Feroz
2 Um: Sangue
Notas iniciais
***
(Um ano e meio depois)
Minha estilista me olhou pelo que parecia a última vez. Nenhum de nós podia ter convicção do que ia acontecer depois que eu subisse. Eu só não queria me esquecer de tudo o que ela vez por mim. Por causa dela eu tive um bom desempenho nas preparações para os Jogos. O desfile não foi um desastre como nos outros anos e a entrevista não deixou nada a desejar. Eu realmente queria voltar lá e abraçar ela de novo. Mas a voz nos alto-falantes anunciou a hora.
O tubo se fechou e eu senti que estava subindo.
Meu coração imediatamente acelerou. Eu senti um calor insuportável; meu sangue estava queimando. Eu me desconcentrei rapidamente com a perspectiva de morrer. Tentei enviar comandos simples pelo pensamento para mim mesmo para me acalmar e raciocinar, mas nada deu certo. Meus sentidos estavam repentinamente aguçados e eu conseguia sentir a pulsação nas veias do meu braço. O nervosismo era tanto que eu comecei a me agitar. O tubo estava claramente subindo, mas já fazia quase meio minuto que eu estava ali. Ou era simplesmente a minha mente me enganando. Era uma sensação horrível. Por mais que eu tentasse me acalmar, o terror permanecia na minha mente.
Então uma claridade invadiu os meus olhos de forma súbita e eu levei minhas mãos até eles para escondê-los da luz. Definitivamente era o sol. Fiz um esforço para me adaptar à luz e eu pude ter certeza que estava na arena.
Desesperadamente me apressei e fiz uma varredura com os olhos pelo lugar. Eu e os outros vinte e três tributos estávamos em uma clareira plana e com a grama aparada. Eu estava mais ou menos no meio da fileira de pedestais, com a Cornucópia a cinquenta metros na minha frente. Procurei pelos Carreiristas e descobri que eles estavam bem longe de mim, mas infelizmente Sarah também estava. Ela era quase a última da fileira e estava à minha esquerda.
Eu segui as ordens do meu mentor. Continuei a analisar o bioma e a vegetação da arena esse ano. Era uma simples floresta com muitos pinheiros e um pouco de neve que derretia com o sol. Olhei para os lados e concluí que poderia correr para qualquer direção, desde que não tivesse nenhum tributo por perto.
Faltava pouco para os sessenta segundos se esgotarem e eu ainda tinha que escolher os itens que eu pegaria. Eu nem olhei para a Cornucópia. Eu sabia que não era nada seguro, então decidi pegar alguma coisa fora da Cornucópia, mas não tão distante dela. Eu ia pensar em todas as possibilidades quando ouvi um estrondo que me surpreendeu. Olhei para o lado e vi que todos estavam pulando dos seus pedestais. Então era isso. Alguém saiu do pedestal menos de um segundo antes de o gongo soar, e o estrondo me fez perder tempo. Dei um impulso para frente e comecei a correr desesperadamente, a adrenalina fez as minhas pernas ficarem mais rápidas. Eu ouvi os gritos e meu coração fez glup na minha garganta. Dava para perceber que os tributos estavam morrendo. Eu cheguei perto da Cornucópia e peguei a primeira coisa que estava na minha frente: uma faca com a lâmina do tamanho do meu antebraço. Se eu precisasse lutar, já tinha uma arma.
Uma lança passou perto da minha cabeça e eu me abaixei. Eu estava na mira do garoto do Distrito 4, mas nós nem começamos uma luta porque apareceu uma vítima mais fácil na frente dele. Aproveitei que estava abaixado e agarrei uma mochila preta que estava encostada em um caixote bem perto da boca da Cornucópia. Aquilo já era o suficiente para mim, então eu só precisava sair dali. Olhei para os lados em busca da melhor direção e corri para a esquerda. Se a Cornucópia fosse uma bússola e se o chifre de metal apontasse para o Norte, eu estaria indo para Oeste.
Um corpo caiu na minha frente, sujando minhas botas com sangue. Eu pulei por cima dele. Agora a metade dos tributos já estavam pegando suas armas e mochilas e se enfrentando entre si. Consegui ver alguns deles fugindo para a segurança da floresta. Eu coloquei a minha mochila nas costas e segurei com força a faca. Não demorei para sair de perto das lutas que aconteciam principalmente na Cornucópia. Tive chance de pegar mais uma mochila menor antes de chegar na floresta. Por um instante eu pensei que ia escapar da forma mais fácil possível do Banho de Sangue, mas senti uma mão me puxar para trás. Alguém tinha me alcançado.
Joguei minha mão para trás e esfaqueei meu inimigo. Era o mesmo garoto do 4. Ele não tinha mais sua lança, então se ele me atacou decerto pensava que eu não estava com a faca. Ele caiu no chão segurando o ombro e eu tive tempo suficiente para fugir. Agora sim eu estava a salvo. Pelo menos eu pensava.
Não continuei correndo. Eu ainda precisava encontrar Sarah. Me lembrei de como Ashley, minha meia-irmã, tinha morrido no Massacre Quaternário no ano anterior. Ela foi torturada e morta pela garota do Distrito 2. Meu meio-irmão, Christopher, também morreu pelas mãos de um Carreirista (o do 1). Era impossível não imaginar Sarah tendo o mesmo destino. Meu coração voltou a bater mais rápido, eu novamente senti a pulsação do meu sangue em todo o meu corpo. Meu rosto estava queimando mais do que nunca. Eu corri de volta para a clareira onde estava a Cornucópia e procurei por Sarah. Ela não estava lá, então comecei a percorrer a borda da floresta. Quando eu estava perdendo a esperança de encontrá-la, acabei esbarrando nela.
Ela aparentemente não estava ferida, apenas com alguns arranhões pelo rosto. Sua mão tinha um pouco de sangue que não era dela. Talvez ela tivesse matado alguém, mas estávamos tão desesperados que simplesmente saímos correndo para dentro da floresta sem dizer nenhuma palavra.
Estávamos temporariamente a salvo. Pelo menos era o que eu pensava.
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