Felizes... para sempre?
2 Agora estou completa!
Notas iniciais
Os corredores do palácio são infinitos. Sabe aquela segurança que eu disse que tinha? Pois é... Acabou! Eu, América Singer, vou me casar! Estou segurando o braço do meu pai com força. Não me admiraria se o terno dele estiver amarrotado quando eu o soltar. Acho que não me admiraria nem se o seu braço ficasse roxo.
Minhas mães foram a nossa frente. Já teriam que estar em seus lugares quando começassem a tocar a marcha nupcial.
Marcha nupcial... Tapete vermelho... Casamento... Príncipe... Coroa!
Agora é oficial. Estou apavorada! Será que consigo ser princesa? Será que consigo fazer Maxon feliz? Será que um dia as coisas ficarão mais fáceis? Será que eu consigo correr com esses saltos?
– Pai, o senhor acha que eu... — Comecei
– Você consegue! – Meu pai me interrompe. Acho que existe algum tipo de telepatia entre nós. Algo como uma comunicação pai e filha ou sei lá. Meu pai consegue me tranqüilizar como ninguém. Porque eu sei que ele me conhece. Não falaria que eu consigo se não acreditasse mesmo nisso.
E com essa fagulha de esperança começando a brotar em mim, o corredor termina – Finalmente! – e as portas do Grande Salão se abrem.
Gostaria de dizer que vi todos os meus amigos sorrindo pra mim, ou que só vi diplomatas desconhecidos, ou ainda, que fui guiada pelo sorriso de Maxon, enquanto meu pai sorria orgulhoso ao meu lado. Mas a verdade é que não vi absolutamente nada. Como poderia, com todos os repórteres de Illéa e muitos estrangeiros fotografando e filmando minha entrada? Apenas tentei sorrir e me concentrar em qualquer outra coisa que não fossem os flashes.
Acabei me concentrando no som da orquestra. Estava tão harmonicamente perfeito que me vi absorta por aquela arte, pensando no porquê de nunca ter tocado uma marcha nupcial. Não reparei em Nicolleta em pé ao lado do meu irmão Kota, nem em Daphne com Frederick, ou em May e Gerard. Não reparei sequer em meus pais ou nos pais de Maxon. Só percebi que estava olhando fixamente para meu noivo, quando meu pai me entregou a ele.
– Eu espero de você nada menos do que a felicidade da minha filha. – Disse o meu pai, ao príncipe de Illéa.
– Eu prometo me esforçar todos os dias para isso, senhor – Maxon respondeu com a sinceridade explícita em seus olhos.
– Então, os dois têm a minha benção. – Tudo bem... Concentra pra não chorar, América... Concentra pra não chorar!
Maxon me ofereceu seu braço para que eu pudesse segurar e nos ajoelhamos diante do rei. Sim, como nem tudo é perfeito, o rei celebraria meu casamento.
– Estamos todos aqui reunidos para celebrar...
Confesso que não prestei atenção nem na metade do que ele disse. Só conseguia admirá-lo por conseguir esconder tão bem a sua total aversão a mim. Se eu não o conhecesse diria que é um pai verdadeiramente feliz com a escolha do filho. Deduzi que devem ser pelos anos de prática.
Outro que tirou minha atenção foi o príncipe lindo ao meu lado. É a primeira vez que o vejo fardado, e devo dizer que Maxon consegue ser tão milimetricamente lindo que chega a dar raiva. Por que raios ele escolheu logo a mim?
– Maxon Cálix Schreave, príncipe de Illéa, você aceita América Singer como sua legítima esposa, para amá-la e respeitá-la, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe? (N/A: Não tem na riqueza ou na pobreza, né gente? Afinal, ele é o cara mais cheio da grana do país) – Por que ele faria isso?
– Eu aceito. – Suspirei aliviada. Ah é... Ele me ama! Maxon pegou uma pequena caixinha aveludada, de onde tirou meu anel e depositou em meu dedo anelar.
– América Singer, você aceita Maxon Cálix Schreave como seu legítimo esposo, para amá-lo e respeitá-lo, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe?
– Eu aceito. – Peguei o anel que ainda estava na caixinha e depositei no dedo anelar dele.
E agora é hora do beijo, certo? Errado!
– América Schreave – Sorri ao som do meu novo sobrenome – Aceite esta coroa como símbolo do meu amor, e da sua posição ao meu lado. – Eu me curvei e Maxon pôs a coroa em minha cabeça.
Agora sim...
– Pelo poder a mim investido, eu vos declaro, marido e mulher, príncipe e princesa de Illéa.
Maxon não esperou a permissão do pai. Envolveu minha cintura com o braço esquerdo enquanto a mão direita apoiava meu rosto. E, pela primeira vez como senhor e senhora Schreave, nos beijamos ao som dos aplausos de nossos convidados.
Quando nos viramos, todos se curvaram, exceto os príncipes, princesas, reis e rainhas convidados, é claro.
