Feeling myself
3 Descobertas
A verdade é que as palavras de Marina não saem da minha cabeça.
–Eu tô te amando Clara!
Como ela pode mexer tanto comigo? Todas as minhas estruturas desmoronaram e não faço ideia de como reerguê-las. Ela me ama e tentar pensar em qualquer outra coisa é inútil.
–Clarinha! Tá tudo bem?
Me assusto com a voz dela me chamando de volta à realidade.
–Oi? Oi Marina, o que você disse?
–Tá tudo bem Clara? O que tá acontecendo?
Desde que voltei a trabalhar no estúdio meus dias voltaram a fazer algum sentido. Marina desperta algo em mim que não entendo, apenas sinto. Ao seu lado sou arrebatada pra algum lugar onde posso ser feliz como jamais imaginei, aqui posso gritar sem medo o quanto ela me faz bem.
Mas a verdade é que até hoje não consigo dar voz a esse sentimento, quantas vezes ensaiei uma resposta a sua confissão de amor, mas não fui capaz de falar.
– Clara?
–Desculpa Marina, não sei onde tô com a cabeça. Quer dizer... Eu sei, aí deixa pra lá...Posso ver como ficaram as fotos?
–Estão na mesa.
Observo o estúdio com calma, analisando cada espaço e cada detalhe me encanta, é como se cada um possuísse um pouquinho da Marina. Alguns detalhes são sofisticados, modernos e imponentes enquanto outros são simples, alegres e despojados, mas todos são tão aconchegantes, exatamente como ela. Avisto a mesa com as fotos, me levanto para pegar, mas sou parada pela eletricidade do toque dela em meu braço. Marina me puxa em sua direção e estamos nos encarando, a intensidade do olhar dela não me permite falar.
–Clara, espera. Me diz o que tá acontecendo.
Como? Como posso dizer a ela, não consigo repetir em voz alta tudo que meu coração está gritando. Mas eu quero dizer, eu quero.
–Clarinha, tô preocupada. Me diz por favor o que está acontecendo.
Eu preciso de você Marina, mas não sou capaz de dizer isso.
– Tô... confusa, as coisas em casa não andam bem, você sabe.
– Sei. Vem cá — Marina me abraça -você sabe que estou com você né?
Mais uma vez estou perdida no seu abraço e me lembro do estúdio, aconchegante como ela, isso trás um sorriso aos meus lábios que estão encostados em seu pescoço, ela se contrai e me aperta mais firme em seu abraço, é como se ela tirasse com esse gesto todo peso dos meus ombros.
– Eu sei, e... é tudo que preciso... agora.
Mesmo não vendo sinto o sorriso dela. Fico feliz por ter falado alguma coisa finalmente, é um alívio. O corpo dela parece estar em combustão é como se ela exalasse sensualidade por cada poro e é impossível não se incendiar também estando assim tão próxima. Tento me afastar mas todo meu corpo protesta contra isso e tudo que consigo é terminar parada de frente pra ela, com nossos rostos quase encostados.
–Isso não é bom...é...quer dizer, é bom, muito, mas...
Marina faz um som me dizendo para não falar nada e me olha como se me dissesse pra confiar. Apenas um olhar, mas tão cheio de sentimentos, tantas coisas que não poderiam ser ditas em palavras e eu sei que ela entende meus sentimentos, minhas dúvidas e meus medos como ninguém. E por isso me entrego completamente ao momento, quase posso sentir o gosto da alegria por estar ali. Relaxo, aproveito a proximidade para sentir seu cheiro, não o do perfume e sim o da sua pele, é inebriante. Procuro manter o máximo de contato entre nossos corpos e sentir pela primeira vez sem medo e sem receio essa energia que trocamos, nem mesmo os toques mais íntimos de Cadu me fizeram sentir isso.
– Marina, não posso...
– Calma, não vai acontecer nada, a não ser que você queira.
– Esse é o problema, eu...- minha voz me trai, e quase não passa por minha garganta — talvez eu queira, mas não posso.
– Tudo bem Clarinha, vou te soltar, ta bom?
Ela ameaça dar um passo atrás, passando seus braços que antes me abraçavam pra minha cintura, mas ainda não estou pronta pra deixa-la se afastar, e aperto meus braços em torno dela segurando-a ainda colada em mim. Marina inclina o rosto e me dá um sorriso curioso. Preciso me recompor antes de deixar que ela se separe de mim, respiro fundo, forço minhas pernas a se firmarem no chão novamente e então a solto e me afasto.
– Desculpa, eu não posso fazer isso, você entende Marina?
–Sim – ela passa a mão pelo meu rosto enxugando uma lagrima – não se preocupa, te entendo.
– Ainda... não posso ainda.
A expressão no rosto de Marina muda completamente, agora ela é quem parece perdida, faz o que eu achava ser impossível, me olha de uma forma ainda mais profunda e eu tenho a certeza de que ela entendeu tudo que estava subentendido nas minhas palavras. Sua boca que estava levemente aberta se transforma em um sorriso.
– Preciso ir embora.
Sem dizer nada ela concorda. Me aproximo novamente querendo sentir seu cheio por uma ultima vez hoje, dou um beijo na sua bochecha demoro um pouco com meus lábios encostados em sua pele, respiro fundo e guardo seu cheiro. Marina me olha perdida, seus olhos dançam com os meus. Começo a andar em direção à porta sem me virar querendo manter aquele olhar até o ultimo segundo.
Quando sento no carro percebo o quanto estou ofegante e com o coração acelerado, fico alguns minutos parada recuperando meu corpo e minha mente, tudo está uma completa bagunça, uma bagunça maravilhosa, mas ainda assim uma bagunça. Preciso resolver isso tudo, mas o que vou fazer? A cada dia se torna mais difícil controlar isso e o Cadu já percebeu o quanto estou mudando.
Durante o caminho para casa tento organizar meus pensamentos, mas é impossível. Meu corpo se recusa a se acalmar, minha pele continua quente, com o calor dela e estou com o cheiro de Marina por todo lado, na roupa, no cabelo e principalmente na pele.
Quando estaciono o carro me preparo para encarar o clima pesado que se instaurou em casa, preciso conversar com Cadu, sei que ele não está bem com toda a história da doença mas ele precisa saber como estou me sentindo, preciso ser sincera, por ele e por mim. Tomo coragem e entro em casa.
– Oi amor, cadê o Ivan?
Ele me olha de uma forma estranha e desconfiada.
– Oi Clara, ele está na Helena. Preciso falar com você.
Alguma coisa no tom de Cadu fez meu sangue que até agora fervia congelar. O que está acontecendo?
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