Fear the Monster
12 XII
Notas iniciais
— Vamos repor munição, abastecer as naves e então partimos, senhor. Enquanto isso, estamos buscando informações com os aliados. – dizia Hux.
O ouvia com atenção. Graças a ele, mais uma derrota havia entrado para a conta da Primeira Ordem. Sabia que em breve Hux tocaria no assunto, já que até então não o havia feito. Percebia seus olhares desconfiados e que ultimamente utilizava de sarcasmo consigo. Não era pra menos, afinal mantinha uma inimiga em seu quarto.
Quando saiu de seus aposentos, ela ainda dormia. Em breve iriam até lá refazer seu curativo. Estava se recuperando rápido, e sabia que logo ela iria tentar partir, e até então não tinha nada em sua mente para que a fizesse ficar.
Foi então que a possibilidade de ir com ela bateu em sua mente.
— Você está louco?! O que vão pensar?
Percebeu que estava piorando a situação quando sua preocupação quanto a isso era o que os outros iriam pensar, e não seu futuro na Primeira Ordem.
Alguém dentro de si já cogitava deixá-la.
Começou a se envolver nas informações que chegavam, dissipando seus pensamentos.
Estava sentada na cama.
A dor já não a incomodava tanto.
Pensativa, procurava um jeito de sair dali. Queria muito continuar ali, com ele, tendo-o ao seu lado, podendo ouvir sua voz e sentir o prazer do seu toque, porém não era ali seu lugar, mas sim a Resistência. Sabia que seus amigos estavam preocupados consigo, e ela também estava com eles. Também sabia que se ficasse ali, Ben nunca voltaria. Ter ela sem precisar se sacrificar era tudo que Kylo Ren precisava para crescer. A Primeira Ordem moldou Kylo Ren, e vice-versa, e enquanto ele estivesse ali, sua luz nunca verdadeiramente se acenderia.
Teve uma ideia. Louca, mas uma ideia.
Iria “explorar” o local.
Dirigiu-se até a porta do quarto, e pôs seu ouvido contra a porta. Aparentemente, não havia ninguém passando nos corredores. Abriu a porta e colocou a cabeça para fora, observando. Era realmente verdade que não havia um guarda sequer no corredor dos aposentos de Kylo Ren?
Olhou para as marcas nas paredes dentro do quarto.
Compreensível.
Deu seus primeiros passos para fora de onde não havia saído nos últimos dias. Fechou a porta com cuidado, e começou sua caminhada. Haviam painéis em todos os cantos e tudo era incrivelmente metálico.
— Muito bem, Rey... — pensou – Você precisa sair dessa nave, e para isso precisa de duas coisas: uma outra nave e a localização atual da Resistência. Por qual começar?
A localização talvez fosse o mais complexo. Começaria pela nave.
Começou a perambular pela nave, escondendo-se quando eventualmente alguém passava. Buscou passar pelos lugares mais esquecidos, onde seria improvável a presença de número suficiente de pessoas para que fosse notada. Precisava chegar até o hangar, e entender como faria para sair de lá sem ser notada. Enquanto passava pelos vários andares da nave, as circunstâncias da fuga lhe viam à mente: As naves provavelmente são rastreadas, sendo arriscado sair cegamente com uma em direção à Resistência. Estaria entregando seus amigos de bandeja. Também tinha Ben. Ele a impediria se soubesse. Era melhor manter silêncio. Seu coração doía em pensar que iria fazê-lo sofrer, porém era necessário.
Virando a curva de um dos corredores, deu de cara com um stormtrooper que passava. Ele apontou-lhe a arma.
— Rebelde!
Seu coração pulou no peito. Havia sido pega.
Ou não.
Estendeu sua mão, rapidamente:
— Você vai me levar até o hangar e me mostrar aonde ficam as naves, sem revelar minha posição a ninguém.
Tudo ficou em silêncio.
