Faça-me, Quero Ser Tua.
47 Querendo-me bem, também.
Notas iniciais
Assim que voltamos a casa, Carlos Daniel, diferente do homem que conheço, sobe as escadas e põe uma sunga, disposto a dar um mergulho na piscina. Seu convite me apetece, mas sei que as cólicas a noite, me deixarão de olhos abertos com dor. Acabo recusando.
—O que você tem? -Pergunta-me ele, debruçado sobre a borda da piscina.
—Nada. Estou bem. -Digo sorrindo para ele, e logo regresso a leitura.
—Tem certeza? -insiste saindo da piscina. Ergo meus olhos, e encontro a visão do paraíso. As gotas d'água escorrem por seu corpo. O Sol as reflete. O Cabelo... Oh Meu Pai, como pensar?
—É... tenho. Eu apenas estou... hm, cansada.
—Cansada? -Diz rapidamente. Vejo em seus olhos, de relance, que não acredita muito no que digo.
—É.
Carlos Daniel caminha até mim, agarrando uma toalha que estava ao meu lado. Fingindo que não o vejo, miro de relance enquanto ele seca os cabelos e pouco do peito.
—Estava aqui, pensando... diz jogando-se ao meu lado, tirando o livro de minha mão, largando-o em algum canto.
O Miro com uma expressão de irritação. Ele sorri e pede desculpas, apenas movendo os lábios. É claro que não estou irritada de verdade, ainda mais quando ele me puxa para si, aconchegando seu corpo ao meu, molhando minhas roupas.
—...Estava pensando que a senhorita deveria tentar outra vaga no hotel. -murmura beijando-me.
—Como assim? -digo rapidamente, afastando-me apenas o suficiente para o observar nos olhos.
—Bem, você tem potencial para ir mais além. E sabe disso.
—Carlos Daniel, você continua envolvendo meu trabalho com nossa relação. -digo mirando-o agora sim irritada.
—Querida, não é assim. Você é inteligente, e chegou a iniciar faculdade que eu sei. E passou em uma das primeiras colocações.
—Como você sabe disso? Aliás, tem muitas coisas que você sabe, que me assustam.
—Assustam? Como o quê?
Me encolho sobre as almofadas, procurando as palavras certas.
—Você sabe que não tenho pai.
Ele suspira. Seus olhos encontram os meus brevemente. Seus dedos que ergueram-se para acariciar meu rosto, de repente sofrem uma pausa e caem perdidos em meu colo.
—Ok Paulina. -diz ele em um outro suspiro. -Peguei sua ficha no trabalho, e é assim que sei sobre seu pai, e também da faculdade.
Milhões de perguntas surgiram em minha mente de forma automática. Miro os olhos dele, e encontro a verdade expressa ali.
—Pergunte... -murmura ele quase sem voz. -Sei que muita coisa lhe atormenta.
Aproveito sua deixa, e então começo a analisar como formular as perguntas.
—Aquelas... aquelas roupas... assim como essa, de quem eram?
—De ninguém. -Diz rapidamente. -As comprei no dia em que você se cortou.
—Tantas roupas? -questiono sem nada mais entender. -E como sabia que iriam servir em mim?
—Peguei em sua ficha do hotel as suas medidas. Quando mandamos fazer seu uniforme, utilizamos elas, recorda?
Balanço a cabeça em concordância.
Tantas dúvidas, um mar de confusão.
—Quando fugi da suite, depois do acidente com o corte e tudo mais, você praticamente sequestrou-me no caminho para casa. Como sabia?
Ele sorri, e então a sua lingua acaricia um lábio escondendo seu sorriso.
—Bem, alguns dias atrás pedi que James a seguisse.
—Você o quê? -Digo quase em espanto.
—Pois é, eu sei que parece loucura, mas eu estava louco para saber mais de ti. E então, aquele dia sabia que iria para casa e nada melhor que um beco escuro em um dia de chuva para simular um sequestro.
—Você sabe que me assustou, não é?
—Sim, eu sei. -Seus dedos correm ao meu rosto, acariciam minha bochecha e então logo mais tocam meus lábios. -E sei também, que se não tivesse feito tudo isso, não conheceria o sabor dessa boca que tanto me encanta.
