Feroz
1 Prólogo: Passado
Notas iniciais
O vento do ventilador de teto bate no meu rosto, exatamente como acontece todas as manhãs. Está quente, mas eu estou suando frio. Talvez eu tenha vivenciado um pesadelo, mas eu não me lembro de nada. Olho para o lado para ver se o meu pai já acordou. Sim, e ele deve estar na cozinha, nesse exato momento. Separando grãos. Ele sempre separa os grãos durante a manhã, para fazer pão.
Demoro uns dez segundos para acordar totalmente. Quando me estico, os meus inúmeros cortes e hematomas doem e toda a minha pele dói, fazendo eu me segurar para não gritar. O meu pior machucado é um na canela, que tem o tamanho da minha mão fechada. Quando eu era menor, em um dos meus primeiros dias de trabalho no campo, eu cortei a canela e entraram várias pedras dentro da carne. Demorou muito tempo para eu retirar tudo e o corte fechar.
Me levanto, passando a mão no interruptor para desligar o ventilador. Aqui eu não posso deixa-lo ligado, senão gasta energia demais. E aqui a energia é pouca. Meu pai me disse uma vez que o Distrito 9 fica bem longe do 5, então nós não temos energia durante vinte e quatro horas por dia.
Vou para a cozinha já com o estômago roncando. Eu aprendi a não tomar o café da manhã, para economizar a comida. Mas eu percebo que estou indo para lá apenas para ver a televisão.
Quando chego a TV está ligada. Meu pai está triturando os grãos já escolhidos, para depois colocar na máquina de fazer pão. Me junto à ele, já pegando a massa e começando a sovar.
– Bom dia – cumprimento.
– Bom dia – ele repete, mas dessa vez como uma afirmação. – Esse será um bom dia.
– Como pode ter certeza? – eu sei que isso é atrevimento demais, eu nunca faço uma pergunta desse tipo para o meu pai, porque, se eu fizer isso, vou levar um tapa tão forte que não vai sobrar quase nenhum dente na minha boca. – Hoje é a leitura do cartão.
Essa última frase faz ele gelar.
– Não sabemos o que vai acontecer. Mas nós não temos condições para acordar e dizer que hoje o dia será ruim. Nós precisamos acreditar. Acreditar que nada de mal vai acontecer para a nossa família. E eu sei que você não vai ser escolhido. Eu não fui escolhido. Ninguém da nossa família foi. E essa é uma das suas primeiras colheitas.
– Eu me candidatei às tésseras...
Meu pai não responde. Ele sabe que o meu nome vai estar naquele globo de vidro quinze vezes. Eu peguei as tésseras. Inclusive esses grãos que estão na mesa são parte de uma porção que consegui nas tésseras. Mas nós sabemos que ninguém consegue sobreviver apenas com uma porção mensal de grãos e óleo. Ninguém consegue. As tésseras só ajudam um pouco.
– O que você acha que vão anunciar no Massacre Quaternário? – pergunto, meio receoso. Essa vai ser a edição vinte e cinco dos Jogos. O Primeiro Massacre Quaternário. E a leitura do cartão vai ser daqui a alguns minutos, vai passar na televisão.
A massa está sovada o suficiente. Coloco-a na máquina e o meu pai coloca os grãos. Ele adiciona alguns ingredientes e fecha a tampa. Então nós nos sentamos na pequena mesa, com os olhos grudados na TV. Eu estou muito ansioso. Nervoso, na verdade. É muito difícil ficar parado sem saber o que está por vir, o que vai acontecer nesse ano. Pelo que os tributos vão passar da forma mais horrível.
O programa que está passando é o das notícias continentais, o pior programa da televisão. Eu estou começando a pensar em sair daqui e esperar o anúncio em outro lugar quando a tela escurece e uma nova imagem aparece.
É a mansão do Presidente Snow. Aquele velho estúpido e com olhos de cobra está na varanda, acenando para o público e para as câmeras.
– Quanta falsidade – comento. – Eu me ofenderia mais se ele...
– Não diga isso. Podem ter Pacificadores na rua.
– Não me importo.
– Dobre essa língua agora! – ele gritou, agora com impaciência.
Depois de um grito desse, resolvo ficar quieto. O Presidente Snow se endireita depois da ceninha cínica que ele estava fazendo. Então se aproxima do microfone.
