Fear the Monster
18 XVIII
Notas iniciais
Já fazia algum tempo desde que estava voando. Seguindo as visões que havia tido, procurava o planeta em que sentira a energia de Finn. Não parecia estar muito longe, pois quanto mais andava, mais sentia aquilo crescer dentro de si.
Olhou para sua direita: havia um planeta de um azul intenso, e no meio, um verde mais intenso ainda.
Era ali.
Direcionou a nave e seguiu. Alguns segundos após começar sua aproximação, uma luz acendeu no painel: Estavam tentando se comunicar.
Ligou o comunicador.
— Identifique-se. Você está entrando em espaço aéreo restrito.
— Poe?! – mas é claro que era.
A voz se calou.
— O que...?
— Sou eu, Rey! – estava sorrindo. – Sou eu!
— Rey?!! – pôde ouvir os demais gritando ao fundo ao ouvirem seu nome. – Meu deus, você não está sendo rastreada, está?!
— Não, eu tirei o rastreador antes de partir! Aonde está a base? Eu não consigo ver daqui.
— Eu vou te passar as coordenadas, vamos preparar para sua aterrissagem.
Números apareceram em seu visor. Jogou-os num mapa, e pode ver aonde deveria pousar.
Acelerou, entrando na atmosfera do planeta. Mesmo de dentro da nave, podia sentir a umidade e o calor do lugar. Estava com saudades desse clima.
Seguindo o mapa, logo pôde ver uma construção pintada de verde, para se camuflar em meio àquelas enormes árvores.
— Pode pousar, Rey.
Cautelosamente, diminuiu a velocidade, e começou a descer. Estava de noite, então só conseguia ver algumas luzes e alguns vultos, não distinguindo seus rostos. Ao sentir o impacto da nave com o chão, um calafrio correu por sua pele.
Estava de volta.
Tirou o cinto, abriu a porta e desceu rapidamente. Alguém vinha correndo em sua direção, pulando e abraçando-a.
Aquele abraço era tão bom.
— Meu deus, Rey, eu senti sua falta!! – dizia Finn. – Como você está?! Te machucaram?! Eu juro que mato um por um que..
— Finn, eu estou bem. – apertou o abraço – Só vamos para dentro, para que eu possa ao menos enxergar vocês.
— Claro, claro!
Já dentro da base, havia luz. Conseguia reconhecer cada um dos rostos, com exceção dos novos. Era confortante ver todos ali. Estava sentada em um banquinho, enquanto seus amigos se sentavam ao seu redor.
— Garota, como você conseguiu fugir? – dizia Poe, rindo. – Nós estávamos tentando armar um plano para te tirar de lá, mas ainda bem que você foi mais rápida.
— Eu não podia deixar vocês se exporem por minha causa. – dizia, suavemente. – Eu precisava sair por você mesma.
— Você foi louca de sair correndo no meio daquele deserto! O que você tinha na cabeça, Rey?! – Finn a olhava incrédulo. – Você podia ter morrido! Eles te torturaram? Te jogaram na prisão?!
— Finn, acalme-se. – aquela voz era muito, mas muito reconfortante. – Ela precisa respirar um pouco.
— Está tudo bem, General. – lançou-lhe um olhar para sua próxima fala. – Eu não fiquei na prisão.
— O que?! – todos gritaram, incrédulos.
— Ok, definitivamente acho que vocês todos deveriam ir dormir agora e deixar essa coitada em paz. – disse, dispersando a todos. — Tenho certeza de que vocês tem muitas perguntas, mas aposto que ela quer colocar a cabeça no lugar. – deu-lhe uma piscada discreta. – Rey, gostaria de dormir em meus aposentos? Amanhã preparamos um especialmente para você.
— Seria uma honra, General. – sabia suas intenções.
Estava na porta do quarto da General, trocando suas últimas palavras com Finn.
— Fico feliz de saber que Rose está bem.
— Sim, eu também. – sorriu. – Ela é muito importante para mim... Não que você não seja, só é que...
— Finn, eu já entendi. – riu. – Vá dormir, amanhã conversamos.
— Por favor, eu quero muito saber o que aconteceu com você lá. Eu não conseguia me segurar de preocupação.
— Fique tranquilo, eu te conto amanhã, quando tudo se acalmar. Boa noite, meu amigo.
— Boa noite, Rey.
Ele saiu andando corredor a fora, enquanto fechava a porta. Quando voltou-se para dentro, viu Leia terminando de arrumar uma das camas que havia ali.
— Algo me diz que temos muito o que conversar, querida. – havia um brilho em seu olhar. Sabia o que ela queria saber. – Sente-se aqui. – disse, sentando na cama e batendo com a mão no colchão.
Sentou-se.
Se olharam, estabelecendo ali um laço de confiança de amizade.
— Acho que a primeira coisa que posso te perguntar é: Como assim você não foi parar na prisão?! Aonde você ficou?!
Deu um sorriso tímido como resposta.
— Ele.. Não me deixou ficar na prisão. – desviou seu olhar para uma das paredes. – Ele me colocou em seus aposentos.
Pela visão periférica, pôde ver quando ela sorriu, surpresa.
— E... Como ele está? – mudou de assunto ao ver as bochechas de Rey corarem.
— Espero que bem.
— Por que espera..?
— É complicado... – achava melhor não falar sobre a traição de Hux. Deixá-la preocupada com a vida do filho era a pior coisa nessa situação. – Ele... – respirou fundo. – ...Correu atrás da nave enquanto eu partia, gritando...
Ambas tinham ele em mente agora. Ambas o queriam ali.
— Mas... – voltou a sorrir. – Há cada vez mais luz nele. – Leia a olhou. – E ele sente isso também...
— Como sabe? Digo, como sabe que ele sente?
