Fear the Monster
17 XVII
Notas iniciais
Estava de pé, em frente à porta.
Já fazia algum tempo que ele havia deixado a nave, e era o momento propício para executar seu plano.
Virou sua cabeça, olhando para a cama trás de si. Fechou os olhos, permitindo que cenas com ele viessem à mente. Mais lágrimas escorreram.
Ainda sentia seu cheiro impregnado no ambiente, e também em suas roupas. Pelo menos teria algo dele consigo momentaneamente.
Depositou sua mão sobre a maçaneta, abrindo a porta. Aos poucos, o enorme corredor metálico surgia em seu campo de visão, e sentia seu corpo vibrar com a ansiedade de deixar aquele lugar frio e sem vida. Seus primeiros passos em direção à liberdade eram tímidos, pois seus olhos buscavam qualquer sinal de soldados nos arredores. Conforme percebia que o caminho estava livre, aumentou suas passadas: não tinha nenhum minuto a perder.
Ao notar que o elevador estava vazio, entrou, deixando que a porta a sua frente fechasse e a conduzisse diretamente para o hangar. Alerta, sentia a adrenalina correndo em suas veias, preparando-a para um possível ataque, aonde só teria a Força e suas habilidades físicas como armas. Não sabia como, mas havia conseguido bloquear a imagem de seu amado em sua mente para que não fraquejasse. Talvez fosse a Força ajudando-a.
Quando as portas se abriram, deparou-se com alguns poucos stormtroopers de guarda. O restante estava conversando entre si, caminhando pelo hangar ou simplesmente sentados. O que mais fariam?
Alguns oficiais de patentes mais altas estavam lá também, conferindo dados e colhendo relatórios. Boa parte deles estava desarmado, o que facilitaria as coisas.
Esgueirando-se para fora do elevador, cautelosamente caminhou até aonde as naves ficavam estacionadas. Ia devagar, analisando bem ao seu redor antes de dar o próximo passo. Uma das sacadas do hangar faziam sombra no caminho, permitindo que se escondesse nela. Até então, não havia sido vista, mas sabia que assim que entrasse na nave, as coisas mudariam.
Ao virar para o local onde encontravam-se as naves, notou a presença de dois stormtroopers, checando as naves. Poderiam atrapalhar.
Estendeu a mão, disfarçadamente, e disse vagarosamente:
— Vocês vão parar o que estão fazendo e permitir que eu entre em uma das naves.
Ambos ficaram estáticos, virando seus capacetes brancos para ela. O suspense a matava.
— Nós vamos parar o que estamos fazendo e permitir que você entre em uma das naves. – repetiram, feito robôs.
Sempre ficava impressionada com como funcionava.
Um dos soldados a guiou até uma das naves que estava melhor localizada para decolagem. Abriu a porta e ela entrou, sentando na cadeira de couro preto.
— Me mostrem aonde fica o rastreador.
Um deles apontou com o indicador para uma pequena peça quadrada embaixo da direção da nave. Tentou tirá-lo com as mãos, mas estava muito bem fixado.
— Algum de vocês vai tirar esse rastreador daqui para mim. – sentia-se uma legítima mestre Jedi ditando ordem para todos dessa maneira. Era divertido.
Um deles se afastou e voltou alguns segundos depois com uma espécie de desparafusadeira. Colocou-a na peça, retirando os parafusos que a prendiam ali em segundos. Assim que o rastreador caiu no piso da nave, pegou-o em mãos e arremessou longe.
— Agora, vocês vão sair daqui e fingir que nada aconteceu.
— Agora, nós vamos sair daqui e fingir que nada aconteceu.
Lentamente, ambos saíram, caminhando para fora do local, sumindo de sua visão em segundos. Voltou seu olhar para o painel de controle. Nada muito complexo, como já havia observado. Deu partida na nave, que logo começou a emitir o barulho do motor. Colocou o cinto, preparou os polegares nos botões responsáveis pelas armas, e começou a levantar vôo. Assim que sentiu confiança, começou a acelerar, mas houveram contratempos.
A nave estava presa por um cabo de abastecimento.
— Merda, eu esqueci disso!
Nessa altura, todos no hangar já olhavam para a nave. Alguém ordenou para que começassem a atirar, e pôde ver quando um dos militares saiu correndo do hangar, indo em direção ao exterior.
Mirou, e começou a atirar contra o pequeno exército que se formara a frente de si, continuando a acelerar, na esperança de que a força da nave superasse a do cabo, rompendo-o.
Tudo estava indo bem. Hux não parara um segundo de falar de suas estratégias enquanto o homem à sua frente o enchia de elogios e se gabava de sua tecnologia e fidelidade à Primeira Ordem. Sentia-se desconfortável com o ruivo ao seu lado. Se pudesse, ali mesmo, enfiaria seu sabre no pescoço dele, decepando sua cabeça oca e burra do corpo.