Minha mirada encontra a sua. Nos encaramos. As batidas de meu coração aceleram em um nível extremo. Tento formular alguma frase, mas nada sai. Seus olhos me encantam, e já não é como antes. Algo cresce e estou ficando sem dar-me conta de nada que não seja em torno de nós dois.
—Mais alguma pergunta? -pronuncia-se interompendo meus pensamentos.
Faço um sinal de não, mesmo querendo intupi-lo de perguntas sobre sua vida. Acho que não é o momento. Ainda não.
Ele se aproxima, acomoda seu rosto ao meu peito, e então o ouço suspirar.
Envolvo meus braços ao redor dele, e então beijo o alto de sua cabeça, entre seus cabelos molhados.
As coisas estão tomando outros caminhos, e não tenho mais como regressar.
.
.
.
Mais um dia se inicia. Carlos Daniel dirige em direção ao hotel, sua mão enlaçada a minha. Não paro de pensar no tal gerente de lá. Na verdade nem sei se Carlos Daniel o conhece de fato.
—Já que a senhorita não quer exposições, está entregue. -Diz ele ao estacionar o carro uma quadra antes do hotel.
—Tente me entender. -murmuro acariciando seus dedos.
—Entendo. -sussurra aproximando-se, soltando meus dedos para acariciar meu rosto. Miro em seus olhos, como quem espera respostas sem fazer perguntas, e ele parece entender.
Seus lábios tocam os meus em uma breve carícia, e então ele se afasta, apenas mantendo nosso olhar.
—Por Favor Paulina. Acontecerá dentro de alguns dias as entrevistas e a prova para cargo de secretariado no hotel. Não é muita coisa, mas é mais do que você faz. Você terá uma carga horária menor, ganhará mais, e sei que tem capacidade para isso.
—Carlos Daniel, eu... não sei, acho que não vai dar certo isso.
—Por favor querida, tente. Pelo menos tente. -Diz aproximando-se novamente. Estamos centímetros um do outro.
—Então prometa-me que não irá interferir nas avaliações e em nada disso. Se tiver que dar certo, quero que aconteça sem você.
Ele me encara.
—Não estou menosprezando seu trabalho, mas você pode ser mais do que uma simples camareira e sabe disso. E prometo não me meter em nada com o seu trabalho, mas tenho um acordo a fazer contigo.
Suas palavras finais saem travessas, e então espero que ele prossiga.
—Dentro de três dias é o seu aniversário, e gostaria muito que pudéssemos jantar, e com isso, programei uma folga para você.
Travo total. Quando penso em dizer algo, ele põe o dedo sobre meus lábios.
—Calme, você irá compensar essa folga no próximo sábado, que seria sua folga normal, assim como hoje.
—Me sinto muito mal quando você faz isso. Ficam falando de mim por ai depois, e não acho nada agradável.
—Logo esse falatório vai acabar, ainda mais que você irá para outro cargo. E é seu aniversário, nada mais justo do que uma folga.
—Ok, você tem razão. Mas lhe peço novamente que não se meta mais no meu trabalho. Aceito a folga do meu aniversário, mas depois, por favor, deixe isso separado de nós dois.
—Tudo bem. -Ele beija minha boca, e então sussurra "bom trabalho".
Acaricio seu rosto também, e desejo um bom dia a ele. Sorrio, e então saio do carro, deixando ali aquele homem que mudou tanto, e que parece feliz com os momentos em que passamos juntos.
...
Aproxima-se das 13:00h quando consigo encaixar um pequeno intervalo para almoço. Assim que chego nos vestiários e abro meu armário, agarro o celular verificando se há algo dele.
Uma mensagem. "Estou esperando para almoçarmos juntos. Envie-me uma mensagem quando estiver livre."
Meu corpo gela. Esse homem está enlouquecendo. Pressiono em responder, e rapidamente digito algo a ele.
"Não sei se seria uma boa ideia."
Pego minhas coisas dentro do armário, quando o celular vibra em minha mão. Miro o visor. É ele. Atendo receosa.
—Oi?