Novamente, achou melhor não contar exatamente tudo. Nem ela ainda acreditava nas coisas que aconteceram naquele quarto.
— Alguém apareceu para falar com ele.
— Quem? – Rey voltou a olhar para a general. – Luke?
— Anakin.
Sua expressão transbordava surpresa. Pôs a mão no seu peito.
Houve silêncio por algum tempo.
— Eu... Eu sinto tanta falta dele, Rey. – seus olhos se encheram de lágrimas. – Eu queria poder voltar no tempo e consertar o que eu errei com ele.
— Você não errou. – pôs sua mão junto à dela. – De todos que passaram pela vida dele, você é a que menos contribuiu para ele ser o que é hoje.
Novamente, o silêncio se instaurou. Não sabia mais o que dizer, pois seu coração também chamava por ele.
Alguns minutos se passaram.
— Vamos dormir, querida. — supirou. — Acho que é o melhor que temos a fazer, e você deve estar exausta também. Boa noite. – disse, levantando-se, e indo para sua cama.
— Boa noite, general.
Deitou na cama, mas demorou a dormir. Não conseguia pensar em outra coisa que não nele. Temia tanto por sua vida, e sofria por não ter trazido ele consigo.
Fechou os olhos.
— Kylo Ren, você está preso por traição e assassinato.
Foram as últimas palavras que ouviu da boca daquele idiota, antes de ser levado para a prisão. Cinco soldados o levaram até sua cela: Um com a arma mirada em sua nuca, outros dois lhe segurando pelos braços, e os dois restantes atrás de si, para caso resolvesse fazer algo, tivesse fogo para lhe impedir.
Jogaram-no numa cela minúscula, que não teria mais do que alguns metros quadrados de área. Nela, havia somente uma cama presa à parede, de metal, com um travesseiro, e uma pequena cabine para necessidades. Assim que fora colocado lá dentro, já fecharam as grades, trancando-as e saindo rapidamente, para evitar qualquer chance de truques mentais.
Nem sequer haviam tirado suas algemas.
E agora, lá estava ele, preso, com as mãos nas costas, sem seu sabre, sem comida, sem poder, e o mais importante: Sem Rey.
Começou a lançar seu corpo contra as grades, gritando e praguejando contra qualquer um que pudesse ouvi-lo. Deu pontapés contra a fechadura, na esperança de quebrá-la, mas sem sucesso. O metal usado para construir as prisões da nave era o mais resistente de toda a galáxia.
Passou longas horas naquela condição. Jogava seu corpo contra as grades, gritava até não ter mais ar, encostava-se na parede, erguia uma das pernas e voltava a chutar a fechadura. Quando a perna doía, voltava a bater-se contra o metal que lhe mantinha encarcerado.
Logo, o cansaço o fez cair no chão.
Não tinha mais forças para levantar, e sentia seu sangue correr furioso por todo seu corpo. Em seu campo de visão, só haviam placas e mais placas de metal, tendo as grades da cela como divisoras entre as placas de fora e as de dentro.
Lágrimas escorreram por seu rosto ao tomar consciência de sua situação. Era tão miserável quanto um inseto. De mero aprendiz a Líder Supremo em segundos, e de Líder Supremo a lixo em instantes. Ainda, para tornar tudo pior, ela o havia deixado. A última imagem dela em sua mente era dolorosa, e fazia-o ter vontade de morrer só de lembrar.
Sentia uma falta assustadoramente sufocante daquela doce presença. Sentia falta de tocá-la, de cheirá-la, de envolvê-la em seus braços e beijar aqueles lábios macios até sua boca doer. Sentia saudade daquele corpo nu, e de dormir ao seu lado. Foram as melhores noites de sono de sua vida. Por muito tempo não tivera aquelas sensações. Não sentia-se sozinho, nem abandonado, e muito menos desprotegido. Sentia que tinha uma energia única ao seu lado, zelando por seu sono, permitindo que sua alma se livrasse de todas as amarras e pesos que a prendiam naquele fosso de tristeza e raiva, podendo dormir tranquilo. Com ela, tudo era muito mais simples, leve e bom.
Era tudo luz.
Pôs-se a chorar copiosamente, soluçando e urrando. Contorcia-se no chão, tentando lutar contra as algemas, desesperado, enquanto sua mente fixava Rey em seus pensamentos, torturando-o. Sua cabeça latejava de dor, e não conseguia manter aquilo dentro de si. Seu coração não suportava a dor de perdê-la. Nessa vida, fora abandonado e traído por todos, mas ela fora a que deixara a maior dor. Era como se tivessem aberto sua boca à força, e despejado ácido em si, fazendo-o descer por sua garganta, o matando por dentro.
No fim das contas, toda forma de amor que criara em si fora destruída com um só golpe.
Não merecia amar.
De repente, sentiu uma forte dor em sua testa. De tanto se mexer, havia batido a cabeça repetidas vezes nas grades, e uma das quinas havia aberto um corte em sua pele, que sangrava. Parou de se mexer, ofegante, notando quando parte de sua visão se tornou um enorme borrão vermelho.
Fechou os olhos, chorando quieto. Em questão de segundos, sua mente apagou, deixando o estresse e o cansaço tomarem conta, entregando-o ao sono.
Ouvia gritos por todos os lados. E sangue, havia sangue. Eram gritos de agonia, de quem precisava urgentemente de socorro, mas em segundos, tudo se tornou escuro e silencioso.
Levantou-se num pulo, assustada e com a respiração descompassada. Lágrimas escorriam involuntariamente por sua pele, e suas mãos tremiam. Seu coração doía dentro do peito, como se respondesse aos gritos de seu sonho.
Aos poucos, recobrou a consciência. Não era um sonho.
Era a mente dele.
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