Feroz
3 Dois: Aliada
Notas iniciais
Nós continuávamos correndo e eu sentia a mudança do tempo. Parecia que a cada passo que dávamos o ar aquecia um grau. Até o calor ficar insuportável. Diminuímos a velocidade para saber o que estava acontecendo. Olhávamos toda hora para os lados à procura de algum tributo. As árvores estavam um pouco mais retorcidas e eu percebi que era o bioma que estava mudando.
– Você percebeu? – perguntei. – A arena é mais fria no centro. Eles querem que os tributos permaneçam perto da Cornucópia, onde estão os Carreiristas.
Sarah olhou para os lados novamente. Estava inquieta. Imaginei que ela tinha concordado.
De repente ouvimos um grito horrível não muito longe de onde estávamos. Era um grito de dor, agudo demais para ser de um garoto. Começamos a correr para a direita, nos distanciando do som que continuou. Ouvi lâminas se batendo e isso fez com que eu corresse mais rápido ainda. E depois uma mão agarrou a minha camisa. Instintivamente levei a minha mão em direção ao tributo que estava atrás de mim.
Era uma garota, não entendi imediatamente o motivo que a levou a fazer isso. Mas depois esteve óbvio que ela queria ajuda. Foi ela que tinha berrado daquele jeito. Ela conseguia correr, mas estava sem o antebraço inteiro. Isso significava que alguém continuava a perseguindo. Nós continuamos o caminho, com o ruído de passos atrás de nós. A garota começou a chorar. Ela era maior que eu, podia ter até dezoito anos. Ela tinha um cabelo escuro um pouco avermelhado. Mas estava chorando como uma criança de dez.
Minha energia estava acabando. O ar ficou mais abafado à medida que corríamos. Olhei para trás e vi dois garotos. Não eram os Carreiristas. Eles tinham um olhar assassino. Esse ano vai ser difícil, todo mundo tem um lado assassino aqui.
Sarah quase tropeçou. Ela não tinha nenhuma arma e estava desacelerando. Precisávamos achar um jeito de escapar. Demoraria demais para subir em árvores, e a garota não conseguiria escalar sem o antebraço. Eu nem sabia por que estava me preocupando com ela. Mas ela parecia inocente e não merecia morrer. Também considerei procurar um abrigo, mas eu só via árvores e mais árvores que ficavam mais secas e sem folhas. Só restava matar aqueles dois tributos. E quanto mais tempo ficávamos correndo, mais era o tempo perdido. Eu não tinha nada a perder.
Coloquei minha mochila no chão e preparei a faca. Sarah e a outra garota pararam de correr. Percebi que um dos garotos estava com um machado na mão. Talvez ele fosse do Distrito 7. Ele estava bem perto, e me derrubou no chão. Forcei a faca no pescoço dele e isso me deu um segundo para levantar. Ele colocou a mão no lugar onde agora corria sangue e eu o chutei com força. Ele caiu no chão rapidamente como se tivesse escorregado e eu tive tempo para jogar a faca no outro tributo que já ia me derrubar.
Nenhum canhão. Os dois ainda estavam vivos. Mas não iam durar muito ali. Ofeguei por algum tempo e me joguei no chão. Aquilo tinha me matado.
– Os canhões deles só vão soar quando o Banho de Sangue terminar – disse a garota que estava fugindo. – Eles me atacaram... Eles são muito espertos, me encurralaram e depois cortaram o meu braço. Eu vou morrer também... – ela voltou a chorar.
– Vamos descansar – eu disse para Sarah. Recuperei minha faca que acertou o peito do segundo garoto que matei. Estava com sangue até o cabo, a lâmina atravessou o corpo dele. – Podemos dormir aqui, amanhã nós vamos procurar um abrigo melhor.
Sarah sentou perto de mim, junto com a garota. Isso significa que Sarah não pensava em matá-la. Mas nós não precisávamos de uma aliada. E pelo visto ela não era muito útil. Só atrapalharia.
– Vamos ver os nossos suprimentos – abri a minha mochila e Sarah abriu a menor. Começamos a revirar tudo. Tínhamos carne seca, frutas, uma faca, fósforos, fita isolante e curativos, mas não tínhamos água. Não tínhamos o item mais importante. – Precisamos de água. Vamos ter que voltar para perto da Cornucópia, se continuarmos nessa direção vamos morrer desidratados. Eu acredito que a arena já vai terminar, porque não seria possível sobreviver com essas condições.
– Então a arena é muito pequena – concluiu Sarah. – A arena deve ter um formato circular e nós conseguimos percorrer quase todo o raio dela em doze horas. Essa edição dos Jogos vai ser muito rápida, a não ser que os idealizadores preparem alguma coisa.
– Acho que vamos descobrir – eu disse. – Vamos organizar todos os nossos suprimentos em apenas uma mochila e vamos deixar a menor em algum lugar. Depois vamos voltar até a Cornucópia. Lá perto vai ter água. Nós nos abastecemos à noite e saímos logo daquele lugar, ou vamos ter que encontrar os Carreiristas.
– É um bom plano – concordou Sarah se levantando. Eu coloquei tudo o que tínhamos na mochila maior, menos a faca. Colocamos a mochila menor vazia em uma árvore a duzentos metros dali. Se alguém encontrá-la, vai pensar que alguém estava ali, o que não aconteceu, pois fomos para a outra direção.
Enquanto caminhávamos tentei fazer alguma coisa para limpar o ferimento da garota, mas ela não queria de jeito nenhum. Resolvi que seria melhor limpá-lo quando encontrássemos água, se ela ainda continuasse viva, é claro. O ferimento nos preocupada, ela estava totalmente incapacitada de fazer muitas coisas. E eu sabia que uma hora ela ia morrer, mas mesmo assim aceitei que ela ficasse conosco por tempo indeterminado. Agora tínhamos uma aliada. Eu não podia ter certeza se aquilo era bom ou ruim.
Conhecemos a garota afinal. O nome dela era Savannah, ela era do Distrito 8 e tinha dezessete anos, enquanto eu tinha dezesseis e Sarah quinze. Depois de muita conversa eu concluí que ela servia para alguma coisa. Sabia bastante sobre plantas e sobrevivência, mas infelizmente não era capaz nem de segurar uma faca.
Quando estava escurecendo os canhões começaram a soar. Paramos de repente e contamos. Oito no total. Isso significava que morreram apenas seis na Cornucópia, ou menos que isso, já que alguém pode ter morrido depois. Restavam dezesseis tributos, o que era muito se comparássemos com as outras edições dos Jogos. Mas de alguma forma eu tinha convicção de que outros iam morrer de desidratação em pouco tempo.
Chegou um ponto que a floresta simplesmente ficou mais verde, estávamos perto da Cornucópia. Perto da água, que significava vida. Mas também perto dos Carreiristas, o que significava morte. Era uma faca de dois gumes, e eu não sabia o quanto cada lado predominava. Eu esperava estar vivo até os rostos aparecerem no céu na primeira noite dos Jogos.
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