Notas iniciais
Por fim, William se tornou um adulto!

Era uma social no trabalho. A chefa pagou nosso jantar, então ninguém tinha medo de pedir algo caro. Estávamos comemorando um longo projeto que finalmente havia sido concluído! Eu era o líder do projeto, as outras apenas me auxiliaram, mas ninguém me parabenizou. Eu não tinha problemas com isso, naquele emprego é preciso fazer milagres para ouvir um “você fez um bom trabalho”... Não tinha problemas até aquele dia!

Havia uma novata conosco, contratada há um mês. Ela estava bebendo ao meu lado. A vi beber várias latinhas de cerveja e senti o cheiro de álcool forte ao meu lado. Normalmente ela era quieta, mas naquele momento falava sem parar.

“Vou te dizer, isso num é pra qualquer um! Mal entrei na empresa e já tem um pojeto desse.”

A chefa ria, achava hilário sua nova contratada se soltando.

“Eu ‘tava até me perguntando de três mil era um salário que valia à pena...”

Ali o tempo parou pra mim. Três mil?

R$ 3.000,00?

TRÊS MIL?

Normalmente eu falava contra qualquer injustiça que via. Eu e Tiago praticamente somos o terapeuta um do outro! Aprendemos juntos a ter coragem. Aprendemos muito um com o outro. Aconselhávamos um ao outro, nos ajudávamos, nos amávamos. Desde a primeira vez que nos falamos no colégio viramos melhores amigos, e eu me afastei de todas aquelas pessoas tóxicas que falava antes.

Mas não consegui falar daquela vez. Primeiro porque foi um comentário rápido, outra funcionária logo mudou de assunto; segundo porque era meu emprego, meu ganha-pão! Questionar a chefa era difícil porque ela não era tão tolerante. Eu não consegui falar nada, só fingir ignorar.

“Titi, venha me ver!” – liguei para meu melhor amigo assim que saí.

“Acha que eu não tenho vida?”

“Preciso discutir. Vou passar no mercado e comprar porcarias.”

“Nesse caso eu vou!”

Eu morava um pouco longe da minha família porque era próximo ao trabalho. Não valia muito à pena porque meu salário não era dos melhores e Tiago também morava longe de mim, apesar de me visitar toda semana. Normalmente ele vinha porque ele tem carro ou o namorado dele o leva para não ser tão perigoso. O que valia à pena naquela casa é que eu moro sozinho! Tive muitas paqueras e as levava para casa sem me preocupar se tinha alguém para atrapalhar.

Tiago não demorou. Eu havia comprado sorvete, chocolates e vodka.

“Conte-me.” – Tales tinha uma barba rala e não usava mais Black Power. Seu cabelo era raspado de um lado apenas.

“Na social de hoje eu descobri que a novata (detalhe: ela foi contratada há um mês) recebe quinhentos reais a mais que eu!” – bebi um gole da vodka. – “Ela estava bêbada e falou o salário aleatoriamente. Titi, eu trabalho lá há três anos! Meu salário só aumenta por causa da inflação e da passagem de ônibus. Por que ela entrou agora e já recebe mais!?”

“Bom, ela pode ter mais experiência ou alguma formação a mais que tu. Tu conhece ela? Sabe se ela fez pós?”

“Num sei, não. Ela parece ser bem nova.”

“A aparência engana.”

Então decidi me aproximar da novata. Precisava ter certeza de tudo antes de reclamar.

Nosso intervalo era no mesmo horário. Ela não comia na empresa, mas sim em um restaurante na esquina porque lá era bem barato! Eu a segui.

“Oh! Olá, Cássia!”

“Hm?” – ela virou o rosto e percebi que era a primeira vez que realmente olhava para ela. Eu me apeguei apenas ao estagiário, único que eu conversava de verdade. Eu não faço muita questão de ter amigos naquela empresa, e essa novata também não parecia fazer questão. Naquele momento notei como seu rosto era redondo e suas bochechas enormes. Seus olhos eram escuros e seu lábio inferior era grosso, como um beiçinho. – “Ta falando comigo?”

“Tem outra Cássia aqui?” – olhei ao redor.

“Meu nome é Camila”.

