Feitos de metal e sangue.
4 Jena.
Notas iniciais
Estou morta, porém ainda não passei os portões do inferno. Não posso me mover, tento com toda minha força trazer o ar novamente aos meus pulmões. Uma fina linha de baba escorre da minha boca enquanto o barulho dos tiros penetram meus ouvidos. Fomos encontrados.
Tenente nos separou em três grupos de quatro. Fox, Finn, Pich e eu fomos enviados mata a dentro para encontrar uma base rebelde antiga para conseguir alguns documentos e armamentos do interesse da mulher de braços de ferro. Tenente apenas esqueceu de contar que o agentes do governo também estavam procurando os documentos.
Assim que chegamos fomos bombardeados e por ser a líder fui a primeira a ser atingida por uma granada de contenção.
Os tiros acabam, por um segundo penso na hipótese de que fomos abatidos, mas então vejo o rosto satisfeito de Pich.
Pich era um garoto bonito, tinha pele escura e olhos verdes, desde criança mantém a cabeça raspada, os músculos são grandes sob a blusa branca suja de terra e sangue, há um corte pequeno na lateral do braço direito, mas ele não parece se importar.
– Espere o efeito acabar, não posso tocá-la – diz ele, sua voz sai retorcida e engraçada. – Fox entrou, ela sabe se cuidar sozinha. Estou preocupado com o Finn, acho que ele perdeu um olho.
Não sei quanto tempo passou, mas a ânsia de vomito cresce dentro de mim e finalmente o ar volta, posso me mover, mas estou totalmente dolorida.
– Leve-o daqui – digo com dificuldade. – Zenno poderá cuidar dele.
Claro que Zenno poderia, o garoto era um gênio quando se tratava do corpo humano, sabia matar de maneira rápida e foi treinado para tratar feridos em uma possível guerra. Admiro muito suas habilidades, mas é estranho o fato dele ter sido treinado para matar e também para salvar vidas. É meio confuso.
Fico deitada até Fox voltar.
– Você está bem? – pergunta a ruiva — Onde estão os garotos?
– Finn perdeu o olho – minha voz quase se perde quando sai da minha boca.
– Que merda.
Afirmo com a cabeça.
– Consegue andar?
– Sim – respondo ficando de pé, foi um pouco constrangedor eu ter que me apoiar na garota que é cerca de vinte centímetros menor, mas ela me segurou de maneira firme o suficiente para que eu conseguisse me equilibrar.
Andamos devagar por algum tempo, ainda estou tonta, mas nada de muito grave. Já fui vitima de granadas de contenção uma dúzia vezes, algumas até mesmo em treinos de resistência física. Sei que a tontura demora algumas horas para passar, mas a dor e o desconforto muscular vão durar por dias, até mesmo uma semana.
***
Quando chegamos ao novo esconderijo, que felizmente era uma pequena clinica abandonado o sol já estava se pondo. Fox me leva até uma maca e me deixa deitada. A pequena menina está coberta por uma fina camada de suor, por mais que faça muito frio.
Agora felizmente temos água, mas não um chuveiro elétrico, então alguns dos mais corajosos tomam banhos rápidos.
Zenno aparece alguns minutos depois de Fox ir embora. Seus cabelos loiros estão limpos, ele está sem camisa. Zenno era muito bonito, mas acho que não se sente atraído por nenhuma das garotas, não vendo como ele olha para Oz.
– Como Finn está? – pergunto.
– Ele foi medicado – o garoto responde enquanto meche em um dos quites de primeiros socorros, seu tom de voz era muito triste. – Infelizmente ele perdeu o olho direito e eu uma camisa quando Max vomitou nela.
Tento dar um sorriso, mas todos os músculos do meu rosto doem.
– Vou aplicar morfina, primeiro vai arder e depois vai anestesiar – disse ele. – Tente não dormir agora, você meio que levou uma pancada na cabeça.
– Já faz algum tempo – reclamo. – Você não é nenhum médico.
– Calada – ele sorri, um sorriso bonito e divertido.
– Você gosta dele, não é?
Zenno franze a testa e eu posso ver uma pequena cicatriz.
– Oz.
O loiro não responde, apenas aplica a injeção de morfina e sai do leito. Ninguém voltou, ninguém veio me visitar, apenas fiquei ali deitada até achar que já podia dormir, então caí em um sonho que mais parecia uma memória.
Eu era alguns anos mais nova, meus cabelos ainda eram longos fios pretos que caíam até os seios pequenos. Eu estava sentada no refeitório em uma mesa frequentada apenas por garotos, eu era uma exceção.
Algumas vezes me perguntava por que eu não era como Ella ou Paige, ou como as outras garotas que treinavam com pessoas do mesmo sexo. Eu era frágil de mais perto dos garotos, por mais que eu me esforçasse sempre era a ultima a ser escolhida para os jogos e nunca era respeitada.
Um dia enquanto comia um dos garotos que treinavam comigo passou e puxou o meu cabelo. Aquilo foi a gota d’água. Não sei como tive forças, mas lembro do garoto estar caído no chão com uma faca de plástico enfiada no meio de sua garganta enquanto eu terminava de me alimentar com as mãos e o garfo.
Depois desse dia eu passei a ser respeitada por outros garotos, ou melhor, temida.
***
Eu não aguento mais ficar deitada, então me levanto e vou procurar os outros. Encontro apenas os membros da minha equipe sentados em um longo corredor que cheirava a álcool e outros produtos de limpeza.
– Que bom que está melhor – Finn diz, há um curativo em seu olho direito.
– Finn, desculpe...
– Não foi sua culpa – diz ele sorrindo. – Eu gostei, pareço mais durão.
– Você é um idiota – brinca Pich.
Sorrio e fico feliz em perceber que meu rosto não dói mais.
– E os outros?
– O grupo de Paige foi buscar comida e o de Zenno está fazendo a ronda – responde Pich. – Ontem Helena matou um guarda que estava por perto. Acho que esse não é um bom esconderijo, mas temos água e medicamentos.
– Preciso de um banho – digo.
– Oz fez um sistema para a água esquentar – diz Fox alegremente.
– Me lembrem de agradecê-lo depois. Alguém conseguiu roupas limpas?
– Depois que Max vomitou em Zenno decidimos procurar por roupas e achamos algumas peças que parecem ter sido deixadas por Rebeldes. – Fox mesma mostra que ela usava uma blusa branca que ficava um tanto quanto grande. — Vá tomar banho, eu busco algumas para você.
Vou tomar banho. O sistema bolado por Oz deixa a água ligeiramente morna, em uma temperatura levemente agradável. Sentir a água escorrer em meu corpo é extremamente agradável. Fico parada esperando Fox aparecer.
Espero tempo de mais. Há alguma coisa errada.
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