Feeling myself
2 Estou te amando
Notas iniciais
Parece demorar uma eternidade até que as portas do elevador se fechem, mas quando finalmente estou sozinha me entrego à excitação que cresce no meu peito, minhas mãos tremem e as pernas já não parecem ser capazes de suportar meu peso, a eletricidade corre por toda minha pele, meu estomago se contorce e o ar se torna denso, é difícil respirar.
Meus pensamentos se perdem, fogem para longe do pequeno elevador, vejo Marina em sua cama, o sentimento horrível que havia me dominado desde que recebi a ligação de Flavinha no meio da madrugada se dissipa. Procuro ficar em silêncio enquanto Marina pede a Vanessa um lanche, quero apenas degustar essa sensação de alivio e deixar que meu coração se acalme.
Vanessa passa por mim aparentemente sem me notar, mas posso sentir o quanto ela odeia minha presença, mas isso não me importa nesse momento, tudo que preciso é ter certeza de que está tudo bem. Avanço em direção à cama onde ela está e vejo que um de seus pés está imobilizado, mas imediatamente minha atenção se desvia e me perco nos olhos da pessoa sentada na cama, não são os olhos aos quais estou habituada. Demoro alguns minutos, analisando, tentando encontrar a alegria sedutora que sempre existiu ali, mas não encontro o que procuro, encontro um olhar carregado de uma tristeza que me faz perder o chão e o ar, sinto-me culpada pelo tombo da escada e agora por aquela tristeza, a dor por saber que sou o motivo disso rouba de mim todo alivio que senti há alguns instantes. Marina parece absorta em seus pensamentos, sem notar nada a sua volta, ela respira com um ar cansado e diz:
– Clarinha.
Mesmo com tanta tristeza não posso evitar o sorriso em meus lábios quando escuto meu nome sendo dito com tanta entrega e a minha única missão agora é tira-la desse lugar ruim.
– Estou aqui Marina.
No mesmo momento em que termino a frase os olhos dela procuram os meus, e ali estão eles novamente dançando como se a sedução fosse uma mera brincadeira, os olhos que me intrigam e que desnudam minha alma.
– Você veio Clarinha.
Não resisto a necessidade de abraça-la, toca-la e ter a certeza que vim buscar, a certeza de que está tudo bem. Sento-me ao seu lado e nos abraçamos, sinto a necessidade e urgência dela de estar exatamente ali. Nos afastamos e ela me observa com uma expressão curiosa, e mais uma vez estamos ali perdidas em olhares.
– Nem acredito que você veio.
Luto para controlar meus pensamentos, minhas vontades, para não ultrapassar meus próprios limites. E assim que tenho a confirmação de que está tudo bem me apresso para sair, preciso fugir antes que desista de me afastar, preciso fugir desse sentimento que me faz perder toda a razão. Passo o dedo pela aliança tentando me concentrar no que preciso fazer.
O elevador para me tirando das minhas lembranças, posso sentir, sei que quem está me esperando é ela, preciso que seja ela, essa saudade está me matando. Desde o dia que caiu da escada, não nos vimos e nem nos falamos, mas nem por um segundo consegui me afastar realmente, ela me acompanha em cada lugar, meus dias tem sido longos e tenho medo de que ela tenha realmente me demitido de seu coração, mas não, não vou pensar isso. Ela está me esperando, eu sei.
Quando a porta do elevador se abre, me preparo para vê-la e não posso evitar a decepção ao encontrar o saguão deserto, de repente a saudade parece preencher cada espaço vazio dentro de mim, é claro que ela não está e a culpa é minha.
Talvez seja melhor assim, começo a andar em direção ao meu apartamento, os meus movimentos se tornam automáticos e sem vida, abro a porta.
– Clara.