Sentiu uma força em seu peito, como um soco, tirando-lhe o ar momentaneamente.
— Líder Supremo, o senhor está bem? – indagou Hux.
Nesse momento, um subordinado entrou correndo pela porta, indo de encontro a eles:
— General Hux. – parou aonde estava e prestou continência rapidamente. – A rebelde está tentando fugir com uma de nossas naves.
Pôs-se de pé imediatamente ao ouvir aquilo. Seu sangue começara a ferver nas veias, e sua mente afogou-se em uma tormenta de surpresa, ódio e medo.
— A.. Rebelde..? – murmurou o homem a frente de Hux, olhando para Kylo Ren, confuso.
— Rey. – deixou a mesa, saindo correndo pela porta, sendo seguido por Hux.
Seu corpo se movia o mais rápido que podia em direção ao destroier. Já podia ouvir o barulho da batalha que se travava no hangar. Tirou seu sabre-de-luz do cinto, acendendo-o. Nessa altura, estava pouco se fodendo para o que iriam pensar: Lágrimas escorriam por seu rosto, enquanto suas sobrancelhas estavam tensionadas e seus lábios tentavam conter seus gritos.
Parou na entrada no hangar, vendo aquela pequena nave preta suspensa no ar, presa somente por um cabo prestes a se romper. Ela estava furiosa, e atirava contra todos. Parte do local já estava em chamas.
— REY! – gritou seu nome com todo o ar de seus pulmões, estourando sua voz até sua garganta doer.
Ela tornou seu olhar para o seu. A raiva sumiu de seu semblante, dando lugar para um olhar assustado e melancólico. Pôde ver o brilho das lágrimas escorrendo por seu rosto.
Sua mente gritava para que fosse impedi-la, de algum modo. Estava desesperado, e não havia um resquício de razão que fosse em seus atos. Queria dar um jeito de subir até aquela nave, tirá-la de lá e sair dali com ela nos braços, mantendo aquele corpo delicado colado ao seu. Sentia o mesmo que sentira quando a viu, em Crait, fechando a porta da Millenium Falcon, porém mais intenso.
Estava prestes a perder a única coisa com que verdadeiramente se importava.
Tornou seu olhar furioso e obcecado para o cabo, que rompera diante de seus olhos, dando liberdade à nave. Voltou rapidamente seu olhar para Rey, que ainda o olhava.
“Nós vamos nos encontrar...” foi o que pôde ler daqueles doces lábios à distância antes de sentir o impacto do vento provocado pela saída da nave em seu rosto.
Fora de si, começou a correr atrás da nave, que ainda voava baixo, mas acelerava cada vez mais.
Não para de gritar seu nome à plenos pulmões, tornando sua voz tão rouca que mal podia ser ouvida mais. Estava com um braço estendido no ar, como se aquilo pudesse trazê-la de volta. Seus sentimentos não deixavam que se concentrasse o suficiente para tentar usar a força, e tudo estava tornando-se uma enorme bola de neve de medo, desespero, fúria e paixão.
Logo, não era mais possível ver aquela minúscula nave no céu noturno. Aquele pontinho negro havia se tornado um com o horizonte, e partira para longe de si.
Começou a diminuir seus passos de forma descompassada. Desequilibrou-se, caindo ao chão. Ergueu o olhar aos céus mais uma vez, e seus soluços eram o único ruído que saía de sua boca. Seu corpo tremia como se tivesse sido acometido pela pior das febres, e não conseguia tirar aquela última imagem da cabeça.
Ela realmente havia ido.
Ela o havia deixado.
Dois soldados apareceram, ajudando-o a se levantar. Seu rosto estava manchado com uma mistura de lágrimas e poeira.
Recobrou um pouco da razão.
— O rastreador.
Saiu correndo em direção ao destroier.
— Rápido!! – gritava com o pouco de voz que lhe sobrara, com o sabre aceso ao lado do pobre homem que cuidava do rastreamento das naves. Ele tremia, digitando rápido no computador, buscando a localização da nave furtada.
— Não.. Não entendo.
— Não entende o que?!
— O sistema acusa que ainda está aqui. – apontou para a tela, com o indicador trêmulo. – V-Vindo em direção a n-nós.
Olhou aquela tela maldita sem entender. Ouviu alguns passos atrás de si, e virou-se.
Era Hux, que segurava um pequeno quadrado de metal.
— Ela é mais esperta do que você pensa, Ren. – havia desprezo em sua voz.
Olhou estático para o ruivo, levando alguns segundos para processar a informação.
Gritou, e começou a golpear as paredes com seu sabre. O subordinado, que nada tinha a ver com o fato, se encolhia na cadeira, chorando, com medo de seu superior.
— Venham até aqui, está na hora. – sussurrou Hux em seu comunicador, voltando a prendê-lo em seu cinto após isso.
— Nós precisamos achá-la! – urrou, indo em direção ao ruivo. – Se vire! Mas eu quero a localização dela para ontem!