– Acostume-se, minha princesa, que isso tudo é para você. — Meu esposo sussurrou em meu ouvido. E agora, diante de todos, percebi a gravidade da enrascada que eu me meti, mas também, senti que finalmente estava onde deveria estar. Me senti capaz.
– Posso fazer isso! – Exclamei sussurrando, mas exultante.
– É claro que pode. Acredito em você.
Ao sairmos da cerimônia, começamos a festa, certo? Errado de novo!
Os convidados e nossas famílias foram para a festa no jardim – exigência minha -, mas Maxon e eu fomos ao terceiro andar do palácio. Nos dirigimos à sacada central do andar. Era a minha apresentação ao povo.
Uma verdadeira multidão apareceu para ver seu casal real. Todos se curvaram instantaneamente quando Maxon e eu aparecemos. Quando todos se levantaram, corrigi minha postura e fui sincera ao sorrir para o povo. Enquanto acenávamos e permitíamos ao povo nos ver, visualizei algo que quase me fez gargalhar. Juliet segurando o mesmo cartaz do início da seleção: “AS RUIVAS DOMINAM!”. Maxon viu também e sorriu. Olhou pra mim e piscou. Será possível amá-lo mais?
Voltamos para dentro alguns minutos depois. Quem sentiu saudade dos fotógrafos? Pois é... Voltaram. Tiramos muitas fotos; primeiro apenas eu e Maxon, depois com nossas famílias, com os conselheiros, com os diplomatas e finalmente, com nossos amigos.
As fotos com as italianas foram as mais divertidas. Elas fizeram questão de trazer fotógrafos italianos para “brincar” – palavras de Naomi – conosco. Tiramos fotos fazendo careta, com todos me levantando, com as mulheres puxando as gravatas dos homens e muitas outras. Até ver um olhar atravessado do rei e “decidir” fazer outra coisa. Amberly disse que estava na hora dos discursos, então nós nos sentamos para ouvir.
A primeira foi May.
– Oi, todo mundo! Devem saber que eu sou a irmã da América. Desde que eu me lembro América sempre foi uma garota divertida, brincalhona. Acho que herdei isso dela. Depois que nossos irmãos mais velhos foram viver suas vidas, América tomou a responsabilidade de irmã mais velha e cuidou de nós. Ajudou meus pais no trabalho e em casa, mas sempre manteve a mesma alegria de sempre. Ela é minha confidente e a melhor amiga que eu já tive. Nunca duvidei dela. Na verdade, quando as selecionadas foram anunciadas eu disse a América que ela se apaixonaria pelo príncipe. Ela não acreditou em mim e agora está pagando a língua e mostrando para todos os países que eu estava certa. Maxon, cuida bem da minha irmã e boa sorte com ela. Te amo, Ames!
Muito injusto começar pela May. Já estava chorando! E o pior é que tinha uma câmera enfiada na minha cara para mostrar minha reação. Legal, agora o mundo inteiro ir ver o quanto sou sentimental.
Depois veio meu pai.
– Boa noite. Meu nome é Shalom e eu sou o pai da princesa América. Desde criança ela sempre foi incrível, transmitia alegria por onde passava. Era impossível não amá-la. América cresceu e se tornou uma bela jovem, mas nunca percebeu sua beleza. Se tornou uma excelente pianista e violinista, mas sempre considerou os outros antes de si mesma. Se tornou uma cantora talentosa e honrou nosso sobrenome, mas nunca se viu assim. O que eu quero dizer, filha, é que não importa se você pensa ou se outros pensam que você é inferior, o que importa é que isso não muda a pessoa incrível, talentosa e extremamente maravilhosa que você é. Seja feliz! Alteza, te confiei minha filha porque acredito em você. Não permita que América pense de si mesma menos do que ela é. E não se permita pensar menos do que realmente é. Sei que será um excelente esposo para minha filha. Eu e todo o povo de Illéa acreditamos em vocês. Felicidades ao casal.
E aí está a telepatia outra vez. Agora ele também sabe sobre Maxon. Incrível! Nem preciso dizer que desisti de tentar conter o choro.
Então, é a vez de Nicolleta.
Olá a todos. É de conhecimento geral que há anos Itália e Illéa estão negociando um acordo político. Numa dessas viagens para tratar de acordos diplomáticos, conheci América. Uma garota de extremo potencial. Cativou a mim e a minhas primas com seu jeito extrovertido, humilde e até meio selvagem de ser. Príncipe Maxon, por outro lado, conheci antes, mas nunca tivemos uma conversa propriamente dita sem ser sobre assuntos políticos. O que posso dizer sobre ele é o que todos já sabem: Ele é a esperança de Illéa e, certamente seus pais devem se orgulhar do governante ideal que está mostrando que irá ser. E ele ama América. Qualquer idiota pode perceber isso só de olhar pra ele. Desejo a vocês toda a felicidade. E de presente, trouxe uma equipe médica italiana para o caso de não conseguirem andar amanhã de manhã.
