Femismo
3 Adolescente (parte 2)
Era sábado.
Nos finais de semana meu pai costumava levar eu e Raquel para a casa dos pais dele. Meus avós tinham um terreno grande, que foi invadido pelos próprios filhos. Metade das minhas tias fez casas dentro do terreno – tenho sete tias e quatro delas moravam lá. Construíram um muro ao redor das casas e ali parecia um condomínio. Eu gostava de ir para lá porque tinha uma grande concentração de primas. Infelizmente morávamos longe e só dava pra ir aos fins de semana. Às vezes nem íamos porque também visitávamos a família da minha mãe.
Raquel estava jogando algum jogo de videogame com nossas primas. A maioria das minhas primas eram mulheres, e às vezes elas não me incluíam em brincadeiras. Naquele “condomínio” havia sete primas e apenas dois eram homens – Tales, uma criança, e Renan, um jovem adulto. Eu passava a maior parte do tempo com Tales apesar da nossa pequena diferença de idade. E era o que eu fazia naquele dia.
Eu e Tales estávamos no sofá assistindo uma animação. Estávamos sozinhos porque o pai dele estava na casa do nosso avô, e Tales não tinha mãe – ela o abandonou, nunca teve interesse no próprio filho.
“Will... Já beijasse alguém?” – perguntou com um olhar estranho.
“Infelizmente sim. Mas só te conto de você prometer não dizer a ninguém!”
“Eu juro!”
Tales era cinco anos mais novo que eu, e era o primo que eu mais confiava. Ele já tinha mais experiências com o sexo oposto do que eu. Às vezes ele me contava histórias que me deixava envergonhado e chocado. Mesmo que ele ainda não tivesse tido... sabe... uma relação mais íntima... ele já havia beijado pessoas demais para alguém da sua idade. Por isso eu falei do meu primeiro beijo. Como ele era mais experiente, apesar de mais novo, talvez ele notasse que foi errado.
“...Eu não falo com Jane há três dias. Acho que não vale à pena.”
“Nunca aconteceu algo assim comigo. Normalmente eu gosto quando as meninas têm pegada. Mas isso não significa que eu deixo todo mundo fazer isso. Se eu não gostei eu não quero, e se eu não quero... ninguém devia me forçar a querer...”
“Eu penso desse mesmo jeito.” – fiquei feliz ao ouvir aquilo – “Quer dizer, eu nunca tinha beijado antes nem nada... Nem gosto da ideia de uma menina me tocando em lugares... Ér... Mas se eu beijei não significa que quero algo a mais.”
“Às vezes você nem precisa beijar para acharem que você quer algo a mais.”
(Se eu estivesse em um visual novel (romance visual), que é um gênero de jogo onde há muitos textos, como um livro digital ilustrado, e o jogador pode tomar decisões como em uma prova objetiva. Como uma prova, nesse gênero de jogo também há as respostas certas e as erradas. Por exemplo, se for um jogo de romance as respostas erradas não irão conquistar o garoto. No meu caso, naquele dia, eu tinha quatro direções para ir, quatro decisões para tomar e apenas uma era a correta:
A. (Mudar de assunto).
B. Como assim?
C. As mulheres são terríveis, elas alimentam fantasias que não existem.
D. Já te fizeram algo que tu não queria?
Escolhas simples e quase bobas que poderiam mudar uma vida. Como eu disse antes, o Efeito Borboleta é quando uma ação minúscula trás um efeito enorme. Eu tinha um peso para carregar nas minhas costas que ainda não havia percebido. Aquilo não era um jogo, eu não podia procurar as repostas em algum lugar e muito menos jogar outra vez e fazer tudo certo. Eu só tinha uma chance e nem havia percebido, ainda.)
Notei o tom triste na frase de Tales. Isso me lembrou que ele não ta falando muito comigo desde o aniversário. Desde que ele voltou com Renan e sua namorada.
Meu coração acelerou. Lembrei de Luiza outra vez.
Por que Tales falou naquele tom?
“Já te fizeram algo que tu não queria?”
Ele chorou. Não foi preciso uma palavra para confirmar.