—Oi. -Diz de mansinho. -Por qual motivo não seria uma boa ideia almoçarmos juntos?
E agora, o que realmente devo dizer?
—Não sei, Carlos Daniel.
—Como não sabe? Você tem motivos para não achar uma boa ideia... diga-os a mim.
—Você é meu chefe.
Murmuro as palavras quase quem em um soluço. Pois é, Paulina sua burra... foi se apaixonar logo pelo chefe?
—Isso não interfere em nada. -Diz ele com um suspiro, interrompendo meus pensamentos. -Você sabe o que somos, e como não tem nada a ver uma coisa com a outra.
—É claro que tem. Pra nós dois pode não ter, mas você acha que gosto de ficar ouvindo coisinhas por ai sobre estar contigo?
—Bem, vamos falar sobre isso pessoalmente. Estou na suite, e já pedi seu almoço. Venha, vamos comer.
Puta merda, como fazer esse homem parar?
—Carlos Daniel...
—Por Favor Paulina... por favor. Quero que você almoce bem, e... que esteja comigo também.
—Você sabe que se eu for, iremos conversar sobre tudo isso, não é? -digo quase sem voz, sem saber exatamente o que devo esperar como resposta.
—Já faz um bom tempo que tens perguntas... estou pronto para responde-las, independente do assunto.
Meu coração acelera. É agora ou nunca.
—Você está ciente disso?
—Disso o quê, exatamente?
—De que posso não lhe dar as respostas que imagina...
—Sei, mas acredito que depois de tudo o que já fiz contigo, nada será capaz de me apavorar tanto.
As palavras saem de minha boca como algo fora do controle. Não tenho a certeza do que acabo de pronunciar, mas... lá vamos nós.
Carlos Daniel fica em silêncio, logo suspira trazendo-me o alívio.
—Venha Paulina... já estou sentindo falta do teu cheiro.
E não se fala mais nisso. Como negar tal pedido depois dessas palavras?
...
Subo os elevadores cuidando o que acontece por ali, vigiando a todo momento se alguém me observa. Que paranóica estou com tudo isso! Os corredores estão desertos quando o plim do elevador soa. A caixa de aço desliza para o alto, elevando-se tanto quanto o rítmo da minha respiração. Minhas pernas tremem. As portas se abrem e dou de Cara com Carlos Daniel a minha frente.
Minha nossa...
Será que sempre terá esse efeito sobre mim?
Seus dedos se esticam, esperando que eu saia do elevador e então os agarro, sentindo-me segura ao seu lado apenas no toque de nossos dedos.
—Você está linda... -murmura ele, puxando-me para seus braços.
—Ah, não seja bobo. -digo sorrindo da maneira como ele me olha.
—Você é linda, na verdade.
—Estou de uniforme, Carlos Daniel. O que tem de bonito nisso?
—Tem que é você. Você é linda de qualquer jeito. Qualquer um.
O sorriso de graça em meu rosto desaparece. Seu rosto também se mantém sério.
—Vamos almoçar.
...
Termino de comer, tomando então o último gole de meu suco.
—Pois bem, então vamos conversar. -Digo firme.
Uma seriedade, uma razão, sei lá. Algo estranho planta sobre minha cabeça.
Em uma nota mental começo a anotar as perguntas a serem feitas. Carlos Daniel ao que parece está bem relaxado. A Gravata que ele usava pela manhã está jogada sobre a cama, junto ao paletó.
—Então diga. -Diz limpando a boca com o guardanapo. Ele senta-se como o chefe que é, a postura perfeita, e então me encara de forma fixa, esperando realmente que eu diga algo.
—O que aconteceu realmente com seus pais?
Carlos Daniel engole em seco.
—Morreram em um acidente de carro, na França.
—Você estava lá?
—Estava. Mas nada pude fazer.
Meu coração gela.
—Sinto muito.
—Não sinta. -Diz rapidamente. -E não perca o foco.
Tento retomar rapidamente as perguntas em minha mente.
Minha nossa... e agora?
—Você disse que tem irmãos... que sua irmã vive na capital com sua avó... e o outro? ou outra?