Fiquei sem graça e me desculpei. Mas isso não impediu minha aproximação não-tão-sutil. Sentei perto dela e tentei puxar assunto.

“Acho que nunca nos falamos, né?” – comecei – “Trabalhamos no mesmo escritório e nunca conversamos.”

“E você decidiu se aproximar agora, do nada, porque...”

“É... que antes eu estava muito concentrado no projeto. Não tinha espaço nem pra respirar.”

“Sei.” – ela riu e pegou uma colher de cogumelo grelhado. Olhei seu prato.

“Tu é vegetariana? Ou vegana.”

“Vegetariana.”

Olhei o estrogonofe de frango no meu prato, além da batata palha e o arroz. Cocei a cabeça. O prato dela tinha cogumelo, legumes e um purê. Parecia mais saudável e até mais gostoso. O engraçado é que o rosto dela é mais gordo que o meu... Bom, também tem a questão do metabolismo. E algumas pessoas só têm o rosto gordo.

“Não precisa se sentir culpado. Não me importo de você comer carne.” – ela me olhou e sorriu. Um sorriso pequeno. Um belo sorriso que fazia uma curva em sua bochecha.

Comemos em silêncio a maior parte do tempo. Num ato desesperado perguntei por que ela é vegetariana, apesar de saber por que pessoas se tornam vegetarianas. A minha sorte foi que ela contou uma história interessante da sua infância; ela visitou as avós num sítio e se sentiu mal por todos os animais que havia lá, principalmente quando foi comer um hambúrguer e seu avô falou do que ele era feito. Fiquei comovido. Nem todas as mulheres mostram uma empatia tão forte.

“Eu só não consigo ser vegana porque sou viciada em queijo e leite.”

“Tu tem um grande coração.”

Ela me olhou de repente e prendi a respiração. Os olhos dela são tão escuros e profundos, como o mar à noite. Camila se levantou e levou seu prato sujo para o balcão. Respirei fundo.

“Vou voltar pro escritório!” – me avisou e foi embora.

Encostei-me à cadeira. Me aproximar dela pode ser perigoso.

Passei a mão no cabelo e liguei para o meu melhor amigo.

“Fala, moleque!” – ele brincou como sempre. Tiago trabalhava como Gerente de Marketing numa empresa de médio porte. O nosso intervalo tinha trinta minutos de diferença.

“Caramba, ela é muito bonita! A novata.”

“Se liga! Ela pode ser o motivo da tua demissão.”

“Perigosa!”

“Continua se aproximando pra conhecer melhor. Não dá para julgar pela aparência, tu sabe muito bem disso!”

E era verdade. Eu já saí com várias pessoas, homens e mulheres (me descobri no começo da faculdade, mas tive facilidade em aceitar graças a Titi). Só namorei uma vez e não deu certo! Na verdade eu namorei uma mulher linda e controladora. Ela queria sugar minha liberdade desde o início; e só me livrei dela porque Tiago abriu meus olhos. Quando estava com ela, eu não percebia que ela tentava controlar o que eu comia, o que eu falava e até meu peso. Ela mexia com minha mente de modo que eu acreditava fielmente no julgamento dela. Tiago me ajudou muito e terminei o relacionamento antes de depender dela por completo!

No outro dia decidi almoçar com Camila novamente. O almoço era a desculpa perfeita! Não havia muito espaço para conversar no escritório.

“Oi de novo!” – falei.

“Boa tarde, William!”

Nos servimos e sentamos de frente um para o outro.

“Só nós duas almoçamos aqui?” – ela levantou a sobrancelha.

“É, as outras duas normalmente pedem comida por aplicativo. E o estagiário trás comida pronta”.

“Entendi... Eu descobri ontem que você é o líder do maior projeto, e também foi o líder o último projeto. Eu realmente não sabia!” – ela estendeu a mão – “Meus parabéns, você fez um ótimo trabalho! Eu mal tinha entrado na empresa e me pediram pra fazer várias análises, pensei que ia enlouquecer. Prometi a mim mesma que se desse tudo certo ia beber até desmaiar! Foi tudo muito rápido e só descobri agora que há líderes. Pensei que o chefe distribuía o que cada um devia fazer, já que a empresa é pequena.”