– Bom dia, cidadãos de Panem! – ele grita, fazendo as pessoas na plateia aplaudirem. – Estamos aqui para anunciar o Primeiro Massacre Quaternário! Esse será um ano lendário e que ficará marcado na memória de todos para sempre!
– Até parece... – rio, ironicamente.
Se você não quer ouvir, não me atrapalhe – diz meu pai, movimentando a mão para pedir silêncio.
– Vamos começar! Teremos a honra de realizar o Primeiro Massacre Quaternário! – informa Snow, sorrindo feito um réptil. Vejo um garotinho com um terno totalmente branco avançar em direção a Snow, ele para exatamente ao seu lado e estende uma pequena caixa de madeira para ele, já aberta. Dentro estão centenas de papéis tão finos quanto uma folha de papel papiro. Snow mexe a mão teatralmente e puxa um dos papéis.
– Ele acha que nós acreditamos que esse é um sorteio de verdade! – grito, com muita raiva.
– Exatamente. É muito óbvio. Todos esses papéis devem ter a mesma coisa escrita – afirma meu pai. E eu também acredito nele. Esse é o tipo de coisa que o Presidente Snow faria. Todos os papéis devem ter a mesma mensagem. Ou seja, de qualquer forma, o que vai ser anunciado é algo que o Presidente Snow selecionou e escolheu com cautela e todo o cuidado do mundo. Para essa edição ser a mais sanguinária em toda a história dos Jogos Vorazes.
Snow tosse algumas vezes e finge fazer um exercício para ajeitar a voz.
– No aniversário de vinte e cinco anos dos Jogos Vorazes, para que os rebeldes se lembrem de que seus filhos estão morrendo por seus pais terem escolhido iniciar a violência, cada distrito fará uma votação para escolher os tributos que o representarão.
Demoro um bom tempo para captar a mensagem. Muito tempo. Parece que eu não ouço o Presidente Snow terminar o discursinho dele com a frase “E que a sorte esteja sempre ao seu favor!”, mas eu sei que eu ouvi. A tela escurece, esse é o momento em que o meu pai desliga a televisão.
“Para que os rebeldes se lembrem de que seus filhos estão morrendo por seus pais terem escolhido iniciar a violência”. Ele estava se referindo ao fato de que os nossos pais participaram da primeira rebelião? Ao fato de que houveram os dias escuros? Ao fato de que foram eles que “causaram” a origem dos Jogos Vorazes? Claro que sim! Mas ele está errado! O Presidente Snow está errado! Os distritos se rebelaram com total razão, e eu com certeza apoio isso.
Com esse pensamento eu consigo formar uma frase na minha cabeça. É uma frase que eu sempre vivi e com a qual eu sempre concordei. Mas só agora eu percebi.
“Eu odeio a Capital”.
***
Minhas mãos cada vez sangram mais. Os dedos latejam e possuem pequenas marcas feitas pela enxada que seguro. Mas mesmo com a dor eu continuo fazendo os buracos na terra úmida. Estou quase terminando a cota diária. Hoje todos trabalham menos horas, pois amanhã é a colheita. Termino a fileira de buracos e atiro a enxada no chão, deixando o semeador fazer o seu trabalho. Ele coloca as sementes e outro homem vai atrás, regando a terra e tapando tudo para parecer que nada aconteceu no solo. Viro para trás para olhar para a usina de processamento de grãos. Lá é o melhor lugar para trabalhar, tem ar-condicionado e eles só precisam controlar máquinas e separar os grãos para o processamento. Sim, lá é o melhor lugar. Mas eu estou no campo de plantio, abrindo as cavidades na terra para depois plantar trigo. Essa é a minha vida. Essa é a vida dos trabalhadores dignos do Distrito 9. Mas somos nós que ganhamos menos.
Caminho para a próxima fileira afim de fazer mais buracos, mas então eu vejo as pessoas se desesperando, correndo para fora do campo. E eu sei que eu também preciso correr agora. Porque eu sei que eu posso morrer.
Vou para a direção mais óbvia. A que os outros estão indo. Para a cerca que separa o Distrito 9 dos outros. Lá vamos estar seguros, na floresta. Eu ouço os tiros que nunca cessam, e é uma das primeiras vezes que eu sinto medo. Isso quase nunca acontece, de os Pacificadores atacarem. Deve ter acontecido uma pequena rebelião. E eles estão cada vez mais perto de nós, então eu não largo a minha enxada.
Alguns trabalhadores vão caindo ao meu redor, mas eu não. Eles estão querendo me parar, mas eles sabem que eu não vou. Eu vou correr e me esconder, e eles não conseguirão me achar. Eu consigo.
