Feeling myself
9 Ameaças
Notas iniciais
Hoje experimentei uma sensação de felicidade tão extrema que não poderia transcrever em palavras, Clara finalmente se entregou ao que sentimos e por mais que eu tente racionalizar esse sentimento sempre acabo com a impressão de que não faço a menor ideia do que representa o nosso amor.
Já me apaixonei muito, vivi muitas loucuras. Mas ninguém nunca me prendeu por muito tempo, acho a fase da conquista, das trocas de olhares e da descoberta as mais promissoras em um relacionamento, depois disso tudo tende a cair em uma mesmice entediante. Mas o que sinto com a Clara é diferente, não é como se eu precisasse desesperadamente conquista-la, o tempo ao lado dela me tirou da caça desenfreada por um grande amor, agora eu vivo esse amor. — As modelos estão incríveis Van!
– Parece que alguém acordou inspirada hoje.
– Você não tem ideia do quanto. As fotos estão ótimas, vamos fazer uma pausa para almoçar e a tarde passamos para segunda parte.
– Meninas podem ir almoçar, voltamos em uma hora.
– Gi você avisa que podem servir o almoço?
– É pra já.
Eu e Van estamos sozinhas no estúdio, nenhum sinal da Clara ainda, então resolvo ligar, estou preocupada com a reação exaltada do Cadu ontem.
– Vai ligar pra Clarinha?
– Sim, algum problema?
– Fora ela ter faltado outra vez, não.
– Ela já fez um ótimo trabalho antes de você chegar Vanessinha.
– Aé? Que trabalho? As fotos de ontem continuam ali em cima da mesa.
– Sabe essa inspiração? Trabalho dela.
Não gosto de ver ela chateada comigo mas preciso ser dura, não quero dar nenhum tipo de esperança e não vou deixar esse rancor estragar meu dia.
– Caixa postal! Vou lá fora, pede pra servir meu almoço lá por favor.
Quando estou saindo dou de cara com o motorista, ele está com uma expressão assustada.
– Tudo bem? Deixou ela em casa?
– Dona Marina, deixei sim. Mas acho que não tá tudo bem não.
– O que aconteceu?
– Eu deixei a Dona Clara em casa e levei o carro pra lavar, enquanto esperava fiquei na padaria ali na frente.
– Fala logo pelo amor de Deus, tá me deixando nervosa.
– A Dona Clara foi atropelada.
– Como?
O sangue pareceu sumir do meu corpo, meu coração esqueceu de bater. Não é possível.
– Ela saiu do prédio feito doida e atravessou na frente de um carro.
– Não é possível. Onde ela está? Se machucou?
– Não sei não Dona Marina, ela saiu de lá numa ambulância.
– Como não sabe, devia ter ido atrás.
– Eu, eu tava sem o carro.
Preciso sentar antes que caia, não consigo acreditar no que está acontecendo. Onde ela está? Droga.
– Van, meu celular.
– Aqui, toma água. Se acalma, você tá sem cor. Não deve ser nada sério.
– Meu celular Vanessa. Não quero água e muito menos me acalmar.
A impressão que tenho é que o mundo parou e meu coração parou com ele, tento ligar várias vezes mas só cai na caixa postal. Estou perdendo o controle, não posso me desesperar.
– Gente o almoço tá na mesa... o que aconteceu?
– A Clara foi atropelada Gi. Não consigo falar com ela, não sei onde ela tá.
– Meu pai, a Chica deve saber. Espera.
Enquanto ela fala no celular é como se eu estivesse desligado, não consigo pensar, as palavras deixaram de fazer sentido.
– Ela tá no hospital, parece que não foi nada sério, mas como bateu a cabeça tem que ficar em observação.
– Cancela o ensaio Van, Gi passa o endereço pro motorista. Vou pegar minha bolsa.
– Marina, a família dela vai estar lá e precisamos entregar essas fotos.
– Sério Vanessa?
Não é possível que ela esteja realmente cogitando que eu fique aqui sem fazer nada. Entro no carro ainda anestesiada, quando tudo parecia bem acontece isso.