“Normalmente eu sou o líder dos projetos mais complicados. Acho que é porque sou o único que tem um curso de Excel.”

“Será que é só por causa disso?” – ela bebia o suco e me olhava. Aquele olhar profundo novamente.

“É o único motivo que consigo pensar.”

“E se for pela sua competência? Se você trabalha com mais eficiência, ou até porque tem maior espírito de liderança.”

“É, pode ser também.” – voltei a comer. A verdade é que a chefa raramente me elogiava, então eu não tinha certeza se era um bom funcionário.

“Você...” – ela mexia no prato com o garfo, sem me olhar – “Você tem dificuldades em pensar coisas positivas de si mesmo?”

“Qual homem não tem?” – fui sincero.

“É verdade.” – ela parou – “Qual homem não tem? é uma boa pergunta.”

Ficamos em silêncio, apenas almoçando.

“Achei estranho porque não ouvi a chefa te elogiar ou dedicar uma bebida pra você na comemoração.” – Camila puxou assunto – “Por isso pensei que não tinha líder.”

“Ela é uma pessoa difícil de agradar. Mas, me diz aí Camila, qual a tua idade?”

“Vinte e quatro.”

“Tu é formada em quê?”

“Contábeis.”

Balancei a cabeça. Ela é três anos mais nova e formada no mesmo curso que eu. É possível eu tenha feito uma pós, se começou a estudar cedo... Não quis fazer mais perguntas para não levantar mais suspeitas do que provavelmente levanto.

“Quando você vai me dizer o motivo de ter se aproximado de mim?” – colocou os cotovelos na mesa e apoio o rosto nas mãos.

Já esperava que ela fosse pensar que me aproximei por algum interesse sexual, é bem típico das mulheres. É quase impossível você olhar para uma mulher e ela não pensar que você quer ir pro motel. Eu já ouvi várias vezes minha irmã contar histórias de homens que queriam transar com ela – quando perguntava como ela sabia, Raquel me dizia que um olhar entrega tudo. A verdade é que mulheres têm a imaginação muito fértil, isso misturado ao ego delas não trás bons resultados!

“Um líder tem que conhecer seus subordinados.”

“É uma boa desculpa, mas seus olhos me dizem outra coisa...”

Lá vem.

“...Algo mais profundo que não consigo decifrar. Uma grande curiosidade e raiva, talvez?”

Não respondi, mas fiquei chocado. Tinha tanta certeza que ela ia falar sobre sexo que até faria uma aposta com qualquer um sobre isso. Olhei-a. Ela mastigava me encarando.

“Tu parece ser uma mulher incomum.”

“É o que todos dizem.” – ela sorriu de verdade. Seus dentes expostos, pude notar uma sujeira num dente inferior; seus olhos se apertaram; suas covinhas eram ainda mais fundas. Um dos sorrisos mais bonitos que já vi. Não me segurei e sorri de volta. – “Tudo bem, pode me dizer o motivo quando se sentir confortável.”

Depois disso conversamos mais um pouco e voltamos para o escritório juntos.

No sábado Tiago me visitou com seu namorado, Rafael. Eu contei tudo para eles.

“Se vocês ficarem muito íntimos, preciso conhecê-la. Ela precisa ser aprovada por mim.” – Tiago falou.

“Olha... Quando nos conhecemos, eu fui avaliado por William?” – Rafael nos olhava.

“Óbvio! Nós somos os guarda-costas um do outro. Will quase se fudeu num relacionamento abusivo e eu o alertei, ele tem que fazer o mesmo por mim. Só avaliamos coisas mais sérias, mô! Não pense que Will ia falar mal só porque tu gosta de reggae.”

Saímos juntos e mais tarde fui para a casa dos meus pais, passei o domingo com eles.

Na segunda-feira eu dei bom dia para Camila assim que ela entrou no escritório. Ela me pediu ajuda vez ou outra com algumas planilhas e arquivos. Fomos almoçar juntos e conversamos sobre filmes – descobri que ela é viciada assim como eu.

À noite me notei ansioso para o próximo dia chegar.

“Qual o teu número?” – perguntei durante o almoço.

“Mas já quer meu telefone?” – ela riu – “Você é tão ousado.”