Corei dos pés a cabeça e não fui a única. Nicolleta é demais. Num mesmo discurso falou de mim, de Maxon, afinetou o rei e ainda fez uma piada no final pra suavizar a situação. Quero dizer, foi piada, não foi?
Amberly entrou em seu lugar.
– Boa noite e sejam todos muito bem-vindos! Há pouco mais de vinte anos, perdi três filhos até que Maxon nasceu. Esta história não é surpresa para ninguém. Maxon cresceu e se tornou um jovem íntegro, responsável e com as melhores pretensões para quando assumisse o reino. Mas como sua mãe, sempre soube que além do herdeiro perfeito, existia um garoto sonhador, compassivo, e que sabe ver as belezas da vida. Não foi a toa que encontrou América. Eu só gostaria de dizer que vocês me deram muito mais do que eu poderia pedir: A certeza de que meu filho é amado e feliz, e uma nova filha. Eu os amo muito e espero, sinceramente, que resistam aos obstáculos que vem com os títulos e tenham uma vida, não perfeita, porque isso não existe, mas uma vida feliz.
E novamente não consigo conter minhas lágrimas, e vejo que Maxon está segurando as suas com dificuldade.
E, por último, o rei.
– Olá. Eu não poderia deixar de desejar os meus melhores sentimentos aos dois. Espero que se mostrem aptos o suficiente para a responsabilidade que assumiram. Mas saibam que sempre estarei aqui para ajudá-los no que for necessário. Felicidades.
E foi isso. Simples, sucinto e com a mensagem enviada. Estaria aqui. Sempre.
Decidi esquecer isso por hora, e me concentrar na minha festa. Resolvi fazer uma surpresa.
– Um minuto da atenção de todos, por favor. – Todos se silenciaram para me ouvir – Agradeço as palavras de todos e fico feliz por estarem aqui para compartilharem conosco este momento tão especial. Se me permitem, também quero dizer algumas palavras. Quando Maxon e eu nos conhecemos, eu não fui a mais fácil das mulheres. No nosso primeiro encontro chutei suas jóias reais. – Risos – Sei que fui, me desculpem a expressão, uma tremenda pedra no sapato dele – Maxon riu e arqueou a sobrancelha -, mas aqui estamos. Quando nosso noivado foi anunciado, ele me paparicou de todas as formas possíveis: tortas de morango, presentes, beijos – foi engraçado ver os olhares sugestivos que Maxon recebeu, mas ele apenas deu um sorriso torto – e o mais importante... Livros. – Tudo bem, agora ele ficou confuso de verdade – Maxon sempre foi muito bom com as palavras e eu jamais conseguiria falar para ele metade das coisas que ele me fala, então decidi pedir ajuda. Encontrei em um livro, um amigo que sugeriu isto: Odes de Anacreontes.
Da sua lira
De Atridas os feitos, de Cadmo os louvores
tentei celebrar;
e a lira rebelde só cantos de amores
me quis entoar.
Impus-lhe outras cordas...trabalho perdido!
A lira troquei;
aos feitos de Alcides a nova convido...
e Amor, lhe escutei!
Adeus, grandes homens! Buscai noutra lira
o vosso louvor!
A minha não sabe; não pode; suspira
só cantos de amor.
– Minha música é você, alteza. Que todas as nações saibam que eu te amo.
Maxon veio até mim e me beijou ali mesmo. Foi a festa para os fotógrafos, devo dizer.
Estreamos a pista de dança, para qual eu ensaiei por meses. Maxon se aproveitava do meu vestido, que era tomara-que-caia, para ficar em contato com minha pele o máximo que conseguisse. Se eu fiz uma declaração a ele, ele fez o dobro para mim ali. Aos sussurros, no meu ouvido. A sensação foi indescritível de tão maravilhosa. Nos divertimos muito quando nossos amigos entraram na dança. Colocaram músicas típicas de outros países, algumas bem mais agitadas que as de Illéa. E é claro que demos um jeito para que estas fossem tocadas várias vezes, afinal, era novidade.
No final da festa, estava segurando os saltos, com muitas partes do meu penteado fora do lugar, e mais feliz impossível. Joguei o buquê e caiu nas mãos de May. Meu pai quase teve um infarto, e pensei ter visto o príncipe da Inglaterra sorrindo pra ela. O que está acontecendo aqui?
Nos despedimos dos visitantes e subimos para o quarto dele. Ele fechou a porta e eu fiquei imediatamente nervosa.
– Te amo, minha querida. – Sorri.
– Eu não sou sua querida! – Força do hábito.
Ah... Você é... Você oficialmente é a minha mais querida.
Nos beijamos avidamente e nos entregamos um ao outro.
Lembra quando eu disse que era impossível me sentir mais feliz? Estava enganada! Agora estou completa.
Continua...
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