Notas iniciais
escrevi esse capitulo todo ouvindo essa musica: https://www.youtube.com/watch?v=diLa-gpHRKc Boa leitura!

Abriu seus olhos.

Ainda estava atordoado pelo sono, mas logo pode comprovar que aquela triste situação continuava sendo realidade. O sangue de sua ferida já havia secado, deixando parte de seu rosto sujo de um vermelho escuro e denso. Estava suado. O sistema de ventilação daquela parte da nave era fraco, tornando ali um verdadeiro forno. Não tinha forças para se levantar, por isso continuou encarando as grades do chão.

Não havia nada se passando por sua mente além de lamentações e arrependimentos. Trechos de sua vida passavam diante de seus olhos como um filme, torturando-o por ter feito as escolhas erradas.

Han Solo.

Quando ele lhe vinha à mente, lágrimas involuntárias escapavam de seus olhos.

Leia.

Havia trocado a própria mãe por poder. Havia massacrado seu coração, sem ao menos olhar para trás.

Rey.

Ela ainda era ferida aberta. Doía pulsante, constantemente. A viu partir diante de seus olhos, sem poder fazer nada. Ela era o único amor que recebera de alguém que tinha tudo para lhe odiar. Imaginou-se com ela, nesse exato momento, em algum lugar longe daquela cela nojenta. Aqueles olhos que lhe causavam o mesmo impacto que o brilho de duas intensas estrelas de encontro aos seus, aquelas doces mãos lhe acariciando.

Idiota.

Seus pensamentos foram interrompidos por um som. Eram passos.

Estava alerta quando um droid se aproximou da cela, abriu as grades o suficiente para passar a bandeja que carregava, e logo trancou-as novamente, partindo.

— Hey, espera! – gritou – Como eu vou comer isso?! – referia-se às algemas.

Não obteve resposta.

Juntando suas forças, ergueu-se, sentando no chão. Não havia nada de muito apetitoso na bandeja além de um pão e uma outra massa de consistência duvidosa. Aproximou-se, abaixando seu rosto até a comida, tentando pegar algo com a boca. Alcançou um pedaço da massa, mas assim que sentiu seu gosto, cuspiu-a. Era nojento.

Encostou-se na parede, ofegante e revoltado. O gosto era horrível, mas mesmo assim seu estômago roncava. Aproximou-se novamente, pegando o pão. Era ruim, mas não tanto quanto o outro prato. Comera o quanto conseguiu, já que tinha que segurá-lo com a boca ao mesmo tempo que mastigava.

Sentia-se humilhado por estar sendo submetido àquilo. Preferia estar morto.

Mas, nem tudo estava perdido.

Havia visto com seus próprios olhos o pequeno droid abrir as grades para deixar a bandeja. Isso significava que alguma hora ele voltaria para recolhê-la, ou para deixar outra, e teria de abrir a cela de novo.

Hux, você é tão idiota. — pensou consigo mesmo, sentindo uma pequena chama acender-se dentro de si.

Era sua chance.

Como num milagre, sentiu seu corpo se fortalecer. Era a adrenalina sendo liberada com a agitação de seus pensamentos. Não acreditava no quão burro e ingênuo Hux fora de nem sequer mudar os protocolos de prisioneiros, deixando essa brecha passar. Além daquelas grades, conhecia bem o que tinha pelo caminho. Nada que o pudesse impedir.

Sorriu, deixando o pão cair no chão.

Merda.

Todos já haviam lhe feito todas as perguntas possíveis e imagináveis. Escondeu o que pôde, dizendo só o essencial. Finn não fazia outra coisa senão sorrir por tê-la por perto de novo. Também estava feliz, muito feliz. Ver todos são e salvos, felizes e determinados era tudo que precisava para sentir seu coração aquecer-se, mesmo que em frangalhos.

Não tirava ele de sua mente um milésimo de segundo que fosse. Sentada naquele banco, observando todos trabalharem, consertando naves, armas, ou discutindo planos, tinha aquela imagem nítida feito a sensação do toque de suas mãos, apoiadas em seus joelhos, em sua calça: um homem desesperado a correr atrás de si, gritando aos céus seu nome, implorando com suas lágrimas e seus braços estendidos que voltasse.