Queria saber quem fez e o que exatamente fizeram, mas eu só o abracei. Sei que não é fácil falar – há a vergonha do que aconteceu e o medo de alguém lhe culpar. Quis confortá-lo; era apenas uma criança. Um menino chorando em silêncio nos meus braços. Seus soluços mal eram ouvidos. Um sofrimento silencioso que fez lágrimas descerem pelos meus olhos. Meu primo, meu amigo, uma criança; queria defendê-lo, protegê-lo, mas ao mesmo tempo senti medo. O que eu poderia fazer por ele? O que nós iríamos fazer?
“Foi a namorada de Renan. Estávamos sozinhos no carro e...” – ele começou a falar sem eu ter dito nada.
E agora? Falamos para alguém? Denunciamos? E se ninguém acreditar nele? Se isso destruir nossa família? E se ninguém fizer nada?
“O... O que exatamente ela fez?”
“Ela me forçou a tocar nela. A minha sorte foi que Renan ligou porque não queria atrasar pro aniversário. Mas eu to com medo, Will. Acho que foi só o começo. Me sinto tão sujo...”
Sequei meu rosto. Ainda não sabia o que fazer.
“Evita ficar sozinho no mesmo lugar que ela.” – (Eu disse o mesmo conselho que segui quando era criança. Eu achava que por ter funcionado comigo também funcionaria com Tales. Acreditava mesmo que era uma solução).
“Por favor, não diz pra ninguém.” – ele me abraçou com força.
“Eu não vou dizer.”
Em silêncio, voltamos a assistir o desenho sem realmente prestar atenção. Não comentamos nada, não havia o que dizer além de lamentações.
“Sabe...” – quebrei o silêncio – “Quando eu tinha tua idade aconteceu algo parecido comigo...” – senti meu coração acelerar, ainda com medo do que havia lembrado recentemente – “Nossa tia, Luiza, colocou a mão entre as minhas pernas, mas não deu para fazer o que ela queria porque Fabiana chegou na hora. Eu contei para Fabiana, mas ela não acreditou que foi forçado. Fiquei com vergonha de contar a alguém, então decidi ficar bem distante de Luiza para não acontecer algo parecido.”
“Também foi com alguém da família...”
“A família é de onde a gente menos espera. Mas sabe o que é pior? Não ter apoio. Eu disse para minha prima; e contei para o meu pai sobre o ‘beijo’ com Jane. As duas praticamente me falaram que eu só devo aceitar e seguir em frente, mas eu sinto que eu preciso fazer algo senão coisas ruins vão continuar acontecendo sem parar. Eu só não sei o que fazer.”
“O que teu pai disse?”
“Que o silêncio é a melhor resposta.”
Tales fez uma expressão estranha. “Nossa...”
Paramos de falar quando o pai de Tales chegou para preparar o jantar.
No resto do fim de semana seguimos o conselho do meu pai. Eu estava observando tudo sem poder fazer nada.
Vi quando, no domingo, a namorada de Renan apareceu para visitar Renan, que morava numa casa vizinha. Notei quando ela passou por Tales e o observou com um sorriso. Vi quando Tales fez uma expressão de nojo e virou o rosto. Eu me calei porque não tinha poder. Apenas desejei o melhor para o meu primo quando me despedi e voltei para minha casa. A raiva preencheu meu coração.
Na segunda-feira Jane passou a mão na minha bunda quando largamos. Ela mordeu os lábios e pediu para eu encontrá-la nas escadas de emergência. Eu não disse nada, apenas fui embora com o peito quente de raiva.
Na terça-feira ouvi um grupo fazendo comentários maldosos com o aluno novo. Ouvi uma menina falando que queria participar de um ménage com ele e o namorado. Minha raiva aumentou no silêncio, principalmente quando Jane perguntou por que não me encontrei com ela ontem.
Meu coração era um pote com uma tampa. O pote se preenchia de raiva – talvez ódio – e o espaço não era eterno. A cada dia, a cada hora o pote era cheio aos pouquinhos. Eu não sabia como iria explodir, apenas tinha noção que era inevitável.
Na quarta-feira o conteúdo do pote escapou um pouco. O pote encheu por completo quando Jane perguntou-me novamente por que eu estava a ignorando. E o pote esvaziou um pouco quando cheguei em casa.
Raquel estava deitada no sofá, ela não foi para a aula porque estava com enxaqueca.
“Relaxando?” – perguntei assim que tirei os sapatos.
“Entediada.”
“William!” – meu pai chamou – “Que bom que você chegou! Pode me ajudar? Enquanto estou fazendo o almoço, você pode arrumar a mesa?”