Repito na minha cabeça como um mantra que vai ficar tudo bem. Parece que andamos por horas nesse carro e não chegamos.
– Você disse que ela atravessou na frente do carro.
– Sim, ela não parecia bem quando saiu do prédio não Dona Marina.
O que será que aconteceu lá? Será que o Cadu aprontou alguma coisa?
– Tinha alguém com ela?
– Logo depois saiu um monte de gente atrás dela. Virou uma confusão aquilo.
– Acelera isso pelo amor de Deus.
– Já tá chegando!
Passo o resto do caminho no meu mantra silencioso.
– Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem.
Quando entro no hospital vejo Helena, Virgilio e Chica na recepção. Eles parecem tensos o que me deixa mais angustiada.
– Helena! Tudo bem?
– Marina. Oi.
– O que você está fazendo aqui?
– Mãe, a Marina é amiga da Clara.
– Amiga? Se fosse amiga não estaria destruindo o casamento da sua irmã.
Não esperava esse ataque, aparentemente já descobri o motivo para Clara ter saído tão abalada de casa.
– Só quero saber como ela está.
– Escuta aqui mocinha, isso não te interessa. A culpa de tudo isso é sua.
– Mãe! Para com isso. Marina vamos lá fora
Não sei como mas estou do lado de fora do hospital com Helena. Tudo isso parece um pesadelo.
– Marina, a Clara está bem, mas vai ficar aqui até amanhã em observação.
– Preciso falar com ela.
– Não dá, ela precisa descansar. Vamos evitar discussões aqui. A minha mãe está muito nervosa com isso e...o Cadu está lá com ela.
– Não me importo com quem está lá, só quero ver a Clara. Não tô aqui pra discutir com ninguém.
– Tá todo mundo exaltado, não vai ser bom pra ela ver uma discussão agora e sei que você não quer fazer nada que vá prejudica-la.
Ela tem razão, mas como eu posso simplesmente virar as costas e ir pra casa, ficar lá sem noticias.
– Marina, eu te ligo qualquer novidade.
Me convenço de que isso é o melhor para ela e que tenho que ir embora. Sinto um corpo bater contra o meu e quando me viro vejo o Cadu, ele olha pra mim com raiva ou alguma coisa pior, não sei dizer.
– Você me paga Marina.
Não sei o que responder, o que fazer. Em qualquer outra situação enfrentaria ele, mas agora estou sem um chão no qual me apoiar para ter qualquer tipo de discussão. Vejo Virgilio se aproximar e dizer alguma coisa para Helena enquanto Cadu se afasta.
– Ela quer ver você Marina.
Sem pensar duas vezes e sem responder entro no hospital e só para na recepção, meus movimentos são automáticos, quando pego o crachá saiu em passos rápidos em direção ao quarto que me indicaram, se não estivesse em um hospital certamente estaria correndo.
Ao entrar no quarto sou brindada com um sorriso arrebatador, examino Clara dos pés a cabeça, ela aparenta não estar machucada. Então me aproximo pego sua mão entre as minhas e dou um beijo suave na sua cabeça.
– Como você tá?
– Bem, foi só um susto.
– Tem certeza?
– Sim. Os maiores estragos estão aqui.
Ela leva minhas mãos até seu coração.
– O que aconteceu?
– Ah Marina, foi uma conversa dura com minha mãe.
– Posso imaginar.
– Ela te encontrou aqui? Te falou alguma coisa?
– Não me falou nada. Você precisa descansa mocinha.
Ficamos nos olhando por um tempo e não posso evitar que as lágrimas venham, uma mistura de alivio e medo me tomam. Ela enxuga meu rosto.
– Só te dou trabalho né.
– Descansa.
– Você vai ficar?
– Claro! Ninguém me tira daqui.
Me sento ao lado da cama ainda segurando sua mão e como no dia anterior a observo pegar no sono. Gostaria de proporcionar essa tranquilidade a ela, mas sei que ainda vamos enfrentar muita coisa. Será que ela vai conseguir ir contra a própria família? E a ameaça cheia de promessas do Cadu. Não sei o que esperar, mas sei que quero muito fazer essa bagunça que causei na vida dela valer a pena.
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