Ela me deu seu número, mas falei nada por dois dias. Não queria parecer desesperado e não sabia o que dizer. Até que a oportunidade perfeita apareceu com a estréia de um filme de drama que nós dois tínhamos interesse. Ela aceitou sair comigo de imediato.

No sábado Tiago me ajudou a escolher o visual perfeito! Meu cabelo é cacheado e um pouco grande, até quase o final do pescoço, penteei e coloquei um pouco de gel para diminuir o frizz. Coloquei uma camiseta cinza e uma calça jeans. Quase coloquei maquiagem, mas decidi não me sacrificar – odeio maquiagem. Perfumado e sem barba, a encontrei na fila para os ingressos.

“Tão arrumado.” – ela tocou no meu braço e prendi a respiração. Ela usava um colete jeans e calça jeans. Tão simples e tão linda. – “Eu pago os ingressos.”

“Eu... eu pago a comida.” – estava hipnotizado. Finalmente pude ver seu cabelo solto, provavelmente cachos 3C. O colete meio aberto mostrava a divisão dos seus seios; também notei que ela usava nada além do colete. Respirei fundo e olhei para o outro lado. Uma das desvantagens de ser homem é a ereção nada discreta. Tive que conversar olhando para os lados.

Nós de fato assistimos ao filme – o que prova nosso vício em cinema. Mais tarde jantamos em um restaurante próximo à minha casa. Ela conversava com um belo sorriso e fiquei admirado por ela não tentar nada. Na verdade, Camila mal me tocava. Ela me provocava de longe, ajeitando o decote, piscando um olho. Era sutil, e eu adorava.

“Minha casa é perto daqui.”

“Ah, é?” – ela segurou meu braço – “Eu quero ir lá.”

Naquela noite tivemos nosso primeiro beijo, e além disso. Foi uma noite... fantástica, incrível, perfeita.

Camila me segurava com delicadeza e foi bruta no momento certo. Recebi beijos pelo corpo inteiro. Houve tanto carinho que a abracei e não permiti que ela me deixasse sozinho naquela cama.

Eu já saí com várias pessoas, homens e mulheres. Sendo bem sincero, eu prefiro homens – em geral. Claro que não é regra, mas as mulheres não se importam com outro prazer que não seja o delas. Cheguei ao ápice mais vezes com homens que com mulheres, o que irônico porque saí com mais mulheres que homens. Já imaginou transar sem gozar? E quando eu reclamo normalmente elas ficam ofendidas e só vão embora. Algumas mulheres nem fazem sexo oral, e exigem receber!

Mas aquela noite foi incrível, a melhor noite de sexo que já tive! Camila consegue ser delicada e ter pegada. A combinação dos deuses! Foi tão intenso que cheguei ao ápice duas vezes numa única transa. Foi simplesmente... perfeito. E para completar, dormimos juntos. Perfeito.

*

Quando acordei a primeira coisa que fiz foi observá-la. Seus cachos longos estavam uma bagunça, sua bochecha gorda era espremida no travesseiro, suas pernas grossas estavam entrelaçadas nas minhas, sua pele bronzeada brilhava com o sol que atravessava a cortina. Passei a mão no braço dela, havia pouco músculo e ainda era lindo. Isso a acordou.

“Bom dia, William!” – ela me mostrou seu lindo sorriso.

“Bom dia. Ontem foi incrível!”

Ela levantou e seu corpo exposto me fez prender a respiração outra vez. Tomamos banho juntos e tivemos outro momento perfeito.

“Tu realmente é uma mulher incomum. Tive poucas noites tão incríveis com mulheres. Acho que com homens também... Mas mulher é mais chocante.”

“Já está me revelando sua sexualidade?”

Ela só usava uma calcinha short e me proibiu de entrar na cozinha. Fiquei surpreso quando ela disse que ia fazer nosso café da manhã – uma omelete vegetariana.

“E ainda está cozinhando pra mim. Me diga, onde tu esteve escondida?” – ela apenas riu – “É sério, eu nunca conheci uma mulher assim!”

“Pelas suas atitudes eu imagino que tenhamos os mesmos princípios. Mulheres e homens devem viver no mesmo patamar. Não acho que meu prazer seja mais importante que o seu.”