Observei Raquel deitada e assistindo televisão. Me perguntei há quando tempo ela estava ali para dizer que está entediada. Eu tinha acabado de chegar da escola e ela estava o dia em casa – aparentemente a enxaqueca tinha passado.
E, bom, naquele momento o pote não podia mais segurar nada. Estava lotado, repleto de raiva.
“Por que eu?” – pela primeira vez ignorei a regra do silêncio – “Raquel ta deitada fazendo nada, ela pode muito bem arrumar a mesa.”
“Por que eu faria isso com dois homens em casa?” – (Raquel repetiu o que sempre ouvia mamãe falar).
“Arrumar uma mesa onde você vai comer não vai te transformar num homem. Pai, eu to cansado de ser escravo da minha irmã. Ela não faz nada o dia inteiro e ainda vem me dizer que tudo o que eu faço é porque eu sou homem!” – bati meu punho na mesa – “Como se mulheres não tivessem capacidade de fazer atividades domésticas.”
“Will, não faça uma cena...”
“É, vai cumprir seu papel de homem!” – ela riu.
Fiquei tão irritado que não ajudei meu pai o dia inteiro. Não falei com minha família o resto do dia, nem quando a minha mãe ameaçou me bater. Passei o dia no meu quarto fazendo nada, assim como Raquel fazia. Me sentia impotente. Como se eu enxergasse algo que ninguém vê.
À noite, meu pai trouxe meu jantar e conversou comigo:
“Meu bem... Por que está tão chateado?”
“Estou cansado de fazer tudo. Raquel não faz nada e ainda reclama de tédio.”
“Você é o irmão mais velho.”
“Eu sei bem que se eu fosse mais novo ainda teria que fazer tudo. Sei que é apenas porque eu sou homem!”
Papai passou a mão no meu cabelo.
“É injusto. Nem faz sentido, na verdade.”
“Se Raquel lavar os pratos você volta a me ajudar?”
“Bom... Já é um começo.”
Meu pote explodiu de uma vez na quinta-feira. Raquel estava com enxaqueca de novo e papai a levou para o hospital. Para eu não ter que ir andando sozinho, mamãe me deu dinheiro para pegar uma van.
De manhã as vans e ônibus são lotadas. Cheias porque trabalhadores e estudantes a utilizam nesse horário. Era mais rápido que ir à pé, mas o preço da velocidade era grande.
Fiquei em pé, mas não estava apertado ao ponto de todos encostarem uns nos outros. Eu estava segurando em duas cadeiras quando uma mulher entrou e encostou atrás de mim. Eu me afastei, fui para o lado e deixei um espaço para ela ficar. Porém, ela me seguiu e continuou atrás de mim. Pedi licença e fui para as cadeiras do outro lado. Infelizmente ela me seguiu novamente e encostou seus seios nas minhas costas. Não é a primeira vez que algo assim acontece. (Não era incomum mulheres encostarem-se a mim quando eu usava o transporte público. As mulheres faziam questão de encostar qualquer parte do corpo, nem que seja um ombro ou as mãos. Normalmente eu ficava assustado e não sabia o que dizer. Mas naquele dia eu estava muito irritado com todos os acontecimentos recentes e falei sem pensar).
“Moça, não tem espaço pra tu não!?” – gritei irritado, olhando para trás – “Tem tanto lugar e tu quer ficar encostada em mim. Num tem nada melhor para fazer não?”
“Ah não, rapaz! Eu não notei que havia espaço.” – ela deu uma risada sem graça.
“Não vem me fazer de idiota, você percebeu sim! Eu me afastei e você continuou se esfregando em mim!”
“É verdade, eu vi!”
“Nojenta!”
Eu fiquei... feliz quando vi outras pessoas me defendendo – homens e mulheres. Ouvi os xingamentos e ri quando vi aquela mulher ser expulsa do veículo. Pela primeira vez me defenderam por algo que nunca foi minha culpa.
Nesse momento eu percebi que falar trás mais resultados que ficar calado. Foi com essa inspiração raivosa que finalmente mandei a real para Jane:
“Jane, me deixa em paz. Não quero tu atrás de mim.”
“O quê? Mas por quê?”
“Odiei aquela merda que tu chama de beijo e percebi que não gosto de tu como pessoa. Então vai te lascar e me deixa em paz!”