Chego na cerca, sou um dos primeiros. Uma mulher já conseguiu passar e está se escondendo na floresta. Faço um buraco na cerca com a enxada, onde eu posso passar. Atrás de mim, várias pessoas se amontoam para também escaparem pelo buraco que fiz. A floresta está ali, a poucos metros de distância, quando eu ouço um grito grave que eu sei que é o do meu pai. Mas eu só hesito por um segundo, porque eu sei que os Pacificadores são treinados a vida inteira para acertar na cabeça, e eles acertaram. Eles acertaram o meu pai e agora ele está morto.
Coloco o pé em uma cavidade na primeira árvore e vou subindo, ouvindo os gritos e os ruídos de pessoas caindo no chão com a cabeça sangrando. Mas eu não ouso olhar, se isso acontecer eu não vou ter mais coragem. Então apenas sigo em frente e deixo as folhas me cobrirem. Eu só tenho tempo para me apoiar em um galho antes de apagar.
*
Eu estou sozinho. Eu sei disso porque não há nenhum barulho. Olho para os corpos no chão enquanto desço da árvore com cautela para não cair. Meus olhos se arregalam quando eu vejo tudo isso com clareza e eu estou quase concluindo que ninguém sobreviveu quando vejo uma garota ainda menor que eu no chão. Está quieta e em silêncio, com a mão na lateral do corpo. Vou imediatamente até ela, pulando sobre os corpos e chutando folhas no caminho. A garota está definitivamente à beira da morte. Ela é pálida e tem os cabelos ondulados cor de caramelo. Ela produz um som de espanto quando eu chego perto.
– Ei, tudo bem – digo. – Precisamos ir para a minha casa.
– Eu vou morrer – ela sussurra, como se isso fosse óbvio. E talvez seja.
– Não. Não se irmos rápido.
Pego a garota como se ela fosse quebrar. Ela não tem mais que trinta e cinco quilos. E provavelmente é mais nova que eu. Desvio novamente dos corpos para passar e atravessar a cerca, que está completamente destruída. Algum animal selvagem pode chegar até as casas do distrito, e aí vai ser uma confusão. Não ouso olhar para o meu pai, mas eu tenho certeza que ele está morto há muito tempo.
A noite está cada vez mais fria e a garota se encolhe enquanto eu caminho. Apoio-a melhor nos meus braços, segurando as costas dela e a parte interna dos joelhos. O sangue em suas costelas molha a minha camiseta, sujando-a mais ainda. Não sei se ela vai sobreviver. Já até fechou os olhos.
Eu estou com raiva dos Pacificadores. Nenhum morreu no ataque. Eles mataram friamente e agora devem estar bebendo vinho em suas casas. Maravilha!
E ainda por cima quase mataram essa garota. Eu sei que ela está viva pelo ruído da respiração, mas ela já vai morrer. Recebeu um tiro.
– Chegamos – digo, levantando a cabeça dela. Abro o portão com a chave que estava no meu bolso e carrego a garota para dentro. Está fresco dentro de casa, mas mesmo assim eu ligo o ventilador.
– Como eu sobrevivi? – pergunta a garota, ainda com os olhos fechados. Ponho-a na mesa da cozinha. Ela fica mexendo no ferimento, o que só piora. – Estava tão convicta de que ia morrer.
– Chega de perguntas, garota. Eu vou estancar o sangue, e para isso você não pode se mexer – explico à ela, molhando um pano e o torcendo para ficar apenas úmido.
– Meu nome é Ashley. Não “garota” – ela bate o pé na mesa, mas logo se arrepende.
– Tudo bem, Asley – começo, mas ela me corta.
– É Ashley! Não Asley!
– Que seja.
Coloco o pano de uma só vez no lugar onde sai o sangue. Ela dá um berro que a quadra inteira deve ter ouvido e depois atira a cabeça para trás. Então ela se cala.
Ficamos alguns minutos – talvez cinco – ali. Parados, apenas ouvindo os sons que ela produz enquanto o sangue encharca o pano. Decidi que era melhor substituir o pano por um curativo improvisado.
– Acha mesmo que isso vai me fazer sobreviver? – ela sussurra para mim.
– Não. Mas vai melhorar.
– Vai infeccionar. Uma ótima forma de morrer.
– Por que está dizendo isso?
– Porque eu não tenho esperança.
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