Feroz
4 Três: Suprimentos
Notas iniciais
O tempo estava frio. Uma brisa soprava e eu queria muito ter um casaco. Eu estava apostando que os Carreiristas tinham cobertores e sacos de dormir para passarem durante a noite. Imediatamente comecei a pensar na possibilidade de encontrarmos os Carreiristas aqui perto. Com certeza eles não foram muito longe.
Chegamos na clareira onde estava a Cornucópia. Como pensei, apenas um Carreirista estava ali, protegendo os suprimentos. Era o Carreirista do Distrito 1.
– Ele deve ser o mais fraco – sugeriu Savannah. – Os Carreiristas são burros, eles sempre deixam os piores lutadores para esses trabalhos.
– Eu não teria tanta certeza – disse Sarah. – Ele não parece um inútil.
Observamos as mochilas que estavam dentro da Cornucópia. E depois o Carreirista.
– Tudo bem. Se não encontrarmos água em pouco tempo, vamos tentar roubar alguma coisa. É o nosso melhor plano, porque ele é apenas um e nós somos três.
Por algum tempo pude pensar que foi uma boa escolha ter ficado com Savannah. Ela começou a nos guiar pelas árvores, mexendo nas folhas e na terra com a sua única mão. Acho que ela sabia como encontrar água.
Fiquei atento, me lembrando de tudo o que eu sabia sobre água. Alguns pássaros cantavam perto daqui e era um bom sinal. Também procurei por rochas, mas só haviam algumas pedras enormes que não serviam para nada.
Então eu ouvi passos e vozes distantes. Eu sabia que eram os Carreiristas.
– Vamos sair daqui! – sussurrei para Sarah e Savannah. Elas pararam e nós começamos a correr até chegarmos na clareira da Cornucópia novamente. Me escondi em uma árvore e observei o mesmo garoto do Distrito 1. – Se quisermos fugir com alguma coisa, vamos ter que agir agora. Sarah, você vai berrar para chamar a atenção dele. Talvez os Carreiristas acabem ouvindo, mas se isso acontecer eles vão demorar para chegarem até aqui e nós já estaríamos longe. Entendeu? – Sarah assentiu. Dei a faca para ela e prometi que chegaria em pouco tempo. Puxei Savannah para longe e nós corremos até a Cornucópia, nos escondendo atrás dela.
O Carreirista deve ter percebido o barulho dos nossos passos, pois se virou e quase me viu. Ele começou a andar na nossa direção, mas antes que chegasse até a parede de trás da Cornucópia ele ouviu o grito de Sarah. Ele se virou novamente e começou a correr. Nesse momento nós saímos de trás da Cornucópia e entramos dentro dela.
A primeira coisa que fiz foi tirar a mochila, que não estava cheia. Ela não valia nada, mas mesmo assim decidi ficar com ela. Eu a abri e comecei a enfiar nela algumas coisas boas que vi no chão. Consegui uma lanterna, uma garrafa de água, um pacote de biscoitos, um saco de dormir e um estojo de facas. Savannah estava procurando garrafas de água e alguma coisa para o ferimento dela. Procurei pelos óculos de visão noturna que sempre ficam com os Carreiristas, mas não encontrei, pois eles provavelmente estavam usando eles naquele exato momento. Depois fechei a mochila novamente e a coloquei nos ombros. Eu não queria sair dali sem uma arma, então peguei um machado. Era a minha arma favorita e eu sabia muito bem usá-la. Não conseguia segurar mais nada, então chamei Savannah e juntos saímos da Cornucópia. Ela estava com duas mochilas, uma marrom e uma azul marinho. As cores se camuflariam facilmente na floresta.
Ouvimos um grito que era de Sarah. Eu temia que ela estivesse em perigo. Quando chegamos na floresta os dois estavam lá, lutando. Sarah tinha aquela lâmina enorme e o Carreirista tinha uma lança.
Me lembrei de como meu meio-irmão, Christopher, morreu no Massacre Quaternário ano passado pelas mãos do Carreirista do Distrito 1. Sarah não podia morrer da mesma maneira. Se ela morresse eu ia perder uma aliada. Ela era do meu distrito e se eu não ganhasse, eu queria que fosse ela no meu lugar.
Joguei meu machado nele. Acertei a panturrilha, exatamente onde eu queria. Meu objetivo não era matá-lo, eu faria isso outra hora. Para me vingar do que aconteceu com Christopher.
Sarah conseguiu sair e nós corremos para longe da Cornucópia e de onde sabíamos que estavam os Carreirista. Deixamos o garoto do 1 berrando ali no chão. Logo os coleguinhas dele iam chegar.
Sorri. Agora tínhamos três mochilas cheias de suprimentos que nos manteriam vivos e mais algumas armas que garantiriam a nossa segurança. Agora só faltava um lugar para passar a noite.
– Sarah. Sarah, você está bem? – perguntei.
– Estou com alguns cortes superficiais. Vocês conseguiram um kit de primeiros socorros?
– Sim – respondeu Savannah enquanto diminuíamos a velocidade. Fiquei atento para observar as árvores. O clima ia ficando cada vez mais quentes e as árvores, cada vez mais retorcidas. Decidimos parar, pois não adiantava termos um rio à nossa disposição se estivéssemos em um lugar quente e de clima semi-árido.
– Aqui é um bom lugar, eu acho. Vamos circular o lugar, ver se há alguma caverna.
Nós procuramos. Naquela parte da caverna haviam mais árvores, mesmo que elas fossem um pouco secas. Mas nenhuma caverna. Até que encontramos uma pedra enorme. Não era exatamente um esconderijo, mas se usássemos os nossos materiais, poderíamos fazer um.
– Você acha que podemos fazer um esconderijo? – perguntou Sarah.
– Foi exatamente isso o que pensei. Mas vamos ter que pegar muitos galhos e folhas. Você aprendeu a fazer abrigos no centro de Treinamento, Savannah.
– Sim. Não é difícil. Podemos ver o que temos de suprimentos e depois começamos a fazer o esconderijo.
– Tudo bem – nos sentamos com as costas encostadas na pedra. Abri a minha mochila e Savannah abriu as que ela tinha.
– Seis garrafas de água, cordas, curativos, seringas, cilindros com iodo líquido, comprimidos e alguns líquidos estranhos. Devem ter alguma utilidade para o meu braço –Savannah foi mostrando os itens e tentou organizar a mochila, mas ela só tinha uma mão e não conseguiu. Sarah pegou a mochila e colocou os itens mais úteis em cima e os menos úteis embaixo. Ela conseguiu enfiar tudo em apenas uma mochila, e a segunda ficou vazia.
– Eu consegui mais uma garrafa de água, um pacote de biscoitos, uma lanterna, um saco de dormir, um estojo com... sete facas, e mais um machado – falei, verificando os itens. – E mais o que eu tinha antes.
– Acho que com isso podemos sobreviver quase uma semana. Depois vamos ter que voltar para a Cornucópia ou continuar procurando um rio, pois a água vai acabar.
– Quais são as nossas chanc...
Nesse momento o hino começou a tocar. Os mortos iam aparecer no céu e esse era um momento que eu estava esperando desde o Banho de Sangue.
Fale com o autor