No intervalo, deixei meus “amigos” de lado e me sentei em um canto isolado. Até o novato sentar perto de mim.
“Dia difícil?” – foi a primeira coisa que ele disse.
“Vida difícil.”
Ele riu e notei como seus dentes se destacavam de tão brancos. Suas covinhas eram fundas.
“Por que tu sentou perto de mim?”
“Eu sempre fico aqui”.
Descobri que o novato se chama Tiago e ele ainda não tem namorado. Tinha uma irmã mais velha e só conversava com outros alunos casualmente, não tinha amigos de verdade. O que ele mais faz é observar as pessoas ao seu redor, já que não pode se incluir na rotina delas.
“Confesso que ouvi tua discussão com Janel...” – coçou a orelha, perto do cabelo Black Power. – “Não sou intrometido, mas não pude não ouvir.”
“Tudo bem.” – notei sua curiosidade – “Recentemente percebi que ser homem não é fácil. São tantas coisas erradas que acontecem e ninguém parece se importar. Às vezes eu acho que eu to exagerando, mas não consigo só deixar pra lá. Jane fez uma coisa comigo, que parece que só eu acho errado!”
“O que ela fez?”
“Me beijou. Sabe, eu queria, mas depois não quis mais. Falei e ela continuou me beijando. Ela só parou porque eu corri.” – senti as lágrimas nos meus olhos – “Ela continua passando a mão em mim e pedindo pra ficar comigo de novo. Hoje eu tive que ser grosso e nem tenho certeza se vai funcionar.”
“Escuta.” – ele colocou a mão na minha coxa – “Tu não ta errado só porque quis o beijo e se arrependeu, mas não é fácil as pessoas perceberem o que tá errado. As pessoas são ensinadas de um jeito e é difícil notar que o que te ensinaram não é certo. Eu sou homem e também passo por isso. Na verdade, pior que isso – eu sou homem, negro e gay.”
“Qual o problema em ser negro?”
“Eu já ouvi tantos comentários maldosos por causa do meu cabelo.” – ele tocou no Black Power— “Uma vez, quando eu era criança, o professor fez uma ‘brincadeira’ pedindo aos alunos pra dar nomes ao meu cabelo. Falaram algodão, arbusto, juba de leão, Brombil, ninho... Painho quis comprar produtos caros para deixar ele liso, mas eram caros demais. Não temos muito dinheiro. Então ele raspou o meu cabelo.”
“Mas teu cabelo é tão bonito...”
“Uma vez painho foi numa loja comprar um sorvete pra mim. Fiquei esperando do lado de fora e sentei na calçada. Um rapaz, funcionário de lá me expulsou dali. Na época eu não sabia o porquê, mas meu pai nunca mais foi nessa loja...”
“Vocês não denunciaram?”
“Tu acha que alguém ia dar atenção pra isso? Dois pobres, favelados...”
“Que horror!” – me senti mal.
“Nessa escola eu ouço piadas por tudo isso. Por ser gay – Raquel já me disse que não existe homem gay por não ter um periquito na relação. Por ser negro – já me chamaram de macaco várias vezes; teve uma vez que uma menina perdeu dinheiro e as amigas dela tinham certeza que eu tinha roubado! E por ser homem... bom, tu já sabe.”
Segurei a mão dele. – “Não fique em silêncio. Se alguém fizer alguma coisa ruim contigo, grite pra todo mundo ouvir”. – lembrei do que aconteceu na van.
“Nem sempre é tão fácil assim.”
“Não, mas eu vou te apoiar!”
Ele sorriu e apertamos as mãos. Nossas cores se destacavam e misturavam naquele aperto de mãos.
“Vai me apoiar mesmo que meus problemas sejam diferentes dos teus?”
“Claro que vou! É a primeira... segunda vez que alguém me apoia!”
“Essa é minha primeira vez”.
Esse foi o começo de uma grande amizade!
(Naquele mesmo dia eu falei para os meus pais o que aconteceu com Tales. Eles ficaram chocados e fomos visitar meu tio e conversar direito com Tales. Ele segurou minha mão o tempo todo. Decidiram fazer uma denúncia porque a namorada de Renan havia mandado várias mensagens com ameaças. Ela não foi presa, mas foi obrigada a manter certa distância dele!)
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