— A partir do momento que ela retirou o rastreador da nave, não há nada que podemos fazer. Já deve estar além do nosso espaço aéreo. – sua voz era calma e fria. – Sabe, Ren... – disse, seguindo aquela bomba relógio de sentimentos reprimidos, que andava cego de raiva pelo corredor. – Eu não entendo, desde o momento que a trouxe para cá, o que ela importa para nós. – ele parou, olhando para a origem da fala. – Ela matou Snoke. Pensei de início que quisesse matá-la ou qualquer coisa do tipo, e não enfiá-la em seu quarto e...
— E o que? – seus sentimentos reagiam à adrenalina produzida por seu corpo, resultando em uma reação fatal. Estava pronto para atacar.
— E.. Ah, Ren... – o general estampou um sorriso irônico em seu rosto. – ...Todos ouviram o barulho da cama.
Não sabia precisamente o que sentia quanto a isso, mas aquelas palavras foram suficiente para perder qualquer pudor, socando a cara daquele bastardo, fazendo-o cair no chão. Estendeu seu braço, usando a Força para tirar o ar de seus pulmões vorazmente, sentindo uma onda de prazer vendo-o ficar roxo enquanto sangue escorria de seu nariz.
— Eu vou te matar! EU VOU TE MATAR!
Estava sedento por seu sangue. Queria sua cabeça fora do corpo, para que pudesse pisoteá-la e ver seu cérebro escorrendo feito lama pelas fendas de seu crânio, sujando suas botas.
E então, uma pancada na nuca.
Caiu ao chão, atortoado.
Dois soldados seguraram seus braços, algemando-o, enquanto um terceiro mantinha um blaster apontando para sua cabeça, pronto para atirar. Hux puxava o ar desesperado, voltando à sua cor normal.
Lembrou do aviso de Rey.
Livrando-se da confusão mental provocada pela coronhada, olhou para aquela cobra nojenta, que já estava de pé, com um soldado posicionando-se ao seu lado. Limpava o sangue de seu rosto com a manga de sua roupa.
— Nunca pensei que seria tão fácil. – Ele caçoava. – Até que aquela vadia rebelde serviu de algo, não é mesmo? – começou a contorcer-se, mas parou ao sentir o cano do blaster encostar em seu cabelo. – Ver você fracassar, pouco a pouco, por causa dela, foi estranhamente prazeroso. – Pausava entre as frases para recuperar o fôlego. – Mas, acho que já deu. Você já prejudicou demais a Primeira Ordem com essa brincadeirinha de conto de fadas espacial. – Fechou seu sorriso. – Snoke teria vergonha do “líder” – fez aspas com as mãos – que você se tornou, Kylo Ren. Você sempre fora um moleque mimado e chorão. Palavras dele, não minhas, apesar de que não nego que concordo. Você é poderoso, não duvido disso. Meu pescoço me lembra todo dia. – Esfregou a mão nele. – Mas sua mente é fraca! Deixou seduzir-se por uma inimiga e quase levou todo o nosso governo à ruína por isso. – Exaltou-se. — Mas fique tranquilo, isso não vai mais acontecer. Você vai poder ficar trancado em seu quarto com qualquer uma que quiser agora, sem precisar se preocupar com a Primeira Ordem. – Respirou fundo. – A partir de hoje, qualquer um dentro dessa frota que obedecer a suas ordens será acusado de conspiração e condenado à prisão. Você não tem mais poder aqui. – Abaixou, segurando o queixo do cão raivoso à sua frente. – A partir de agora, eu sou o Líder Supremo da Primeira Ordem, Ren. – Sorriu. – E você não é nada.
Sentia o quanto ele se excitava com aquilo. O poder era embriagante, e com certeza deixava qualquer um com a sensação de que podia controlar até mesmo os elétrons dos átomos.
No fim das contas, Rey estava certa.
O ruivo, olhando para o lado, estendeu a mão, pegando seu sabre-de-luz, agora apagado, e colocando em seu cinto.
— Isso agora é meu. – riu. — Mas apesar de tudo, eu sou um Líder bonzinho. – pôs-se de pé novamente. — Meu primeiro ato no início dessa nova era será deixar você confortável em seus aposentos até que eu decida o que fazer com você. – engoliu seco ao ouvir aquilo. – Então, Kylo Ren... – encarou-o nos olhos. — ...diga suas últimas palavras antes de seu cárcere.
Estava em choque.
Mas sabia o que dizer.
Tudo já estava fodido. Estava arruinado. Não tinha mais nada a zelar.
Iria libertá-la.
— Eu... — Engoliu sua saliva, para que pudesse falar claramente. – Eu menti. – viu confusão brotar naquele olhar azul nojento. – Não foi a garota quem matou Snoke.
Atreveu-se a sorrir para suas próximas palavras:
— Fui eu.
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