao monstro dela que as coisas mudaram, e que agora ele é quem está no comando. E, ainda dará um jeito de expulsar este vampiro da casa e da vida de Integra, pois é por culpa deste Alucard, que ela nunca teve olhos para ele, o olhar de uma mulher quando deseja intensamente um homem.
*****
No subterrâneo da mansão Hellsing, Alucard anda apressadamente, até chegar ao quarto de sua serva, a vampira Seras Victoria. Não é surpresa encontrar a vampira com um saco de sangue para transfusão nas mãos.
― Mestre! – os olhos vermelhos de Seras vibram de alegria ao encontrar o monstro que outrora fora o responsável por sua transformação – Eu sabia que o senhor ia voltar!
― Se sabia, porque deixou Integra se casar com aquele idiota?
O sorriso de Seras se esvai no mesmo instante. Porém, para ela, não é surpresa nenhuma este comportamento de seu mestre.
― E o que é que eu ia fazer, mestre? – questiona a vampira – Sir Integra é dona da própria vida!
― Quero que você me conte tudo. – ordena Alucard – Quero saber tudo do casamento de Integra, da filha e do pateta do marido dela.
― Sim senhor, meu mestre.
O lixeiro da Hellsing começa a escutar com atenção as palavras de Seras, enquanto sua seva narra tudo o que aconteceu desde a derrota da Millenium. Alucard presta bastante atenção, principalmente nos detalhes sobre a vida de casada de Integra, a rotina com o marido e com a filha.
Sabia que poderia obter todas estas informações de forma mais fácil, apenas lendo a mente dos três, porém, escutar a narração de sua serva torna as coisas mais interessantes, pois Seras é uma vampira assim como ele, e, além de tudo, é uma expectadora, alguém que vê de fora e não tem todo o sentimentalismo humano envolvido. Sim, através da narração da vampira, consegue entender perfeitamente a razão de Integra ter se casado com um imbecil.
― Então a razão do casamento é a filha. – diz Alucard por fim.
― Sim, meu mestre. – confirma Seras – A vida de Sir Integra passou a girar em torno de Isabelle, desde que ela nasceu.
― E como é a menina? Parece com a mãe?
― Isabelle é um doce. Bem diferente da mãe, Sir Integra parece um general em batalha, mas Isabelle não, a menina parece uma boneca, muito pura e ingênua.
― “Doce”. – ironiza o vampiro ao lembrar do clone de Integra.
― O senhor não a conhece, mestre. Ela é inocente, um anjinho, a menina mais linda que eu já vi. Uma pena que Sir Integra quer que ela seja a nova líder da Organização, porque a menina não leva o menor jeito para a coisa. Em outros tempos, seria facilmente assassinada por um dos vampiros criados pela Millenium.
Alucard começa a andar pelo quarto de Seras, pegando um saco de sangue de uma mesa do quarto, o abrindo e bebendo todo o conteúdo em apenas um gole. Quando viu a menina pela primeira vez, realmente achou que a criança tem um ar bastante inocente, ao mesmo tempo em que algo lhe incomodou profundamente. Talvez o fato de a menina ser uma cópia da mãe.
Para ele, Integra Fairbrook Wingates Hellsing é única, sua eterna condessa, e não há ninguém no mundo que se compare a sua mestra. Nem mesmo aquela criança que é uma cópia da mãe. E, pelo que notou, a menina não gostou nem um pouco de sua presença, parecendo odiá-lo simplesmente por ser um vampiro.
Sorri.
Usando sua magia, desaparece da frente de Seras, sumindo por baixo do chão, e reaparecendo diretamente em seu porão, onde senta-se em sua cadeira favorita. Tira seus óculos e começa a girá-los com os dedos, pensando em tudo o que viu e ouviu esta noite.
A porta de seu porão se abre e na sua frente surge a filha de sua mestra, com os mesmos olhos de Integra e a cara bastante carrancuda.
― Vampiro, eu quero que vá embora! – anuncia Isabelle Hellsing com toda a sua coragem.
A gargalhada de Alucard ecoa por todo o cômodo frio e úmido e o vampiro se levanta da sua cadeira, e caminha com passos lentos e decididos até ficar em frente a Isabelle, e se abaixa para que seus olhos vermelhos e sem vida encarem os olhos azuis da filha de sua mestra.
― Eu não gosto de você! – sentencia a menina – Papai também não gosta! Acha que não percebi? Você quer tirar a mamãe de mim! Vá embora!
― Criança. – zomba o vampiro – Acha mesmo que vou embora só porque você e o palhaço do seu pai querem?
― Se você ficar, vai se arrepender! Eu odeio você! Odeio! Odeio!
― E o que você vai fazer, criança? – chorar no colo do idiota do seu pai?
― Não é da sua conta!
― Eu posso ler sua mente, menina tola!
― Não me importo! Quero a mamãe! E por sua culpa papai está furioso! Trancou a porta do quarto e mamãe está lá sozinha! Não me deixa entrar!
Isabelle começa a chorar, e Alucard se lembra de Integra com aquela idade, quando a conheceu. Com a mesma idade que Isabelle, Integra foi capaz de matar o próprio tio, após ele salvar-lhe a vida e no entanto, a filha mais parece uma garotinha mimada, chorando após tentar se mostrar forte. Porém, o que o deixou furioso foi à última frase dita pela menina.
― O que o idiota do seu pai fez? – Alucard pergunta com fúria.
― Eu já disse! Vá embora! Quando você for papai vai me deixar ver a mamãe!
― Vou acabar com este humano ainda hoje! – sentencia o vampiro, desaparecendo com a ajuda de seus poderes sob o olhar lacrimoso de Isabelle.
*****
Philip está no escritório de Integra fumando um dos charutos da esposa, para tentar aplacar sua raiva. Tudo isto por culpa do tal Alucard, que resolvera voltar de sei lá de onde após longos cinquenta anos!
Se não fosse por ele...!
Mas fará o vampiro pagar, nem que para isso tenha que usar Integra, que tanto amou no passado!
― Então o humano idiota acha que pode comigo?
Alucard surge do nada, os olhos vermelhos brilhando de forma assassina na direção de Philip, mas o humano não se deixa intimidar, leva o charuto à boca e finge não ver o rei sem vida a sua frente.
― Vampiro. – diz Philip, sem muito interesse.
― Parece que meu recado não ficou muito claro, humano.
Com apenas um passo, Alucard fica frente a frente com Philip. O vampiro saca sua arma preferida, a Jackal, e a aponta diretamente na testa do homem que sua esposa chama de marido.
― Me dê apenas um motivo, humano, para que eu não acabe com sua vida agora!
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