—Rodrigo mora na Itália há alguns anos. Mas não nos falamos a muito tempo. Não nos damos bem.
—E o que aconteceu com sua ex namorada?
Ele respira fundo.
—A peguei na cama com o cara que gerenciava grande parte das contas do hotel. Eu e ele éramos bastante próximos. Já tinha lhe dito um pouco sobre isso. Bem, e com isso, ela tentou dar-me o famoso golpe da barriga, mas exatamente no dia que seria a cerimônia na igreja, sua mentira caiu por terra.
Puta merda.
—Vocês nunca mais se falaram?
—As vezes acabamos nos encontrando em algum jantar, coisas assim. Mas... não tenho raiva dela, não mais. Ela me fez ser o que você conheceu, mas já fizeram coisas contra mim que me afetaram mais que ela.
—Por isso você é tão gélido as vezes?
—Contigo? -Diz ele rapidamente.
Não meu amor! -penso rapidamente, levando minha mirada até a sua.
—Não. Comigo não mais. Mas foi... gostaria de entender um pouco de você. Você me conhece tanto e eu... tão pouco a ti.
Meus olhos traiçoeiros fogem dos seus.
—Você me conhece mais do que ninguém.
Meu coração gela... ai Meu Deus!
Meu olhar volta a ele. Ai... e agora?
—Eu...
—Retome o foco, Paulina. Pergunte o que precisa saber.
—Eu... não sei! -digo depressa. -Você me confunde. Seu jeito, a maneira como me olha, e como me... me toca. Estamos nisso já faz um tempo, e... as vezes tenho medo de...de...
—De quê, meu bem?
Carlos Daniel levanta rapidamente, pegando minhas mãos, colocando-me de pé frente a si. Meus olhos tentam fugir dos seus mas ele impede, segurando meu queixo, colocando minhas mãos sobre seu peito.
—Diga...
—Tenho medo de não te compreender. Não entendo ainda o real motivo de ainda estarmos... hm, juntos.
Suspiro. Ah Droga, ele também.
—Sinceramente, eu também não sei.
—E como você espera que confie em você? Que...
—Você confia em mim tanto quanto confio em você. A única diferença são nossos medos.
—Medos?
—Seu medo é de não me compreender... e o meu, é que me compreenda e acabe indo embora.
Ah Merda.
—Paulina, minha vida é um turbilhão. Nem sempre posso estar ao seu lado, nem sempre sei como agir com você. Quando eu e Gisele estavamos juntos, as coisas eram totalmente diferentes. Eu realmente a amava, mas... contigo é diferente.
—Ok... eu entendo.
Engulo em seco. Tiro minhas mãos de seu peito e tentando não parecer magoada, me afasto aos poucos.
—Não Paulina... Não. É diferente porque me sinto contigo. Adoro estar contigo, anseio sua presença. Sou viciado em você. Você me assuta.
—Eu?!
—Sim.
Seus braços voam para minha cintura, seu corpo me abraça forte, sua boca corre sem demoras pelo contorno de meu rosto, parando ao encontrar meu ouvido.
—Você me trás a calma. Me trás brilho a dias que sempre acreditei serem opacos. Nunca abandonei meu trabalho por nada, por exemplo, e... perco o controle por você.
Sua boca se afasta, suas mãos seguram meu rosto, e então ele me beija.
Sim...
Seus lábios me tocam eufóricos, loucos, me tomam.
Seu corpo me empurra para aquela mesma parede que a algum tempo atrás ele me prendeu, e então faz o mesmo.
—Carlos Daniel... -mumuro entre nossas bocas.
Ele se afasta, apenas para mirar meus olhos.
—Não sei o que é isso, só sei que não quero te fazer mal, nem lhe causar sofrimento algum. Só preciso que me guie, e... que continue a me querer até que tudo se ajeite dentro de mim.
O encaro. Ah Meu Pai do céu!
Não consigo evitar o amolecer de minhas pernas, a angustia misturada com desejo que de pouco em pouco crescem em meu peito. Meus dedos envolvem a gola de sua camisa, e antes que eu possa me dar conta, já estou o puxando para mim.
—Então me queria também.
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