Notas iniciais
Eu voltei c:

Zenno é extremamente irritado e mandão. Bem, ele não era, mas se tornou em algum momento aleatório dos últimos dias. Ele mudou até mesmo antes de eu ter vomitado nele após vê-lo retirar o olho ruim de Finn que graças à medicina moderna está vivo.

– O que você está olhando? – Ele pergunta seco enquanto limpa o barro do coturno com uma faca de caça do tamanho do meu antebraço.

Surpreendo-me, pois ele nem mesmo está olhando para mim.

– Nada – respondo. – Onde Aris está?

– Caçando – ele responde ficando de pé.

– Não precisamos de comida, Paige e os outros foram buscar...

– Está caçando pessoas – Zenno diz sombrio. – O primeiro chip que eu retirei foi o dele, posso ter feito algo errado, ou não, mas Aris está agindo estranho.

– Acha que ele pode ficar louco? – Oz pergunta.

– Não sei.

Estamos há poucos metros da clinica, que adotamos como esconderijo por um tempo. Entramos em acordo que não devíamos ir direto para a cidade como Tenente mandou. O prédio é uma construção simples e antiga contando com dois andares e inúmeras janelas quebradas, mas conseguimos vencer nossas necessidades básicas.

Há um barulho e em seguida meu rosto começa arder, então sangue escorre pela minha face. Giro a procura de qualquer coisa que possa ter feito aquilo. Zenno prepara a Sinper e Oz saca os revolveres. Minha mão escorrega até a submetralhadora.

Outro tiro, esse atinge uma árvore há poucos metros. Consigo ver a figura branca tentando esconder-se atrás de uma grande árvore. Zenno também parece ter visto, pois seu dedo escorrega no gatilho e ele acerta a cabeça do guarda junto com um pedaço da árvore.

Outra dupla de guardas começa a atirar. Seguro o gatilho, tantas balas saem da arma que sou lançado com os coices. Mal posso ver Oz sacando os revolveres, mas ouço um corpo caindo em algum lugar.

– Acho que são só esses – digo depois de alguns segundos. – Vocês estão bem?

– Levei um tiro na perna – Oz fala como se não estivesse sentindo dor.

– Fique sentado – Zenno diz dando uma ultima olhada. – Max, me passe a maleta.

Zenno foi muito ágil na retirada da bala e na limpeza dos ferimentos, só não percebeu o sangue escorrendo do próprio braço.

– Zen, seu braço tá sangrando — A voz de Aris faz com que eu dê um pequeno pulo assustado. – Vejo que vocês mataram quatro guardas, eu acabei com dois que se aproximavam ao leste. Temos que sair daqui o quanto antes.

Aris tem a beleza mais exótica que eu já vi, seus olhos são de cores diferentes, um verde e um azul, seu cabelo é de um tom de laranja que lembra o por do sol, há varias sardas decorando a pele clara. Há uma pequena cicatriz no fino lábio inferior.

– Isso não depende só de mim – a voz de Zenno sai tão fria que sinto os pelos da minha nuca se arrepiarem. – Vamos entrar, não gosto do sol.

Assim que passo pela porta da clinica percebo que há algo errado. Silêncio. Muito silêncio para um lugar que possuía a ilustre presença de Fox e Finn. A luz do sol não consegue mais iluminar o local, mesmo assim as luzes estão apagadas.

– Zenno?

– Eu sei.

Então noto algo que passou despercebido uma centena de vezes antes. Um ponto de luz vermelha pisca em um canto da parede. Uma microcâmera como as instaladas na base do Delta K.

– Tem câmeras aqui – digo tentando mirar no ponto vermelho.

– Merda – Oz é mais rápido do que eu e explode o pequeno aparelho com um tiro.

Sempre fui treinado com armas brancas. Uma vez meu antigo treinador disse que eu era de uma linhagem de Samurais e que samurais não usavam armas de fogo, eles cortavam seus inimigos com suas espadas com nome estranhos. Eu não lembro o nome das espadas e não sei o que é um samurai.

Oz e Aris saem vasculhando todos os cantos enquanto eu e Zenno vamos procurar pelos outros. Ninguém em nenhum dos leitos, nem na cozinha, nem nas salas. O chuveiro está ligado, porém vazio.

– Essas roupas são da Jena – diz ele olhando a regata cor de vinho.

– Quer dizer que ela sumiu nua?

Zenno me encara por um segundo e cai na gargalhada. Eu nunca, nunquinha em toda minha vida, havia ouvido a risada de Zenno. É um som tão alegre e divertido que tenho vontade de rir junto, mas não acho graça da situação.

– Desculpe, acho que os remédios que eu tomei não estavam no prazo de validade – lagrimas escorrem em seu rosto sorridente.

– Você injetou algo em você sem saber se estava bom?

– Eu tinha que deixar os que eu tinha certeza para você e para o Oz – ainda há um vestígio de riso em sua voz.

Ouço um barulho no andar de baixo. Deixo Zenno sorridente e vou verificar o que é. Oz e Aris saem dos quartos em que vasculhavam a presença de câmeras. Largo a submetralhadora em um canto e pego uma barra de ferro que será muito mais útil no meu ponto de vista.

– Olá – Alguém diz.

Ninguém ousa responder.

– Olá – dessa vez ouço a voz calma de Ella.

***

– Eles sumiram? – Paige quase grita.

Zenno segura o riso.

– Vocês estavam de guarda! – Bart dá um soco na mesa. – Como alguém entrou, levou quatro reféns e ninguém percebeu?

– Não há vestígios de luta – explica Aris. – O chuveiro estava ligado e tudo aqui dentro como deixamos. Finn está sem um olho e mesmo assim consegue acertar um pardal em pleno voo, Pich não se dá por vencido e Fox não é burra o suficiente para ser sequestrada por qualquer um.

– Então como diabos eles sumiram?

– Havia câmeras – digo.

Oz anda de um lado para o outro.

– Sei como alguém entrou e saiu sem ninguém perceber – Oz diz. – Os seis guardas eram apenas distrações, estava fácil de mais.

– Tudo bem, pode ser, mas ouviríamos algum barulho, alguma voz, eles estavam armados aqui dentro – digo.

– Olhem para o teto – Helena resmunga. – Eles foram dopados com gás.

Pequenos furos no teto quase não eram percebidas no meio de tanta sujeira e tanto pó. Não sei como não percebemos isso antes, tenho certeza de vasculhamos o lugar uma centena de vezes.

Ninguém espera alguém falar, apenas corremos e pegamos o que achamos necessário, bem exceto Zenno que fica sentado no chão olhando para o teto.