Feeling myself
8 Confrontos
Notas iniciais
– Tem certeza que não quer que eu vá junto?
– Tenho, é melhor evitar ainda mais confusão.
– Então o motorista vai te levar. Mas toma cuidado tá, e me liga.
– Não precisa Marina, vou chamar um táxi.
– De jeito nenhum, depois do que o Cadu fez ontem? Ele vai com você e te espera.
– Preciso ficar com o Ivan hoje. — Noto seu olhar de decepção, mas não posso deixar meu filho sozinho outra vez.
– De qualquer forma ele vai te levar.
– Tá bom, como você me mima.
– Quero fazer muito mais.
– Obrigada por me entender, por ser sempre tão compreensiva.
– Você não tem que agradecer.
O beijo dela é o que preciso para me dar coragem de enfrentar esse dia e ela sabe disso. Se aproxima de mim me beijando de uma forma doce e cheia de carinho, em seguida me abraça me dando a força que preciso. Tudo que está acontecendo vale a pena, essa manhã me sinto viva como a muito tempo não sentia.
Ela me acompanha até o carro e fico perdida em seu sorriso, ela fecha a porta e fica vendo o carro se afastar e eu admiro essa mulher, que se tornou tanto para mim em tão pouco tempo, até o motorista cruzar o portão, quero aproveitar esses últimos segundos de paz. Sei que como no dia anterior hoje não será fácil.
Agora mais do que nunca preciso resolver as coisas com Cadu, não existe mais nenhuma dúvida no meu coração. Quero apostar nessa história com Marina, mas para viver isso em paz comigo mesma preciso por um ponto final definitivo no meu casamento e acima de tudo preciso preservar meu filho, tenho que achar uma forma de não confundir a cabeça do bichinho no meio de tanta bagunça.
Vou direto para o apartamento da Helena, quero ver o Ivan. Me assusto ao entrar e encontrar a família reunida, meu primeiro pensamento é que tenha acontecido alguma coisa com Cadu, ele com essa doença e toda aquela discussão ontem.
– Oi Helena, Virgílio, mãe. Aconteceu alguma coisa?
– Nós é que perguntamos. — Minha mãe parece estar fora de si, estranho seu tom de voz.
– Mãe.
– Helena, quero falar com sua irmã. Sozinha!
– Antes de qualquer conversa quero ver o Ivan.
– O Ivan está na escola, você saberia se tivesse passado a noite na sua casa.
– Tudo bem mãe, vamos conversar. Podemos usar seu quarto Helena?
– Claro!
Helena faz menção de nos acompanhar, mas sinalizo para esperar na sala, ela me deseja boa sorte. Minha irmã sempre foi minha confidente e sabe o que passei nos últimos meses.
Entramos no quarto e minha mãe fecha a porta atrás de nós.
– Clara que história é essa de trair seu marido com...com uma mulher?
– Foi isso que o Carlos Eduardo falou pra vocês?
– É verdade ou não Clara? Onde você estava?
– Na casa da Marina. Mas...
– Clara, você sempre foi feliz com sua família, com o Cadu.
– Já fui feliz com ele mãe, fui...
– Onde está minha garotinha que sempre foi tão doce, delicada e amorosa? Agora com uma...mulher? É isso? Você agora é...
Não acredito no que estou ouvindo, minha mãe dizendo isso. Ela pensa que vou virar o que agora? Um monstro insensível?
– Fala mãe. Homossexual? É isso que você quer saber se eu sou?
– Clara...
– Não, não me interrompe não, agora você vai me escutar. Eu não sei o que sou, o que essa história toda faz de mim.
Já não podia ver a expressão dela, meus olhos mais uma vez estavam tomados pelas lágrimas, esperava esse tipo de julgamento de qualquer pessoa, mas não dela.
– Mãe, eu nunca trai meu marido. Se passei essa noite fora de casa foi porque ele me colocou pra fora, ele tomou a decisão por nós dois. Eu tava sim cheia de dúvidas, mas só deixaria qualquer coisa acontecer com a Marina depois de resolver minha vida com o Cadu.
– Então você realmente passou a noite com ela?
– É só isso que importa agora? Caramba, sim... eu passei a noite com uma mulher, a mulher que foi a única pessoa que esteve ao meu lado. Eu amo a Marina, amo e espero que essa seja a primeira noite de muitas outras. E se isso faz de mim homossexual, que seja. Pode contar a novidade pra todo mundo.
– Filha, eu...
– Não fala nada não. Eu vou buscar o Ivan.
Quero sair daqui, quero ver meu filho, meu bichinho. Espero que o Cadu não tenha enchido a cabeça dele de besteiras também.
– Clara!
– Espera, Clara.
– Onde você vai.
Ele vir aqui falar esse monte de besteira para minha família posso até perdoar, fez em um momento de raiva. Mas meu filho não, ele é uma criança ainda poxa, ele não pode ser afetado por nossos problemas.
– Clara!
Minha mãe, como ela pode duvidar da minha lealdade? Ela que lutou tanto para ser feliz, me acusar assim, me julgar. A verdade é que muita gente se diz liberal e moderna, mas isso só dura enquanto tudo caminha sobre trilhos tradicionais. É fácil dizer que não tem preconceito quando todos a sua volta vivem exatamente como a sociedade manda. Mas não posso deixar isso me impedir de ser feliz. A vida que quero é ao lado da Marina e do meu filho.
Sinto uma pancada no meu corpo, estou no chão, tudo dói e as pessoas estão gritando.
– Dona Clara!
– Chama uma ambulância.
– O que aconteceu? — Não estou entendendo, como parei no chão, meu corpo dói, vejo tudo fora de foco.
– A senhora atravessou na frente do carro.
– Clara! Meu Deus...
– Helena...a Marina — Não consigo continuar falando. Vejo as pessoas se juntarem ao meu lado, preocupadas, mas só quero descansar.
A ambulância chega e quando eles me movimentam para colocar na maca tudo dói, estou cansada e confusa. Então deixo meus olhos fecharem, preciso dormir.
Fale com o autor