“Sem falar tu nunca deu em cima de mim. Não de um jeito irritante! Esperava ouvir alguma piadinha ou cantada desde a primeira vez que nos falamos...”

“Eu aprendi muito com meu irmão caçula. É uma história bem triste, na verdade... Ele foi abusado pela nossa prima, e ele era só uma criança. Mas essa prima ainda teve a ousadia de dizer que ele provocou porque ele usava shorts! Eu fiquei atônita. Desde então percebi comportamentos destrutivos que mulheres têm em relação aos homens. Conversei bastante com meu irmão para mudar, e também para saber se alguém fez algo ruim com ele.”

“O teu irmão tá bem? E esse primo?”

“Meu irmão vai para o psicólogo desde então. Esse primo foi preso. Eu também percebi que praticamente todo homem tem alguma história de abuso pra contar. Aposto que até você tem uma!”

“Infelizmente várias. Principalmente em relação a assédio na rua e no ônibus que aconteciam muito quando eu era criança/adolescente, o que não acontece tanto hoje em dia. Mas a que mais me marcou foi com minha tia...” – parei. Foi há anos, mas nunca contei a ninguém a não ser Tales. Preferia nem lembrar!

Camila respeitou o meu silêncio e decidimos conversar sobre o filme de ontem. Mas me desconcentrei quando ela trouxe as omeletes e vi seu corpo seminu. Mal conseguia piscar ao olhá-la.

“Também queria essa visão privilegiada do seu corpo.” – ela piscou.

Desviei-me completamente do meu objetivo inicial – descobrir o salário de Camila. Na verdade eu achei excelente conhecer alguém tão sublime. Não me aproximei por motivos nobres, mas agora quero passar muito mais tempo com ela. Ela é linda, temos gostos parecidos e ainda é boa de cama. Eu só não conheci seus defeitos ainda. Mas pensei que já era hora de falar.

“Agora vou tirar sua curiosidade... Eu me aproximei de tu porque eu queria ter certeza se teu salário é realmente maior que o meu, e o motivo disso.”

“Como assim? Como você sabe se nossos salários são diferentes?”

“Tu falou quando tava bêbada na social. Olha só, eu me senti injustiçado porque trabalho na empresa há três anos e não tive promoções, nem ao menos recebo elogios. Então eu sempre pensei que não fosse um funcionário bom e tentei melhorar, mas nada mudou. Cheguei a conclusão que a empresa é muito pequena para aumentar meu salário. Só que tu chegou há um mês e já recebe mais que eu. Tu tem alguma pós ou algum curso? Qual era tua faculdade?”

“Eu só me formei numa faculdade particular.”

“Trabalhou com Consultoria antes?”

“Não, eu era vendedora numa loja de um shopping.”

“Eu me formei numa faculdade pública, tenho curso de Excel Avançado e fiz um estágio de Auditoria e um de Controladoria. Eu não entendo isso.”

“Quando a chefa me contratou, ela me disse que esse é o salário inicial de todos e dependendo do meu desempenho pode aumentar...”

“Eu só consigo pensar que isso é porque sou o único homem, sem contar com o estagiário.”

“Eu já li que homens ganham em média 20% a menos que mulheres, com a mesma função na mesma empresa...”

“Não gosto de me calar com injustiças, mas essa é difícil. Se eu reclamar com a chefa posso ser demitido, se eu fizer uma denúncia posso perder além de gastar muito dinheiro.” – passei as mãos no meu rosto – “Tenho que procurar outro emprego!”

Camila se levantou e alisou minhas costas. Me acalmei por um momento. Passamos a manhã juntos, descobri que ela também assiste animes de vez em quando. Mas ela teve que ir antes do almoço.

Liguei pra Tales e saímos para almoçar. Agora Tales é um universitário e aprendeu comigo a não se calar para nada. Ele fez acompanhamento psicológico por alguns anos e começou a namorar recentemente uma garota que parecia combinar nada com ele! Os pais dele estão sempre de olho e eu sempre lhe pergunto se ta tudo bem. Até agora parece estar tudo certo.

“Acho que é melhor se arriscar.” – ele me aconselhou quando lhe contei meu dilema – “Procura outro emprego antes de denunciar.”