Sinto todo meu corpo se contraindo, essa voz tão doce e ao mesmo tempo carregada de promessas, meu nome dito de uma forma como só ela pode dizer. Respiro fundo e lá está o perfume que me é tão familiar e então relaxo. Fecho meus olhos e deixo que essa sensação que só ela me trás preencha meu coração, por alguns instantes me permito admitir que tudo o que quero e preciso está ali ao meu alcance, me permito sentir tudo que tenho privado meu coração. Me viro, e ali está ela, com seu olhar que brinca com o meu, com o sorriso que me desconcerta. Acho que nunca vou conseguir desviar meu olhar, ela me prende, me prende nessa forma de me olhar, e diante desses olhos eu sou uma Clara que apenas Marina enxerga.
Nada precisa ser dito, ela me conhece, sabe o que eu sinto, até mesmo aquilo que nem eu sei. Como pude ficar tanto tempo sem isso? Sem esse sentimento que me arrebata, sem a presença dela?
Ela avança em minha direção e me entrego ao seu abraço e o tempo poderia parar exatamente nesse momento, um misto de sensações me toma, me faz esquecer todos os problemas e a dor da saudade que vinha me consumindo todos esses dias se transforma em uma alegria que transborda de tal forma que poderia ser tocado, só esse sentimento importa agora. Com nossos corpos colados posso sentir o ritmo da batida do coração de Marina e não me espanta saber que ele está tão acelerado e cheio de vida quanto o meu.
Quando nos afastamos tenho tanto para falar, quero pedir desculpas por não ter ligado e nem mesmo atendido as ligações, mas a única coisa que consigo é confessar a saudade que senti. Ela entra, percebo que ainda está com o pé imobilizado. Deveria ter ido visita-la.
– Você é muito bandida isso sim! Não atendeu as minhas ligações, não retornou.
Tento encontrar uma desculpa, não quero magoa-la. Mas como sempre Marina sabe a verdade que existe em minha voz, no meu olhar, não há como me vestir de disfarces diante dela, só me resta confessar a saudade, a vontade de ligar, e o sofrimento.
Por alguns instantes ela me observa como se pudesse saber tudo que estou pensando, parece estar tomando coragem e aproveito esse momento para tentar afastar todas essas sensações e pensamentos, preciso voltar à realidade, mas é tão difícil. A intensidade do seu olhar muda e ela toca meus ombros, me desarma, não consigo afastar isso.
– Eu to te amando Clara!
O mundo para de girar nesse momento, as palavras de Marina latejam em minha cabeça, é como se já não tivesse sangue nas veias, não sinto as pernas ou os braços, acho que vou ceder, cair, me desmanchar bem ali. O que é isso que estou sentindo? Que alegria é essa? Não posso me permitir isso. Mas meu coração me trai, ele responde a declaração que acabo de ouvir, posso ouvi-lo batendo como se ele saltasse e gritasse para que o mundo pudesse ver sua felicidade. Será que ela também pode ouvir? Não sei o que responder, as palavras não chegam até minha boca. Sei o que gostaria de fazer agora, mas não posso, não devo.
Mas o que devo ou não fazer não importa agora, não diante do que acabo de ouvir. Preciso dizer a verdade, preciso falar o que meu coração já está dizendo, se guardar isso posso explodir. Tento formar uma frase, organizar meus pensamentos, tomar coragem.
– Mãe!
A voz de Ivan me trás de volta a realidade, percebo que não estou respirando e que ainda há um chão embaixo dos meus pés. O que estava fazendo? Não posso deixar que esses sentimentos me dominem. Preciso explicar isso para Marina, eu devo uma resposta a ela. Peço para Ivan esperar no quarto, mas logo Cadu chega e nos interrompe novamente, me sinto impotente, sei que ela espera que eu diga algo, mas essa é minha realidade, um filho e um marido.
Cadu sente a energia que existe entre nós, ele está incomodado, mas não consigo evitar essa eletricidade, qualquer um notaria. E fico ali, perdida entre eles e totalmente dividida, meu coração se parte em pensar que posso magoa-los. Tento colocar meus pensamentos em ordem mas é inútil. Preciso fugir.
– Vamos pra essa festa logo?
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