— Eu vou lhe levar até o hangar e lhe mostrar aonde ficam as naves, sem relevar sua posição a ninguém.
Sorriu.
Ainda na sala de comando, haviam obtido fracas informações, todas muito incertas e duvidosas. Não falava nada, apenas observava Hux fazendo seu trabalho. Sentia-se indiferente a tudo aquilo. Não sentia tanta questão de ir atrás dos rebeldes tão imediatamente assim. Sabia que isso poderia acarretar em mais fracassos e na ida definitiva de Rey.
— Senhor. – um dos subordinados a frente dos computadores se dirigiu ao General Hux. – Tem uma presença estranha no hangar.
Tanto Hux quando Kylo Ren se puseram em alerta, e foram até o monitor. Ambos reconheceram aquela figura.
Correu em direção à saída.
O stormtrooper continuava ao seu lado, firme. Já estava ao lado de uma das naves, e a olhava por dentro. A direção era simples, o único problema mesmo seria o rastreador da nave. Era de uma complexidade tal que não conseguiria desligá-lo sozinha.
Viu que havia um comunicador. Talvez se pudesse achara a frequência de sinal da Resistência, poderia perguntar sua localização.
A ideia de uma fuga cada vez mais possível lhe deixava muito animada, e um enorme sentimento de coragem e vontade de lutar crescia em seu peito. Sair dali, encontrar seus amigos, aqueles que lhe deram tudo que ela nunca teve, um lugar para onde voltar, era estonteante. Queria muito abraçá-los, fazer uma refeição com todos juntos, e o mais importante: contar a Leia sobre seu filho. Contar sobre o quão forte ele se mantinha em meio às trevas de Kylo Ren, e como vinha crescendo, tomando seu posto de volta.
Tirando-a de seus pensamentos, uma mão pegou seu braço e jogou-a contra a nave, encurralando-a.
— O que você pensa que está fazendo?! – havia fúria em sua voz.
Aquele olhar a deixou petrificada.
— Responde, Rey!! – todos no hangar podiam ouvir sua voz ecoando como um trovão. O stormtrooper, antes ao seu lado, já havia se afastado, com medo.
Todos estavam olhando a cena. Aquele olhar negro e pesado confrontava o seu, impedindo que sua mente formasse uma frase completa. A deixava tonta, confusa, em pânico, mas via nele um brilho estranho e difuso, de quem estivesse com mais medo do que se pudesse imaginar.
Ele começou a puxá-la pelo braço, tirando-a do hangar e indo em direção a um dos elevadores: a levaria de volta para seu quarto. General Hux estava ali, e pôde ver seu olhar de desgosto quando passou ao seu lado, como se ele fosse cuspir nela.
Já dentro do elevador, estavam sozinhos.
— O que você estava fazendo?!
Silêncio.
— Me responda, Rey.
Silêncio.
— Eu mandei você me responder! – gritou, puxando seu rosto em direção ao dele, mantendo seu olhar fixo ao dele.
— Eu não vou ficar aqui para sempre, Ben...
— Você não vai fugir! Você não vai fugir de mim! – conseguia sentir seu corpo tremer. O conflito dentro dele se alastrava incontrolavelmente.
As portas do elevador abriram-se, dando passagem para o corredor que levava aos aposentos do Líder Supremo da Primeira Ordem. Ele a puxava pelo braço, violentamente, levando-a para seu destino. Suas tentativas de se soltar eram inúteis.
Assim que entraram no cômodo, soltou-a, ficando em frente à porta, impedindo que tentasse sair.
— Por que você está fazendo isso, Ben? – estava ofegante, o pânico lhe tirara o ar.
— Por que você continua tentando ir embora? Por que você não quer ficar comigo?! – seus punhos estavam cerrados e sua voz dilacerava qualquer outro som que pudesse existir.
— Meu lugar não é aqui.