Uma lágrima escapou.

Queria que pudesse vê-lo mais uma vez. Falar com ele, convencê-lo a encontrá-la. Apertá-lo em seus braços e nunca mais deixar que voltasse para aquele ninho de cobras peçonhentas.

Sentiu uma mão em seu ombro.

— Está tudo bem...?

— Sim, General, não se preocupe. – sorriu disfarçadamente. – General, posso lhe fazer uma pergunta?

— Faça. – disse, sentando ao seu lado.

— Eu... Buscando achar a localização de vocês, tentei usar a Força, buscando sua energia. Mas não consegui. – olhou-a. – Por quê?

Leia sorriu gentilmente, suspirando.

— Sabe, Rey. Quando se assume uma posição feito a minha, lidera-se milhares de pessoas, e essas milhares de pessoas se apoiam em você. Suas vidas dependem de você. – inspirou, continuando. – Você, infelizmente, não pode dar-se ao luxo de fazer tudo que gostaria, incluindo abrir-se para a Força. – olhou a garota, que a ouvia atentamente. – Somente Luke conseguia me sentir, mas muito pouco. É arriscado. Snoke, ou até mesmo Ben... – fez uma pausa ao dizer seu nome — ...poderiam nos achar muito facilmente.

— Você se fechou...

— Eu não posso arriscar todas essas vidas por causa dos meus sentimentos, mesmo às vezes querendo ser forte o suficiente para usar a força para trazer meu filho de volta. – suspirou. – Quando recebi a notícia de que ele havia destruído o Templo Jedi de Luke, e ido para a Primeira Ordem, meu mundo foi destruído. Eu queria passar dias trancada no meu quarto, sozinha, mas eu não podia. Eu tinha e ainda tenho todas essas almas para cuidar, e não posso abandoná-las. – começou a chorar. – Eu tive que abrir mão do meu filho para que eu pudesse preservar a esperança na galáxia.

Pôs seus braços ao redor de Leia, abraçando-a firme. Imaginava o quão grande era sua dor, e queria poder tirá-la dela.

— Ele vai voltar, Leia.

— Eu não sei o quanto mais eu vou conseguir esperar, Rey. Eu perdi meus pais, minha casa, o amor da minha vida, meu filho, meu irmão... O que me restou?!

— Força. – disse, erguendo aquelas mãos cansadas até seu rosto, beijando-as.

Ambas se olharam nos olhos. Estavam chorando feito duas crianças. Abraçaram-se, e ali ficaram.

Pelas suas contas, já era de noite. Até então, o droid não aparecera novamente, deixando-o impaciente e ansioso pelo momento aonde daria a Hux o que ele merecia. Suas costas doíam, pois não havia uma única superfície aonde pudesse se esticar confortavelmente. A “cama” de metal era tão desconfortável quanto o chão, e o travesseiro não passava de um monte de retalhos acinzentados colocados dentro de um saco de tecido. Continuava sentado no chão, mas com a cabeça apoiada nos joelhos. Seus ombros estavam a tanto tempo na mesma posição que nem sentia mais a dor do desconforto. Respirava compassadamente, tentando manter sua sanidade. Sentia que estava prestes a enlouquecer.

De repente, sentiu um perfume doce, contrastando com o cheiro frio e sem vida do metal e do aroma desagradável da comida que não comera. Sorriu, fechando seus olhos. Se assemelhava muito ao cheiro da pele de Rey. Sentia cada pelo de seu corpo arrepiando-se ao ser tomado por aquela deliciosa sensação que se assemelhava à sua presença.

Desfez seu sorriso e abriu os olhos. Estava ficando louco, era óbvio que ela não estava ali.

Ou será que...?

Lembrou-se das pontes.

Começou a tentar levantar-se, mas logo sua vista deparou-se com sua menina dos olhos.

— Ben?!

— Rey!!

Ele a olhava, sentado no chão, surpreso mas muito, muito realizado. Chorava descontroladamente, como se ela estivesse fisicamente consigo. Já ela, o olhava assustado, também chorando. Estava ferido, ensanguentado, sujo, e sentia sua fraqueza.

— Oh, Ben... – caminhou em sua direção, sentando-se em sua frente. – O.. O que te aconteceu?!