“Não é tão fácil assim. Se a outra empresa descobrir que to no meio de um processo pode dificultar pra mim. Sem contar que eu mal tenho tempo pra ir a entrevistas.”

“Tu consegue, Will. Seja qual for sua decisão, vou te apoiar!”

Passei o resto da tarde com Tales, foi divertido. Conversamos, jogamos dominó e assistimos a um filme. Precisava distrair minha mente!

Na segunda-feira Camila falou comigo no almoço:

“Você tem razão. Teu salário só não é maior que o do estagiário.”

“Perguntasse para as outras?” – ela tinha mudado o assunto de repente, logo após trocarmos carinhos. Nossa relação se intensificou rápido, e ainda não tínhamos discutido ela.

“Perguntei. Eu acho isso muito injusto, vai contra os meus princípios. Te pagarem menos só porque tu é homem? Não posso trabalhar numa empresa assim.”

“Eu não quero que tu arrisque teu emprego só por minha causa.”

“William.” – ela segurou minha mão – “Não fale como se você não fosse importante.”

Meu coração acelerou – não sentia isso há anos. Respirei fundo e não consegui olhar nos seus olhos, minhas bochechas estavam quentes.

“Eu vou te apoiar, tenho um amigo que é advogado. Vou falar com ele sobre as provas. Vou tirar uma cópia do meu contrato...” – e ela continuou falando sobre o que precisávamos fazer.

Ah, que mulher! Eu realmente mereço esse tanto?

“Eu posso ir pra tua casa?” – ela me perguntou quando largamos. – “Quero te fazer companhia.”

Acho que mereço sim!

No meio da noite, eu estava deitado usando seus seios como travesseiro; ela acariciava minhas costas e eu pensei que nunca me senti tão confortável.

“Vamos abrir nossa empresa.” – Camila falou do nada.

“O quê?”

“Vamos abrir nossa própria empresa de Consultoria. Consultoria tributária, aliás!”

“Tu ta bem?” – olhei-a, rindo. Ela estava séria.

“Eu vou fazer uma pesquisa para montarmos nosso escritório no lugar perfeito, você faz a parte burocrática chata!”

“Por que isso de repente?”

“Não entende? Nós podemos criar nossa própria cultura organizacional! Você não vai ser injusto com seus funcionários e vai receber o salário que merece.”

“Tu realmente acha que vamos conseguir?”

“Eu tenho certeza.”

Aquele olhar profundo me convenceu. Beijei-a. Ali decidi me entregar completamente, apesar de ser tão arriscado. Confiei nela, o que ia contra tudo que aprendi: não confiar em mulheres! Eu já não era um adolescente, era um adulto e podia perceber sinceridade em literalmente tudo que ela fazia. Camila é incrível, nem parece ser mais nova que eu. Mulheres normalmente demoram muito para amadurecer! Ela é uma raridade, quem dera mais mulheres tivessem uma mente tão aberta. Mesmo se eu não estivesse tão... apaixonado, ainda tentaria fazer amizade só por ela entender.

Nós realmente planejamos abrir um escritório. Nós duas temos dinheiro na poupança para o Capital Social, mas ainda tínhamos muito que resolver antes de realmente criar a empresa.

Passamos duas semanas juntando as provas antes de fazer a denúncia. E eu finalmente descobri quão caras advogadas são, no caso advogado.

Tiago saiu comigo e com Camila duas vezes, e ele me disse o que eu pensava – que ela parecia ser muito sincera. Até mesmo Rafael concordou conosco. Só estaremos errados se ela for uma sociopata!

“Vou passar o fim de semana na tua casa. Imagino que você precise de apoio antes do grande dia!”

“Fique quanto tempo quiser.” – segurei sua mão e andamos juntos em direção a minha casinha alugada. Foi a primeira vez que entrelaçamos as mãos daquele jeito.

“Eu sei que você é um homem bem resolvido, mas não sei se você se sente usado por eu não ter te pedido em namoro...” – ela acariciava meus dedos.

“Não me sinto.”

“Ainda assim eu prefiro pedir. Sou uma mina romântica!”

Eu ri e a abracei ali mesmo na rua.