— O seu lugar é onde eu quiser que seja! – não era Ben Solo ali. – Você. Fica. Aqui!!
— Eu não vou ficar em meio a um bando de assassinos, vendo vocês correrem atrás de quem eu amo e não poder fazer nada! Eu não vou ficar em um lugar ao qual eu não pertenço só por sua vontade! – passou a gritar, confrontando-o.
—Você vai! Eu não vou suportar mais um minuto da minha vida com você longe daqui! – seus olhos estavam vermelhos e as veias de seu rosto estavam saltadas. – Você é minha! MINHA! – apontou para seu peito freneticamente.
— Eu não sou um objeto para lhe pertencer! – olhava-o com nojo.
— Tem razão, você é pior que isso! – ele cuspia as palavras, sequer parando para pensar no que estava dizendo. – Você é uma garota qualquer que teve a sorte de ser forte com a Força e só por isso está aqui, senão estaria ainda em Jakku, catando o lixo dos outros e vivendo sua vidinha de merda! Você devia ser agradecida a mim por eu te deixar ficar aqui com todo o conforto e não te jogar na prisão! Ou melhor, por não te deixar morrer no deserto junto com aqueles ratos imundos! Você tem sorte por eu estar tendo piedade de você, sua estúpida!
Um som ardido e doloroso cortou seus gritos, trazendo sua mente de volta à realidade. O tapa que atingiu sua face doeu mais do que somente na pele, doeu na alma. A fúria se desfez, tirando a nuvem de ódio que o cegara, permitindo que visse a realidade.
Virou seu olhar lentamente para ela, que o olhava em prantos. Algo cresceu exponencialmente em seu peito: culpa.
— Monstro. – sua voz falhava, em meio ao choro. Sua tristeza estava completamente expressa em suas feições.
Cada segundo a mais que a olhava fazia aquela dor horrível dentro de si crescer. O que havia dito? O que havia feito? Havia humilhado, violentado, pisado e maltratado aquele coração puro e inocente que só lhe trouxera alegrias em meio a lama de desgraça e destruição que era sua alma. Que acendera em si uma chama que lhe manteve quente, que fez seu coração aquecer-se e o fez viver novamente.
Kylo Ren havia manchado aquele sentimento excitante e confortável que vinham construindo com fúria, ódio e veneno.
Sua única reação foi sair do quarto, trancando a porta e deixando-a sozinha.
Pôs a mão no rosto, enquanto suas lágrimas o inundavam. Sua mente era um furacão. Pela primeira vez em muito tempo sentiu na pele o mal que havia destilado aos outros. Aquele rosto tão delicado, inundado em lágrimas, com o brilho doce de seu olhar transformado em mágoa, tristeza e medo. Dentro de si, não havia mais a mínima vontade de tentar viver. Queria sumir, desaparecer, para que não tivesse que encarar a vergonha que tomava conta de si pelo que havia feito. Havia despedaçado a única alma em toda a galáxia que lhe fez sentir-se feliz por ser quem era.
Por ser Ben Solo.
— Você... é um monstro... – chorava, imerso em seus pensamentos – Monstro...
Desolado, envergonhado e desnorteado, sentou-se no chão e pôs sua cabeça por entre os joelhos. Havia se reduzido a um menino chorão e mimado.
Que falta fazia uma mão em sua cabeça, lhe confortando e dizendo-o o que era certo a se fazer. Que falta fazia aquela presença imponente, feroz mas de um sentimento maternal inexpressável por palavras, que se portava na forma de uma General.
Sabia que se ela tivesse ali, lhe diria o que fazer.
Nunca se perguntou por que quebrara aquele coração também.
Mas a resposta era óbvia: porque não enxergara a joia que tinha ao seu lado.
Sentiu uma pontada no peito.
Sentia falta de Leia.
Pôs-se a soluçar, sentindo o peso de todos os seus erros caídos sobre seus ombros o afundarem no chão.
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