— Você me abandonou. – a alegria de sua voz se transformou em melancolia.

Ambos se olhavam profundamente em seus olhares, chorando.

— Hux fez isso...? – ele fez sinal com a cabeça positivamente.

Ela não aguentava vê-lo naquela situação.

Encostou sua testa na dele, fechando seus olhos. Sentia uma enorme culpa dentro de seu peito. Ele, por sua vez, lutava com as algemas, pois precisava desesperadamente abraçá-la.

— Eu preciso te tirar daqui.

— Eu tenho um plano para isso já.

Ela afastou seu rosto, olhando-o sem entender.

— Tem um droid que vem trazer comida. Ele já veio mais cedo, e para isso, ele precisou abrir a cela. – sussurrava. – A próxima vez que ele vier, eu não o deixo fechar, e saio daqui.

— Por que não fez isso antes?! – seus olhos brilhavam, mas ainda havia tristeza nele.

— Porque eu não conseguia parar de pensar em você. Eu estava desolado, caído no chão, fraco, me sentindo mais insignificante que um inseto e mais miserável do que o lixo que você coletava em Jakku. – havia um tom de agressividade em sua fala. – Pelo menos agora, podendo sentir seu perfume, tendo você à minha vista por um segundo que seja, do meu lado, não correndo de mim, eu posso sentir um pouco de vontade de viver. – seus lábios tremiam com seu choro. Os dela também.

— Me perdoe, por favor. – ela estava despedaçando-se na frente dele. – Eu não queria te deixar, mas eu não podia mais ficar com você, não nesse lugar.

— Eu não aguento mais viver sem você.

— E nem eu sem você! Não tem um segundo em que eu não pense em você.

— Você me abandonou aqui...

— Eu te implorei para vir comigo.

— Eu te implorei para ficar!

— Para acabarmos presos?!

— Estaríamos juntos!

— Se tivesse vindo comigo, também! E não seria em uma prisão! – gritava com ele. – Não te resta mais nada aqui, Ben! Por favor, desista da Primeira Ordem! – ele a olhava feito um cão assustado. – Eu vou ser a primeira a lhe abrir os braços e te acolher... – aproximou-se, abraçando-o. — ...E nunca mais soltar.

Sentia suas lágrimas caindo em seu ombro, molhando sua roupa. Conseguia sentir seus medos, suas inseguranças, e sentiu esperança germinar em si quando fechou os olhos e pôde ver a luz ardente que queimava dentro dele. Apertou-o mais ainda em si.

Aquele abraço era a melhor coisa que ele poderia receber naquele momento. Seu coração se aquecia com ele, e podia até sentir suas bochechas corando em meio às lágrimas. Começou a esfregar seu rosto no dela, para que virasse seus lábios para os seus.

Beijou-a.

Tinham mais do que saudade e necessidade um do outro. Tinham uma sede insaciável um pelo outro, por seus sentimentos, por estarem juntos, compartilhando do amor que construíram juntos na pior das tormentas, no mais instável dos terrenos: dois corações machucados pelo tempo, sozinhos, angustiados, pobres de amor e cuidado. Não souberam como nem quanto, mas algo mudara dentro de cada um deles, tornando aquela tortuosa relação possível. Haviam se tornado duas metades de algo muito maior que eles. De uma luz intensa, mas não completamente pura. Ao mesmo tempo que era doce, boa e piedosa, era selvagem, voraz e imponente.

O monstro e a catadora de lixo.

O príncipe e a cavaleira.

Sentindo sua conexão se enfraquecer, colocou suas mãos na cabeça dele, e o olhou nos olhos.

— Eu estou esperando por você.

Dentro de sua mente, sentiu algo forte se alastrar. Era uma imagem extremamente nítida.

Era um mapa.

— Não tenha medo, Ben...

— Eu não tenho medo... Não mais. – suspirou, vendo-a desaparecer. – Eu amo você.

— Eu também amo você.

E a conexão se desfez.

Ambos choravam, cada um em sua localização, com o coração inquieto dentro do peito.

Notas finais
"Though she's already flown so far beyond my reach, She's never out of sight. Now I know she'll never leave me, Even as she fades from view. She will still inspire me, Be a part of everything I do." ♥