“Não precisa pedir com nada extravagante.” – murmurei no seu ouvido – “Posso notar que o que temos é especial e nem precisamos rotular.”

“Eu não consigo não rotular, não sou como você.” – ela respondeu – “Ontem meu irmão perguntou se somos um casal e eu não soube o que dizer.”

“Sim!” – me afastei do abraço – “Sim, nós somos um casal.”

Eu já tive muitos ficantes, então estava acostumado a não dar nomes aos tipos de relacionamento que tinha. Camila era incrível, mas não tinha como ela entender tudo! Aliás, outra coisa incrível é que eu me relacionei com muuuito mais gente que ela e ela nunca se importou com isso, nem ficava de ciuminho quando eu falava com qualquer pessoa. Tão madura quanto um homem.

“Hoje eu faço o jantar.” – ela falou quando passamos pela porta.

Tenho certeza que se existissem mais mulheres como Camila o mundo teria um pouco mais de paz. Homens sofrem ataques diariamente apenas por serem homens. Quem colocou essa regra no mundo? Quão ridículo é ser julgado pelo tamanho do short? Quão doentio é a sexualização precoce – por que o menino adolescente é considerado mais sensual que o homem adulto? Por que desvalorizar alguém pelo gênero? E mulheres estão tão acomodadas por não serem alvos que nem ao menos se importam com isso!

Até mesmo Camila, que tem muita empatia, só quis entender porque seu irmão sofreu um abuso. Claro, o mais importante é a iniciativa! Mas é tão difícil apenas perceber algo errado? É tão difícil ver um homem como um ser humano? Como alguém que tem importância?

Eu queria mostrar o que penso a todos, e eu tento! Sempre que vejo algo errado, eu faço o possível para mudar aquilo – como uma vez que percebi uma mulher adulta se esfregando numa adolescente no ônibus; perguntei à mulher o que ela estava fazendo e se a menina estava bem (normalmente essas pessoas ficam totalmente sem graça ao serem questionadas), ela desceu na parada seguinte e a menina me agradeceu. Tento fazer o que posso do meu jeito. Sei muito bem dos riscos, posso encontrar uma mulher que queira me enfrentar algum dia, mas continuo tentando. Estou disposto a fala e reclamar; sempre tento ensinar isso a crianças quando tenho oportunidade. Eu quero que homens se unam e que mulheres nos respeitem...

“Você está com tudo aí, né?” – Camila atrapalhou meus pensamentos.

“Sim...”

“Não precisa ficar nervoso.” – ela colocou o prato de espaguete de palmito na mesa – “Já te disse que meu amigo é um bom advogado, e não falo isso por sermos amigas!”

“Mesmo assim, eu sou só um carinha contra a empresa. A empresa tem muito mais dinheiro que eu e pode ter advogados melhores!”

“A justiça será feita!”

“Eu não sei... Tô com um pouco de medo.”

“Ei. Não importa o que aconteça, você tem muita gente te apoiando. Eu, Tiago, Rafael, Tales. Estamos contigo, aconteça o que acontecer!”

Sorri, mas ainda estava com um frio na barriga.

“E, além disso, vamos abrir nossa empresa! Você vai dar a volta por cima. Não importa se você ganhar ou perder esse processo, o importante é que você lutou pelos seus princípios! Você tem garra! E quem sabe isso não assuste a chefa? Ela pode ficar um pé atrás pra fazer isso com outro funcionário.”

“Será que ela vai ficar um pé atrás se eu perder?”

“Talvez sim, talvez não. Como eu disse, o importante é lutar! Ignora esse medo e mostra tua força, homem! Fight!”

Rimos juntos e senti um alívio. Camila tem razão. Uma luta tem que ser feita com garra porque se você perder não vai ter aquela sensação que não deu o seu melhor. Eu precisava fazer o possível. Precisava lutar assim como eu luto diariamente. Porque sem lutas não há conquistas!

‘Quem não luta pelos seus direitos não é digno deles’.

Notas finais
Pois é... É isso aí. Se alguém tiver uma dúvida sobre a fic pode me perguntar por aqui mesmo, ou até no meu Twitter: https://twitter.com/Lih_corne
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!